7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e Três

KAI ESTAVA SUANDO ENQUANTO SE ESFORÇAVA PARA NÃO VOMITAR. Seus olhos ardiam, mas não conseguia afastá-los da tela. Era como ver uma produção de terror horrível, repugnante e surreal demais para ser verdade.
A imagem estava sendo transferida da praça do centro da cidade, onde a feira semanal e o festival anual aconteceram poucos dias antes, no dia de sua coroação. Corpos ocupavam a praça, com sangue derramado embaixo dos outdoors iluminados. A maioria dos cadáveres estava concentrada perto da entrada de um restaurante que ficava aberto até a madrugada, um dos poucos negócios que funcionava e estava com muito movimento à meia-noite, quando o ataque começou.
Disseram a ele que apenas um agressor estava no restaurante na hora, mas, vendo aquela carnificina toda, tinha certeza de que não podia ser. Como um homem podia fazer tanto estrago?
A imagem mudou para um hotel em Tóquio na hora em que um homem com olhar louco jogou um corpo inerte em uma coluna. Kai se encolheu na hora do impacto e virou o rosto.
— Desligue. Não consigo ver mais. Onde está a polícia?
— Está fazendo o melhor que pode para impedir os ataques, Vossa Majestade — disse Torin atrás dele —, mas é preciso tempo para mobilizar a polícia e fazer uma tentativa de reação organizada. Esse ataque foi tão sem precedentes. Tão... anormal. Esses homens são rápidos, raramente ficam em um quarteirão mais do que alguns minutos, só o tempo suficiente para matar qualquer pessoa ao alcance antes de seguir para outra área da cidade... — Torin parou de falar, como se ouvisse o pânico aumentando na própria voz e tivesse que parar e se acalmar. Limpou a garganta. — Tela, mostre as notícias globais mais importantes.
O aposento se encheu de ruído, com seis novos âncoras relatando a mesma história: ataque repentino, psicopatas assassinos, monstros, número de mortes ainda desconhecido, confusão no planeta todo...
Quatro cidades tinham sido atingidas dentro da Comunidade das Nações Orientais: Nova Pequim, Bombaim, Tóquio e Manila. Mais dez foram vítimas nos outros cinco países terráqueos: Cidade do México, Nova York, São Paulo, Cairo, Lagos, Londres, Moscou, Paris, Istambul e Sydney.
Catorze cidades ao todo, e apesar de ser impossível obter o número exato de atacantes, os relatos das vítimas diziam que não mais de vinte ou trinta homens pareciam estar por trás das agressões em cada local.
Kai se esforçou para fazer a conta de cabeça. Trezentos ou quatrocentos homens. Parecia impossível, pois o número de mortos só aumentava, e as cidades atacadas começavam a pedir assistência às vizinhas, enviando os feridos para outros hospitais. Havia pelo menos dez mil mortos, diziam alguns, ao longo de menos de duas horas, e nas mãos de apenas trezentos ou quatrocentos homens.
Trezentos ou quatrocentos lunares. Porque ele sabia, ele sabia que Levana estava por trás disso. Em duas das cidades atacadas, sobreviventes alegaram terem visto um taumaturgo real entre os agressores. Embora as duas testemunhas estivessem quase alucinando pela perda de sangue, Kai acreditava nelas. Fazia sentido que os asseclas favoritos da rainha estivessem envolvidos nisso. Fazia sentido também que estivessem distantes do derramamento de sangue e apenas orquestrassem o ataque pelas mãos de seus peões.
Kai se afastou da tela e esfregou os dedos nos olhos.
Isso era por causa dele. Levana tinha feito isso por causa dele.
Dele e de Cinder.
— Isso é guerra — disse a rainha Camilla do Reino Unido. — Ela declarou guerra contra nós.
Kai desabou na escrivaninha. Todos estavam tão silenciosos, tão hipnotizados pelas imagens exibidas, que tinha esquecido que ainda estava em uma conferência global com os outros líderes da União Terráquea.
A voz da primeira-ministra da África, Kamin, soou pelos alto-falantes com fúria.
— Primeiro quinze anos de peste, e agora isso! E para quê? Levana está aborrecida porque uma única prisioneira fugiu? Uma simples garota? Não, está usando isso como desculpa. Quer nos humilhar.
— Vou mandar evacuar todas as minhas grandes cidades — disse o presidente Vargas, da América. — Podemos pelo menos tentar estancar o sangramento...
O primeiro-ministro europeu, Bromstad, interrompeu:
— Antes de você seguir esse caminho, infelizmente tenho mais notícias desagradáveis.
Kai baixou o queixo até o peito, derrotado. Sentiu vontade de cobrir os ouvidos e não escutar. Não queria ouvir mais nada, mas se preparou para o que viria.
— O ataque não é só nas metrópoles mais importantes — disse Bromstad. — Acabei de ser informado que, além de Paris, Moscou e Istambul, uma cidade pequena também foi atacada. Foi Rieux, uma comunidade de fazendeiros no sul da França. Com população de três mil e oitocentas pessoas.
— Três mil e oitocentas pessoas! — exclamou a rainha Camilla. — Por que ela atacaria uma cidade tão pequena?
— Para nos confundir — respondeu o governador-geral Williams, da Austrália. — Para nos fazer acreditar que não há sentido nesses ataques, para nos deixar com medo de que pode nos atacar em qualquer lugar, a qualquer hora. É precisamente o tipo de coisa que Levana faria.
O Chefe Huy entrou no escritório de Kai, sem bater. Kai deu um pulo e pensou por um momento que o chefe era um lunático que tinha ido matá-lo, antes de sua pulsação voltar ao normal.
— Alguma notícia?
Huy assentiu. Kai reparou que seu rosto havia envelhecido anos na última semana.
— Linh Cinder foi vista.
Kai engoliu um grito de surpresa e se levantou, afastando-se da escrivaninha.
— O quê? Quem estava falando? — perguntou Camilla. — O que falaram sobre Linh Cinder?
— Preciso cuidar de outros assuntos — disse Kai. — Fim da conferência. — Sons de protesto foram imediatamente silenciados, e Kai se concentrou em Huy, cada nervo zumbindo. — E então?
— Três oficiais militares conseguiram encontrá-la por meio da identificação positiva da meia-irmã falecida, Linh Peony, como a guardiã dela havia sugerido. Nós a encontramos em uma pequena cidade no sul da França, minutos antes do ataque.
— Sul da... — Kai olhou para Torin na mesma hora em que seu conselheiro fechou os olhos, atingido pela mesma percepção. — A cidade por acaso se chamava Rieux?
Os olhos de Huy se arregalaram.
— Como o senhor sabia?
Kai gemeu e voltou para trás da escrivaninha.
— Os homens de Levana atacaram Rieux, a única cidade atacada que não era metrópole. Também devem ter conseguido rastreá-la. Foi por isso que estavam lá.
— Então precisamos alertar os outros líderes da União — disse Torin. — Ao menos sabemos agora que ela não está atacando aleatoriamente.
— Mas como a encontraram? O chip de identificação da irmã dela era nossa única pista. De que outra forma ela poderia ser... — Ele parou de falar e passou as mãos pelo cabelo. — É claro. Ela sabia sobre o chip. Sou tão idiota.
— Majestade?
Ele virou para Huy, mas foi Torin quem chamou sua atenção.
— Não diga que é paranoia. Ela está ouvindo. Não sei como, mas está nos espionando. Este escritório mesmo deve estar com alguma escuta. Foi assim que ela soube do chip, e foi assim que sabia quando meu escritório estava aberto e ela podia invadir sem ser anunciada, e foi assim que ela soube quando meu pai morreu!
Torin fechou a cara, mas pela primeira vez não fez nenhum comentário depreciativo sobre Kai e suas teorias ridículas.
— Então... nós a encontramos? Cinder?
O constrangimento fez Huy franzir a testa.
— Sinto muito, Majestade. Depois que o ataque começou, ela conseguiu fugir em meio ao caos. Encontramos o chip de identificação em uma fazenda nos arredores de Rieux, ao lado dos sinais da decolagem de uma nave. Estamos trabalhando para encontrar qualquer pessoa que a tenha visto, mas infelizmente... todos os três oficiais que a identificaram foram mortos no ataque.
Kai começou a tremer, o corpo queimando de dentro para fora. Lançou um olhar furioso para o teto, quase gritando.
— Está vendo, Majestade? Se não fosse seu ataque, nós a teríamos capturado! Espero que esteja satisfeita com o que fez!
Bufando, cruzou os braços e esperou a pressão sanguínea baixar novamente.
— Chega disso. Cancele a busca.
— Majestade? — questionou Torin.
— Quero todos os militares e oficiais da polícia concentrados em encontrar esses homens que nos atacaram e em colocar um fim nisso. É nossa nova prioridade.
Como se aliviado pela decisão, Huy fez uma reverência breve e saiu do escritório, deixando a porta aberta atrás de si.
— Vossa Majestade — disse Torin —, embora eu não discorde dessa linha de ação, temos que considerar como Levana vai reagir. Temos que considerar a possibilidade de que esse ataque, por mais horrível que seja, não passe de um incômodo em comparação ao que ela realmente é capaz. Talvez devêssemos tentar acalmá-la antes que cause mais danos.
— Eu sei. — Kai olhou para a tela e para os âncoras assustados que murmuravam. — Ainda não me esqueci das fotos da República da América.
A lembrança ainda lhe provocava um arrepio na espinha: centenas de soldados em formação, e cada um era um cruzamento entre homem e animal. Tinham dentes afiados e garras enormes, ombros caídos e uma camada fina de pelo nos braços fortes.
Os homens que estavam atacando toda a Terra eram cruéis, selvagens e brutais, isso estava claro. Mas ainda eram apenas homens. Kai desconfiava que não passavam de uma prévia do que o exército de animais de Levana seria capaz.
Não era capaz de odiá-la ainda mais. Não depois que escondeu propositalmente o antídoto contra a letumose. Depois que atacou um de seus servos para provar uma questão política. Depois de forçá-lo a trair Cinder só porque ela fugira de Luna anos antes.
Mas nem ele teria conseguido imaginar essa crueldade.
E se odiaria para sempre pelo que estava prestes a fazer.
— Torin, você pode me dar um momento?
— Majestade? — Os olhos de Torin estavam com rugas nos cantos, parecendo entalhadas na pele. Talvez todos eles tivessem envelhecido injustamente naquela semana. — O senhor quer que eu saia?
Ele mordeu o interior da bochecha e assentiu.
Torin apertou os lábios, mas pareceu demorar muito tempo para conseguir formar palavras. Kai conseguia ver a compreensão no rosto do conselheiro; Torin sabia o que ele estava planejando.
— Vossa Majestade, o senhor tem certeza de que não deseja discutir isso? Deixe-me oferecer orientação. Deixe-me ajudar.
Kai tentou sorrir, mas o que saiu foi apenas uma careta de dor.
— Não posso ficar aqui, neste lugar seguro, sem fazer nada. Não posso deixar que ela mate mais ninguém. Não com esses monstros, não com a retenção do antídoto da letumose, não com... o que quer que ela tenha planejado. Nós dois sabemos o que ela quer. Nós dois sabemos o que vai impedir isso.
— Então deixe-me ficar para apoiá-lo, Majestade.
Ele balançou a cabeça.
— Não é uma boa escolha para a Comunidade das Nações Orientais. Pode ser a única escolha, mas nunca vai ser boa. — Ele ajeitou a gola da roupa. — A Comunidade não deve poder culpar mais ninguém além de mim. Por favor, vá.
Ele viu Torin respirar lenta e dolorosamente antes de fazer uma reverência profunda.
— Vou estar do lado de fora, caso o senhor precise de mim, Vossa Majestade. — Parecendo terrivelmente infeliz, Torin saiu e fechou a porta.
Kai andou de um lado para outro em frente à tela, com um nó de ansiedade no estômago. Ajeitou a camisa, amassada depois do longo dia, mas pelo menos ainda estava no escritório quando o alerta chegou. Acreditava que talvez jamais voltasse a ter uma noite inteira de sono depois disso.
Depois do que estava prestes a fazer.
Em seus pensamentos febris, não conseguia deixar de pensar em Cinder no baile. No quanto ficou feliz ao vê-la descendo a escada para o salão. No quanto achou uma graça inocente do cabelo molhado de chuva e do vestido amassado, concluindo que era um visual adequado para a mecânica mais famosa da cidade. Achava que ela devia ser imune às imposições da sociedade de moda e decoro. Que ficava tão à vontade consigo mesma que podia ir a um baile real como convidada do próprio imperador com cabelo desgrenhado e manchas de óleo nas luvas, e mesmo assim manter a cabeça erguida.
Isso foi antes de ele saber que Cinder tinha corrido para o baile para lhe dar um aviso. Cinder tinha sacrificado a própria segurança para implorar que ele não aceitasse a aliança. Que não se casasse com Levana. Porque, depois que a cerimônia de casamento estivesse encerrada e ela tivesse ascendido ao trono da Comunidade das Nações Orientais, Levana pretendia matá-lo.
Kay se sentiu enjoado por saber que Cinder estava certa. Sabia que Levana não hesitaria em descartá-lo assim que ele tivesse servido a seu propósito.
Mas ele tinha que impedir esses assassinatos. Tinha que impedir essa guerra.
Cinder não era a única capaz de se sacrificar por uma causa maior.
Com um suspiro, olhou para a tela.
— Estabelecer ligação por vídeo com a rainha Levana, de Luna.
O pequeno globo no canto girou apenas uma vez antes de se iluminar com a imagem da rainha lunar, envolta num véu branco de renda. Ele imaginou o rosto dela velho, emaciado e decrépito por baixo da proteção, e isso não ajudou.
Kai sentiu que ela estava esperando aquela ligação. Sentiu que estava ouvindo tudo e já sabia precisamente quais eram as intenções dele. Sentiu que estava com um sorriso irônico por trás do véu.
— Meu querido imperador Kaito, que surpresa agradável. Deve ser bem tarde em Nova Pequim. Duas horas e vinte e quatro minutos após a meia-noite, correto?
Ele engoliu a repulsa da melhor maneira que conseguiu e ergueu as mãos para ela.
— Vossa Majestade, eu imploro. Por favor, pare o ataque. Por favor, chame seus soldados de volta.
O véu se mexeu quando ela inclinou a cabeça para o lado.
— Você implora? Que delícia. Prossiga.
O rosto dele ficou quente.
— Pessoas inocentes estão morrendo: mulheres e crianças, transeuntes, pessoas que não fizeram nada a você. Você venceu e sabe disso. Então, por favor, acabe com isso agora.
— Você diz que venci, mas qual é meu prêmio, jovem imperador? Você capturou a garota ciborgue que iniciou tudo isso? É a ela que você devia estar apelando. Se ela se entregar a mim, chamo meus homens de volta. Essa é minha proposta. Avise-me quando estiver preparado para negociar. Até lá, boa noite.
— Espere!
Ela cruzou as mãos.
— Sim?
A pulsação dele latejava dolorosamente nas têmporas.
— Não posso lhe dar a garota. Pensamos que a tínhamos capturado, mas ela fugiu de novo, como desconfio que já sabe. Mas não posso deixar você continuar a assassinar terráqueos inocentes enquanto tentamos encontrar outra maneira de rastreá-la.
— Infelizmente, não é problema meu, Vossa Majestade.
— Tem outra coisa que você quer, algo que posso oferecer. Nós dois sabemos o que é.
— Eu certamente não sei do que você está falando.
Kai não tinha percebido que estava apertando as mãos, praticamente implorando, até os nós dos dedos começarem a doer.
— Se sua oferta de aliança de casamento ainda for válida, eu aceito. Seu prêmio por mandar seus homens pararem vai ser a Comunidade das Nações Orientais. — Sua voz falhou nas palavras finais e ele trincou os dentes com força.
Esperou, sem fôlego, sabendo que cada segundo que se passava significava mais derramamento de sangue nas ruas da Terra.
Depois de um silêncio agonizante, Levana riu.
— Meu querido imperador. Como eu poderia resistir a um pedido tão encantador?

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