13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e três

CRESS FICOU NO LADO DA MESA DO LABORATÓRIO SEGURANDO um tablet enquanto o dr. Erland carregava um instrumento estranho ao lado do rosto de Thorne, apontando um raio fino de luz para as pupilas.
O doutor resmungou e balançou a cabeça com compreensão.
— Aham — fez ele, e mudou a configuração da ferramenta para que uma luz verde piscasse na parte de baixo. — Aham — repetiu, passando para o outro olho.
Cress se inclinou para mais perto, mas não viu nada que pudesse despertar resmungos tão pensativos.
A ferramenta na mão do doutor fez alguns cliques, e ele tirou o tablet da mão de Cress. Assentiu para o objeto antes de devolvê-lo. Ela olhou para a tela, onde a estranha ferramenta estava transferindo um monte de diagnósticos incompreensíveis.
— Aham.
— Você pode parar de repetir aham e me dizer o que tem de errado com eles? — perguntou Thorne.
— Paciência — pediu o doutor. — O sistema óptico é delicado, e um diagnóstico incorreto poderia ser catastrófico.
Thorne cruzou os braços.
O doutor mudou as configurações no instrumento de novo e fez outra verificação nos olhos de Thorne.
— De fato — disse ele. — Há um dano severo ao nervo óptico, provavelmente resultado de um traumatismo craniano. Minha hipótese é que, quando você bateu a cabeça na queda, um sangramento interno no seu crânio provocou um aumento repentino da pressão sobre o nervo óptico e...
Thorne acenou e empurrou o instrumento do médico para longe.
— Dá pra consertar?
O dr. Erland bufou e colocou o instrumento na bancada que ocupava toda a enfermaria da Rampion.
— É claro que dá — respondeu, parecendo insultado. — O primeiro passo vai ser coletar medula óssea da crista ilíaca do seu osso pélvico. A partir daí, posso coletar seus hemocitoblastos, que podemos usar para criar uma solução a ser aplicada externamente ao seu sistema óptico. Com o tempo, os hemocitoblastos vão substituir as células ganglionares da retina e vão formar pontes celulares entre os desconectados...
— Ah-lá-lá-lá-lá, tá, entendi — retrucou Thorne, cobrindo as orelhas. — Por favor, nunca mais diga aquela palavra.
O dr. Erland ergueu uma sobrancelha.
— Celular? Hemocitoblastos? Ganglionar?
— Essa última. — Thorne fez uma careta. — Blé.
O doutor fez uma careta.
— Você é fresco, sr. Thorne?
— Coisas do olho me apavoram. Assim como qualquer cirurgia no osso pélvico. Você pode me apagar nessa parte, né? — Ele se deitou na mesa de exames. — Seja rápido.
— Um anestésico local vai bastar — garantiu o dr. Erland. — Até tenho no meu kit uma coisa que deve funcionar. No entanto, apesar de eu poder coletar a medula hoje, não tenho os instrumentos necessários para separar os hemocitoblastos nem para criar a solução a ser injetada.
Thorne se sentou devagar.
— Então... você não pode me consertar?
— Não sem um laboratório decente.
Thorne coçou o queixo.
— Tudo bem. E se pularmos a parte dos hemocitoblastos e da solução a ser injetada e só trocássemos meus globos oculares por uma prótese ciborgue? Andei pensando que seria ótimo ter visão de raios X, e tenho que admitir que a ideia me conquistou.
— Humm. Você está certo — disse o dr. Erland, olhando para Thorne por cima da moldura dos óculos. — Isso seria bem mais simples.
— É mesmo?
— Não.
A boca de Thorne virou uma careta.
— Pelo menos, agora sabemos qual é o problema e que dá para consertar — falou Cress. — Vamos pensar em alguma coisa.
O doutor olhou para ela, virou-se e começou a arrumar nos armários da enfermaria o equipamento que eles trouxeram do hotel. Ele parecia estar tentando esconder qualquer emoção que não fosse a curiosidade profissional, mas Cress tinha a impressão de que ele não gostava muito de Thorne.
Já os sentimentos dele por ela eram um mistério. Achava que ele não havia olhado nos olhos dela nem uma vez desde que saíram do hotel e desconfiava que tinha vergonha de toda a coisa de comprar cascudos lunares por causa do sangue. E ele tinha motivo para tanto. Apesar de estarem do mesmo lado, ela ainda não lhe perdoara pela forma como a tratou e a vários outros. Como gado em um leilão.
Mesmo ela nunca tendo visto um leilão de gado.
Se fosse sincera consigo mesma, tinha opiniões incertas sobre quase toda a tripulação da Rampion. Depois de ver Lobo surtar no hotel, Cress fazia o possível para ficar longe dele sempre que podia. O temperamento e a consciência do que a espécie dele era capaz de fazer deixavam os pelos da nuca dela eriçados cada vez que os olhos verdes se dirigiam a ela.
Não ajudava o fato de que Lobo não disse nada desde que saíram da África. Enquanto todos discutiam o perigo de ficar em órbita até que Cress reinstalasse os sistemas para impedir que fossem vistos, Lobo se encolheu sozinho em um canto do cockpit e ficou olhando sem expressão para o assento do piloto.
Quando Cinder sugeriu que eles fossem para algum lugar longe de Nova Pequim enquanto decidiam a próxima fase do plano, Lobo ficou andando de um lado para outro com uma lata de tomates nos braços. Quando desceram na área abandonada e desolada da região norte da Sibéria, na Comunidade das Nações Orientais, Lobo ficou deitado de lado na cama debaixo de um dos quartos da tripulação, com o rosto afundado em um travesseiro. Cress concluiu que era a cama dele, até Thorne informar que era de Scarlet.
Ela sentia pena dele, claro. Qualquer pessoa via que estava arrasado pela perda de Scarlet. Mas tinha mais medo dele. A presença de Lobo era como uma bomba tiquetaqueando que podia explodir a qualquer momento.
Havia também Jacin Clay, o ex-guarda de Sybil, que passava a maior parte do tempo em um silêncio arrogante. Quando falava, dizia alguma coisa rude ou desagradável. Além disso, podia ter ido para o lado deles, mas Cress não conseguia deixar de pensar em todas as vezes que levou mestra Sybil para o satélite, quantos anos soube sobre o cativeiro dela e não fez nada para ajudá-la.
E havia a androide-acompanhante, com os mestre isso e mestre aquilo e Quer que eu lave seus pés e faça uma boa massagem, mestre?.
— Capitão!
Cress se encolheu ao ouvir o gritinho infantil, seguido por um borrão azul que entrou na enfermaria e se chocou com Thorne, quase o derrubando da mesa.
Ele grunhiu.
— O qu...
— Adorei! — disse a acompanhante. — Adorei muito! É o melhor presente que alguém já me deu, e você é o melhor capitão da galáxia toda! Obrigada, obrigada, obrigada! — A androide começou a cobrir o rosto de Thorne de beijos, ignorando os esforços dele para recuar.
Cress apertou os dedos na tela até os braços começarem a tremer.
— Iko, deixe-o respirar! — disse Cinder, aparecendo na porta.
— Ah, desculpa!
A androide segurou as bochechas de Thorne e deu um beijo firme na boca antes de se afastar.
O maxilar de Cress começou a doer de tanto ela trincar os dentes.
— Iko? — falou Thorne.
— Em carne e osso! Como estou? — Ela fez uma pose para Thorne e começou a rir. — Ops, quero dizer... ah, você vai ter que confiar em mim quando digo que estou linda. Além disso, verifiquei o catálogo do fabricante e posso fazer upgrade para quarenta cores de olhos diferentes! Gosto dos dourados metálicos, mas vamos ver. As modas passam tão rápido, sabe.
Thorne começou a relaxar e sorriu.
— Fico feliz de você ter gostado dela. Mas, se você está aqui, quem está comandando a nave?
— Eu só troquei os chips de personalidade — explicou Cinder. — Darla não pareceu se importar. Falou qualquer coisa do tipo “O que fizer meu mestre feliz”. — Cinder fingiu ânsia de vômito. — Também desfiz parte da programação dela. Com sorte, não vai se incomodar tanto se tiver que violar a lei.
— Do jeito que gosto das minhas naves — disse Thorne. — Darla, você está aí?
— Pronta para servir, capitão Thorne — entoou uma nova voz nos alto-falantes acima, estranhamente robótica se comparada aos tons hiperativos de Iko. — Estou feliz de trabalhar como seu novo sistema de controle e vou me esforçar para garantir a segurança e o conforto da minha tripulação.
Thorne abriu um sorriso.
— Ah. Eu vou gostar dela.
— Quando você acabar o exame — disse Cinder, inclinando a cabeça para a porta — venha para o compartimento de carga. Tem muita coisa que precisamos discutir.


EM MINUTOS, A TRIPULAÇÃO DA RAMPION SE REUNIU NO compartimento de carga. Iko se sentou de pernas cruzadas no meio, hipnotizada pela visão dos dedos descalços. O dr. Erland levou uma cadeira de rodinhas da enfermaria para se sentar; Cress achava que a idade e as pernas curtas não permitiriam que ele subisse em uma das caixas sem ajuda. Lobo estava encostado à porta que levava ao cockpit, com os ombros encolhidos e as mãos enfiadas nos bolsos, e havia enormes olheiras sob os olhos dele. Em frente, Jacin estava encostado na parede do corredor que levava aos quartos da tripulação e à cozinha, virado de lado como se Cinder não merecesse mais do que metade da atenção dele.
Cress levou Thorne até uma das caixas grandes, torcendo para que não ficasse óbvio que estava se distanciando o máximo possível de Lobo.
Cinder limpou a garganta e ficou de pé na frente deles, em frente à grande tela embutida na parede do compartimento de carga.
— O casamento real é em quatro dias — disse ela. — E eu acho... espero... que estejamos de acordo em uma coisa: não podemos deixar que Levana se torne a imperatriz da Comunidade. A coroação seria uma posição legal que não poderia ser desfeita com facilidade, e dar a ela esse tipo de poder... bem. Vocês sabem. — Ela esfregou as botas no chão de metal. — Nosso plano antes era de interromper o casamento e tentar destronar Levana publicamente enquanto ela estivesse aqui, na Terra. Mas o dr. Erland me convenceu de que não vai fazer diferença. Pode impedir que ela se torne imperatriz, mas, enquanto o povo de Luna ainda a chamar de rainha, ela vai continuar a ameaçar a Terra como puder. Portanto, acredito que a única forma de nos livrarmos realmente de Levana é indo para Luna e persuadindo as pessoas a se rebelar contra ela... e coroar um novo monarca. — Ela pareceu hesitar, desviando o olhar para Jacin antes de continuar: — E acho... se conseguirmos... Sei de um jeito de nos levar lá para cima sem sermos vistos.
Thorne bateu com a bengala em uma caixa de plástico.
— Tudo bem, srta. Críptica. Qual é o novo plano então?
Cinder olhou ao redor e empinou o queixo.
— Começa com o sequestro do noivo.
Thorne parou de bater com a bengala, e o aposento ficou em silêncio. Cress apertou os lábios e ousou observar os rostos do resto da tripulação, mas todo mundo parecia perplexo.
A mão de Iko subiu no ar.
— Sim, Iko?
— É a melhor ideia do mundo. Pode contar comigo.
Parte da tensão começou a se dissipar, e Cinder até riu.
— Espero que todos sintam o mesmo, porque preciso da ajuda de vocês para esse trabalho. Ainda precisamos de suprimentos, de convites para o casamento e de roupas... — Ela balançou a cabeça para afastar o olhar perdido que surgiu em seu rosto. — Mas agora acho que nosso maior problema vai ser localizar Kai depois de entrarmos. Não descobri nada sobre uma identificação rastreável. Os guardas reais parecem ter feito um trabalho bom demais para manter os perseguidores e assassinos longe.
Cress se inclinou para a frente.
— Por que não usar o número de Tan Kaoru?
Todos desviaram as atenções para ela, e Cress se encolheu na mesma hora.
— O que é isso?
— É, hã, o número de rastreio do imperador Kaito. 0089175004. O perfil na rede mostra um guarda do palácio chamado Tan Kaoru, mas é só disfarce. É a identificação que as equipes de segurança real usam para rastrear Sua Majestade. Venho usando para confirmar o paradeiro dele há um tempão.
— É mesmo? Como foi que você descobriu isso?
Com o rosto quente, Cress abriu a boca, percebeu que seria uma explicação longa e tediosa e voltou a fechá-la.
— Não importa — disse Cinder, massageando a têmpora. — Se você tem certeza de que é ele.
— Tenho.
— Então... ótimo. Número 008... Iko, você registrou?
— Registrei.
— Obrigada, Cress.
Ela expirou.
Cinder esfregou uma das mãos na outra.
— Era isso o que eu tinha em mente. Cress, você está encarregada de desabilitar o sistema de segurança do palácio. Lobo, você dá cobertura a ela.
Cress ergueu o rosto e deu de cara com o olhar de Lobo. Ela se encolheu ao lado de Thorne. A última coisa que queria era fazer dupla com Lobo. Claro, Cinder e Thorne pareciam confiar nele, mas o quanto eles de fato sabiam sobre o homem que quase estrangulou Cinder naquele hotel, que uivou como um animal selvagem, que foi criado com o objetivo de matar humanos das formas mais horríveis e sem sentido?
Mas ninguém pareceu reparar no medo dela ou, se alguém notou, ignorou.
— Enquanto isso — prosseguiu Cinder —, Iko e eu vamos rastrear Kai e fazer com que venha conosco. Vamos nos encontrar em um dos telhados, e Jacin vai nos buscar e levar para longe antes que percebam o que está acontecendo. Ao menos, essa é a ideia. — Ela prendeu uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Mas isso gera um grande problema. Não vou poder entrar escondida como convidada, nem como alguém da equipe. Sou reconhecível demais. Então, como entro no palácio sem ser percebida?
— Que tal eu ir sem você? — sugeriu Iko.
Cinder balançou a cabeça.
— Kai não conhece você. Se queremos que ele confie em nós, acho... acho que tem que ser eu.
Jacin deu uma risada debochada, o primeiro som que fez, mas Cinder o ignorou.
Cress mordeu o lábio enquanto os outros começaram a dar sugestões. Ela podia se disfarçar como alguém da imprensa? Escalar o muro de trás? Esconder-se em um enorme buquê de flores?
Já vermelha de vergonha, Cress forçou a boca a se abrir.
— Que tal... — Ela parou de falar quando todos se viraram para ela. — Hã.
— O quê?
— Que tal... os túneis de fuga?
— Túneis de fuga?
Ela puxou o cabelo, desejando que estivesse mais comprido para poder brincar, para girar e dar nós e descontar o nervosismo nele. Mas estava curto, leve e libertador, e todo mundo ainda olhava para ela. Arrepios surgiram em seus braços.
— Os que passam debaixo do palácio. Quando construíram o prédio depois da guerra, colocaram túneis que se ligam aos bunkers antirradiação e aos abrigos. Para o caso de outro ataque.
Cinder olhou para a tela.
— Nenhuma das plantas que vi mostrava qualquer coisa sobre túneis de fuga.
— Eles não seriam muito seguros se todo mundo soubesse sobre eles.
— Mas como você... — Cinder fez uma pausa. — Deixe pra lá. Tem certeza de que ainda estão lá?
— É claro que estão.
— Imagino que você não lembre para onde vão.
— Claro que lembro.
Ela secou as mãos molhadas na roupa.
— Excelente. — Cinder parecia estar quase relaxando. — Então, antes de entrarmos nos detalhes... alguém tem alguma perg...
— Quando vamos para Luna? — perguntou Lobo, a voz rouca pela falta de uso.
Cress engoliu em seco. Os olhos dele estavam vermelhos. Ele parecia capaz de partir todos em pedacinhos sem pensar duas vezes.
Mas logo ela percebeu que havia uma questão embutida na pergunta, uma questão que todo mundo deve ter percebido na mesma hora. Scarlet. Ele queria saber mesmo em quanto tempo poderia ir atrás de Scarlet.
— Umas duas semanas, pelo menos — respondeu Cinder. Sua voz ficou baixa, pesarosa. — Talvez até três...
Lobo contraiu o maxilar e se virou. Fora isso, permaneceu imóvel, uma sombra ameaçadora no canto.
Thorne levantou um dedo, e Cinder ficou tensa de novo.
— Sim?
— O Palácio de Nova Pequim não tem laboratórios médicos próprios? Tipo laboratórios médicos que talvez tenham máquinas mágicas que curam cegueira?
Cinder apertou os olhos.
— Você não pode vir. É arriscado demais, e você só atrapalharia.
Thorne deu um sorriso, sem se deixar perturbar.
— Pense bem, Cinder. Quando Cress derrubar aquele sistema de segurança, todos os guardas do palácio vão correr para um de dois lugares. Para o centro de controle de segurança, a fim de verem o que está acontecendo, e para onde quer que o precioso imperador esteja, a fim de garantirem que fique em segurança. A não ser que haja alguma outra confusão até mais óbvia acontecendo em outra parte do palácio. — Ele apoiou o queixo na palma da mão. — Uma grande confusão. Bem longe de vocês. Como nos laboratórios médicos.
Cress entrelaçou as mãos no colo e ficou desviando a atenção entre Thorne e Cinder, perguntando-se que tipo de confusão ele tinha em mente. Cinder parecia dividida. Ela ficava abrindo a boca, mas voltava a fechá-la. Não parecia feliz de avaliar a ideia de Thorne.
— Eu também tenho uma pergunta.
Cress deu um pulo e se virou para espiar Jacin por cima do ombro. Ele parecia extremamente entediado, com um cotovelo apoiado na parede e a mão no cabelo, como se estivesse prestes a adormecer de pé. Mas os olhos azuis estavam intensos ao olharem para Cinder.
— Vamos dizer que você consiga fazer isso, embora eu ache que não.
Cinder cruzou os braços.
— Você entende que, quando Levana perceber o que você fez, não vai ficar esperando para ver o que vai fazer depois, né? Vai ser o fim do cessar-fogo.
— Eu sei disso — disse Cinder, com um tom pesado ao afastar o olhar de Jacin e olhar para um de cada vez. — Se conseguirmos, iniciaremos uma guerra.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!