20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e seis

Kai não sabia como acabou vestido de noivo outra vez. Ele não disse nada enquanto estilistas ajeitavam seu cabelo e suas roupas. Não seria capaz de identificar nenhum deles depois que fossem embora.
Cinder estava morta. Isso, ou Levana a estava mantendo presa em algum lugar. Ele não sabia qual das duas opções era pior.
Cinder.
O nome dela se repetia em sussurros em sua mente, toda vez um espinho novo cravado na pele.
A corajosa e determinada Cinder. A inteligente, criativa, sarcástica Cinder.
Ele se recusava a acreditar que ela estava morta. O que um dedo indicava, de verdade?
Kai avaliou cada possibilidade. Era um dedo falso que Levana mandara fazer para atormentá-lo. Ou Cinder o tinha perdido em batalha, mas o resto dela escapara. Ou… deveria haver alguma outra explicação. Ela não poderia estar morta.
Não Cinder.
O cérebro dele estava enevoado, como se a tarde tivesse se passado em um sonho vago. Um pesadelo vago.
Quer o dedo significasse ou não o que ele temia, logo estaria casado com Levana.
Depois de tudo, de todo o planejamento, de todas as esperanças. Era assim que tudo terminava, do jeito como Levana pretendeu desde o começo.
— O que eu estou fazendo? — perguntou ele quando Torin voltou após trocar de roupa.
A não ser que fosse um taumaturgo usando um glamour para incorporar Torin…
Ele apertou bem os olhos.
Odiava aquele lugar.
Torin suspirou e ficou de pé ao lado de Kai. A Terra parecia suspensa acima deles, sua forma quase cheia no céu lotado de estrelas.
— Você está acabando com uma guerra — disse seu conselheiro. — E obtendo um antídoto.
Kai usou esses mesmos argumentos tantas vezes que eles começaram a perder o sentido.
— Não era para ser assim. Eu achei… Eu achei mesmo que ela tinha chance.
Ele sentiu a mão em seu ombro. Era tão reconfortante quanto podia ser.
— Você ainda não se casou com ela, Vossa Majestade. Ainda pode dizer não.
Uma gargalhada irônica escapou de sua boca.
— Enquanto estamos presos aqui? Ela nos massacraria.
Ir até Luna foi um erro. No final, suas boas intenções não importavam. Ele fracassou.
Um taumaturgo entrou e, apesar de estar ladeado por dois guardas pessoais de Kai, todo mundo no aposento sabia que ambos eram meros ornamentos.
— Vim escoltá-lo até o grande salão — disse o taumaturgo. — A cerimônia está prestes a começar.
Kai passou as mãos na camisa de seda. Em vez de úmidas e grudentas, estavam secas.
Secas e geladas.
— Tudo bem — disse ele. — Estou pronto.
Torin ficou ao lado dele pelo tempo que pôde, seguindo o grupo pelos corredores enormes do palácio até ser obrigado a se juntar ao resto dos representantes e convidados da Comunidade. Tudo aconteceu em um borrão, e, embora Kai sentisse como se estivesse andando com sapatos de ferro, eles chegaram ao salão de baile rápido demais.
Respirou fundo enquanto sua descrença era interrompida por uma pontada de pânico.
Quando ensaiaram no dia anterior, tudo pareceu uma piada. Como se ele estivesse em um jogo e, pela primeira vez, tivesse as melhores cartas. Mas agora, enquanto o taumaturgo fazia um gesto indicando que ele devia tomar seu lugar no altar montado na frente do salão de baile, Kai vislumbrava centenas de lunares vestidos de forma exótica à frente, e tudo desmoronou.
Não era um jogo.
A primeira-ministra Kamin estava no tablado, atrás de um altar decorado de dourado e preto, coroado com centenas de pequenas esferas. Ela fitou os olhos de Kai enquanto ele se dirigia para a plataforma. Sua expressão era solidária. Kai se perguntou se ela percebia que Levana pretendia conquistar o país dela também, depois que estivesse com a Comunidade sob domínio firme. Levana planejava conquistar todos eles.
Inspirar. Expirar. Ele se virou sem retribuir o quase sorriso de Kamin.
A multidão era maior do que ele imaginava; mil pessoas se reuniam com seus melhores trajes de gala. O contraste entre as cores pálidas dos terráqueos e os brilhos e fluorescentes dos lunares era risível. Havia um corredor no meio do salão, demarcado por candelabros com mais esferas claras, as luzes tremeluzindo como pequenas chamas.
O tapete do corredor era preto, com pedrinhas imitando o céu noturno. Ou o céu de sempre, como era em Luna.
Um silêncio se espalhou pelo aposento, e Kai percebeu que não era um silêncio normal. Era controlado demais, impecável demais.
Seu coração bateu disparado no peito. Aquele era o momento que ele temia, o destino contra o qual lutou por tanto tempo. Ninguém ia interferir. Ele estava sozinho, grudado no chão.
Nos fundos do salão, as portas enormes se abriram, acompanhadas do som de trombetas. No final do corredor, duas sombras surgiram, um homem e uma mulher de uniformes militares carregando as bandeiras de Luna e da Comunidade das Nações Orientais. Depois que eles se separaram para colocar as bandeiras em dois mastros dos dois lados do altar, uma série de guardas lunares marchou para a sala, totalmente armados e sincronizados. Eles também se espalharam quando chegaram ao altar, como um muro protetor ao redor da plataforma.
Em seguida, apareceram seis taumaturgos de preto no corredor, andando em duplas, graciosos como cisnes negros. Eles foram seguidos de dois de vermelho e, finalmente, do taumaturgo-chefe Aimery Park, todo de branco.
Uma voz soou, vinda de alto-falantes escondidos:
— Todos se levantem para Sua Majestade Real, a rainha Levana Blackburn de Luna.
As pessoas se levantaram.
Kai uniu as mãos trêmulas nas costas.
Ela apareceu primeiro como uma silhueta nas luzes das portas, uma ampulheta perfeita terminando em uma saia cheia que flutuava atrás de si. Andou com a cabeça erguida, deslizando na direção do altar. O vestido era vermelho-escarlate, intenso como sangue, com correntes de ouro delicadas penduradas ao redor dos ombros. Lembrou a Kai uma papoula vermelho-sangue, com pétalas grandes e pendentes. Um véu dourado transparente cobria o rosto dela e tremia como uma vela conforme andava.
Quando estava perto o bastante, Kai identificou partes do rosto pelo véu. Os lábios foram pintados para combinar com o vestido, e os olhos ardiam de vitória. Ela andou até a plataforma e parou ao lado de Kai. A barra da saia se acumulou ao redor dos pés.
— Podem se sentar — disse a voz sem corpo.
As pessoas se acomodaram nas cadeiras. A primeira-ministra Kamin levantou o tablet, apoiado no altar.
— Senhoras e senhores, lunares e terráqueos — começou ela, com um microfone escondido que espalhava sua voz pela multidão. — Nós nos reunimos hoje para testemunhar uma união histórica entre a Terra e Luna, uma aliança formada por confiança e respeito mútuos. É um momento importante na nossa história, que vai simbolizar para sempre o relacionamento duradouro do povo de Luna e do povo da Terra.
Ela fez uma pausa para as palavras serem absorvidas pela multidão. Kai sentiu vontade de vomitar.
A primeira-ministra se concentrou na noiva e no noivo.
— Estamos aqui para testemunhar o casamento do imperador Kaito da Comunidade das Nações Orientais e da rainha Levana Blackburn de Luna.
Kai encarou os olhos de Levana através do véu. O sorriso provocador o tirou do estado de negação.
Cinder estava capturada ou morta. O casamento aconteceria como planejado; a coroação seria feita em dois dias.
Restava só ele. A última linha de defesa entre Levana e a Terra.
Que fosse.
Ele firmou o maxilar e voltou a olhar para a celebrante. Deu um pequeno aceno. O casamento começou.

2 comentários:

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!