20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e dois

Cinder e Lobo foram levados para um porto de carga subterrâneo cheio de naves de entrega velhas e três naves reais, o que explicava por que a chegada dos inimigos não disparou nenhum alarme. Cinder só botou vigias na plataforma dos trens de levitação magnética.
Ela repreendeu a si mesma, torcendo para que um dia tivesse oportunidade de aprender com esse erro.
Com os pulsos amarrados, Cinder sentia que os braços podiam se soltar do corpo. Embora Lobo estivesse andando logo atrás, ela sentia a energia dele, agitada e letal. Tremendo de medo por Scarlet. Vazio e arrasado pelo que fizeram com Maha.
Um guarda real estava esperando. O cabelo estava desgrenhado, mas a expressão, vazia.
— Reporte-se — disse Aimery.
Ele estava mancando, e Cinder teve a fantasia de chutá-lo bem onde a bala entrou.
— A mestra Pereira e Sir Solis estão mortos.
Aimery levantou uma das sobrancelhas. Ele parecia só curioso com essa declaração inesperada.
— Como?
— Fomos emboscados dentro da casa de Kesley por uma androide terráquea — disse o guarda.
O coração de Cinder pulou.
— Uma luta aconteceu. A androide era imune a manipulação mental, e balas também não a afetavam muito. Ela… essa coisa sufocou a mestra Pereira, depois entrei em combate direto com ela. A coisa me desarmou e usou minha arma para atirar em Sir Solis e na nossa taumaturga. Enquanto a androide estava distraída, enfiei a faca nas costas dela, cortando sua… coluna, ao que parece. Isso a desabilitou.
Uma dor de cabeça pulsou atrás dos olhos de Cinder, sinal de lágrimas que jamais viriam. Primeiro, Maha, depois, Iko…
— Com a ameaça removida, eu conduzi uma busca detalhada do resto da casa e das propriedades ao redor — continuou o guarda. — Não encontrei cúmplices.
Era um pequeno alívio. Winter, pelo menos, não foi descoberta, e pelo que Cinder podia perceber, nem Thorne e Scarlet.
Aimery encarou o guarda por um longo tempo, como se estivesse procurando uma falha na história.
— O que aconteceu com a androide?
— Eu encontrei e destruí o que acredito ser a fonte de energia — disse o guarda. — Joguei o que sobrou no compactador público de lixo.
— Não! — Cinder cambaleou, mas o guarda atrás dela a puxou de volta.
O guarda lançou um breve olhar para ela e acrescentou:
— Deixei os corpos para trás. Devo voltar para buscar?
Aimery balançou a mão em um gesto desinteressado.
— Vamos mandar uma equipe.
Mais passos vieram da escada. Ainda tremendo pela notícia da perda de Iko, Cinder mal conseguiu levantar a cabeça. Ela viu que Lobo a observava. Embora os olhos estivessem solidários, o maxilar estava tenso de raiva.
Os dois perderam pessoas queridas hoje.
Cinder sentiu como se estivesse sufocando, como se as costelas estivessem apertando os pulmões, mas tirou forças da presença de Lobo. Sua fúria começou a aumentar. A dor virou lenha seca, que pega fogo rápido.
Ela se equilibrou de novo, e apesar de não poder se soltar da mão do guarda, obrigou-se a se empertigar.
Os passos viraram um taumaturgo de casaco preto e mais guardas.
— Não encontramos mais nenhum cúmplice nem descobrimos quem disparou em nós das janelas da fábrica — disse o novo taumaturgo. — É possível que tenham se deslocado para outro setor. Eles podem tentar a insurgência em outro lugar.
Aimery dispensou a preocupação do taumaturgo com um sorriso.
— Eles que tentem. Não temos medo do nosso próprio povo. — Os olhos escuros pousaram em Cinder. — Essa rebeliãozinha acabou.
Cinder levantou a cabeça, mas um rosnado baixo roubou a atenção de Aimery. Ele se virou para Lobo, cujos caninos afiados estavam à mostra. Ele parecia selvagem e com sede de sangue, pronto para fazer picadinho dos captores.
Em resposta, Aimery riu. Deu um passo à frente, segurou o queixo de Lobo nos dedos e apertou até as bochechas de Lobo ficarem espremidas.
— Além do mais, como podemos perder se temos animais como este à nossa disposição? — Soltando o queixo de Lobo, Aimery deu um tapa leve na bochecha dele. — Alfa Kesley, não é? Eu estava lá no torneio da rainha no dia em que você conquistou sua posição na matilha. Parece que você foi desencaminhado pelos terráqueos. O que vamos fazer sobre isso?
Lobo observou o taumaturgo com um ódio capaz de queimar a pele dele.
Sem aviso, um de seus joelhos cedeu, e ele se ajoelhou em frente a Aimery. Cinder se encolheu, pois sentiu o choque como se estivesse ricocheteando por suas juntas. No momento seguinte, Lobo baixou a cabeça.
Era repugnante de olhar. Toda aquela força. Toda aquela fúria. Reduzidas a nada mais do que uma marionete. Era ainda mais repugnante porque ela sabia quanta força mental e foco eram necessários para forçar Lobo a fazer qualquer coisa. Ela mal tinha começado a dominar essa habilidade, mas Aimery não demonstrava nenhum sinal de dificuldade.
— Bom cachorrinho — disse Aimery, fazendo carinho na cabeça de Lobo. — Vamos levar você para Sua Majestade e deixar que ela decida a punição para sua traição. Está bom para você, Alfa Kesley?
A voz de Lobo saiu rouca e robótica quando ele respondeu:
— Sim, mestre.
— Como pensei. — Aimery voltou a atenção para o resto do grupo. — Se houver algum resto de rebelião por aí, cuidem para que seja logo extinguido. Vai haver um casamento real amanhã, e não vamos tolerar mais perturbações.
Depois que os outros taumaturgos fizeram reverências e foram embora, Aimery enfiou as mãos nas mangas e se virou para Cinder.
— E isso só deixa a pergunta do que vai ser feito com você.
Ela sustentou o olhar dele.
— Você poderia se ajoelhar à minha frente como sua verdadeira rainha.
Aimery curvou os lábios.
— Matem-na.
Aconteceu muito rápido. Um dos guardas puxou a arma do coldre, segurou contra a testa de Cinder, soltou a trava de segurança, apertou o gatilho…
Cinder inspirou uma última vez.
— Pare. Mudei de ideia.
Com a mesma rapidez, a arma foi guardada no cinto do guarda.
Cinder oscilou, com a cabeça girando pela onda de medo repentino.
— Minha rainha pediu para ter o prazer de decidir seu destino. Acho que vou sugerir que ela ofereça sua cabeça para o imperador Kaito como presente de casamento.
— Taumaturgo Park?
Ele se virou para a mulher de casaco vermelho que falou. Ela estava com a palma da mão no painel lateral de uma pequena nave.
— Esta é uma nave real — disse ela. — E parece ter chegado recentemente. — Ela levantou a mão. — Quase não tem pó. É estranho estar aqui.
Aimery fez um som desinteressado.
— Não estou surpreso de haver ladrões por aí, mas pode nos ajudar a localizar os rebeldes desaparecidos. Faça uma busca pelo número de rastreio e veja o que encontra.
Ele fez sinal para alguns guardas. Cinder e Lobo foram levados para a nave dele e sentados em bancos separados. Nenhuma palavra foi dita quando os motores foram ligados.
Em momentos, eles estavam indo para Artemísia.
Aimery continuou dando ordens, alguma coisa sobre cuidados médicos e um ferimento de bala, designando um novo capitão da guarda, e informando à rainha sobre as mortes e os prisioneiros. Os pensamentos de Cinder ficaram confusos, e ela se viu olhando para o perfil do guarda que matou Iko. “Isso a desabilitou”, ele dissera. E a jogou em um compactador de lixo.
As visões surgiram na mente dela repetidas vezes. Uma faca enfiada na coluna de Iko. Os dedos quebrados de Maha. Os residentes do setor ajoelhados aos pés de Aimery.
O ódio dela aumentou. Foi esquentando devagar em suas entranhas. Mas, quando Artemísia surgiu, ela estava fervendo.
A nave baixou para o porto subterrâneo de Artemísia. A rampa estava arriada e um guarda puxou Cinder com um aperto tão doloroso que ela teve que sufocar um grito de dor. Os passos pesados de Lobo eram ouvidos atrás dela.
Ela foi recebida com uma série de novas ameaças. Uma dezena de guardas, com bioeletricidade tão maleável quanto chips de personalidade recém-saídos da fábrica, e mais três taumaturgos, cuja força mental sempre tinha uma certa rigidez de ferro. Seu dedo tremeu, e ela se perguntou com que rapidez carregaria uma bala e quanto tempo demoraria para matar todos. Ela estava de volta a Artemísia. Se escapasse, poderia agir sozinha, uma assassina solitária caçando a rainha.
Era só fantasia. Suas mãos ainda estavam amarradas.
Ela apertou a mão ciborgue em um punho inútil.
— Taumaturgo Park?
Cinder espiou o guarda que tinha matado Iko.
— Sir Kinney.
— Permissão para buscar cuidados médicos imediatos?
A atenção de Aimery se voltou para o sangue no uniforme dele. Havia muito, embora Cinder não soubesse onde exatamente ele estava ferido.
— Tudo bem — disse ele. — Apresente-se assim que estiver liberado para o serviço.
O guarda levou o punho ao peito e saiu andando na direção oposta.
Cinder e Lobo foram empurrados para longe das docas e até um labirinto de corredores. Sem saber o que mais fazer, Cinder tentou se concentrar em aonde a estavam levando. Ela contou os passos, criando um mapa rudimentar na mente e encaixando-o com o que sabia do palácio da rainha.
Eles foram levados até um conjunto de elevadores, escoltados por mais guardas. Houve uma pausa, na qual Aimery conversou com outro taumaturgo, e, apesar de Cinder ajustar sua interface de áudio, só captou algumas palavras: alfa soldado no começo. Depois, insurgência MR-9 ciborgue.
Aimery fez um gesto, e começaram a levar Lobo para longe, por um corredor separado.
— Esperem — disse Cinder, com o pânico se espalhando pelas veias. — Para onde vocês o estão levando?
Lobo rosnou e lutou contra os captores, mas sua luta foi anulada por controle mental.
— Lobo! Não! — Cinder cambaleou para a frente, mas braços a seguraram. As amarras faziam os pulsos dela arderem. — Lobo!
Não adiantou nada. Eles dobraram uma esquina e Lobo sumiu, deixando Cinder ofegante e tremendo. Ela sentiu umidade no pulso direito, onde a corda cortou a pele.
Não era tão inocente em pensar que ela e Lobo pudessem resistir com sucesso aos inimigos, mas não se imaginou sendo separada dele tão rápido. Ela talvez nunca mais o visse. Talvez nunca mais visse nenhum deles.
Quando foi forçada a entrar no elevador, ocorreu-lhe que, pela primeira vez desde que aquilo tudo começou, ela estava sozinha.
— Desculpe por não podermos fazer o tour particular — disse Aimery. — Mas estamos envolvidos com os preparativos do casamento. Tenho certeza de que você entende.
As portas do elevador se fecharam e eles começaram a descer. E descer. Cinder sentia como se estivesse sendo levada para seu túmulo.
Quando as portas se abriram, ela foi empurrada com um cutucão nas costas. Foi levada por um corredor escuro, com paredes ásperas e cheiro de ar parado, urina e corpos. Seu nariz se franziu de nojo.
— Espero que você ache suas acomodações aceitáveis para uma convidada tão distinta como você — continuou Aimery, como se o cheiro não o incomodasse. — Eu soube que você já está acostumada a celas de prisão.
— Eu não diria isso — disse Cinder. — A última só conseguiu me segurar por um dia.
— Esta vai ser bem mais adequada a você, tenho certeza.
Aquela prisão de pedras e cavernas não era nada como a estrutura moderna de Nova Pequim. Era horrível e sufocante, e, pior de tudo, Cinder não tinha a planta dela. Não tinha um mapa preciso, nem um plano, nem meios de avaliar sua localização em relação a… bem, em relação a nada.
Eles pararam, e houve um balançar de chaves e o gemido de dobradiças de metal antigas. Um cadeado antiquado. Que peculiar.
Se ela o alcançasse da cela, poderia arrombar em trinta segundos.
O pensamento ofereceu um toque de esperança, pelo menos.
Quando a porta se abriu, o cheiro se intensificou. Seus pulmões tentaram expulsar o ar assim que entrou.
— Você vai ficar aqui até que Sua Majestade, a rainha, tenha tempo de cuidar do seu julgamento e da sua execução — disse Aimery.
— Mal posso esperar — murmurou Cinder.
— É claro que você vai querer usar seu tempo para refazer o contato.
— Contato?
Um guarda cortou as cordas dos pulsos dela e a empurrou. O ombro bateu na beirada da porta de ferro quando ela cambaleou para a cela e se apoiou em uma parede áspera.
Alguém choramingou, e ela ficou imóvel. Não estava sozinha.
— Aprecie sua estada… princesa.
A porta foi fechada, e o barulho dela vibrou pelos ossos de Cinder. A cela era pequena e tinha uma janela com grades no topo da porta de ferro, que permitia a entrada de luz suficiente do corredor para que ela identificasse um balde no chão. A fonte do cheiro horrível.
Duas pessoas estavam abraçadas no canto.
Cinder ficou olhando para elas, querendo que os olhos se ajustassem. Ela acendeu a lanterna embutida no dedo. As duas pessoas tremeram e se esconderam atrás dos braços.
O reconhecimento a atingiu como um gancho de direita, e ela caiu contra a parede.
Adri.
Pearl.
— Isso não pode ser sério.
A madrasta e a irmã estavam tremendo de medo e a observavam com olhos arregalados. Cinder não conseguia nem começar a imaginar por que elas estavam ali, o que Levana queria com elas.
E, então, ela se deu conta.
Ficaria ali, presa com elas, até sua execução.
Ela passou a mão pelo rosto e odiou Levana tanto, tanto mais.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!