13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e quatro

A MANHÃ DO CASAMENTO CHEGOU. CINDER ESTAVA UMA CONFUSÃO de pensamentos fragmentados e nervosismo, mas no centro de tudo havia uma estranha sensação de calma. Antes de o sol voltar a se pôr, ela saberia o resultado de todo o planejamento e preparativos. Ou eles seriam bem-sucedidos naquele dia ou todos se tornariam prisioneiros da rainha Levana.
Ou seriam mortos.
Ela tentou não pensar nisso enquanto tomava banho e um café da manhã pobre, composto de biscoitos velhos e manteiga de amêndoa. Era tudo o que seu estômago suportava.
O sol tinha acabado de aparecer sobre a gelada tundra siberiana quando eles se entulharam na nave de passeio que sobrara, sete pessoas espremidas em um espaço destinado a cinco, para embarcar no voo de baixa elevação de quarenta minutos até Nova Pequim. Ninguém reclamou. A Rampion era grande demais para ser escondida. Pelo menos a nave de passeio poderia se misturar com todas as outras em uma cidade lotada de naves estrangeiras.
A viagem foi tortuosa e feita quase toda em silêncio, pontuado apenas pela conversa ocasional de Iko e Thorne. Cinder passou a viagem mudando entre as notícias de cobertura do casamento real e a cobertura contínua da rebelião em Farafrah.
O povo da cidade parou de controlar os militares assim que os reforços chegaram. Em vez de tentar prender e transportar centenas de civis, os militares da Comunidade, com permissão do governo africano, colocaram a cidade toda em confinamento armado até serem todos interrogados e acusados. Os cidadãos estavam sendo tratados como traidores da União Europeia por ajudarem Linh Cinder, Dmitri Erland e Carswell Thorne, embora as notícias repetissem que o governo estava disposto a ser tolerante com qualquer pessoa que revelasse informações sobre os fugitivos, seus aliados e suas naves.
Até o momento, nenhum cidadão de Farafrah parecia cooperar.
Cinder se perguntou se o povo lunar estava sendo tratado da mesma forma que os terráqueos ou se só esperavam para serem devolvidos a Luna para o verdadeiro julgamento. Até o momento, nenhum jornalista mencionou que muitos dos rebeldes eram lunares. Cinder desconfiava que o governo estava tentando manter esse fato em segredo, para evitar o pânico em massa nas cidades vizinhas, ou mesmo em todo o mundo, o que acabaria acontecendo quando os terráqueos percebessem como era fácil para os lunares se misturarem com eles. Cinder ainda se lembrava de como era quando acreditava que não havia lunares na Terra e no quanto ficou horrorizada quando o dr. Erland lhe contou que estava enganada. Sua reação parecia ridiculamente ingênua naquele instante.
Quando Nova Pequim surgiu, Cinder desativou os noticiários. Os prédios do centro da cidade eram grandes e imponentes, como esculturas delgadas de cromo e vidro tentando alcançar o céu. Cinder foi pega de surpresa pela dor repentina que a assolou: saudade de casa. Uma saudade que ela estivera ocupada demais para reconhecer até aquele momento.
O palácio surgia majestoso, iluminado pelo sol da manhã, sobre o penhasco alto, mas eles se afastaram dele. Jacin seguiu as instruções de Cinder para o centro e acabou se misturando com os amontoados de aerodeslizadores e, ela ficou feliz em ver, várias naves de passeio também. A parada de Cinder era a primeira, a duas quadras do edifício Phoenix Tower.
Ela respirou fundo ao desembarcar. Embora o outono fosse chegar nas semanas seguintes, Nova Pequim ainda estava em clima de verão, e o dia começava sem nuvens e quente. A temperatura estava um pouco acima do confortável, mas não sufocante de umidade como na última vez que Cinder esteve na cidade.
— Se vocês não me virem no ponto de encontro em dez minutos — disse ela —, deem algumas voltas no quarteirão e voltem.
Jacin assentiu sem olhar para ela.
— Se você tiver oportunidade — sugeriu Iko —, dê um chute no traseiro de Adri por mim. Com o pé de metal.
Cinder riu, mas o som saiu estranho. Eles foram embora e a deixaram sozinha em uma rua onde ela já havia andado mil vezes.
Ela já acionara o glamour, mas era difícil se concentrar, então manteve a cabeça baixa enquanto seguia para o edifício que já tinha chamado de lar.
Era estranho ficar sozinha depois de semanas cercada de amigos e aliados, mas estava feliz porque ninguém se juntou a ela nesse estágio do plano. Parecia estranhamente importante se distanciar da garota que ela foi quando morava nesse apartamento, e a ideia dos novos amigos encontrando sua antiga família adotiva a deixava tensa.
A camisa já estava grudada nas costas quando ela se aproximou da entrada principal do apartamento. Esperou até outro morador chegar e destrancar a porta com o chip embutido e foi atrás. Um medo familiar tomou conta dela quando atravessou o pequeno saguão, uma sensação que antes parecia normal. Mas, dessa vez, também teve uma sensação de propósito ao entrar no elevador. Não era mais a indesejada órfã ciborgue que fazia o que mandavam e corria para a oficina do porão a fim de evitar os olhares de raiva de Adri.
Ela era livre. Estava no comando. Não pertencia mais a Adri.
Talvez pela primeira vez, saiu do elevador de cabeça erguida.
O corredor estava vazio, exceto por um gato cinzento se lambendo.
Cinder chegou ao apartamento 1.820, empertigou os ombros e bateu.
Passos soaram do outro lado da porta, e ela se concentrou no glamour. Escolheu assumir a aparência de uma das oficiais que viu de pé atrás de Kai na última coletiva de imprensa. Era uma mulher de meia-idade, um pouco acima do peso, com cabelo grisalho e um nariz pequeno demais para o rosto. Imitou-a exatamente, até o terno azul-acinzentado e os sapatos sensatos.
A porta se abriu, e uma nuvem de ar quente e parado se espalhou no corredor. Adri apareceu, amarrando a faixa do roupão de seda. Quase sempre usava o roupão quando estava em casa, mas esse não era o mesmo que Cinder conhecia. O cabelo estava preso, e ela ainda nem usava maquiagem. Havia uma camada fina de suor no rosto dela. Cinder esperava que seu corpo se encolhesse com a inspeção da madrasta, mas isso não aconteceu. Na verdade, quando olhou para Adri, só sentiu uma frieza distante.
Essa era só uma mulher com um convite para o casamento real. Era só mais uma tarefa para riscar da lista.
— Sim? — disse Adri, com o olhar cético examinando-a.
A Cinder oficial do palácio fez uma reverência.
— Bom dia. Linh Adri-jie está em casa?
— Eu sou Linh Adri.
— É um prazer. Peço desculpas por incomodá-la tão cedo — entoou Cinder, dando início ao discurso ensaiado. — Sou integrante do comitê de planejamento do casamento real e sei que dois convites foram prometidos a você para as núpcias entre Sua Majestade Imperial, o imperador Kaito, e Sua Majestade Lunar, a rainha Levana. Como você é uma de nossas distintas convidadas civis, fico honrada em entregar pessoalmente os convites para a cerimônia.
Ela esticou a mão com dois pedaços de papel, que eram, na verdade, pedaços de guardanapos, mas, aos olhos de Adri, pareciam dois envelopes feitos à mão com capricho.
Pelo menos, ela esperava que fosse isso que Adri estivesse vendo. O mais perto que Cinder chegara de mudar a percepção de objetos inanimados havia sido com a prótese da mão, e não tinha certeza se isso contava.
Adri franziu a testa para os guardanapos, mas a expressão logo se transformou em um sorriso paciente. Sem dúvida por ela achar que estava falando com uma pessoa do palácio.
— Deve haver algum engano — disse ela. — Recebemos nossos convites semana passada.
Cinder fingiu surpresa e recolheu os guardanapos.
— Que peculiar. Você se importaria se eu desse uma olhada nesses convites? Para garantir que não tenha acontecido nenhuma confusão?
O sorriso de Adri ficou mais tenso, mas ela deu um passo para o lado e convidou Cinder a entrar.
— É claro, entre, por favor. Posso oferecer um chá?
— Não, obrigada. Vamos só esclarecer essa confusão, e não vou mais tomar seu tempo.
Ela seguiu Adri até a sala.
— Peço desculpas pelo calor — falou Adri, pegando um leque em uma mesinha lateral e abanando o rosto. — O ar está quebrado há uma semana, e a manutenção aqui é muito incompetente. Eu tinha uma serva que me ajudava com essas coisas, uma criada ciborgue que meu marido acolheu, mas... bem. Não importa agora. Já foi tarde.
Cinder sentiu raiva. Serva? Mas ignorou o comentário enquanto observava a sala. Não tinha mudado muito, com exceção dos itens dispostos sobre a lareira holográfica. Pertences que antes tinham posição tão proeminente (as placas de premiação de Linh Garan e fotos digitais alternadas de Pearl e Peony) estavam amontoados na beirada da prateleira. No centro, havia um belo vaso de porcelana, com peônias cor-de-rosa e brancas pintadas e em cima de uma base de mogno.
Cinder inspirou fundo.
Não era um vaso. Era uma urna. Uma urna crematória.
Sua boca ficou seca. Ela ouviu Adri andando pela sala, mas seu foco estava grudado naquela urna e no que, quem, estaria dentro dela.
Por vontade própria, seus pés começaram a se deslocarem para a lareira e para os restos de Peony. O velório passou e Cinder não esteve presente. Adri e Pearl choraram. Sem dúvida, convidaram todas as pessoas das aulas de Peony, todas as pessoas do prédio, todos os parentes distantes que mal a conheciam, que deviam ter reclamado por terem que mandar os esperados cartões e flores de pêsames.
Mas Cinder não estava lá.
— Minha filha — disse Adri.
Cinder ofegou e se afastou. Não tinha percebido que os dedos estavam tocando em uma flor pintada até Adri falar.
— Ela se foi recentemente, de letumose — prosseguiu Adri, como se Cinder tivesse perguntado. — Só tinha quatorze anos.
Havia tristeza na voz dela, de verdade. Talvez fosse a única coisa que elas tinham em comum.
— Sinto muito — sussurrou Cinder, grata porque, em sua distração, algum instinto sustentou o glamour.
Ela se obrigou a se concentrar antes que os olhos começassem a produzir lágrimas. Eles falhariam, ela era incapaz de chorar, mas o esforço às vezes provocava uma dor de cabeça que só passava depois de horas, e aquela não era hora de sentir luto. Tinha um casamento para impedir.
— Você tem filhos? — perguntou Adri.
— Er... não. Não tenho — respondeu Cinder, sem ter ideia se a oficial do palácio que estava incorporando tinha ou não.
— Só tenho uma outra filha, de dezessete anos. Não foi muito tempo atrás que eu achava que poderia encontrar um marido bom e rico para ela. Filhas são caras, sabe, e uma mãe quer dar tudo a elas. Mas agora não consigo suportar a ideia de que ela também me abandone. — Ela suspirou e afastou o olhar da urna. — Mas, veja só, eu fico falando sem parar quando você deve ter tantos outros lugares para visitar hoje. Aqui estão os convites que recebemos.
Cinder os pegou com cuidado, feliz por mudar de assunto. Uma vez que estava vendo um convite verdadeiro de perto, ela mudou o glamour que tinha feito para os guardanapos. O papel era um pouco mais duro, um pouco mais tom de marfim, com letras douradas em alto-relevo com uma caligrafia floreada de um lado e kanji tradicional da segunda era do outro.
— Interessante — comentou Cinder, abrindo o convite de cima. Ela fingiu uma gargalhada e torceu para que não soasse tão sofrida quanto realmente foi. — Ah, esses são os convites para Linh Jung e a mulher. Os endereços devem ter sido trocados no banco de dados. Que besteira.
Adri inclinou a cabeça.
— Tem certeza? Quando eles chegaram, eu tive certeza...
— Veja você mesma.
Cinder inclinou o papel para que Adri pudesse ver o que não estava lá. O que Cinder a mandou ver. O que Cinder a mandou acreditar.
— Meu Deus, é mesmo — falou Adri.
Cinder entregou-lhe os guardanapos e viu a madrasta segurá-los como se fossem as coisas mais preciosas do mundo.
— Muito bem, então — disse ela, com a voz tremendo um pouco. — Pode deixar que saio sozinha. Espero que goste da cerimônia.
Adri colocou os guardanapos no bolso do roupão.
— Obrigada por se dar ao trabalho de vir você mesma entregar. Sua Majestade Imperial é um anfitrião atencioso.
— Temos sorte de tê-lo.
Cinder andou pela sala. Ao pousar a mão na porta, percebeu com um susto que essa poderia ser a última vez que via a madrasta.
A última vez, se ousasse ter esperanças.
Ela tentou sufocar a tentação que surgiu dentro dela com a ideia, mas se viu virando-se para encarar Adri.
— Eu...
... não tenho nada a dizer. Eu não tenho nada a dizer para você.
Mas nem todo o bom senso do mundo poderia convencê-la a não dizer as palavras seguintes.
— Não quero ser xereta — disse ela, limpando a garganta —, mas você mencionou um ciborgue. Você por acaso não seria a guardiã de Linh Cinder?
A gentileza de Adri desapareceu.
— Eu fui, infelizmente. Graças às estrelas, isso tudo ficou para trás.
Contrariando a racionalidade, Cinder voltou para o apartamento e bloqueou a porta.
— Mas ela cresceu aqui. Você nunca sentiu que ela poderia ter sido da família? Nunca pensou nela como filha?
Adri bufou e voltou a se abanar.
— Você não conheceu a garota. Sempre ingrata, sempre se achando tão melhor do que nós por causa dos... complementos. Ciborgues são assim, sabe. Eles se acham tão importantes. Foi horrível para nós viver com ela. Ciborgue lunar, embora nós não soubéssemos disso até o espetáculo humilhante no baile. — Ela apertou a faixa do roupão. — E agora ela manchou o nome da família. Preciso pedir que você não nos julgue por ela. Fiz tudo o que pude para ajudar a garota, mas ela era irremediável desde o começo.
Os dedos de Cinder tremeram, um gesto familiar de rebelião. Ela desejava abandonar o glamour, gritar e berrar, obrigar Adri a vê-la, a pessoa verdadeira, só uma vez. Não a garotinha ingrata e arrogante que Adri achava que ela era, mas a órfã que sempre só quis uma família, que só queria pertencer a algum lugar.
Mas, enquanto pensava isso, um desejo mais sombrio subiu por sua coluna. Ela queria que Adri se lamentasse. Por ter tratado Cinder como propriedade dela. Por ter tirado a prótese do pé de Cinder e a obrigado a pular por aí como uma boneca quebrada. Por ter provocado Cinder sem parar por sua incapacidade de chorar, sua incapacidade de amar, sua incapacidade de ser humana.
Ela se viu projetando a mente, detectando as ondas de bioeletricidade que cintilavam na superfície da pele de Adri. Antes que pudesse controlar a raiva que crescia nela, Cinder pressionou toda culpa e remorso e vergonha no crânio denso da madrasta, remoendo as emoções com tanta intensidade que Adri ofegou e tropeçou e bateu com a lateral do corpo na parede.
— Mas você nunca se perguntou o quanto deve ter sido difícil? — disse Cinder entre os dentes. Uma dor de cabeça estava chegando com rapidez, latejando pelos olhos secos. — Nunca se sentiu culpada pela forma como ela foi tratada? Nunca pensou que talvez você pudesse tê-la amado se ao menos tivesse dedicado um tempo para conversar com ela, para compreendê-la?
Adri gemeu e apertou uma das mãos sobre a barriga, como se os anos de culpa a estivessem corroendo e deixando lentamente enjoada.
Cinder fez uma careta e começou a diminuir o ataque de emoções. Quando Adri olhou para ela de novo, havia lágrimas umedecendo seus olhos. A respiração estava entrecortada.
— Às vezes... — disse Adri, em uma voz fraca. — Às vezes, eu acho que ela talvez tenha sido incompreendida. Era tão jovem quando a adotamos. Deve ter sentido muito medo. E minha querida Peony sempre pareceu gostar tanto dela que às vezes acho que, se as coisas tivessem sido diferentes, com Garan e com nossas finanças... talvez ela pudesse ter feito parte da família. Você entende... se ela fosse normal.
A última palavra foi como um golpe entre as costelas de Cinder e ela se encolheu, libertando as pequenas amarras da culpa.
Adri tremeu e passou a manga do roupão sobre os olhos.
Não fazia diferença. Adri podia estar cheia de toda a culpa do mundo, mas, na mente dela, a culpa sempre seria de Cinder. Porque Cinder não podia ser normal.
— Me... me desculpe — falou Adri, apertando a parte do alto do nariz. Ela havia ficado pálida. As lágrimas sumiram. — Não sei o que me deu. Eu... desde que perdi minha filha, às vezes minha mente... — Ela voltou a olhar para Cinder. — Por favor, não me entenda mal. Linh Cinder é uma garota mentirosa e manipuladora. Espero que a peguem. Eu faria qualquer coisa para garantir que não destruísse mais ninguém como me destruiu e à minha família.
Cinder assentiu.
— Eu entendo, Linh-jie — sussurrou ela. — Entendo perfeitamente.
Cinder dobrou os dedos sobre os convites que tinha ido buscar e saiu do apartamento.
A dor de cabeça estava explodindo em seu crânio, dificultando a concentração em qualquer outra coisa que não fosse colocar um pé na frente do outro. Ela sustentou o glamour por pouco, sem saber se Adri ainda a estava observando, até entrar no elevador no fim do corredor.
Ela ficou paralisada.
Na parede do fundo do elevador havia um espelho.
Ela olhou para o próprio reflexo enquanto as portas se fechavam. Seu coração disparou. Felizmente, não havia mais ninguém no elevador para testemunhar, porque ela perdeu o glamour imediatamente, continuou olhando boquiaberta para os olhos castanhos e, pela primeira vez, ficou horrorizada com quem viu naquele reflexo.
Porque o que fizera com Adri, de virar as emoções contra ela, obrigá-la a sentir culpa e vergonha, tendo como único motivo a curiosidade terrível, seu desejo de retaliação...
Era uma coisa que Levana teria feito.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!