20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e sete

— O noivo agora vai pegar esta fita e amarrar três vezes em torno do pulso esquerdo da noiva, simbolizando o amor, a honra e o respeito que vai uni-los para sempre em matrimônio — disse a primeira-ministra Kamin, desenrolando um pedaço de fita de veludo de um carretel. Ela pegou a tesoura polida de prata na bandeja e cortou o tecido.
Kai tentou não fazer uma careta quando Kamin colocou a fita nas palmas de suas mãos. Era cintilante, cor de marfim, a cor da lua cheia, diferente da fita azul sedosa já enrolada no pulso dele, da cor da Terra.
Parecia que sua consciência estava pairando acima, observando-o enquanto seus dedos enrolavam a fita no pulso fino de Levana, uma, duas, três vezes, terminando com um nó simples. O gesto foi desajeitado e a fita devia estar frouxa demais, um efeito colateral de sua vontade de não tocar na pele dela com as pontas dos dedos. Quando ela amarrou a dele, praticamente fez uma massagem no pulso que o fez se contorcer por dentro.
— Agora vou amarrar as duas fitas uma na outra — disse a primeira-ministra Kamin, com a voz controlada e serena. Ela não hesitou nem uma vez durante a cerimônia. — Isso simboliza a unificação da noiva e do noivo e também de Luna e da Comunidade das Nações Orientais, que representa o planeta Terra hoje, no oitavo dia de novembro do centésimo vigésimo sexto ano da terceira era. — Ela pegou as pontas de cada fita entre os dedos.
Kai assistiu, com um semblante distante de interesse, aos dedos escuros e finos unirem as duas fitas. Ela puxou as pontas e amarrou o nó. Kai continuou observando, sentindo sua mente desconectada.
Ele não estava ali.
Aquilo não estava acontecendo.
O olhar de ódio o traiu, virando-se para o rosto de Levana. Foi o mais breve dos olhares, mas ela percebeu. Ela sorriu, e espetos de gelo perfuraram a coluna dele.
Aquilo estava mesmo acontecendo. Aquela era sua noiva.
Os lábios de Levana tremeram atrás do véu. Embora a mulher não tivesse aberto a boca, ele ouviu a voz dela acusando-o de se deixar levar por uma paixonite acanhada, e o repreendendo por sua juventude e inocência em um momento desses. Ele não identificou se a voz era sua imaginação caçoando dele ou algo que ela estava injetando em seus pensamentos.
E jamais saberia.
Ele estava se casando com uma mulher que exerceria seu poder sobre ele para sempre. Como ela era diferente de Cinder. Selene. Sobrinha dela, embora não parecesse possível que as duas tivessem qualquer coisa em comum, principalmente ancestrais.
Pensar em Cinder trouxe de volta a lembrança dolorosa do dedo ciborgue em uma base de seda, e Kai tremeu.
A celebrante parou, mas Kai já estava reconfigurando sua expressão. Ele soltou o ar com firmeza e fez um aceno leve para ela continuar.
Kamin pegou o tablet, e Kai aproveitou a pausa momentânea para tentar se recompor. Ele pensou nos mutantes assassinando civis inocentes. Pensou no pai morrendo na quarentena no palácio enquanto um antídoto existia no controle de Levana. Pensou em todas as vidas que estaria salvando ao acabar com a guerra e obter a cura.
— Vamos agora começar a troca de votos, como determinado pelo conselho de líderes da União Terráquea, começando com o noivo. Por favor, repita depois de mim. — Kamin ergueu o olhar para ter certeza de que Kai estava prestando atenção. — Eu, imperador Kaito da Comunidade das Nações Orientais da Terra…
Ele repetiu, tão obediente quanto um androide.
— … recebo como esposa e futura imperatriz da Comunidade das Nações Orientais Sua Majestade Real, a rainha Levana Blackburn de Luna…
Ele estava fora do corpo de novo. Olhando para baixo. Ouvindo as palavras sem entendê-las. Elas não tinham significado.
— … para governar ao meu lado com graça e integridade, honrar as leis da União Terráquea como determinadas por nossos ancestrais, ser defensora da paz e da justiça entre todos os povos.
Alguém acreditava em uma palavra desse lixo todo?
— Deste dia em diante, ela será meu sol ao amanhecer e minha lua à noite, e prometo amá-la e valorizá-la por todos os nossos dias.
Quem escrevia aqueles votos, afinal? Ele nunca tinha ouvido nada tão ridículo na vida. Mas os disse sem emoção e com menos interesse ainda. A primeira-ministra Kamin assentiu, como quem quisesse dizer que ele fez bem, e se virou para Levana.
— Agora, a noiva vai repetir depois de mim…
Kai se desligou da voz de Levana e examinou os pulsos unidos. A fita ao redor de seu punho estava ficando mais apertada? Os dedos começavam a formigar. Ele estava perdendo a circulação. Mas a fita envolvia a pele de forma inocente.
Estrelas do céu, como estava quente ali!
— … e prometo amá-lo e valorizá-lo por todos os nossos dias.
Kai riu com deboche. Alto.
Era para ficar só em pensamento, mas escapou.
Levana ficou tensa, e a celebrante o perfurou com um olhar intenso.
Kai tossiu, em uma tentativa de aliviar o momento.
— Desculpe. Tinha uma coisa na minha… — Ele tossiu de novo.
Rugas tensas se formaram ao redor da boca de Kamin quando ela se virou para a rainha.
— Vossa Majestade Real aceita os termos de casamento dispostos neste dia, tanto as regras do matrimônio entre dois seres quanto o laço que vai de agora em diante ser criado entre Luna e a Comunidade das Nações Ocidentais, resultando na aliança política dessas duas entidades? Se aceitar, diga “sim”.
— Sim. — A voz de Levana soou alta e doce, e gerou mil agulhas perfurantes no peito de Kai.
A cabeça dele estava latejando. De exaustão, de descrença, de infelicidade.
— Vossa Majestade Imperial aceita os termos de casamento dispostos neste dia, tanto as regras do matrimônio entre dois seres quanto o laço que vai de agora em diante ser criado entre a Comunidade das Nações Ocidentais e Luna, resultando na aliança política dessas duas entidades? Se aceitar, diga “sim”.
Ele olhou para a primeira-ministra Kamin e piscou.
Seu coração estava disparado no peito, e as palavras dela eram ecos vazios na cabeça vazia, e ele só precisava abrir a boca e dizer sim e o casamento acabaria e Levana seria sua esposa.
Mas seus lábios não se abriram.
Não.
Os músculos se contraíram no maxilar da primeira-ministra. O olhar dela ficou rígido, dando a deixa.
Não posso.
Ele sentiu o peso de mil convidados o observando. Visualizou Torin e o presidente Vargas e a rainha Camilla e todos os outros, assistindo, esperando. Visualizou os guardas e taumaturgos de Levana e aquele arrogante Aimery Park e mil aristocratas vaidosos e ignorantes aguardando o fim de seu silêncio.
Ele sabia que Levana podia forçá-lo a dizer as palavras, mas ela não fez isso. Embora imaginasse uma onda de ar gelado emanando de sua noiva a cada segundo, ela esperou como todos os outros.
Kai abriu os lábios, mas a língua estava pesada como ferro.
A celebrante inspirou com paciência e lançou um olhar preocupado para a rainha antes de voltar a encarar Kai. Sua expressão denotava nervosismo.
Kai olhou para a tesoura que ela usara para cortar as fitas.
Ele se moveu rápido, antes que pudesse se questionar. A mão solta se esticou e pegou a tesoura no altar. Sangue latejou nos ouvidos quando ele se virou para Levana com o braço levantado e empurrou a tesoura na direção do coração dela.
Cinder deu um grito e levantou os braços em defesa. A ponta da tesoura cortou o tecido das luvas até os cotovelos, antes de parar ao tocar no corpete de prata do vestido.
O braço de Kai tremeu com o esforço para fazer força contra o controle, mas sua mão estava entalhada em pedra. Com a respiração entrecortada, ele olhou para o rosto de Cinder. Sua aparência era a mesma da do baile, o vestido em frangalhos e as luvas manchadas, o cabelo úmido caindo ao redor do rosto. A única diferença era a fita azul que os unia e um único corte na seda das luvas.
Lentamente, como melado, sangue começou a escorrer pelo corte, manchando o tecido.
Cinder — não, Levana — viu o corte e rosnou. Seu controle sobre Kai falhou, e ele cambaleou para trás. O som da tesoura se chocando contra o chão tinha um tom de finalidade.
— Você ousa me ameaçar aqui? — sibilou Levana, e, apesar de ter tentado imitar a voz de Cinder, Kai percebeu a diferença. — Na frente dos nossos reinos?
A atenção de Kai ainda estava voltada para o sangue escorrendo pelo braço ferido. Ele conseguiu. Por um momento, ultrapassou o glamour, a manipulação. Não era muito, mas ele a machucou de verdade.
— Não era para ser uma ameaça — disse ele.
Ela apertou os olhos.
— Nós dois sabemos que você pretende me matar no momento em que eu não for mais útil para você. Achei que era justo deixar claro que o sentimento é mútuo.
Levana olhou para ele com raiva, e foi irritante ver tanto ódio no rosto de Cinder.
Vibrando com adrenalina, Kai olhou para a plateia. A maioria dos convidados estava de pé, suas expressões eram uma mistura de choque e confusão. Logo à frente, Torin parecia prestes a se lançar por cima das duas fileiras de assentos e estar ao lado de Kai no momento em que fosse necessário.
Kai sustentou o olhar por tempo suficiente, esperava ele, para comunicar que estava bem. Ele a tinha machucado, Kai queria dizer. Era possível machucá-la. O que significava que era possível matá-la.
Kai firmou o maxilar e se virou para encarar a primeira-ministra Kamin. Ela também tremia, as mãos apertando o tablet.
— Sim — disse ele, ouvindo sua proclamação ecoar pelo altar.
O olhar da celebrante se alternava entre ele e a noiva, como se ela não soubesse se deveria prosseguir ou não. Mas Levana ajeitou o vestido de noiva, ou o vestido de baile de Cinder, na verdade. A reação que ela esperava arrancar dele ao manter o glamour, ele não daria, não queria dar a ela.
Quando o silêncio se prolongou por tempo demais, Levana grunhiu:
— Vá em frente logo.
Kamin engoliu em seco.
— Pelo poder dado a mim pelo povo da Terra, eu os declaro… marido e mulher.
Kai nem se mexeu.
— Pedimos que todas as filmagens sejam interrompidas para que o noivo possa beijar a noiva.
Kai esperou ser atingido por um muro de medo, mas até isso foi substituído por determinação fervorosa. Ele imaginou todos os hológrafos de Luna escurecendo e todas as atualizações da Terra se apagando. Imaginou seu povo olhando, e o horror que devia estar sentindo quando a atualização foi interrompida.
Ele se virou para Levana.
Sua noiva.
Sua esposa.
Ela ainda estava incorporando Cinder, mas o vestido do baile foi substituído pelo vestido vermelho vibrante e pelo véu transparente. Ela deu um sorriso demoníaco.
Ignorando-a, Kai segurou o véu mecanicamente entre os dedos e o puxou por cima da cabeça.
— Achei que você preferiria este visual — disse ela. — Considere um presente de casamento.
Kai não conseguiu reagir, por mais que quisesse refletir aquela arrogância de volta para ela.
— Prefiro mesmo. — Ele inclinou a cabeça na direção dela. — Selene é mais bonita do que você jamais conseguiria ser.
Ele a beijou. Foi um beijo abrupto e sem paixão que não se pareceu em nada com beijar Cinder.
A plateia soltou o ar de forma coletiva.
Kai recuou e colocou uma distância de um corpo entre eles. A plateia começou a aplaudir, educadamente no começo, depois com mais entusiasmo, como se estivesse com medo de as palmas não serem bastante educadas. Kai esticou o cotovelo para Levana segurar, com as mãos ainda amarradas, e juntos se viraram para olhar a plateia.
Com o canto do olho, ele viu a imagem de Cinder sumir, o rosto ser substituído pelo de Levana, e ficou feliz de ela parecer irritada. Era uma vitória muito pequena, mas ele ficou feliz.
Eles ficaram ali parados ouvindo a gritaria trovejante, os dois furiosos.
Marido e mulher.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!