7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e Sete

CINDER ESTAVA DEITADA DE COSTAS, OLHANDO PARA O MOTOR da Rampion. Só sua mão ciborgue se movia, girando o pequeno e cintilante chip D-COMM nos dedos, passando por um dente de cada vez. Estava hipnotizada pela forma como o material estranho do chip refletia as luzes da placa-mãe na parede, espalhando rubis e esmeraldas pelos fios e ventoinhas e fontes chaveadas que zumbiam. Hipnotizada, mas sem realmente vê-las. Seus pensamentos estavam a milhares de quilômetros.
A Terra. A Comunidade das Nações Orientais. Nova Pequim e Kai, que agora estava noivo da rainha Levana. Seu estômago se revirou, ficava se lembrando do veneno na voz dele quando Kai comentou sobre a rainha. Tentou imaginar o que ele estava pensando agora. Será que tinha outras escolhas? Não tinha como saber. Queria dizer que sim, que qualquer coisa (a guerra, a peste, a escravidão) era melhor do que escolher Levana como imperatriz, mas não sabia se era verdade.
Não sabia se ele teve escolha ou se aquela decisão tinha sido inevitável.
Seus pensamentos se afastaram da Terra e se dirigiram a Luna. Um local de que ela não se lembrava, um lar que nunca conheceu. A rainha Levana sem dúvida estava comemorando a vitória naquele momento, sem ligar para todas as vidas que tirou.
A rainha Levana. Tia de Cinder.
O chip D-COMM estalou, estalou, estalou nos dedos dela.
— Cinder? Você está aí?
Os dedos dela pararam, com o chip equilibrado no nó do dedo mindinho.
— Sim, Iko. Estou aqui.
— Na próxima vez que formos à Terra, será que você pode comprar uns sensores? Parece que estou xeretando, com o áudio ligado o tempo todo. Está ficando estranho.
— Estranho?
As luzes ficaram mais fortes, o que fez Cinder pensar que Iko estava ficando vermelha. Ela se perguntou se tinha sido intencional.
— Scarlet e Lobo estão falando coisas melosas na cozinha — explicou Iko. — Eu normalmente gosto de coisas melosas, mas é diferente quando são pessoas de verdade. Prefiro nas novelas da rede.
Inesperadamente, Cinder se viu sorrindo.
— Vou fazer o melhor que puder para comprar uns sensores na próxima vez que formos à Terra. — Voltou a mexer os dedos. O chip girou, estalou, rolou. — Como está se sentindo, Iko? Está se acostumando a ser o sistema de controle automático? Está ficando mais fácil?
Alguma coisa zumbiu no painel do computador.
— O choque já passou, mas ainda sinto como se estivesse fingindo ser muito mais poderosa do que eu sou e que vou decepcionar todo mundo. É muita responsabilidade. — As luzes amarelas ficaram mais intensas no chão. — Mas me saí bem em Paris, não foi?
— Você foi excelente.
A temperatura na sala de máquinas aumentou.
— Fui meio incrível mesmo.
— Todos estaríamos mortos, se não fosse por você.
Iko emitiu um ruído agudo incomum, que Cinder imaginou ser uma risadinha nervosa.
— Acho que não é tão ruim ser uma nave. Você sabe, enquanto você precisar de mim.
Cinder deu um sorrisinho debochado.
— É muito... grandioso de sua parte.
Uma das ventoinhas do motor ficou mais lenta.
— Foi uma piada, não foi?
Rindo, Cinder treinou girar o chip como um pião na ponta do dedo. Precisou tentar algumas vezes até pegar o jeito e conseguir vê-lo cintilar e dançar sem muito esforço.
— E você? — perguntou Iko depois de um momento. — Como é ser uma princesa de verdade?
Cinder se encolheu. O chip caiu de seu dedo, e ela quase não conseguiu pegá-lo a tempo.
— Até agora, não está sendo nem um pouco legal, como era de se imaginar. Lembra da parte de ter muito poder e responsabilidade e achar que vai decepcionar todo mundo? Porque me pareceu bem familiar.
— Pensei que seria o caso mesmo.
— Você está zangada porque não contei?
Houve um longo período de silêncio, o que provocou vários nós no estômago de Cinder.
— Não — respondeu, por fim, e Cinder desejou que seu detector de mentiras funcionasse com androides... ou espaçonaves. — Mas estou preocupada. Antes, achava que a rainha Levana se cansaria de nos procurar e acabaríamos podendo voltar para casa, ou ao menos voltar para a Terra e viver vidas normais de novo. Mas isso nunca vai acontecer, não é?
Cinder engoliu em seco e começou a girar o chip nos dedos de novo.
— Acho que não.
Clique, clique, clique.
Ela expirou e girou o chip uma última vez, depois o guardou na mão fechada.
— Levana vai assassinar Kai depois que se casarem. Vai ser coroada imperatriz, depois vai matá-lo e vai ter toda a Comunidade das Nações Orientais sob controle. Depois disso, vai ser mera questão de tempo até que invada o resto da União. — Tirou o cabelo da testa. — Pelo menos, foi o que aquela garota me disse. A programadora da rainha.
Ela afrouxou um pouco a mão fechada, com medo de o punho de metal esmagar o chip enquanto estivesse distraída.
— Mas eu gosto de Kai.
— Você e todas as garotas da galáxia.
— Todas as garotas? Você finalmente está se incluindo nessa contagem?
Cinder mordeu o lábio. Sabia que Iko estava pensando em todas as vezes que Cinder zombara de Peony por causa de sua quedinha inútil pelo príncipe, fingindo ser imune a tolices similares.
Mas aquilo parecia ter sido muito tempo antes. Mal conseguia se lembrar da garota que fora naquela época.
— Só sei que não posso deixar que ele se case com Levana — disse com a voz engasgada. — Não posso deixar que isso aconteça.
Segurou o chip entre o polegar e o indicador. A nova mão ainda parecia nova demais. Tão limpa, tão imaculada. Ela apertou os olhos e deixou que a corrente elétrica fluísse da coluna e aquecesse o pulso até a mão parecer humana. De pele e osso.
— Eu concordo — disse Iko. — Então, o que você vai fazer?
Cinder engoliu em seco e deixou o glamour mudar. A carne da mão voltou a ser metal; não titânio impecável, mas aço simples, surrado pelo tempo, com sujeira nas fendas, um pouco pequena demais, um pouco rígida demais. A mão ciborgue substituída. A que sempre escondia, normalmente com algodão pesado e manchado. Uma vez, com seda.
A garota que fora na época. A que sempre tentou manter às escondidas.
Uma luz laranja piscou no canto de sua visão. Ela a ignorou.
— Vou deixar Lobo me treinar. Vou me tornar mais forte do que ela. — Girou o chip de novo. Foi estranho no começo, porque ela precisava cuidar para que os dedos na ilusão se movessem da forma como deveriam, que as juntas se flexionassem e mexessem na hora certa. — Vou encontrar o dr. Erland, e ele vai me ensinar como vencê-la. Depois, vou procurar a garota que programou este chip, e ela vai me contar tudo que sabe sobre Luna, a segurança de lá e todos os segredos da rainha.
Clique. Clique. Clique.
— Depois, vou parar de me esconder.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!