7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e Seis

SCARLET CHOROU DURANTE HORAS ENCOLHIDA NO BELICHE DE baixo da cabine da tripulação. Cada soluço pulsava pelos músculos doloridos, mas a dor só fazia com que chorasse mais com a lembrança de tudo pelo que passara.
A adrenalina, a raiva e a negação sumiram quando revirou a cômoda e encontrou um uniforme militar dobrado na gaveta de baixo. Embora o uniforme americano fosse todo cinza e branco, em vez da mistura de azuis dos uniformes dos pilotos europeus, ainda parecia muito com as roupas que sua avó usara nos dias de militar.
Agarrou a camiseta branca lisa e chorou nela por tanto tempo que ficou quase tão suja quanto as roupas que precisava tirar.
Seu corpo todo latejava quando as lágrimas finalmente começaram a secar. Esforçando-se para respirar, deitou de costas e secou as últimas com o tecido de algodão. Antes, cada vez que o choro começava a diminuir, as palavras ecoavam na cabeça dela, grand-mère morreu, e outra torrente se iniciava. Mas as palavras estavam ficando vazias, a dor estava virando entorpecimento.
O estômago dela roncou.
Gemendo, Scarlet colocou a mão na barriga e se perguntou se o corpo seria capaz de esquecer que não comia havia mais de um dia se fechasse os olhos e dormisse. Mas, enquanto ainda estava deitada ali, desejando que o entorpecimento tomasse conta de si, o estômago roncou de novo. Mais alto.
Scarlet fungou, irritada. Apoiou-se na cama de cima e sentou. Mesmo com a cabeça girando de tontura e desidratação, conseguiu cambalear até a porta.
Ouviu um estrondo vindo da cozinha assim que abriu a porta. Quando espiou pelo corredor, viu Lobo inclinado em uma bancada, segurando uma lata.
Ao entrar na luz da cozinha, Scarlet viu que a lata tinha uma etiqueta com a imagem de tomates vermelhos. A julgar pelos amassados enormes nas laterais, Lobo estava tentando abrir com um martelo de carne.
Ele olhou para Scarlet, e ela ficou feliz por não ser a única com o rosto vermelho.
— Por que colocariam comida aqui se é tão difícil de abrir?
Ela mordeu o lábio para evitar um sorriso fraco, sem saber se era de pena ou de diversão.
— Você tentou o abridor de latas?
Ao ver a expressão de incompreensão de Lobo, contornou a mesa e mexeu na gaveta de cima.
— Nós, terráqueos, temos tipos especiais de ferramentas, como esta — continuou, mostrando o abridor de latas. Prendeu-o na beirada da lata e girou lentamente até abrir.
As orelhas de Lobo ficaram cor-de-rosa quando ele puxou a tampa e olhou para a pasta vermelha.
— Não era isso que eu estava esperando.
— Não é fresco da fazenda como aqueles com os quais você se acostumou, mas vai ter que servir. — Scarlet revirou o armário, encontrou uma lata de azeitonas e um vidro de alcachofras em conserva. — Vem, vamos fazer um lanche.
Ela sentiu um toque delicado no cabelo e se afastou. Lobo baixou a mão e segurou a beirada da bancada.
— Me desculpe. Você estava... seu cabelo...
Depois de colocar a lata e o vidro na bancada, Scarlet tateou a parte de trás da cabeça e descobriu que o cabelo estava embaraçado como um palheiro. Empurrou as azeitonas para Lobo.
— Por que você não experimenta o abridor de latas?
Enquanto puxava os nós distraidamente, encontrou um garfo e se sentou à longa mesa. Havia anos de iniciais de tripulação militar entalhadas no tampo, o que a fez se lembrar da cela de prisão no teatro da ópera. Embora estar na nave fosse infinitamente melhor do que estar naquele porão, o confinamento ainda a incomodava e era quase sufocante. Sabia que a avó devia ter trabalhado em uma nave parecida durante a época em que serviu como militar. Não era surpresa ela ter ido para uma fazenda, com todo o céu e o horizonte que uma pessoa poderia querer.
Esperava que Émilie ainda estivesse cuidando dos animais.
Quando não conseguiu encontrar mais nenhum nó, alisou o cabelo com as mãos, depois abriu o vidro de alcachofra. Ao erguer o rosto, viu que Lobo ainda estava de pé com as latas de azeitonas e tomates, uma em cada mão.
— Você está bem?
Os olhos dele brilharam. Pânico, pensou. Talvez medo.
— Por que você me trouxe para cá? — perguntou Lobo. — Por que não me deixou para trás?
Ela baixou o olhar, pegou uma alcachofra e viu o azeite escorrer de volta para o vidro.
— Não sei. Não deu para parar e avaliar os prós e contras. — Deixou o coração de alcachofra cair de novo na conserva. — Mas não me pareceu certo deixar você lá.
Ele virou de costas, colocou as latas na bancada e pegou o abridor. Na terceira tentativa, conseguiu prendê-lo na tampa da lata de azeitonas e girar na beirada.
— Por que não me contou a verdade? — indagou Scarlet. — Antes de chegarmos a Paris?
— Não teria feito diferença. — Colocou as latas abertas sobre a mesa. — Você ainda teria insistido em ir atrás da sua avó. Pensei que pudesse debater com Jael e convencê-lo de que você era inútil para nós, que ele devia deixá-la ir embora. Mas eu só poderia fazer isso se ainda fosse leal a eles.
Scarlet espetou o coração de alcachofra de novo e o colocou na boca. Não queria discutir o que poderia ter acontecido. Não queria insistir em todas as escolhas que poderiam ter terminado com ela e a avó em segurança na fazenda. Nem sabia se tais escolhas existiam.
Lobo baixou o olhar e se sentou no banco em frente a ela, fazendo uma careta de dor a cada movimento. Depois de acomodado, pegou um tomate na lata e enfiou na boca. Seu nariz se enrugou. Parecia que estava engolindo uma minhoca.
Scarlet apertou os lábios para sufocar uma risadinha.
— Acaba fazendo você gostar mais dos tomates da minha fazenda, não?
— Eu gostei de tudo que você me deu. — Pegou a lata de azeitonas e cheirou, com medo de estar sendo enganado de novo. — Apesar de não ter merecido nada daquilo.
Scarlet mordeu o lábio. Achava que ele não estava se referindo aos alimentos.
Inclinou a cabeça, enfiou o garfo na lata de azeitonas que Lobo estava segurando e conseguiu espetar duas.
Eles comeram em silêncio. Lobo descobriu que gostava de azeitonas e sofreu ao comer mais dois tomates, até Scarlet oferecer uma alcachofra. Descobriram que a combinação dos dois era quase aceitável.
— Um pouco de pão seria ótimo — disse Scarlet enquanto observava as prateleiras atrás de Lobo, com pratos de modelos variados e canecas de café com a insígnia da República da América.
— Me desculpe.
Com os braços arrepiados, ela ousou olhar para ele, mas Lobo estava olhando para a lata de tomates, quase esmagando-a na mão fechada.
— Tirei de você tudo que você gostava. E sua avó...
— Não, Lobo. Não faça isso. Não podemos mudar o que aconteceu, e... você me deu aquele chip. Você me salvou de Ran.
Ele encolheu os ombros. Metade do cabelo estava desgrenhado e emaranhado e normal, e a outra metade ainda estava grudada com o sangue seco.
— Jael me disse que ia torturar você. Achava que isso ia fazer sua avó falar. E eu não consegui...
Scarlet tremeu e fechou os olhos.
— Eu sabia que me matariam quando descobrissem, mas... — Ele lutou para encontrar palavras e respirou fundo. — Acho que percebi que preferia morrer por tê-los traído a viver porque traí você.
Scarlet limpou os dedos oleosos na calça jeans.
— Eu ia voltar para buscar você e sua avó quando vi você sendo perseguida por Ran. Minha cabeça estava tão confusa que eu não conseguia pensar direito. Sinceramente, não sei se eu pretendia ajudar ou matar vocês. Mas, quando Ran jogou você naquela estátua, alguma coisa... — Os nós de seus dedos ficaram brancos. Balançou a cabeça, e as pontas dos cabelos balançaram junto. — Não importa. Era tarde demais.
— Você me salvou.
— Você não teria que ser salva se não fosse por minha culpa.
— Ah? Então, se você não tivesse sido escolhido para me raptar ou para descobrir que informações eu tinha, teriam me deixado em paz? Não. Se tivesse sido qualquer outra pessoa, eu estaria morta agora.
Lobo franziu a testa.
— E não acredito nem por um segundo que você ia voltar para nos matar. Independentemente de quanto controle aquele taumaturgo tinha sobre você, ainda era você aí dentro. Você não ia me machucar.
Lobo olhou nos olhos dela, triste e confuso.
— Espero sinceramente que nunca tenhamos que testar essa teoria de novo. Porque você não faz ideia do quanto foi arriscado.
— Mas você lutou contra aquilo.
O rosto dele se contorceu, mas Scarlet ficou feliz por Lobo não discutir.
— Não devia ter sido possível resistir daquele jeito. O que fizeram conosco... com nossos cérebros... mudou a forma como pensamos nas coisas. A raiva e a violência vêm tão rápido, mas as outras coisas... Não devia nem ser possível. — A mão dele começou a se deslocar na direção da dela, mas parou na metade do caminho. Ele a retraiu rapidamente e mexeu no rótulo da lata de tomate.
— Bem, e se... — Scarlet inclinou a cabeça. — Você disse que eles controlam quando seus instintos animais superam seus próprios pensamentos, certo? Mas lutar e caçar não são os únicos instintos que um lobo tem. Os lobos... não são monogâmicos, por exemplo? — Suas bochechas ficaram quentes, e ele precisou afastar o olhar enquanto passava o garfo em uma inicial entalhada. — E o macho alfa não é o responsável por proteger todo mundo? Não só a matilha, mas sua companheira também? — Ela largou o garfo e levantou as mãos no ar. — Não estou dizendo que acho que você e eu somos... Depois de só... Sei que acabamos de nos conhecer e... Mas não está fora de questão, está? Que seus instintos de me proteger possam ser tão fortes quanto os instintos de matar?
Ela prendeu a respiração e ousou olhar para ele. Lobo estava boquiaberto enquanto a encarava, e por um segundo pareceu quase envergonhado. Mas sorriu, com uma expressão calorosa e confusa. Scarlet teve um vislumbre dos dentes afiados e sentiu um nó no estômago ao vê-los.
— Você pode estar certa — disse. — Faz algum sentido. Em Luna, ficávamos tão distanciados do resto da população que nunca havia chance de...
Scarlet se animou de ver que ele também estava ficando vermelho.
Ele coçou a orelha.
— Talvez seja isso. Talvez o controle de Jael tenha funcionado contra ele, porque meus instintos me mandavam proteger você.
Scarlet tentou dar um sorriso indiferente.
— Aí está. Enquanto houver uma fêmea alfa por perto, você deve ficar bem. Não deve ser difícil encontrar uma, certo?
A expressão de Lobo ficou pétrea, e ele afastou o olhar. O clima ficou desconfortável de novo.
— Sei que você não deve querer nada comigo. Não culpo você. — Lobo deu de ombros e olhou para ela com uma expressão de remorso. — Mas você é a única, Scarlet. Sempre será a única.
A pulsação dela acelerou.
— Lobo...
— Eu sei. Nos conhecemos há menos de uma semana, e nesse tempo não fiz nada além de mentir, enganar e trair você. Eu sei. Mas, se me der uma oportunidade... Só quero proteger você. Ficar perto de você. Pelo tempo que puder.
Ela mordeu o lábio, se inclinou para a frente e afastou os dedos dele da lata. Viu que o rótulo estava picotado por baixo da movimentação inquieta daquelas mãos.
— Lobo, você está me pedindo para ser... sua fêmea alfa?
Ele hesitou.
Scarlet não conseguiu evitar e caiu na gargalhada.
— Ah... me desculpe. Isso foi cruel. Sei que eu não deveria provocar você com isso. — Ainda sorrindo, tentou puxar a mão, mas ele de repente a estava segurando, se recusando a interromper o contato. — Você parece tão assustado, como se eu fosse desaparecer a qualquer minuto. Estamos presos em uma nave espacial, Lobo. Não vou a lugar algum.
Os lábios dele tremeram e o nervosismo começou a sumir, embora a mão continuasse tensa sobre a dela.
— Fêmea alfa — murmurou. — Acho que gosto disso.
Com um sorriso largo, Scarlet deu de ombros de leve.
— Posso acabar gostando também.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!