13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e dois

O GAROTO LUNAR NÃO PODIA TER MAIS DO QUE OITO ANOS, MAS Scarlet tinha certeza de que torceria o pescoço dele como o de uma galinha se tivesse chance. Não havia dúvida de que era a criança mais horrível do mundo. Ela não conseguia deixar de pensar que, se todas as crianças lunares fossem assim, a sociedade deles toda estava amaldiçoada e Cinder devia deixá-los se destruir.
Scarlet não sabia como exatamente tinha acabado se tornando propriedade do Venerável Annotel, sua esposa e o monstrinho que criaram. Talvez fosse favoritismo da coroa ou talvez eles a tivessem comprado, como uma família terráquea poderia comprar um novo androide. Fosse como fosse, havia sete dias que ela era o brinquedo novo. O bichinho novo. A cobaia nova.
Porque, aos oito anos, o jovem mestre Charleson estava aprendendo a controlar seu dom lunar. Evidentemente, terráqueos eram bons de se usarem nos treinos, e mestre Charleson tinha um senso de humor muito distorcido.
Acorrentada com uma coleira no pescoço a um parafuso no chão, Scarlet ficava no que ela achava que era a sala de brinquedos do garoto. Uma tela enorme ocupava uma parede, e incontáveis máquinas de realidade virtual e aparelhos esportivos estavam abandonados nos cantos, fora de alcance.
As sessões de treino eram um sofrimento. Desde que chegou à casa dos Annotel, Scarlet teve que aguentar aranhas de pernas compridas subindo pelo nariz. Cobras do tamanho do braço dela se contorcendo pelo umbigo e se enrolando no tronco. Centopeias entupindo seus canais auditivos e rastejando para dentro do crânio antes de sair na língua.
Scarlet gritou. Scarlet se debateu. Enfiou as próprias unhas na barriga e assoou o nariz até sangrar em uma tentativa de se livrar dos invasores.
Durante esse tempo todo, mestre Charleson só riu e riu e riu.
Era tudo na cabeça dela, claro. Ela sabia disso. Sabia até quando batia com a cabeça no chão para tentar tirar as aranhas e as centopeias. Mas não importava. O corpo estava convencido, o cérebro também. A mente racional tinha sido dominada.
Ela odiava aquele garotinho. Odiava.
Também odiava o fato de que estava começando a ficar com medo dele.
— Charleson.
A mãe apareceu na porta e resgatou temporariamente Scarlet da mais nova paixão dele, toupeiras com olhos apertados, corpos gordos e enormes garras reptilianas. Um mordia os dedos dos pés dela enquanto as unhas rasgavam a sola.
A ilusão e a dor sumiram, mas o horror permaneceu. A dor na garganta. A umidade salgada no rosto. Scarlet rolou de lado e chorou no meio do piso da sala de brinquedos, grata porque o garoto não sustentava a lavagem cerebral enquanto estava distraído.
Scarlet não prestou atenção na conversa até Charleson começar a gritar e se esforçou para abrir os olhos inchados. O garoto estava tendo um ataque de birra. A mãe falava com voz tranquilizadora, tentando acalmá-lo. Prometendo alguma coisa. Parecia que Charleson não estava satisfeito. Um minuto depois, ele saiu da sala batendo os pés, e Scarlet ouviu a porta bater.
Ela expirou em alívio trêmulo. Os músculos relaxaram, como nunca conseguiam quando o terror estava por perto.
Empurrou o capuz vermelho e um emaranhado de cachos para longe do rosto. A mãe lançou um olhar horrível, como se Scarlet fosse uma toupeira nojenta, tão ofensiva quanto uma invasão de vermes na bancada imaculada da cozinha.
Sem uma palavra, ela se virou e saiu da sala.
Não demorou para uma sombra diferente ocupar a porta, um homem bonito usando um casaco preto de mangas compridas.
Um taumaturgo.
Scarlet quase ficou feliz em vê-lo.


— ELA FOI CAPTURADA DURANTE MINHA BATALHA COM LINH CINDER. A garota era uma das cúmplices dela.
— A batalha na qual você falhou em erradicar ou apreender a ciborgue?
As narinas de Sybil se dilataram enquanto ela andava entre Scarlet e o trono de mármore entalhado. Estava usando um casaco novo e impecável e se movia com uma rigidez estranha, sem dúvida como resultado do ferimento à bala.
— Correto, minha rainha.
Sybil uniu as mãos nas costas, e os nós dos dedos ficaram brancos.
— Infelizmente, nossos técnicos de software não tiveram sucesso no rastreio da Rampion usando a nave de passeio e nem com o chip D-COMM que confisquei. Portanto, o propósito principal desse interrogatório é para averiguar que informações nossa prisioneira pode fornecer à nossa busca contínua pela ciborgue.
A rainha Levana assentiu.
Scarlet, ajoelhada no centro da sala do trono feita de pedra e vidro, tinha uma boa visão da rainha, e, apesar de parte dela querer afastar o olhar, era difícil. A rainha lunar era tão linda quanto sempre disseram, mais até. Scarlet desconfiava de que houve uma época em que os homens fariam guerras para ter uma mulher com tamanha beleza. Atualmente, o imperador Kai estava sendo obrigado a se casar com ela para impedir uma guerra.
Em seu estado mental faminto, delirante e exausto, Scarlet quase riu da ironia. Engoliu a gargalhada, mas foi por pouco.
A rainha reparou no tremor nos lábios dela e franziu a testa.
Com a pulsação acelerada, Scarlet observou a sala do trono. Apesar de ter sido obrigada a se ajoelhar, eles não prenderam as mãos dela. Com a própria rainha presente, mais um bando de guardas e um total de dez taumaturgos (Sybil Mira, mais três de vermelho e seis de preto), ela achava que eles não estavam muito preocupados com a possibilidade de ela tentar fugir.
Além disso, as cadeiras forradas de veludo de cada lado do trono estavam lotadas de pelo menos cinquenta... bem, Scarlet não sabia quem eles eram. Jurados? A imprensa lunar? Aristocratas?
Sabia que estavam ridículos. As roupas cintilavam, flutuavam e brilhavam. Os rostos, pintados como sistemas solares e prismas de arcos-íris e animais selvagens. Os cabelos eram coloridos e se encaracolavam e estufavam, desafiando a gravidade para criar estruturas enormes e elaboradas. Algumas das perucas até abrigavam pássaros canoros engaiolados, apesar de estarem incrivelmente silenciosos.
Com esse pensamento, ocorreu a Scarlet que era só glamour que ela estava vendo. Esses lunares podiam estar usando um saco de batatas, pelo que ela sabia.
Os saltos de Sybil Mira bateram no chão duro e atraíram a atenção de Scarlet de volta.
— Por quanto tempo você fez parte da rebelião de Cinder antes de sua captura?
Ela olhou para a taumaturga e sentiu a garganta doendo de tanto gritar. Considerou não dizer nada. O olhar se desviou para a rainha.
— Por quanto tempo? — disse Sybil, seu tom já ficando impaciente.
Mas, não, Scarlet não pretendia ficar em silêncio. Eles iam matá-la, isso estava óbvio. Não era tão ingênua a ponto de não ver sua própria mortalidade se fechando à sua volta. Afinal, havia manchas de sangue no piso da sala, fazendo uma trilha na direção da parede oposta ao trono da rainha. Ou onde devia haver uma parede, mas só havia uma enorme janela aberta e um parapeito que se projetava e não levava a nada.
Eles estavam bem alto, no terceiro ou quarto andar, pelo menos. Scarlet não sabia o que tinha depois do parapeito, mas achava que era uma forma conveniente de se livrar de corpos.
Sybil a segurou pelo queixo.
— Sugiro que você responda à pergunta.
Scarlet trincou os dentes. Sim, ela responderia. Quando teria uma plateia assim de novo?
Quando Sybil a soltou, ela voltou a atenção para a rainha.
— Eu me juntei a Cinder na noite em que seus agentes especiais atacaram — disse, a voz rouca, mas forte. — Também foi a noite em que você matou minha avó.
A rainha Levana não reagiu.
— Você não deve fazer ideia de quem era minha avó. Nem quem eu sou.
— E isso é relevante para esses procedimentos? — perguntou Sybil, parecendo irritada por Scarlet ter tomado conta do interrogatório.
— Ah, sim. É muito relevante.
Levana apoiou a bochecha nos dedos e fez cara de tédio.
— O nome dela era Michelle Benoit.
Nada.
— Ela serviu vinte e oito anos como militar na Europa, como piloto. Recebeu uma medalha uma vez, por ser piloto de uma missão até aqui, até Luna, para discussões diplomáticas.
Um apertar de olhos de leve.
— Muitos anos depois, um homem que ela conheceu em Luna apareceu na porta dela com uma entrega muito interessante. Uma garotinha... quase morta, mas só quase.
Um enrugar ao redor dos lábios.
— Durante anos, minha avó manteve a garotinha escondida, manteve-a viva, e acabou pagando por isso com a vida. Isso foi na noite em que me juntei a Linh Cinder. Foi na noite em que me juntei ao lado da verdadeira rainha de...
Sua língua congelou e seu maxilar e sua garganta ficaram imobilizados.
Mas seus lábios conseguiram dar um sorriso arrogante. Ela já tinha dito mais do que Levana permitiria, e a fúria nos olhos da rainha fez valer a pena.
A plateia estava se mexendo delicadamente, sem ninguém ousar falar, mas todos lançavam olhares confusos uns para os outros pela sala.
Sybil Mira ficou pálida enquanto olhava de Scarlet para a rainha.
— Peço desculpas pela falação da prisioneira, minha rainha. Você gostaria que eu continuasse a interrogá-la em particular?
— Isso não vai ser necessário. — A voz da rainha Levana estava lírica e calma, como se as palavras de Scarlet não tivessem incomodado em nada, mas Scarlet sabia que era só de fachada. Viu o brilho de ódio mortal nos olhos da rainha. — Pode continuar com as perguntas, Sybil. Mas estamos programadas para partir para a Terra hoje, e eu odiaria me atrasar. Talvez sua prisioneira pudesse ter um pouco de motivação para ficar concentrada nas respostas que queremos.
— Eu concordo, Vossa Majestade.
Sybil assentiu para os guardas reais que ladeavam as portas.
Momentos depois, uma plataforma de rodinhas foi empurrada para a sala do trono, e a plateia pareceu se animar.
Scarlet engoliu em seco.
Na plataforma havia um grande bloco de madeira de ébano, intrincadamente entalhado de todos os lados com imagens de pessoas se prostrando na frente de um homem de túnica comprida e leve que usava uma lua crescente como coroa. Em cima do bloco, em meio a centenas de marcas de golpe, havia uma machadinha de prata.
Scarlet foi puxada por dois guardas até ficar de pé e ser arrastada à plataforma. Ela soltou a respiração devagar e ergueu o queixo, tentando sufocar o medo crescente.
— Me diga — disse Sybil, passando atrás dela. — Onde está Linh Cinder agora?
Scarlet sustentou o olhar da rainha.
— Eu não sei.
Uma hesitação, e sua mão a traiu, se esticou e pegou o cabo de prata. A garganta dela se apertou.
— Onde ela está?
Scarlet trincou os dentes.
— Eu. Não. Sei.
A mão dela arrancou a machadinha da madeira.
— Vocês devem ter conversado sobre a possibilidade de um pouso de emergência. Um lugar seguro caso fosse necessário. Me conte. Especule se precisar. Para onde ela teria ido?
— Eu não faço ideia.
A outra mão de Scarlet bateu em cima do bloco, com os dedos abertos sobre madeira escura. Ela sufocou um grito por causa dos movimentos repentinos e, finalmente, arrancou o olhar da rainha a fim de olhar para a mão traidora.
— Talvez uma pergunta mais fácil, então.
Scarlet deu um pulo. Sybil estava bem atrás, sussurrando no ouvido dela.
— A qual dedo você menos dá valor?
Scarlet apertou bem os olhos. Tentou limpar os pensamentos, ser lógica. Tentou não sentir medo.
— Eu era só o piloto — disse ela. — Nenhum deles fazia ideia de como pilotar uma espaçonave. Se tentassem voltar para a Terra, cairiam.
Os passos de Sybil recuaram, mas a mão de Scarlet continuou aberta sobre o bloco, com a machadinha ainda no ar.
— Meu guarda era um excelente piloto e estava bem vivo quando abandonamos a nave. Suponha que Linh Cinder tenha feito lavagem cerebral nele para pilotar a nave para ela. — Sybil foi para um lugar onde Scarlet pudesse vê-la de novo. — Para onde então ela o mandaria ir?
— Eu não sei. Talvez você devesse perguntar a ele.
Um sorriso lento e satisfeito começou a surgir no rosto da taumaturga.
— Vamos começar com o menor então.
O braço de Scarlet recuou e ela se encolheu e afastou o rosto, como se não olhar fosse impedir o que aconteceria. Os joelhos cederam, e ela caiu ao lado do bloco de madeira, mas os braços permaneceram fortes, inflexíveis. As únicas partes que não estavam tremendo.
O aperto na machadinha aumentou, pronto para agir.
— Minha rainha?
A sala inteira pareceu inspirar as palavras, faladas tão baixo que Scarlet não tinha certeza se as havia ouvido.
Depois de um longo, longo momento, a rainha respondeu:
— O quê?
— Posso ficar com ela? — As palavras saíram baixas e lentas, como se a pergunta fosse um labirinto que precisava ser atravessado com cautela. — Ela daria um ótimo animal de estimação.
Com a pulsação trovejando nos ouvidos, Scarlet ousou abrir os olhos. A machadinha cintilou no canto da visão.
— Você pode ficar com ela quando acabarmos — disse a rainha, não parecendo nada satisfeita com a interrupção.
— Mas ela estará estragada. Eles nunca são divertidos quando você me dá estragados.
A sala começou a rir com deboche.
Uma gota de suor ardida caiu nos olhos de Scarlet.
— Se ela fosse meu bichinho de estimação — prosseguiu a voz cantarolada — eu poderia praticar com ela, que deve ser fácil de controlar. Talvez eu começasse a ficar melhor se tivesse uma terráquea tão bonita para brincar.
As risadinhas pararam.
A voz frágil ficou ainda mais baixa, pouco mais de um murmúrio, que ainda soou como um tiro no aposento silencioso.
— Papai teria dado ela pra mim.
Scarlet tentou piscar para tirar a água salgada dos olhos. A respiração estava entrecortada pelo esforço de tentar recuperar o controle dos braços e falhar.
— Eu falei que você pode ficar com ela, e você pode — disse a rainha, falando com rispidez, como se falasse com uma criança irritante. — Mas o que você não parece entender é que, quando uma rainha ameaça represálias contra alguém que fez mal a ela, tem que ir até o fim com essas ameaças. Se não fizer isso, está convidando a anarquia a entrar em casa. Você quer anarquia, princesa?
Tonta de medo, náusea e fome, Scarlet levantou a cabeça. A rainha olhava para uma pessoa sentada ao lado dela, mas o mundo estava borrado e Scarlet não viu quem era.
Mas ela a ouviu. A voz adorável parecendo cortá-la.
— Não, minha rainha.
— Precisamente.
Levana se virou para Sybil e assentiu.
Scarlet não teve nem um momento para se preparar quando a machadinha caiu.

Um comentário:

  1. ho meu Deus
    Meu coração vai saltar fora, não aguento isso :(

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Boa leitura, E SEM SPOILER!