20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e nove

Cinder enfiou a chave de fenda que tinha no dedo na parede ao lado da porta da cela. Um pouquinho de poeira e pedra caiu no chão, juntando-se à pilha aos pés dela. A pedra de lava era dura, mas as ferramentas de titânio eram mais, e a determinação estava mais forte do que nunca.
Ela estava com raiva. Estava frustrada. Estava com medo.
Estava consternada pela morte de Maha, que ficava se repetindo em sua memória, lhe dando vontade de enfiar a chave de fenda na própria têmpora para fazer com que parasse. Ela tinha avaliado a busca em MR-9 por todos os ângulos, torturando-se com possibilidades e cenários implausíveis, tentando encontrar um jeito de trazer Maha de volta à vida. De se libertar, junto com Lobo. De proteger os amigos. De derrotar Levana.
Estava ciente do quanto isso era inútil.
Talvez Aimery estivesse certo. Talvez ela devesse ter controlado todo mundo do setor desde o começo. Isso a teria transformado em tirana, mas também os teria mantido vivos.
Ela estava nauseada por causa do cheiro ruim vindo do balde perto da parede. Estava irritada pelo fato de os capangas de Levana terem levado sua melhor arma, o indicador cibernético com a arma acoplada, e de a terem trancado com a madrasta e a meia-irmã, que quase não falaram desde que ela chegou.
Racionalmente, ela sabia que não havia como soltar as dobradiças da porta antes de os guardas irem buscá-la. Sabia que estava trabalhando freneticamente sem nenhum motivo lógico. Mas não conseguia simplesmente se sentar no chão, derrotada.
Como elas estavam.
Outra lasca de pedra caiu da parede.
Cinder soprou um cacho de cabelo para longe do rosto, mas a mecha caiu de volta no lugar.
De acordo com o relógio em sua cabeça, ela estava naquela cela havia mais de vinte e quatro horas. Ela não tinha dormido. E sabia que o casamento já teria terminado.
Esse pensamento gerou um nó em seu estômago.
Ocorreu a ela que, se tivesse deixado Levana levá-la de Nova Pequim, era lá que teria ido parar de qualquer forma. Ela ainda teria sido executada. Ainda ia morrer.
Ela tinha tentado fugir. Tinha tentado lutar. E tudo o que conseguiu foi uma espaçonave cheia de amigos que em breve levaria consigo.
— Por que ele chamou você de princesa?
Cinder parou e olhou com irritação para as marcas patéticas de arranhão que fez. Foi Pearl quem falou, sua voz frágil rompendo o silêncio pela primeira vez em horas.
Depois de empurrar a mecha rebelde com o pulso encharcado de suor, Cinder olhou para Pearl e Adri sem se dar ao trabalho de esconder seu desdém. Já tinha superado o ponto de sentir qualquer solidariedade por elas. Cada vez que uma pontada surgia, ela se relembrava de Adri exigindo que Cinder mancasse sem o pé por uma semana inteira, como lembrete de que “não era humana”. Ou a vez que Pearl jogou a caixa de ferramentas de Cinder em uma rua lotada, estragando as luvas de seda que Kai tinha lhe dado.
Ela ficava lembrando a si mesma que, o que quer que acontecesse com elas, era merecido.
Não fazia com que se sentisse melhor. Na verdade, pensar no assunto a deixava se sentindo cruel e mesquinha, e também estava provocando uma dor de cabeça.
Ela afastou o pensamento.
— Eu sou a princesa Selene — respondeu, voltando ao trabalho.
Pearl riu, um som histérico e curto, cheio de descrença.
Adri ficou em silêncio.
A cela se encheu com os ruídos persistentes de Cinder. A pilha foi ficando maior, uma pedrinha atrás da outra.
Ela nunca ia sair dali.
— Garan sabia. — A voz de Adri soou rouca.
Cinder parou de novo. Garan era o marido de Adri, o homem que tomou a decisão de adotar Cinder. Ela mal o conheceu.
Ela ficou irritada quando sua curiosidade a obrigou a se virar. Trocou a chave de fenda pela lanterna e apontou para a madrasta.
— Como é?
Adri se encolheu com os dois braços ao redor da filha. Elas não se moveram de onde estavam.
— Garan sabia — disse ela de novo. — Ele não me contou, mas quando foi levado para a quarentena me disse para cuidar de você. Disse que era para eu cuidar como se fosse a coisa mais importante do mundo. — Ela ficou em silêncio, como se o marido morto estivesse presente, acima delas todas.
— Uau — disse Cinder. — Você se saiu muito bem em atender ao pedido de um moribundo, não foi?
Adri apertou o olhar, cheia de uma repulsa que Cinder conhecia muito bem.
— Eu não vou tolerar que você fale comigo assim quando meu marido…
— Você não vai tolerar? — gritou Cinder. — Devo dizer todas as coisas que eu não vou tolerar? Porque é uma lista bem longa.
Adri se encolheu. Cinder se perguntou se Adri estaria com medo dela agora que ela era lunar e criminosa procurada. Sua reação confirmou.
— Por que papai não disse nada? — perguntou Pearl. — Por que não nos contou?
— Talvez ele soubesse que vocês me venderiam para obter um resgate na primeira oportunidade que tivessem.
Pearl a ignorou.
— E, se você é mesmo a princesa, por que está aqui?
Cinder olhou para ela com raiva. Esperou. Viu a compreensão surgir no rosto de Pearl.
— Ela quer matar você para poder continuar sendo rainha.
— A garota merece um prêmio — disse Cinder.
— Mas o que isso tem a ver com a gente? — Lágrimas começaram a surgir nos olhos de Pearl. — Por que nós estamos sendo punidas? Não fizemos nada. Nós não sabíamos.
A adrenalina e a raiva de Cinder estavam sumindo, e a exaustão passou a ocupar o espaço que antes era delas.
— Vocês me deram seus convites de casamento, o que me permitiu sequestrar Kai, o que deixou Levana enlouquecida. Obrigada por isso, aliás.
— Como você pode só pensar em você em um momento assim? — perguntou Adri. — Como pode ser tão egoísta?
Cinder apertou as mãos em punhos.
— Se eu não cuidar de mim, ninguém cuida. Foi uma coisa que aprendi bem cedo, graças a você.
Adri puxou a filha e ajeitou o cabelo dela. Pearl se apoiou na mãe sem resistir. Cinder se perguntou se ela estava em choque. Talvez as duas estivessem.
Ela se virou para a parede e entalhou um na pedra. As paredes estavam marcadas com centenas de palavras, nomes, súplicas, promessas, ameaças. Ela considerou acrescentar um “+ K”, mas a ideia de um capricho assim lhe deu vontade de bater com a cabeça na porta de ferro.
— Você é um monstro — sussurrou Adri.
Cinder deu um sorrisinho sem achar graça.
— Ótimo. Eu sou um monstro.
— Não conseguiu nem salvar Peony.
À menção da meia-irmã mais nova, uma nova onda de fúria surgiu como mil fios desencapados na cabeça de Cinder. Ela se virou.
— Você acha que eu não tentei?
— Você tinha um antídoto! — Adri também estava gritando, os olhos loucos, embora continuasse encolhida com Pearl. — Sei que você deu para aquele garotinho. Salvou a vida dele. Chang Sunto! — Ela cuspiu o nome como se fosse veneno. — Você o escolheu no lugar de Peony. Como pôde fazer isso? Por acaso a provocou com o antídoto? Deu a ela falsas esperanças antes de vê-la morrer?
Cinder ficou olhando boquiaberta para a madrasta, a raiva eclipsada por uma onda surpreendente de pena. Aquela mulher era tão cheia de ignorância que era quase como se quisesse continuar assim. Ela via o que queria, acreditava em qualquer coisa que apoiasse sua visão limitada do mundo. Cinder ainda se lembrava de como se sentiu ao percorrer as quarentenas de peste. De como segurou com desespero o frasco de antídoto. De como sentiu tanta esperança de conseguir salvar a vida de Peony, e como ficou tão arrasada quando falhou.
Ela chegara tarde demais. Ainda não se perdoava por isso.
Adri jamais saberia, jamais entenderia. Para ela, Cinder era apenas uma máquina, incapaz de qualquer coisa que não fosse crueldade.
Ela viveu com aquela mulher durante cinco anos, mas Adri nunca viu Cinder como era de verdade. Como Kai a via, além de Thorne e Iko e todas as pessoas que confiavam nela. Todas as pessoas que a conheciam.
Ela balançou a cabeça e achou mais fácil do que esperava deixar as palavras da madrasta de lado.
— Não vou mais me explicar para você. Não vou mais procurar sua aprovação. Não quero mais saber de você.
Enquanto chutava a pilha de lascas de pedra, ela enfiou a chave de fenda na parede, e na mesma hora ouviu passos.
Seu maxilar se contraiu. Chegou a hora dela. Virando-se, alcançou Adri e Pearl em três passadas largas. As duas se encolheram.
Cinder segurou a parte da frente da blusa de Adri e a puxou.
— Se você pensar em contar para eles que meu pé pode ser removido com a mesma facilidade do dedo, vou obrigar você a arrancar seus próprios olhos com as unhas, nem que seja a última coisa que eu faça. Entendeu?
Adri ficou pálida e assentiu fracamente. A voz de um homem soou além da porta:
— Abra.
Cinder largou a madrasta no canto e se virou.
A porta se abriu, e a cela se encheu com a luz do corredor, um único guarda, o taumaturgo Aimery e quatro taumaturgos adicionais, usando uma mistura de vermelho e preto. Cinco. Que lisonjeiro.
— Sua Majestade exigiu o prazer da sua companhia — disse Aimery.
Cinder ergueu o queixo.
— Não posso prometer que minha companhia vai ser tão prazerosa quanto ela espera.
Ela andou até eles para mostrar que não estava com medo, mas de repente se sentiu jogada contra a parede. A dor subiu pela coluna, deixando-a sem ar nos pulmões. Isso a lembrou de todas as brigas de treino com Lobo na Rampion, só que cem vezes pior, porque Lobo sempre parecia se sentir culpado depois.
O guarda que a jogou na parede colocou as mãos no pescoço dela. Cinder olhou de cara feia, apesar de saber que ele estava sendo controlado e que o verdadeiro agressor era um dos taumaturgos. O guarda olhou para ela.
— Esse foi seu primeiro aviso — disse Aimery. — Se você tentar fugir, se tentar lutar, se sentirmos você tentando usar seu dom, não vamos dar um segundo.
O guarda a soltou e Cinder cambaleou para trás, equilibrando-se com os joelhos firmes. Ela massageou o pescoço brevemente antes de seus pulsos serem puxados para as costas e amarrados.
O guarda a empurrou para a porta. Havia mais quatro no corredor, com as armas nas mãos. Infelizmente, eles já estavam sob o controle dos taumaturgos. Ela não tinha esperança de virar nenhum para seu lado.
Ainda.
Mas, se alguém escorregasse por um momento, ela não se daria ao trabalho de dar um primeiro aviso.
— Tragam as terráqueas também — disse Aimery.
Adri e Pearl choramingaram quando foram colocadas de pé, mas Cinder abaixou sua interface de áudio para não as ouvir. Não sabia por que Levana queria sua madrasta e sua meia-irmã, mas se achava que Cinder tinha alguma afeição por elas, ficaria decepcionada.
— Aonde estamos indo? — perguntou Cinder quando foi empurrada para longe da cela.
Houve um longo silêncio, e ela teve certeza de que estava sendo ignorada, mas Aimery acabou respondendo:
— Você será convidada de honra no banquete de casamento de Sua Majestade.
Ela contraiu o maxilar. Banquete de casamento.
— Mas eu esqueci meu vestido de baile na Terra.
Desta vez, foi uma das mulheres que riu.
— Não se preocupe — disse ela. — Você não ia querer mesmo sujar o vestido todo de sangue.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!