20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e oito

Cress já tinha perdido a noção de onde estavam e em que direção estavam indo. Jacin a arrastou por complicados labirintos de corredores no subterrâneo do palácio, escadas abaixo e túneis de trens de levitação magnética adentro. Embora parecesse que estavam andando havia horas, ela não sabia nem se tinham deixado os limites de Artemísia Central, considerando o quanto a rota fora circular.
Estavam se esgueirando por um túnel, colados às paredes para evitar trens, que tinham a tendência de surgir de repente e rápido demais sobre os ímãs silenciosos, quando o corte de energia os mergulhou na escuridão. Cress esticou a mão para alcançar Jacin, mas parou com os dedos a centímetros de onde achava que ele estaria. Ela fechou o pulso e puxou a mão de volta.
Corajosa. Ela era corajosa.
Ao longe, ouviram o guincho de um trem batendo nos trilhos e parando.
Um momento depois, luzes de emergência laranja iluminaram os trilhos aos pés deles e uma voz ecoou de alto-falantes invisíveis:
— Esta rota de trem foi desligada por prazo indeterminado. Sigam para a próxima plataforma a pé e preparem-se para uma inspeção de segurança. A coroa pede desculpas pelos inconvenientes.
Ela olhou para Jacin.
— O que isso quer dizer?
— Meu palpite? O que Cinder está fazendo está funcionando. — Ele começou a andar de novo, seguindo com mais cuidado uma vez que a iluminação estava reduzida. — Devem estar limitando os transportes para a cidade.
Os nervos dela zumbiram.
— Nós vamos conseguir sair?
— Estamos quase na estação que recebe oitenta por cento dos nossos trens de suprimentos. Eles devem estar operacionais, considerando a quantidade de convidados que Levana tem que alimentar esta semana.
Cress correu atrás dele, torcendo para que estivesse certo. Ele não tinha sido muito claro em relação ao plano, e ela ainda não fazia ideia de onde estavam indo. Cress se perguntou se ele estava certo. Winter e Scarlet tinham conseguido levar a mensagem para o resto do grupo? Será que transmitiram o vídeo? Ela não tinha respostas. Se Levana estava ciente de um potencial levante futuro, estava guardando a informação só para si.
O túnel ficou mais largo, os trilhos se juntaram a outros dois, e Cress sentiu um cheiro pungente que a lembrou do grupo que Thorne e ela encontraram no Saara. De terra e animais.
Depois da curva seguinte no túnel, ela viu um brilho intenso e ouviu o eco de máquinas batendo e rodas girando. Jacin reduziu o ritmo.
Uma plataforma enorme apareceu. Um sinal holográfico exibia a cobertura do casamento real.
Doze trilhos de trens de levitação magnética seguiam em múltiplas direções, com trens de carga acima. A maioria dos vagões estava escondida nos túneis escuros, esperando para descarregar os produtos. Guindastes e roldanas ocupavam a doca, e Cress imaginou que seriam necessários incontáveis trabalhadores para cuidar de todo o maquinário, mas os únicos presentes eram um contingente de guardas uniformizados revistando os vagões à frente.
Jacin puxou Cress para as sombras do trem mais próximo. Um segundo depois, uma silhueta passou à frente, e o raio de uma lanterna se virou na direção deles. Jacin e Cress se abaixaram entre os vagões mais próximos, vendo o raio de luz tremeluzir no chão e desaparecer.
— A6 está limpo — gritou alguém, seguido de outro:
— A7, limpo.
Houve uma pausa e o zumbido dos ímãs. Em seguida, os três se deslocaram.
Jacin pulou no eixo para não ser pego nos trilhos, puxando Cress junto. Desta vez, ela segurou o braço dele quando o trem disparou, depois parou novamente. As portas se abriram.
Jacin pulou do eixo e levou Cress junto.
— Inspeção — sussurrou ele. — Para que ninguém tente entrar na cidade.
— E sair da cidade?
Ele apontou para a frente do trem.
— Temos que entrar em um dos vagões que já foram revistados. Este trem deve voltar para os setores agrários a partir daqui.
Eles seguiram até o outro lado do vagão. Apesar de haver plataformas nas duas laterais dos trilhos, a segunda só tinha um guarda, andando pelo perímetro com um fuzil de assalto na mão.
— Muito bem, docinho, quando aquele guarda estiver de costas para nós de novo, vamos seguir em frente o mais rápido possível. Quando ele começar a se virar, entre debaixo do trem e fique parada.
Cress olhou com raiva para a nuca dele.
— Não me chame de docinho.
À frente, alguém gritou:
— A8, livre! B1, livre!
O guarda deu as costas.
Jacin e Cress saíram correndo. O coração dela estava disparado enquanto mantinha um olho nas costas do guarda e na arma ameaçadora, e o outro nos trilhos embaixo dos pés. O guarda começou a se virar. Cress ficou de quatro e entrou debaixo do vagão. O cabelo na região da nuca estava grudado de suor.
— Aqu…!
Um grito foi interrompido, seguido de dois baques altos e do estalo de metal batendo em metal. O guarda com o fuzil se virou e correu na direção dos trilhos, pulando por cima de um eixo. Um tiro. Um grunhido.
— Parado!
Outro tiro.
Com a plataforma inesperadamente vazia, Jacin saiu de baixo do trem e fez sinal para Cress ir atrás. Ela raspou os cotovelos no chão duro quando se arrastou para fora. Jacin a puxou para ficar de pé, e eles saíram correndo na direção da frente do trem. Os sons de luta continuaram a soar na plataforma do outro lado do trem.
Eles chegaram ao vagão A7 e se grudaram na lateral para recuperar o fôlego. Só precisavam se esgueirar para o outro lado e subir no vagão sem serem vistos (e sem levarem um tiro, ela pensou), mas outro tiro a fez pular.
Cress olhou para trás e seu coração subiu para a garganta.
Havia uma garota no chão, entrando embaixo de um dos vagões, como Cress tinha feito segundos antes. Embora Cress visse bem pouco dela, a abundância de tranças sedosas tingidas em vários tons de azul era inconfundível.
— Iko!
Iko levantou o rosto. Seus olhos se arregalaram. Mas o olhar foi breve, pois ela virou a cabeça na direção de alguma coisa do outro lado do trem. Ela começou a se arrastar, com a barriga grudada no chão.
Jacin falou um palavrão e se jogou à frente de Cress. Sua arma já estava na mão quando correu para a confusão.
Cress foi atrás, mas com mais hesitação, sem arma nenhuma. Ela se agachou perto do vagão e esticou o pescoço.
Sua garganta ficou seca.
Thorne.
Ele estava usando um uniforme de guarda lunar, mas não havia como confundir. Ela colocou as duas mãos sobre a boca para não gritar o nome dele. Thorne estava lutando com o guarda da plataforma. O fuzil não estava em lugar nenhum. Quatro outros guardas e duas lanternas, com os fachos de luz apontando para lugares aleatórios nos trilhos, estavam espalhados pela plataforma. Cress reparou em um borrifo de sangue em um dos vagões no mesmo momento em que Iko atacou e se jogou em um sexto guarda, que tentava disparar contra Thorne. Mas foi um ataque desajeitado. Parecia haver alguma coisa errada com o braço direito dela.
O guarda segurou Iko, a prendeu no chão e envolveu seu pescoço com as mãos, sem perceber que a entrada de oxigênio não seria problema.
Cress viu uma arma abandonada a alguns passou e correu para pegá-la. Mas, assim que a segurou e mirou na luta, seus braços começaram a tremer. Ela nunca tinha disparado uma arma.
Cress estava tentando controlar a mão para mirar, quando dois tiros sucessivos ecoaram por seu crânio. O primeiro derrubou o guarda que estava em cima de Iko; o segundo acertou o guarda lutando com Thorne.
O mundo pareceu parar, exceto pelas respirações pesadas. O silêncio imaculado deixou seus ofegos insuportavelmente altos.
Com a confirmação de que os dois guardas estavam mortos ou incapacitados, Jacin colocou a arma no coldre.
Thorne olhou para Jacin com choque no rosto, enquanto se levantava e ajeitava a camisa. Ele parecia prestes a dizer alguma coisa quando Iko gritou “CRESS!” e correu para envolvê-la em um abraço de um braço só.
Cress cambaleou e se permitiu ser agarrada, mas seu olhar procurava Thorne. O queixo dele caiu quando enfim a encarou. Ele estava desgrenhado, ferido e sem fôlego.
Thorne cambaleou e se aproximou até envolver Cress e Iko em um abraço enorme. Cress apertou bem os olhos na hora em que as lágrimas quentes começaram a embaçá-los. O braço dele ao redor de seus ombros. A barba por fazer roçando em sua testa. Uma das tranças de Iko em sua boca.
Ela nunca havia se sentido tão feliz.
Jacin grunhiu:
— Temos que ir.
Iko recuou, mas Thorne ocupou o espaço que ela deixou e aninhou o rosto de Cress nas mãos. Seu olhar se grudou ao dela, cheio de descrença. Seu polegar capturou a primeira lágrima de Cress.
De repente, ela se viu rindo e fungando e rindo mais. Baixou a cabeça e secou as lágrimas.
— Nada de chorar — disse ela. — Desidrata.
Os braços dele voltaram a envolvê-la. Ela sentiu o brado da voz de Thorne quando ele disse:
— É você. Graças às estrelas.
— Quando eu disse que temos que ir — disse Jacin —, quis dizer agora.
O braço de Thorne se contraiu e, com um aperto forte, ele a soltou e se virou para encarar Jacin. Um músculo tremeu em sua bochecha. Foi o único aviso antes de o pulso de Thorne acertar o maxilar de Jacin. Cress conteve um gritinho.
Jacin cambaleou para trás e levou a mão até o local machucado.
— Isso é por ter nos entregado na Terra — disse Thorne. — E isso é por ter cuidado de Cress. — Ele puxou Jacin para um abraço e afundou o rosto em seu ombro.
Jacin revirou os olhos para o teto cavernoso.
— Não me faça me arrepender dessa decisão. — Ele empurrou Thorne para longe. — Sua visão voltou. Que bom. Vamos revistar esses homens para pegar armas e sair daqui.
Com um movimento de cabeça, Thorne se inclinou sobre um dos corpos e soltou a faca do cinto do guarda. Para a surpresa de Cress, ele a entregou para Jacin, que hesitou por um instante, mas a enfiou no cinto.
— Como vocês souberam onde nos encontrar? — perguntou Thorne.
— Não sabíamos. Estávamos saindo daqui. — Jacin franziu a testa. — Onde está Winter?
— Ela e Scarlet foram se esconder — disse Iko. Ela estava cutucando o braço direito inerte e puxando os dedos mortos. — Bem, mais ou menos. É complicado.
Thorne olhou para a androide.
— O que aconteceu?
Ela fez beicinho.
— Um dos guardas me esfaqueou no ombro. Acho que cortou alguma coisa importante. — Ela se virou para mostrar um corte irregular nas costas e suspirou. — Parece que hoje é o dia de pegar no pé de Iko.
Cress apertou os lábios em solidariedade, mas o lembrete das partes cibernéticas de Iko a fez se dar conta…
— Onde está Cinder?
O rosto de Thorne ganhou um ar sombrio, mas, antes que ele pudesse responder, um sinal tocou no túnel. Cress pulou.
A tela holográfica na parede se acendeu com o rosto do taumaturgo Aimery Park.
— Povo de Luna, estou feliz em anunciar que a cerimônia de casamento está completa. Nossa honrada soberana, a rainha Levana, selou a aliança de casamento com o imperador Kaito, da Terra.
Iko grunhiu de um jeito nada feminino, atraindo os olhares de todos.
— Eu levo uma facada e ela se casa com Kai. Inacreditável.
— A cerimônia de coroação — prosseguiu Aimery —, na qual vamos receber o imperador Kaito como nosso honrado rei consorte, e Sua Majestade, a rainha Levana, receberá o título de imperatriz da Comunidade das Nações Orientais da Terra, vai acontecer daqui a dois dias, ao nascer do sol. — Os olhos de Aimery ganharam um brilho arrogante. — Nossa ilustre rainha pede que o povo de Luna participe da comemoração desta noite. O banquete de casamento será transmitido em todos os setores, e durante ele temos um julgamento especial planejado. A transmissão é obrigatória para todos os cidadãos e se iniciará vinte minutos depois do final deste anúncio.
O vídeo foi cortado.
— Julgamento especial? — perguntou Cress.
— É de Cinder — disse Thorne, olhando com raiva para o hológrafo. — Ela está com Cinder e Lobo. Acreditamos que os executará publicamente como forma de sufocar a insurreição.
Um tremor desceu pela espinha de Cress. Vinte minutos. Demoraria mais do que isso para voltarem ao palácio.
— Nós vamos salvá-la — disse Iko, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Desculpe — disse Jacin, falando com sinceridade. — Mas, se só temos vinte minutos, já é tarde demais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!