13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e nove

CRESS ESTAVA FICANDO INQUIETA. AS NÚPCIAS REAIS TINHAM SIDO marcadas para começar em apenas vinte e sete minutos, e até onde ela conseguia perceber, todos os guardas e seguranças permaneciam em suas posições. Além disso, ela e Lobo ficavam sem alternativas para passarem despercebidos sem ter que voltar para as cadeiras. Até o momento, cada um tinha mordiscado aperitivos de camarão servidos por garçons (Cress: um; Lobo: seis), se revezado para ir ao banheiro enquanto tentavam na verdade perceber se algum dos guardas parecia preocupado com uma possível falha de segurança, e três vezes Cress teve que gargalhar de um jeito sonhador e segurar a mão de Lobo para fazer com que alguma admiradora seguisse em frente. Era sua atuação mais impressionante, porque tocar em Lobo a deixava pouco à vontade, e era difícil imaginá-lo contando uma piada.
— Talvez devêssemos começar a pensar em um plano B — murmurou Cress quando reparou que a orquestra recomeçou a tocar a mesma música.
— Já fiz isso — disse Lobo.
Ela olhou para ele.
— É mesmo? E qual é?
— Prosseguimos para o centro de segurança, como planejado. Só vou precisar derrubar bem mais guardas no caminho daqui até lá.
Ela mordeu o lábio, não muito animada com o plano B.
E então...
— Ali. Olhe.
Ela seguiu o gesto dele. Dois guardas estavam conversando de cabeça baixa. Um tinha distintivos que indicavam uma posição bem mais elevada. Ele apontou para um corredor, na direção do laboratório de pesquisa.
Bem, na verdade, era na direção de praticamente qualquer coisa, mas Cress torcia para ele estar falando de alguma confusão na ala de pesquisa. Isso significaria que os outros conseguiram chegar lá e acionar os alarmes.
Um segundo depois, os dois guardas saíram do salão.
— Você acha que elas conseguiram? — perguntou Cress.
— Hora de descobrir.
Lobo ofereceu o braço, e juntos eles seguiram para o corredor principal. Os guardas restantes não prestaram atenção quando os dois entraram em um corredor adjacente.
Cress ficou repetindo as instruções que tinha decorado: pegar o quarto corredor à direita, passar pelo pátio com a fonte da tartaruga, depois pegar a segunda entrada à esquerda. O coração dela começou a bater desesperadamente no peito.
Duas vezes eles foram parados pelo pessoal do palácio, e duas vezes pediram instruções como convidados confusos e um pouco embriagados, e tiveram que voltar para um esconderijo até Lobo achar seguro prosseguir com o deslocamento. Mas nenhum alarme foi disparado e nenhum guarda foi atrás. Cress sabia que eles já tinham sido capturados por várias câmeras espalhadas pelo palácio, mas ela e Lobo não eram reconhecíveis como Cinder, Thorne e o dr. Erland, e, mesmo que despertassem desconfianças, ela torcia para que todos estivessem distraídos demais pela emergência no laboratório de pesquisa para se importarem. Mesmo assim, quanto mais eles se afastavam do salão de baile, menos chance havia de acreditarem no fingimento de inocência deles.
Ela ficou feliz quando Lobo acelerou o passo. Cinder e Iko já os estariam esperando, e eles estavam ficando sem tempo.
Eles chegaram a uma passarela suspensa que unia duas das torres do palácio. O piso de vidro deixava à mostra um córrego pacífico borbulhando abaixo, entre plantas verdejantes e crisântemos pesados. Depois da passarela, eles se viram em um saguão circular, com assentos vazios entalhados de madeira escura, estátuas de criaturas míticas ao redor e uma floresta de bambus e orquídeas em vasos que davam um aroma intenso ao aposento.
Cress reconheceu o espaço, andou até uma escultura de um dragão da sorte de noventa centímetros e girou-a no pedestal até que ficasse de frente para a parede.
— Tem uma câmera lunar no olho esquerdo — explicou ela, e correu para os elevadores.
Havia um androide branco no centro da parede de elevadores, seus braços com pinças compridos cruzados na frente do abdômen. Um sensor azul brilhou sobre eles.
— Peço desculpas pela inconveniência — disse ele, em um tom monótono cujo objetivo diplomático era não transmitir nenhum preconceito. — Estamos vivenciando uma falha de segurança de nível um, e todos os elevadores foram temporariamente desligados. Apreciem uma xícara de chá enquanto esperamos liberação.
Um dos braços indicou uma alcova onde havia uma máquina com um bule de porcelana delicada, com vapor saindo pelo bico e uma variedade de folhas e temperos.
— Você tem capacitação para desativação de segurança? — perguntou Cress ao androide.
— Tenho, mas só um código oficial ou...
Cress se agachou e virou o androide.
— Você não tem uma chave de fenda ou alguma outra coisa que possamos usar para abrir o painel de controle?
— ... um oficial do palácio com autoridade para isso...
Lobo se inclinou por cima dela, afundou as unhas na abertura e arrancou o painel todo com a mão.
— ... poderia suplantar uma falha de segurança de nível um. Peço desculpas pela inconveniência, mas tenho que pedir que vocês...
Lobo pegou no bolso o tablet que o doutor tinha lhe dado e passou-o para Cress. Ela puxou um cabo e ligou no androide, impedindo que a avaliação diagnóstica automática se iniciasse. Ela começou a fazer uma busca manual por configurações para suplantar a segurança.
— ... parem de tentar alterar propriedade oficial do governo. Alterar um androide real pode resultar em uma multa de até cinco mil univs e seis meses de... Identidade confirmada: conselheiro real Konn Torin. Suplantação de segurança completa. Esperando instruções.
— Elevador para o andar principal — disse Cress.
— Favor se dirigir ao elevador A.
Cress puxou o cabo. Lobo ajudou-a a se levantar quando as portas mais próximas se abriram e a puxou para dentro do elevador.
O coração dela estava disparado, e o elevador descia. Ela imaginou as portas se abrindo em frente a um exército de guardas com as armas apontadas e prontas. Achou que, a essa altura, eles já estavam sendo observados. A distração de Thorne não poderia oferecer mais do que isso, e havia duas câmeras em cada elevador do palácio. A única pergunta era quanto tempo os guardas levariam para chegar a eles depois que descobrissem para onde estavam indo.
O elevador parou. As portas hesitaram por tempo demais, e a pulsação dela tremeu loucamente, até que se abriram em um saguão vazio. Ela soltou a respiração presa.
Esse andar do palácio era praticamente só de espaço administrativo, usado para reuniões diplomáticas e onde ficavam os escritórios de uma multidão de oficiais do governo. Ela reconheceu algumas partes. O nome na placa daquela mesa. O quadro naquela parede. Em sua cabeça, Cress estava de volta ao satélite, enquanto ela e Lobo corriam pelo corredor acarpetado. Ela via Lobo e a si mesma pelas câmeras nos tetos. Estava imaginando como os dois pareceriam a ela lá em cima, sempre desligada e nada envolvida e vendo, vendo. Quando eles dobraram uma esquina, ela se visualizou clicando em outras imagens. Quando passaram por uma câmera, ela a imaginou passando da visão da frente deles para a das costas.
Eles chegaram aos elevadores seguintes sem problemas, embora esses não tivessem androides vigias.
Ela apertou o botão do elevador, mas nada aconteceu. As palavras ELEVADORES TEMPORARIAMENTE PARADOS DEVIDO A FALHA NÍVEL 1 apareceram na tela em fontes vermelhas.
Cress olhou com irritação e enfiou as unhas no painel. Devia haver um jeito de passar, para o caso de alguém importante precisar ir por ali, mas sem um androide designado...
Ela foi segurada pelo cotovelo e puxada. Deu um grito, pensando por um momento que um guarda a tinha capturado, mas era só Lobo puxando-a para um canto.
— Escadas — disse ele, abrindo uma porta.
Quando a porta se fechou atrás deles, Cress ouviu o som de botas batendo no chão ao longe.
O coração saltou na garganta, e ela olhou para Lobo a fim de ver se ele tinha ouvido, mas, antes que pudesse falar, a jogou sobre o ombro e pulou da escada até o patamar em um salto só. Ela deu um gritinho, mas colocou a mão sobre a boca para controlar o pavor repentino.
Para baixo, para baixo, para baixo. Finalmente, eles passaram por uma placa intitulada: SUBNÍVEL D: MANUTENÇÃO/SEGURANÇA.
Dessa vez, quando Lobo a colocou no chão e abriu a porta, parecia que eles não estavam mais no palácio. As paredes eram brancas, o chão era de concreto cinza e sem graça. A escadaria os levou a um pequeno saguão, com o elevador à esquerda e uma mesa cheia de coisas à frente. Por trás da mesa havia uma sala toda de vidro escuro, com uma cadeira vazia em frente a uma parede onde trinta e seis telas mostravam filmagens de segurança dentro do palácio e na propriedade ao redor. Quatro das telas piscavam com avisos de falhas de segurança.
E havia também o guarda, apontando uma arma para eles.
— Fiquem onde estão! Coloquem as mãos onde eu consiga ver!
Trêmula, Cress se moveu para seguir a ordem, mas, antes que a ponta dos dedos pudessem roçar no cabelo, Lobo a empurrou para longe. Ela gritou e caiu no chão. O vestido rasgou em alguma parte do forro, e um tiro ecoou no concreto. Ela gritou e cobriu a cabeça.
— Cress, se levante. Agora.
Ela afastou os braços e viu que o guarda estava inconsciente e caído sobre a mesa.
Lobo se inclinou, chutou a arma para longe, arrastou o guarda até a porta de vidro e levantou o pulso dele até o escâner de identificação. Uma luz verde piscou.
— Venha. Tinha mais dois guardas atrás de nós.
Tremendo, Cress se levantou e seguiu Lobo para a sala de controle de segurança.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!