20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e três


No sonho de Winter, ela estava na cozinha de uma fazendinha na Terra, ou algo parecido com o que a imaginação dela achava que deveria ser uma fazenda na Terra. Sabia que era a casa de Scarlet, embora nunca tivesse estado lá. Ela estava em frente a uma pia lotada de pratos. Era vital que limpasse todos antes de qualquer pessoa chegar em casa, mas, toda vez que ela pegava um prato do meio da água cheia de espuma, ele quebrava nas suas mãos. Os dedos estavam sangrando de todos os cacos, pintando de vermelho as bolhas de espuma.
Quando o sétimo prato quebrou em suas mãos, ela se afastou da pia com uma sensação intensa de fracasso. Por que nunca fazia nada certo? Até essa tarefa simples virava um desastre com o toque dela.
Ela caiu de joelhos e começou a chorar. O sangue e a espuma fizeram uma poça em seu colo.
Uma sombra surgiu e ela levantou o rosto. A madrasta estava na entrada, os hectares de campos e o céu azul da Terra atrás dela. Segurava um pente com pedras preciosas na mão e, apesar de ser linda, o sorriso era cruel.
— Eles amam você — disse Levana, como se elas estivessem no meio de uma conversa. Ela entrou na cozinha. A barra do vestido majestoso arrastou pela água cheia de espuma no chão. — Eles protegem você. E o que você fez para merecer isso?
— Eles me amam — concordou Winter, apesar de não ter certeza de quem elas estavam falando. O povo de Luna? Cinder e seus aliados? Jacin?
— E eles vão pagar o preço pela adoração. — Indo para trás dela, Levana começou a passar o pente pelos cachos de Winter. O toque era delicado. Maternal, até. Winter sentiu vontade de chorar de saudade, pois desejava o toque de uma mãe, mas também teve medo. Levana nunca foi tão gentil. — Vão saber de todas as suas fraquezas. Vão saber como você é cheia de falhas. E então vão ver que você nunca mereceu nada disso.
Uma dor aguda surgiu no crânio dela quando um dos dentes do pente afundou no couro cabeludo. Ela ofegou. A cabeça começou a latejar.
Um rosnado chamou a atenção dela para a porta. Ryu estava com as patas afastadas em posição defensiva, com os dentes à mostra.
Levana parou de pentear.
— Por que você se importa? Ela traiu você também. Permitiu que aquele guarda sacrificasse sua vida pela dela. Você não pode ignorar o egoísmo dela.
Ryu chegou mais perto. Seus olhos faiscaram.
Levana largou o pente e recuou.
— Você é um animal. Um assassino. Um predador. O que sabe sobre lealdade e amor?
Ryu fez silêncio e baixou a cabeça, como se repreendido. O coração de Winter se abriu para ele. Ela percebia que ele sentia falta dela. Ele queria brincar de pegar, e não ser repreendido pelas palavras cruéis da rainha.
Winter levantou a mão até o couro cabeludo dolorido. O cabelo estava úmido. Ela olhou para o pente caído e viu que a poça de água tinha ficado escura de sangue.
— Você está enganada — disse ela, virando o rosto para a rainha. — Você é a assassina. Você é a predadora. Não sabe nada de lealdade e amor. — Ela levantou a mão para Ryu, que farejou e apoiou a cabeça quente no joelho dela. — Nós podemos ser animais, mas nunca mais vamos viver na sua jaula.
Quando ela abriu os olhos, a fazenda tinha sumido e sido substituída por paredes, móveis e cortinas de janelas cobertas de pó de regolito. As pálpebras tremeram quando ela tentou despertar em meio ao sono pesado e a uma dor de cabeça lancinante. Ainda sentia cheiro do sangue, e a cabeça doía no local onde o pente a furou.
Não, no local que ela batera na quina da mesa.
Alguém a colocou no sofá. Os pés pendiam da beirada.
— Oi, maluca.
Winter tirou o cabelo do rosto e encontrou uma toalha enrolada na cabeça. Ela olhou para Scarlet, que tinha levado uma cadeira da mesa de jantar para a sala e estava sentada nela de costas, com os braços apoiados no encosto. Ela estava usando o moletom com capuz de novo. A maioria das manchas tinha sumido, mas ainda parecia gasto e surrado.
Ela também, na verdade. Os olhos estavam vermelhos; o rosto, inchado e corado. A ferocidade normal tinha se transformado em exaustão amarga.
— Iko nos contou o que aconteceu — disse ela, com voz murcha e rouca. — Desculpe por não estar aqui, mas fico feliz que ela estivesse.
Winter se sentou. Iko estava sentada de pernas cruzadas no chão, puxando um fio de fibra de pele que estava aberta em seu peito. Thorne estava de pé, com as costas na porta de entrada. Usava um uniforme parcial de guarda lunar, e ela teve que olhar duas vezes para ter certeza de que era ele mesmo. Ela prestou atenção, mas a casa estava em silêncio.
Winter sentiu uma onda de medo.
— Onde estão os outros?
— O setor foi atacado — disse Thorne. — Levaram Lobo e Cinder, e… mataram Maha.
Scarlet apertou os braços no encosto da cadeira.
— Nós não podemos ficar aqui. Levamos os corpos daquele guarda e da taumaturga para o quarto de trás, mas aposto que alguém virá buscar.
— O guarda que nos ajudou me disse para levar Sua Alteza para algum esconderijo — contou Iko. — Sei que ele quis dizer fora deste setor, mas para onde podemos ir? Andei repassando os mapas de Luna, e os únicos lugares que parecem prováveis de oferecer mais segurança são subterrâneos. Pelo menos ficaríamos longe das pessoas, e a vigilância não é tão rigorosa quanto nos túneis e nas minas, mas também não parece uma solução perfeita.
— Não tem solução perfeita — disse Winter, afundando na almofada caroçuda. — A rainha vai me encontrar aonde quer que eu vá. Ela me encontra até nos meus sonhos.
— Você não é a única tendo pesadelos — murmurou Thorne. — Mas ainda tem chance de muitos civis zangados aparecerem em Artemísia daqui a quatro dias, exigindo um novo regime. Existe alguma chance de Cinder estar viva até lá?
Eles trocaram olhares, mas não havia muito otimismo.
— As execuções oficiais acontecem no Palácio de Artemísia — disse Winter. — É para lá que vão levá-la.
— Por que não a mataram aqui? — perguntou Scarlet. — Por que tiveram todo esse trabalho?
Thorne balançou a cabeça.
— Levana quer executá-la de uma forma que mostre a futilidade da rebelião.
— Você acha que ela planeja transmitir? — indagou Iko.
— Garanto que sim — respondeu Winter. — A rainha adora execuções públicas. São uma forma eficiente de destruir a determinação de qualquer cidadão que pode estar se sentindo rebelde.
Thorne massageou a testa.
— Ela vai matá-la logo, então. Esta noite, talvez, ou amanhã. Não há nada como uma execução no dia do seu casamento.
Winter puxou os joelhos até o peito, apertando com força. O dia tinha começado com tantas esperanças para os companheiros. A transmissão foi como planejado, as pessoas responderam ao chamado. Mas, agora, tinha acabado. Levana ainda era rainha, a querida Selene logo estaria morta, e Jacin também, se já não estivesse.
— Pare.
Ela levantou a cabeça, não tanto por causa da ordem de Thorne, mas por causa do tom duro por baixo. Scarlet e Iko também olharam.
— Parem de agir com desânimo, todas vocês. Não temos tempo para isso.
— Você não está desanimado? — perguntou Winter.
— Não faz parte do meu vocabulário. — Thorne se afastou da porta. — Iko, nós não entramos naquela casa da guarda e transmitimos a mensagem de Cinder por toda a Luna?
— Sim, capitão.
— E Scarlet, eu não salvei você e Lobo quando a cidade de Paris inteira estava sob cerco?
Ela levantou a sobrancelha para ele.
— Na verdade, tenho quase certeza de que Cinder…
— Salvei, sim. — Ele apontou para Iko. — Eu não salvei você e Cinder daquela cela de prisão e nos levei em segurança para a Rampion?
— Bem, na época eu não estava exatamente…
— Caramba, Iko, só responda à pergunta.
Scarlet batucou com os dedos.
— Aonde você quer chegar?
— Eu quero dizer que vou resolver isso, como sempre resolvo. Primeiro, vamos encontrar um jeito de entrar em Artemísia. Vamos encontrar Cress e salvar Cinder e Lobo. Vamos destronar Levana e, pelas estrelas do céu, vamos tornar Cinder rainha, para que ela possa nos pagar muito dinheiro dos fundos reais, assim vamos todos nos aposentar muito ricos e muito vivos, entenderam?
Winter começou a bater palmas.
— Que discurso brilhante. Quanto bom senso e bravata.
— Mas estranhamente desprovido de qualquer tipo de estratégia real — acrescentou Scarlet.
— Ah, que bom, fico feliz por você também ter reparado — disse Iko. — Fiquei com medo de meu processador estar com defeito. — Ela tateou pela nuca.
— Estou trabalhando nessa parte — resmungou Thorne. — Agora, precisamos sair deste setor. Vou pensar melhor quando não estiver preocupado com a chance de ser cercado por taumaturgos. Além do mais, se vamos pelo túnel do trem de levitação magnética, é uma longa caminhada até Artemísia.
— Sabe uma falha nesse plano que não é bem plano? — disse Scarlet, apontando para Winter com o polegar. — Nós não vamos levá-la para lá. É o oposto de deixá-la escondida.
Winter desenrolou a toalha da cabeça. Havia um ponto de sangue, mas não muito. Ela se perguntou se a dor de cabeça algum dia passaria.
— Você está certa. Eu vou para o subterrâneo, como Scarlet sugeriu.
— Você não é uma toupeira — disse Scarlet. — Não pode simplesmente ir para o subterrâneo. Para onde você vai? O que vai fazer? Tem pessoas lá embaixo? Você precisa de suprimentos? E se…?
— Ryu também estava no meu sonho. — Winter dobrou a toalha no joelho. — Ele estava tentando me proteger da rainha. Acho que me perdoou pelo que aconteceu.
Scarlet deu uma risada, um som cruel e delirante.
— Você está prestando atenção? Não entende? Cinder e Lobo se foram! Levana está com eles. Ela vai torturá-los e matá-los e… — Chorando, Scarlet baixou a cabeça entre os ombros trêmulos. — Ninguém liga para seus sonhos e ilusões idiotas. Eles se foram. — Ela limpou o nariz com as costas da mão. Não ficava bonita quando chorava, e Winter gostava disso nela.
Inclinando-se para a frente, ela apoiou a mão no ombro de Scarlet. Scarlet não a afastou.
— Entendo — disse ela. — Não seria seguro voltar para Artemísia, mas isso não quer dizer que não posso ajudar Selene e meu povo. Eu também tenho um plano que não é bem um plano.
Scarlet a observou com os olhos vermelhos.
— Estou com medo de perguntar.
— Thorne e Iko vão para Artemísia tentar salvar Selene, Lobo, Jacin e Cress, e eu e você vamos desaparecer no mundo subterrâneo, nos tubos de lava e nas sombras, e lá vamos reunir um exército nosso.
— Ah, nós vamos para o mundo subterrâneo reunir um exército, é? — Scarlet fungou e levantou as mãos no ar. — Por que eu me dou ao trabalho de falar com você? Você não está ajudando. Você é o I maiúsculo de inútil.
— Estou falando sério. Tem assassinos e tem animais e tem predadores querendo ser libertados. Você sabe disso, amiga Scarlet. Você já libertou um. — Winter se levantou e apoiou a mão na parede para se equilibrar, depois contornou a pequena mesa.
Scarlet revirou os olhos, mas foi Iko que falou.
— O alojamento — disse ela. — O alojamento onde Levana deixa os soldados fica nos tubos de lava.
Thorne desviou o olhar de Iko para Winter.
— Os soldados dela? Você quer dizer os soldados lobos mutantes? Está maluca?
Winter começou a rir.
— Pode ser que eu esteja — respondeu ela, colocando a mão na bochecha de Thorne. — Pois é o que todo mundo me diz.

2 comentários:

  1. Eu nn entendo pq eles duvidam tanto da Winter,ela sabe das coisas. Só explica do jeito dela

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Boa leitura, E SEM SPOILER!