20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e quatro

— A rainha está tensa — disse Jacin enquanto prendia o coldre por cima do uniforme. — Ela está quieta, tentando fingir que não tem nada acontecendo, para que as famílias não entrem em pânico. Mas dá para perceber que alguma coisa mudou.
De pernas cruzadas na cama, Cress estava aninhando o tablet junto ao peito. A tentação de mandar uma mensagem para Thorne e os outros ia aumentando com o tempo. A curiosidade estava acabando com ela, e a separação a deixou ansiosa e solitária.
Mas ela não correria o risco do rastreio de um sinal. Não os colocaria em mais perigo do que estavam correndo, nem a si mesma, na verdade.
Mesmo assim. Estar tão desconectada era um sofrimento.
— Você não sabe se o vídeo foi transmitido? — perguntou ela.
Jacin deu de ombros e passou pelo processo de verificar a munição e a trava da arma com movimentos práticos. Ele a enfiou no coldre.
— Sei que a rainha gravou uma transmissão improvisada dela falando. Acho que arrastou o imperador junto, mas não passou em Artemísia, então não sei o que dizia. Podia ser só um comunicado de casamento inútil.
Cress lambeu os lábios.
— Se eu tivesse acesso ao centro de segurança de novo, poderia descobrir…
— Não.
Ela olhou para ele com raiva, e deu de cara com um dedo apontado para o nariz.
— Nós já corremos muito risco. Você vai ficar aqui. — Virando-se, ele ajustou a armadura no ombro, parecendo novamente um servo leal da rainha. — Tenho um longo turno hoje, estou de serviço durante todo o casamento e durante a festa. Mas a maioria de nós está, então as coisas por aqui devem ficar tranquilas, pelo menos.
Cress suspirou. Houve uma época em que o silêncio e a solidão seriam reconfortantes. Era com isso que ela estava acostumada no satélite, afinal. Mas, naquele momento, faziam com que ela se sentisse ainda mais prisioneira.
— Tchau — murmurou ela, acrescentando quase de brincadeira: — Me traga um pedaço de bolo.
Jacin fez uma pausa com a mão na porta. Sua expressão se suavizou.
— Vou fazer o possível.
Ele abriu a porta e congelou.
O coração de Cress pulou na garganta.
Havia outro guarda no corredor, com a mão levantada para bater na porta. Ele olhou de Jacin para Cress.
Recuperando-se mais rápido do que Cress, Jacin cruzou os braços e se encostou na moldura da porta, bloqueando a visão do guarda.
— O que você quer?
— Quem é ela? — perguntou o guarda.
— Isso é coisa minha.
— Ah, por favor. — O guarda empurrou o braço de Jacin e forçou caminho para entrar no quartinho. Cress se encostou na parede, apertando o tablet com tanta força que ouviu o plástico estalar. — Muitos guardas têm amantes, mas não você.
A porta se fechou.
Cress estava olhando para o estranho quando ouviu o estalo de uma trava de arma sendo solta.
O guarda ficou paralisado, de costas para Jacin. O olhar era de surpresa quando ele levantou as mãos ao lado das laterais da cabeça.
— Quem falou qualquer coisa sobre amante? — resmungou Jacin.
Cress engoliu em seco. Esse guarda era desconhecido, com olhos escuros e cabelo ondulado cortado acima das orelhas. Ela não se lembrava dele da emboscada nas docas, mas não tinha como ter certeza.
— Não é a recepção que eu esperava — disse o guarda.
Jacin manteve a arma apontada para as costas dele.
— Não gosto que as pessoas saibam das minhas coisas. — O rosto dele estava calmo. Tão calmo que apavorou Cress quase tanto quanto a presença do estranho. — Kinney, não é?
— Isso mesmo.
— Nunca cheguei a agradecer por você falar por mim no julgamento.
— Não foi nada.
— Pegue as armas dele.
Demorou um tempo para Cress perceber que Jacin estava falando com ela. Ela ofegou e se levantou da cama. O guarda, Kinney, não se moveu quando ela pegou a arma e a faca e recuou novamente, feliz de colocá-las na cama.
— Eu prefiro não matar você — disse Jacin. — Mas você vai ter que me dar um motivo muito bom para isso.
A sobrancelha de Kinney tremeu. Ele estava olhando para Cress de novo. Pareceu curioso, mas não com medo, como deveria.
— Eu salvei sua vida.
— Já falei disso.
— Que tal isto: o som da arma vai fazer todos os guardas virem correndo.
— A maioria já está em serviço. Eu aceito o risco.
Cress pensou ter detectado um sorriso, mas então Kinney se virou para olhar para Jacin.
— E que tal porque eu salvei a vida da princesa Winter?
Jacin apertou os olhos.
— Há boatos de rebelião nos setores externos. Acabei de voltar de uma incursão ao MR-9, e, enquanto revistava a casa de uma simpatizante conhecida dos rebeldes, fiquei chocado ao dar de cara com a princesa em pessoa. Eu acreditava que ela estava morta, como todo mundo. — Ele inclinou a cabeça. — Deve acabar com você todos acharem que você a matou por ciúme bobo. Admito que acreditei. Andei meio tentado a matar você como retribuição, e sei que não fui o único.
Um músculo tremeu no maxilar de Jacin.
— Peço desculpas por ter avaliado você mal. — Kinney baixou os braços e prendeu os polegares no cinto. Jacin não se mexeu. — Sei que você gosta dela mais do que qualquer um de nós.
Quando o silêncio se prolongou de forma dolorosa entre eles, Cress perguntou:
— Então… ela está viva?
Kinney olhou para ela e assentiu.
— Eu a mandei se esconder. Até onde eu sei, todo mundo pensa que ela está morta.
Jacin pareceu estar com areia na garganta quando perguntou:
— Ela pareceu bem?
Kinney curvou os lábios, achando graça.
— Eu diria que ela parecia bem melhor do que bem, mas aí você acabaria atirando em mim.
Franzindo a testa, Jacin baixou a arma, mas não a guardou.
— Então você a viu. Isso não explica como salvou a vida dela.
— Jerrico também estava lá. Acho que ele sabia que a rainha mandou matá-la. Ele queria matá-la e arrastar o corpo até aqui, então eu atirei nele.
Apesar de tentar parecer indiferente, Cress ouviu o tom dele oscilar.
— Você o matou? — perguntou Jacin.
— Matei.
Eles ficaram cara a cara por bastante tempo, até que Jacin disse:
— Eu odiava aquele sujeito.
— Eu também.
Os músculos de Jacin começaram a relaxar, embora a expressão ainda fosse desconfiada.
— Obrigado por me contar. Eu… ando preocupado com ela.
— Não foi por isso que eu vim aqui. Eu vim avisar você. Nós vimos uma nave real que não deveria estar lá, e estou disposto a apostar que vai ser rastreada até você. Se eu percebi, ela também vai perceber. A rainha pode achar que Winter está morta, mas vai descobrir a verdade cedo ou tarde. — Ele fez uma pausa. — Quem ela ameaçou matar se você não matasse a princesa?
Jacin engoliu em seco.
— Ninguém.
— Ah, tá. — Kinney olhou para as armas ao lado de Cress, mas não se mexeu para pegá-las.
— Ela mandou minha irmãzinha ser morta uma vez, quando eu soltei uma criada que roubou um par de brincos da rainha.
Cress arregalou os olhos. Mas Jacin não pareceu surpreso.
— Bem, seja lá quem fosse — continuou Kinney —, vocês dois vão acabar mortos se não pararem de perder tempo e não saírem daqui antes que Levana descubra que você mentiu para ela. — Ele se virou para Cress. — Posso pegar minhas armas de volta? Tenho uns cinco minutos para me apresentar.
Depois de hesitar, Jacin fez que sim e guardou a própria arma. Ele ainda estava com a testa franzida enquanto Kinney pegava a arma e a faca.
— Por que você está arriscando o pescoço por mim… de novo?
— É o que a princesa iria querer. — Kinney foi até a porta, tomando o cuidado de não esbarrar em Jacin ao passar. — Sua Alteza convenceu a rainha a dar à minha irmã o emprego da criada em vez de matá-la, então devo muito a ela. — Ele inclinou a cabeça na direção de Cress. — Seja lá quem você for, eu nunca vi você.
Jacin não tentou impedi-lo quando ele saiu pela porta.
O coração de Cress ainda estava disparado.
— Fico feliz de você não o ter matado — sussurrou ela.
— Ainda estou indeciso. — Ele olhou ao redor, mas Cress não sabia dizer o que ele estava avaliando. — Vamos esperar até a ala estar praticamente vazia, depois é hora de irmos.
Ela apertou o tablet, ao mesmo tempo empolgada e apavorada por sair da prisão e abrigo.
— Jacin, a Levana realmente ameaçou ferir alguém se você não matasse Winter?
— Claro. É assim que ela opera.
O coração dela rachou por ele, por Winter, por vítimas que ela nem sabia quem eram.
— Quem?
Ele se virou e começou a mexer em uma gaveta, mas ela percebeu que a movimentação era só para se ocupar.
— Ninguém — disse ele. — Ninguém importante.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!