13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e sete

CRESS AFUNDOU OS DEDOS NO ASSENTO DO AERODESLIZADOR E SE inclinou para a janela até a respiração embaçar o vidro. Ela não conseguia arregalar os olhos o bastante, não com tanta coisa para ver, não quando não absorvia tudo. A cidade de Nova Pequim era infinita.
Ao leste, um amontoado de arranha-céus se projetava da terra, prata e vidro e laranja brilhando sob o sol do fim da tarde. Depois do centro da cidade, havia armazéns e arenas, parques e subúrbios, seguindo até perder de vista. Cress ficou feliz pela distração das novas paisagens, dos prédios, das pessoas... Se não fosse isso, achava que ficaria enjoada. Ela soltou uma exclamação de surpresa quando o palácio surgiu acima do penhasco, reconhecível das incontáveis fotos e vídeos. Mesmo assim, era muito diferente na vida real. Ainda mais magnífico e imponente. Ela abriu os dedos sobre a janela e emoldurou a vista. Via uma fila de veículos e uma massa de gente em frente aos portões, descendo pela lateral do morro até a cidade abaixo.
Lobo também estava com os olhos ferozes grudados no palácio que se aproximava, mas ela não sentia nenhum assombro da parte dele, só impaciência. O joelho dele não parava de balançar, e os dedos ficavam se flexionando e contraindo. Vê-lo a deixava nervosa. Ele estava tão deprimido na Rampion, tão impossivelmente imóvel. Ela se perguntou se essa explosão de energia era o primeiro sinal de que a bomba dentro dele tinha começado a tiquetaquear.
Ou talvez só estivesse ansioso, como ela estava. Talvez estivesse repassando o plano na mente. Ou pensando naquela garota. Scarlet.
Cress estava triste por não tê-la conhecido. Era como se a tripulação da Rampion estivesse sem uma peça vital, e Cress não entendia como ela se encaixava. Tentou pensar nas coisas que sabia sobre Scarlet Benoit. Tinha pesquisado um pouco sobre ela quando Cinder e Thorne pousaram a nave na fazenda da avó dela, mas não muito. Na época, não fazia ideia de que Scarlet tinha se juntado a eles.
E Cress só falou com ela uma vez, quando a tripulação toda fez contato e pediu ajuda. Ela pareceu legal, mas Cress estava tão concentrada em Thorne que mal se lembrava de qualquer outra coisa além do cabelo ondulado e ruivo.
Mexendo nas alças do vestido, ela olhou para Lobo de novo e o pegou em uma tentativa de afrouxar a gravata-borboleta.
— Posso fazer uma pergunta?
O olhar dele se voltou para ela.
— Não é sobre quebrar sistemas de segurança, é?
Ela piscou sem entender.
— É claro que não.
— Então, tudo bem.
Ela alisou a saia ao redor dos joelhos.
— Essa Scarlet... você está apaixonado por ela, não está?
Ele ficou paralisado, imóvel. Enquanto o aerodeslizador subia a colina até o palácio, os ombros dele murcharam e ele voltou a olhar pela janela.
— Ela é minha alfa — murmurou com uma tristeza assombrada na voz.
Alfa.
Cress se inclinou para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Como a estrela?
— Que estrela?
Ela enrijeceu, constrangida, e olhou de novo para ele.
— Ah. Hã. Em uma constelação, a estrela mais brilhante se chama alfa. Achei que você talvez quisesse dizer que ela é... como... sua estrela mais brilhante.
Ela afastou o olhar e uniu as mãos sobre o colo, ciente de que estava corando furiosamente e que aquele homem animalesco estava prestes a perceber que tola romântica ela era.
Mas, em vez de debochar ou rir, Lobo suspirou.
— Sim — disse ele, dirigindo o olhar para a lua cheia que subia sobre a cidade. — Exatamente.
Com um nó no coração, o medo que Cress sentia dele começou a diminuir. Ela estava certa. Ele era como o herói de um romance, que tentava salvar a amada. Sua alfa.
Cress precisou morder o lábio para impedir que a imaginação divagasse. Isso não era uma história boba. Scarlet Benoit era prisioneira em Luna. Era bem provável que já estivesse morta.
Foi um pensamento que despencou com força no estômago de Cress enquanto o aerodeslizador parava na frente do portão do palácio.
Um porteiro abriu a porta, e milhares de vozes soaram ao redor deles. Tremendo, Cress deu a mão para o porteiro como viu as garotas fazerem nas novelas. O calcanhar bateu no chão azulejado, e ela logo ficou cercada. Multidões de jornalistas e curiosos, tanto pacíficos quanto raivosos, ocupavam os arredores do pátio, tirando fotos, gritando perguntas, segurando cartazes que pediam que o imperador não fosse até o fim com isso.
Cress baixou a cabeça, com vontade de voltar para o aerodeslizador e se esconder das luzes intensas e da falação incessante. O mundo começou a girar.
Ah, espadas. Ela ia desmaiar.
— Senhorita? Senhorita, você está bem?
A garganta dela ficou seca. Sangue latejou nos ouvidos, e ela se sentiu afogar. Sufocar.
Mas um aperto firme em seu cotovelo a afastou do cortesão. Ela cambaleou, mas Lobo passou o braço firme como ferro na cintura dela e a apertou com força, obrigando-a a acompanhar seus passos. Ao lado dele, ela se sentia tão pequena e frágil quanto um pássaro, mas havia também uma sensação de proteção. Ela se concentrou nisso e, em momentos, um sonho reconfortante surgiu ao redor dela.
Era uma atriz famosa de novelas fazendo uma grande estreia, e Lobo era seu guarda-costas. Ele não deixaria que nada acontecesse com ela. Era só manter a cabeça erguida e ser graciosa e confiante. O belo vestido de baile se tornou uma fantasia. A imprensa virou seus fãs apaixonados. Sua coluna se empertigou, milímetro a milímetro, trêmula, enquanto a escuridão começou a sumir da visão.
— Tudo bem? — murmurou Lobo.
— Sou uma atriz famosa — sussurrou ela em resposta.
Cress não ousou olhar para ele, com medo de estragar o feitiço lançado por sua imaginação.
Depois de um momento, ele afrouxou o toque.
O barulho da multidão atrás desapareceu e foi substituído pela serenidade calma de riachos borbulhantes e o sussurro dos bambus nos jardins do palácio. Cress ficou olhando em frente, para a enorme entrada, ladeada por pérgolas carmesim. Mais dois cortesãos esperavam no alto da escada.
Lobo pegou dois convites em alto-relevo. Cress ficou perfeitamente imóvel enquanto a luz do aparelho piscava sobre o minúsculo chip inserido no papel. Ela e Lobo não se encaixariam no papel de Linh Adri e da filha, mas tinha sido brincadeira de criança mudar os perfis de identificação codificados em cada chip. De acordo com o tablet, Lobo era o sr. Samhain Bristol, representante parlamentar de Toronto, Província do Canadá do Leste, Reino Unido, e ela era sua jovem mulher. O verdadeiro sr. Bristol estava, até onde Cress sabia, em casa em segurança, sem saber que tinha um dublê de corpo estragando a declaração política que ele estava tentando fazer ao não comparecer ao casamento real. Cress torcia para que continuasse assim.
Ela soltou a respiração quando o cortesão devolveu o convite para Lobo sem nenhum sinal de hesitação.
— Estamos muito felizes pelo senhor ter decidido vir, Bristol-dàren — disse ele. — Por favor, sigam para o salão, onde vocês serão levados a seus lugares.
Quando terminou de falar, ele já estava pegando os convites do casal de trás.
Lobo a levou adiante e, se compartilhava da ansiedade dela, não demonstrava.
O corredor principal estava cheio de guardas do palácio vestindo casacos vermelhos elegantes e ombreiras com franjas. Cress reconheceu uma tela pintada em uma das paredes, montanhas acima de nuvens e um lago cheio de garças. Seu olhar subiu instintivamente para um dos candelabros decorados que ocupavam o corredor, e apesar de ser pequena demais para que visse, ela sabia que uma das câmeras da rainha estava ali, observando-os naquela hora mesmo.
Apesar de duvidar que a rainha ou Sybil ou qualquer outra pessoa que pudesse reconhecer Cress estivesse assistindo às filmagens de segurança, ela virou a cabeça e começou a rir como se Lobo tivesse contado uma piada.
Ele franziu a testa para ela.
— Esses candelabros são incríveis, não são? — disse ela, colocando no tom o máximo de leveza que conseguiu.
A expressão de Lobo permaneceu distante, e, depois de um momento de incompreensão, ele balançou a cabeça e retomou a caminhada firme para o salão.
Eles se viram em um patamar com uma escadaria que levava a um salão enorme e lindo. O simples tamanho dele a lembrou da amplidão do deserto, e ela foi tomada pelo mesmo espanto e tontura que sentiu antes. Ficou feliz por não serem os únicos no alto da escada vendo a multidão chegar e ocupar as fileiras de assentos acolchoados abaixo.
Faltava pelo menos uma hora para que a cerimônia começasse oficialmente, e muitos dos convidados estavam usando o tempo para caminhar e observar a beleza de tudo.
Muitos pilares por todo o salão eram entalhados com dragões pintados de dourado, e as paredes estavam tão cheias de buquês de flores, alguns do tamanho de Cress, que parecia que os jardins tinham começado a crescer lá dentro. Havia seis gaiolas de pássaros ao lado das janelas que iam do chão ao teto, exibindo pombas e tordos e pardais, todos cantando uma melodia caótica que rivalizava com a beleza da orquestra.
Cress se virou para olhar para Lobo, assim, se alguém olhasse para eles, teria a impressão de que estavam mergulhados em uma conversa. Ele inclinou a cabeça para ela a fim de completar a farsa, mas seu foco estava no guarda mais próximo.
— Você não acha que a gente devia... andar por aí, acha?
Ele franziu o nariz.
— Acho melhor não. — Depois de olhar ao redor, ele ofereceu o cotovelo a ela. — Mas talvez nós possamos ir admirar os pássaros nas gaiolas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!