13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e oito

DEPOIS DE PASSAR PELO PORÃO ÚMIDO, CINDER FICOU FELIZ DE descobrir que o túnel de fuga era, digamos, adequado a um imperador. O piso era azulejado e as paredes eram de concreto liso com luzes suaves a cada vinte passos. Eles podiam andar sem medo de Thorne tropeçar em pedras.
Mesmo assim, o progresso era lento demais, e mais de uma vez Cinder pensou em deixá-los para trás. Thorne estava acompanhando bem, mas a idade e as pernas curtas do dr. Erland faziam o passo dele parecer um rastejar agonizante. Se ela não achasse que iria ofendê-lo, teria oferecido carregá-lo nas costas.
Ela ficava lembrando a si mesma que eles se planejaram para isso. Estavam dentro do horário.
Tudo daria certo.
Ela repetiu várias vezes para si mesma.
Depois de um tempo, ela começou a reparar em sinais de que eles estavam se aproximando do palácio. Depósitos cheios de itens não perecíveis e jarras de água e vinho de arroz. Geradores de energia silenciosos e sem uso. Salas amplas, vazias exceto por mesas redondas enormes e cadeiras com aparência desconfortável, telas pretas e painéis de controle e processadores; não dos mais modernos, mas novos o bastante para deixar claro que esses túneis de fuga estariam prontos para uso se fosse necessário. Se a família real precisasse se esconder, poderia ficar ali embaixo por muito tempo.
E não só a família real, percebeu Cinder ao seguir em frente e passar por mais depósitos e corredores que se abriam em todas as direções. Isso era um labirinto. Parecia haver espaço suficiente para o governo todo ir morar ali embaixo, ou pelo menos todo mundo que trabalhava no palácio.
— Estamos quase lá — disse ela, depois de rastrear a posição deles por navegação de satélite e pelo mapa em seu display na retina.
— Espere, para onde a gente está indo mesmo? Faz tanto tempo que saímos da nave que não consigo lembrar.
— Muito engraçado, Thorne.
Ela olhou para trás. Thorne estava andando com uma das mãos na parede, e o dr. Erland usava a bengala dele. Ela se perguntou quanto tempo havia se passado desde que Thorne dera a bengala para ele e depois que a respiração do doutor tinha começado a ficar ofegante. Ela mal percebeu, pois estava preocupada demais com o plano que ocupava sua cabeça.
Ao ver gotas de suor na testa do doutor e pingando pela aba do chapéu, ela fez uma pausa.
— Você está bem?
— Sonhando — ofegou ele, com a cabeça baixa. — Agarrado... a um rabo de cometa. Pó de estrelas e dunas de areia e... por que está... tão quente aqui?
Cinder massageou a nuca.
— Certo. Hum. Fizemos um bom progresso — mentiu ela. — Talvez possamos descansar um minuto.
O doutor balançou a cabeça.
— Não... minha Lua Crescente está lá em cima. Vamos seguir o plano.
Thorne chegou mais perto deles, sua expressão igualmente perplexa.
— A lua de hoje não é cheia?
— Doutor, você não está tendo alucinações, está?
O dr. Erland apertou os olhos azuis na direção dela.
— . Estou logo atrás. Já... já estou melhor.
Parte de Cinder queria discutir, mas ela não podia negar que não havia muito tempo a perder, mesmo se ele quisesse.
— Tudo bem. Thorne?
Ele deu de ombros e esticou a mão na direção dela.
— Vá na frente.
Cinder verificou o mapa e seguiu adiante, esperando que um dos corredores se encaixasse nas instruções que Cress deu. Quando viu uma escadaria subindo em curva, ela diminuiu e verificou a localização em comparação à planta do palácio.
— Acho que é aqui. Thorne, cuidado. Doutor?
— Estou bem, obrigado — disse ele, com a mão no lado do corpo.
Cinder se preparou e começou a subir. A escada se curvava para cima, as luzes de baixo viraram sombras e acabaram se tornando tamanha escuridão que ela acendeu a lanterna de novo. A parede era lisa e sem decoração, exceto por um corrimão de metal. Cinder estimou ter subido três andares de degraus até chegar a uma porta. Era grande o bastante para quatro pessoas entrarem lado a lado, feita de aço grosso e reforçado. Como esperado, não havia dobradiças nem maçaneta daquele lado, uma proteção adicional para o caso de alguém descobrir a entrada para o túnel de segurança e tentar entrar escondido no palácio.
Essa porta foi feita para só ser aberta por dentro.
Cinder se segurou no corrimão, levantou o outro punho e batucou uma melodia.
E então esperou, perguntando-se se foi alto o suficiente, se era cedo demais e se estava atrasada e o plano já tinha desmoronado.
Até que ouviu um barulho. Uma tranca estalando, um mecanismo de tranca chiando, o gemido de dobradiças sem uso.
Iko apareceu na frente dela, sorrindo e segurando uma pilha de roupas bem dobradas.
— Bem-vinda ao Palácio de Nova Pequim.


EMBORA NÃO QUISESSE ADMITIR EM VOZ ALTA, THORNE ESTAVA triste por se separar de Cinder e seguir adiante só com o médico mal-humorado e ofegante como guia. Até o momento, não sentiu muito calor vindo do coroa, que parecia não achar que consertar a cegueira de Thorne era prioridade, sem mencionar a baboseira que ficou falando nos túneis. Mesmo assim, ali estavam eles. No palácio. Seguindo para os laboratórios, onde encontrariam o equipamento necessário para fazer toda a pseudociência de conserto óptico da qual o doutor tinha falado.
Sozinhos.
Só os dois.
— Por aqui — disse o doutor, e Thorne ajustou a direção, mantendo uma das mãos na parede.
Sentia falta da bengala, mas a ouvia estalando à frente, e o doutor parecia precisar mais.
Thorne torcia muito para que o doutor não estivesse prestes a desabar. Isso estragaria tantas coisas naquele dia.
— Está vendo alguém? — perguntou Thorne.
— Não faça perguntas idiotas.
Thorne fez uma careta, mas ficou de boca fechada. As coisas estavam como esperado. Ninguém imaginaria uma invasão do palácio pelos túneis de fuga secretos, então, enquanto toda a guarda estava colocada nos portões do palácio e ao redor do salão, ele e doutor provavelmente ficariam com a ala do laboratório toda para eles.
Pelo menos até a hora de afastar a atenção de Cinder e Cress.
A superfície da parede mudou sob os dedos dele, de uma textura quente parecida com papel para alguma coisa fria e lisa. Ele ouviu uma porta se abrir.
— Aqui — disse o doutor. — Mais escadas.
— Por que não pegamos o elevador?
— É operado por androides. Exigiria um chip de identificação autorizado.
Thorne segurou o corrimão e seguiu o doutor, subindo e subindo. O doutor precisou parar duas vezes para recuperar o fôlego, e Thorne esperou, tentando ser paciente, o tempo todo se perguntando o que Cress estava fazendo. Se estaria pronta quando a hora chegasse.
Ele não ficou pensando muito tempo. Ela estava com Lobo. Ficaria bem.
Por fim, o doutor abriu outra porta. Uma curta distância por piso duro e liso. Um novo zumbir de luzes acima.
— O aconchegante laboratório 6D. Foi aqui que conheci a princesa, sabe.
— Laboratório 6D. Certo. Eu mesmo tive sucesso em conhecer princesas em laboratórios de pesquisa.
Ele franziu o nariz. A sala tinha cheiro de hospital, estéril e fria e medicinal.
— Tem uma mesa de laboratório quatro passos à sua frente. Deite-se.
— Sério? Você não quer descansar, recuperar o fôlego...?
— Não temos tempo.
Thorne engoliu em seco e andou devagar até bater com a mão em uma mesa acolchoada. Procurou a beirada e subiu nela, amassando embaixo de si o papel que forrava a mesa.
— Mas essa não é a parte em que você enfia objetos afiados no meu osso pélvico? Talvez não seja boa ideia ir com pressa.
— Você está nervoso?
— Estou. Muito, na verdade.
O doutor deu uma risada debochada.
— É a sua cara. Quando finalmente demonstra um pouco de humanidade por baixo da arrogância, é claro que é preocupação consigo mesmo. Não estou surpreso.
— Você não ficaria preocupado nessa situação? Minha visão. Minha pélvis.
— Meu país. Minha princesa. Minha filha.
— Que filha? Do que você está falando?
O doutor tossiu, e Thorne ouvi-o abrindo e fechando gavetas.
— Imagino que sua visão foi perdida enquanto você tentava salvar Crescente daquele satélite. Só por isso, estou em dívida com você.
Thorne coçou a bochecha.
— Imagino que sim?
— Ela por acaso contou por quanto tempo ficou presa?
— Cress? Sete anos no satélite.
— Sete anos!
— É. Antes disso, acho que ela ficava com outros cascudos em um alojamento vulcânico, sei lá. Não me lembro. Aquela taumaturga coletava amostras de sangue deles, mas Cress parecia não saber por quê.
Uma porta de armário foi fechada com força, e em seguida veio o silêncio.
— Doutor?
— Coletava amostras de sangue? De cascudos?
— Estranho, né? Mas pelo menos ela não foi sujeita a nenhuma alteração genética bizarra como Lobo. — Thorne balançou a cabeça. — Não entendo esses cientistas lunares. Eles parecem estar fazendo muita coisa maluca lá em cima.
Mais silêncio e, depois, mais movimento. Thorne ouviu uma cadeira ou mesa ser empurrada na direção dele.
— Eles deviam estar usando sangue de cascudos para desenvolver o antídoto — refletiu o doutor. — Mas o momento não parece fazer sentido. Ela foi levada antes da epidemia de letumose aqui na Terra. Antes que soubessem que a doença existia.
Thorne inclinou a cabeça para o doutor quando a falação parou.
— O que foi agora?
— A menos que... A menos quê.
— A menos que... o quê?
— Ah, estrelas. É por isso que eles as queriam. Pobres crianças. Minha pobre e doce Lua Crescente...
Thorne apoiou o queixo na palma da mão.
— Deixe pra lá. Pode terminar sua falação sem sentido e me avise quando estiver pronto para seguir em frente.
Outro movimento de rodas no piso duro.
— Você não a merece, sabe — disse o doutor, com uma nova irritação no tom.
— Tenho certeza de que... espere, o quê?
— Espero que ela volte a si logo, porque vejo como olha para você e não gosto nem um pouco.
— De quem estamos falando?
Alguma coisa estalou quando o doutor deixou cair o que Thorne supôs serem ferramentas médicas em uma bandeja de metal.
— Não importa agora. Deite-se.
— Pare um segundo. E seja sincero. — Thorne levantou um dedo. — Você está tendo um colapso nervoso agora?
O doutor bufou.
— Carswell Thorne. Eu posso ter acabado de fazer uma descoberta importante que precisa ser compartilhada com o imperador Kaito e os outros líderes terráqueos imediatamente. Mas isso não pode acontecer enquanto não tivermos terminado essa farsa toda. Agora, pela minha estimativa, temos menos de cinco minutos para extrair as células-tronco e dividi-las para a solução de regeneração. Posso não gostar de você, mas estou ciente de que estamos do mesmo lado e estamos ambos dedicados a ver Cress e Cinder saírem vivas desse palácio hoje. Você vai confiar em mim ou não?
Thorne pensou na pergunta por mais tempo do que o doutor queria, depois suspirou e se deitou de novo na mesa.
— Pode começar quando estiver pronto. Mas, primeiro, não se esqueça de...
— Eu não esqueci. Ativar o alarme de surto de letumose... agora.
Thorne ouviu o som delicado de dedos em uma tela, e uma sirene alta começou a berrar pelos corredores.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!