13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e seis

CRESS SE EXAMINOU NO ESPELHO DE CORPO INTEIRO DO trocador e quase começou a chorar.
De alguma forma, tinha se tornado uma personagem de ópera.
A pele descascou depois da queimadura e deixou um leve toque de sol. Iko tinha cortado seu cabelo, que emoldurava o rosto em ondas douradas graciosas, e, apesar de não haver maquiagem na nave, também a ensinou a beliscar as bochechas e morder os lábios até ficarem de uma cor rosada.
Apesar de tudo o que sentira, ela estava começando a gostar de Iko. Pelo menos, não era horrível como Darla.
E apesar de ter sido Cress quem fez a compra urgente na butique de marca usando uma conta roubada, ela não acreditou antes daquele momento que isso tudo aconteceria.
Ela ia a um casamento real, usando um vestido de seda e chiffon tingido de azul royal para realçar seus olhos (sugestão de Iko). O corpete era justo, e a saia era tão ampla que ela não tinha certeza de que conseguiria andar sem tropeçar. Nos pés, sapatilhas simples. Apesar de ela e Iko terem discutido sobre uma variedade de sapatos de salto alto elegantes, Cinder lembrou a todos que Cress talvez precisasse correr para salvar a vida em algum momento dos eventos do dia, e a praticidade venceu.
— Bristol-mèi, o que você acha? — perguntou a vendedora quando fechou o último botão nas costas de Cress.
— É perfeito. Obrigada.
A garota se estufou de orgulho.
— Estamos muito felizes por você ter nos escolhido para comprar a roupa do casamento real. Não poderíamos ficar mais honrados. — Ela afastou o cabelo de Cress das orelhas. — Você trouxe suas joias, para podermos ver como tudo fica junto?
Cress puxou o lóbulo da orelha com constrangimento.
— Ah, não, tudo bem. Eu, hã... tenho que pegar no caminho. Do palácio.
Apesar de um brilho de confusão ter surgido no rosto da garota, ela apenas fez uma reverência com a cabeça e saiu do trocador.
— Está pronta para seu marido vê-la?
Cress fez uma careta.
— Acho que sim.
Ela seguiu a vendedora para fora do trocador até uma sala com mobília luxuosa, onde viu o novo “marido”.
Lobo estava olhando irritado para um espelho e tentando ajeitar o cabelo desgrenhado. Usava um smoking impecável com gravata-borboleta clássica e gola engomada.
Ele olhou nos olhos de Cress pelo reflexo, e ela não conseguiu evitar se empertigar um pouco, mas, apesar de examiná-la, ele não teve reação nenhuma.
Desanimada, Cress uniu as mãos.
— Você está lindo... querido.
Ele estava mesmo, como um herói de romance, só músculos e ângulos e ossos esculpidos. Também parecia infeliz.
Nervosa de repente, Cress deu uma voltinha para mostrar a roupa toda.
Lobo só assentiu de forma rígida.
— O aerodeslizador está esperando.
Ela baixou as mãos para os lados do corpo, resignada ao fato de que Lobo estava disposto a se vestir para o papel, mas não a desempenhá-lo.
— Certo. Você está com os convites?
Ele bateu no bolso do peito.
— Vamos acabar logo com isso.


NA NAVE DE ENTREGA, VIAJANDO DO GALPÃO ATÉ O BUFÊ, IKO TEVE muita facilidade para mandar que outro androide trocasse de roupa com ela, para que ela pudesse se misturar com o resto dos outros usando uniformes de trabalho, desde que ninguém se incomodasse com as tranças azuis no cabelo, que estava preso em um coque apertado.
Iko saiu da nave com o primeiro grupo de androides alugados na sede do bufê e, quando seu dublê de corpo fosse encontrado depois, no florista, usando as roupas erradas, já estaria longe.
E quem desconfiaria dela? Ela era só mais uma androide sem cérebro e obediente.
Mas essa era a parte difícil.
Ficar em perfeita sincronia com os outros. Piscar precisamente dez vezes por minuto.
Ficar calada enquanto a equipe humana do bufê conversava com animação sobre talvez ver o imperador em pessoa e debatia sobre o quanto seria apavorante se a rainha Levana não ficasse satisfeita com a comida. Iko foi obrigada a morder a língua e permitir que os instintos programados, os que ela passou a vida tentando enterrar enquanto aprendia sobre humor e sarcasmo e afeição, a deixassem sem expressão.
De lá, eles foram levados a um aerodeslizador. Apesar de não ser uma distância grande, a viagem foi maior porque o veículo contornou para os fundos do palácio, para perto da área de laboratórios e pesquisas e, claro, da entrada dos funcionários.
Iko sentiu a conversa dos humanos do bufê ficar mais nervosa conforme o aerodeslizador diminuía a velocidade.
Ela ouviu portões se abrindo, e o aerodeslizador foi reduzindo gradualmente até parar. As pessoas começaram a seguir para uma doca de descarga comercial. Não era a entrada chique pela qual Iko sempre visualizou ingressar no palácio, mas tentou não deixar a decepção à mostra ao entrar na fila atrás dos colegas rígidos.
Havia duas mulheres ao lado da entrada. Uma, usando um sári de tom de pedras preciosas, estava anotando alguma coisa no tablet, enquanto a outra verificava chips de identificação para garantir que a equipe tivesse sido pré-aprovada para trabalhar nesse evento importante. Quando terminou com os humanos, ela mandou que os androides-acompanhantes fizessem duas filas. Iko foi para o final quando eles foram levados para dentro.
Foram guiados pelos corredores de serviço sem graça, com os sapatos estalando em sincronia perfeita. Iko observou com cuidado o progresso, contando portas e comparando com a planta que tinha na memória. A cozinha estava precisamente onde ela esperava e era ainda maior pessoalmente do que parecera na tela, com oito fornos de proporção industrial, incontáveis fogões e três bancadas que se esticavam por todo o comprimento do aposento, onde dezenas de chefs cortavam, amassavam, misturavam e mediam ao se prepararem para servir mil e duzentos dos convidados mais honrados da galáxia.
A mulher de sári puxou um homem de casaco de chef para o lado.
— Os androides! — gritou ela em meio à barulheira, indicando Iko e os outros. — Onde você os quer?
Ele observou a fila e prestou atenção por um instante no cabelo azul de Iko. Evidentemente, determinou que se importar não estava na descrição de seu trabalho e prosseguiu deslocando o olhar.
— Deixe-os aqui por enquanto. Vamos mandá-los com a equipe normal durante o primeiro serviço. Eles só precisam carregar uma bandeja e sorrir. Acha que conseguem?
— Eles nos garantiram que a programação é imaculada. Seria melhor se pudessem se concentrar em nossos convidados lunares. Quero que fiquem alerta para o caso de alguma coisa... indesejável acontecer.
Ele deu de ombros.
— Ninguém da minha equipe quer envolvimento com os lunares.
O homem voltou ao trabalho de organizar bandejas douradas em estações de trabalho diferentes, e a mulher saiu sem olhar para os androides.
Iko ficou imóvel e se comportou muito, muito bem, e esperou. E aguardou. E tentou imaginar o que estava acontecendo com Cinder e Cress e os outros. Ninguém da equipe da cozinha prestou atenção neles além de lançar-lhes um olhar ocasional por ocuparem espaço demais na cozinha lotada.
Iko esperou até ficar confiante de que ninguém estava olhando e aproximou a mão da parte de trás da androide ao lado. A androide nem tremeu quando Iko procurou o trinco no pescoço, abriu e passou os dedos pelo painel de controle. Ela apertou um botão.
— Agora aceitando ordens externas — disse a androide em uma voz que não era nem humana, nem robô.
Iko baixou a mão e observou os chefs ali perto.
A cozinha estava barulhenta demais. Ninguém ouviu.
— Siga-me.
E, quando teve certeza de que ninguém estava olhando, entrou no corredor mais próximo.
A androide foi atrás como um animal treinado. Iko seguiu por dois corredores, prestando atenção em vozes e passos, mas as áreas menos usadas estavam abandonadas. Como esperado, toda a equipe disponível preparava a cerimônia e a recepção, sem dúvida medindo a distância entre pratos e colheres de sopa naquele momento exato.
Quando elas chegaram a um armário de manutenção, Iko fez a androide-acompanhante entrar.
— Quero que você saiba que não tenho nada contra você — disse ela, como apresentação. — Entendo que não é sua culpa seu programador ter tão pouca imaginação.
A androide-acompanhante sustentou o olhar dela com olhos vazios.
— Em outra vida, poderíamos ter sido irmãs, e acho importante reconhecer isso.
Um olhar vazio. Um piscar de olhos a cada seis segundos.
— Mas acontece que sou parte de uma missão importante agora, e não posso ser desviada do meu objetivo por minha solidariedade por androides menos avançados do que eu.
Nada.
— Tudo bem, então. — Iko esticou as mãos. — Preciso das suas roupas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!