7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e Dois

CINDER SENTIU O TAUMATURGO ANTES DE VÊ-LO, COMO UMA cobra deslizando para dentro de seu cérebro. Mandando-a parar de correr. Ficar imóvel e se deixar capturar.
A perna direita obedeceu, mas a esquerda continuou a correr.
Com um grito agudo, ela caiu de quatro. O homem inconsciente (Lobo?) quase a esmagou quando seu corpo saiu rolando. Thorne gritou e tropeçou, e quase não conseguiu se equilibrar antes de cair.
Cinder ficou de pé novamente e virou.
Os homens saíram das sombras, dos becos, de esquinas, de trás da nave, todos com olhos brilhantes e dentes afiados à mostra. Eram sete no total.
Ela viu o taumaturgo, belo, como os lunares sempre eram, com cabelo preto encaracolado e rosto esculpido como o de uma estátua. Usava um casaco vermelho, de taumaturgo de segundo nível.
Ao recuar, ela colidiu com Thorne, que murmurou.
— Então... Quantos dardos você tem ainda?
As íris escuras do taumaturgo brilharam ao luar.
— Um.
Ela duvidava que o taumaturgo pudesse ter ouvido, mas ele sorriu serenamente e enfiou as mãos dentro das mangas vermelhas.
— Certo — disse Thorne. — Se é assim...
Arrancou do cinto a arma roubada do oficial e girou, mirando no taumaturgo. Em seguida, ficou paralisado.
— Ah, não.
Com o canto do olho, Cinder viu o braço de Thorne se curvar e mudar de direção até o cano estar apontado para a têmpora dela.
— Cinder... — A voz dele quase falhou de pânico.
A expressão do taumaturgo permaneceu complacente.
Cinder prendeu a respiração, controlou os nervos e apontou o último tranquilizante para a perna de Thorne. O golpe a fez se encolher, mas em poucos segundos a arma caiu dos dedos dele e seu corpo despencou inerte sobre o de Lobo.
Uma gargalhada calorosa saiu da boca do taumaturgo.
— Olá, srta. Linh. É um prazer conhecê-la.
Ela observou os sete homens. Eram todos ameaçadores, estavam famintos e prontos para atacá-la e arrancar cada membro seu à menor provocação.
De alguma forma, ela preferia isso à diversão alegre do taumaturgo. Pelo menos com aqueles homens não havia como errar na interpretação das intenções.
Já tinha dado três passos para a frente quando percebeu. Se firmou e lutou para manter os pés parados, indecisos por um momento antes de se equilibrarem e ficarem imóveis no chão, ao mesmo tempo que seu dispositivo biônico captou a invasão.
MANIPULAÇÃO BIOELÉTRICA DETECTADA.
INICIALIZANDO PROCEDIMENTO DE RESIST...
A mensagem sumiu quando Cinder recuperou o controle dos próprios pensamentos, do próprio corpo. Seu cérebro estava sendo puxado em duas direções, mas o taumaturgo não estava conseguindo controlá-la, seu dom lunar estava lutando contra o dele.
— Então é verdade — disse ele.
A pressão foi interrompida, seus ouvidos estalaram e ela estava de volta na própria mente.
Ofegante, sentindo como se tivesse acabado de atravessar um oceano a nado.
— Queira me perdoar. Eu tive que tentar. — Os dentes brancos cintilaram. Não pareceu nem um pouco incomodado pelo fato de ela não poder ser controlada com a mesma facilidade que Thorne.
Com a mesma facilidade que os sete homens ao redor dela.
Com o coração disparado, ela olhou para o homem mais próximo, de cabelo louro escuro desgrenhado e uma cicatriz que ia da têmpora ao maxilar. Obrigou-se a ficar calma, mandou o desespero sumir e projetou os pensamentos na direção dele.
A mente dele não era como a das pessoas que ela já tinha tocado com o dom lunar. Não era aberta e concentrada como a de Thorne, nem fria e determinada como a de Alak, nem apavorada como a de Émilie, nem ansiosa e orgulhosa como as dos oficiais militares. Aquele homem tinha a mente de um animal, dispersa e selvagem e enfurecida com instintos básicos. Tinha desejo de matar, necessidade de se fartar comendo, percepção constante de seu lugar na matilha e de formas de provar sua posição. Matar. Comer. Destruir.
Com um tremor, ela afastou os pensamentos da mente dele.
O taumaturgo estava rindo de novo.
— O que você acha dos meus bichinhos? Eles se misturam com facilidade com humanos, mas viram feras rapidamente.
— Você os está controlando — disse ela, encontrando sua voz.
— Você me lisonjeia. Só estou encorajando instintos naturais.
— Não. Nenhuma pessoa ou animal tem instintos assim. De caçar e defender, talvez, mas você os transformou em monstros.
— Talvez tenha alguma coisa a ver com modificação genética. — Ele encerrou a frase com outra risadinha, como se ela o tivesse flagrado em um prazer do qual ele se envergonhava. — Mas não se preocupe, srta. Linh. Não vou deixar que machuquem você. Quero que minha rainha tenha esse prazer. Já seus amigos, infelizmente...
Ao mesmo tempo, dois soldados deram um passo à frente e seguraram Cinder pelos cotovelos.
— Levem-na para o teatro — disse o taumaturgo. — Vou informar Sua Majestade que Michelle Benoit acabou sendo útil para alguma coisa, afinal.
Mas os captores de Cinder não a haviam carregado por dois passos quando o rugido do motor fez o chão tremer. Eles hesitaram, Cinder olhou para trás e viu a Rampion começar a subir, flutuando na rua a um metro e meio de altura. A rampa ainda estava aberta, e o metal vibrava, as caixas batendo umas nas outras.
— Cinder! — A voz de Iko cortou o barulho trovejante. — Abaixe-se!
Ela caiu de joelhos, inerte entre os soldados, quando a nave se deslocou para a frente. A plataforma abaixada acertou os dois homens, que soltaram Cinder. Ela apoiou as mãos no chão e olhou para cima na hora em que a rampa passou por entre os outros soldados, derrubando todos menos um, que teve o reflexo de se abaixar, até atingir o taumaturgo.
Ele ofegou e se pendurou na beirada, com as pernas balançando.
Ainda abaixada e com a barriga da nave flutuando acima, Cinder virou e tateou em busca da pistola que Thorne tinha derrubado. Esperou até ter certeza de que não havia nada no caminho e atirou. A bala se alojou na coxa do taumaturgo e ele gritou, soltou a rampa e caiu na calçada.
Sua calma sumiu e seu rosto se contorceu de ira.
O soldado louro saiu do nada e derrubou Cinder no chão, o que fez a arma sair deslizando pela calçada. Ela lutou para empurrá-lo, mas era pesado demais e prendeu seu braço direito ao chão.
Cinder o socou com o punho de metal e ouviu ossos sendo esmagados com o impacto, mas ele não a soltou.
Ele rosnou e abriu bem a boca.
Quando aproximou os dentes do pescoço dela, a nave girou no ar. O trem de pouso acertou o soldado pela lateral e o jogou para longe de Cinder. Ela rolou para o outro lado e colidiu com os corpos inertes de Thorne e Lobo.
A nave girou, e suas luzes acesas iluminaram a rua. A rampa raspou no chão quando pousou a uns dez passos de onde Cinder estava. De dentro da nave, a cabeça de Scarlet Benoit apareceu na porta do cockpit.
— Venha!
Cinder ficou de pé, agarrou Thorne pelo cotovelo e o arrastou por cima de Lobo, mas mal tinha se movido quando um uivo longo ecoou pela espinha dela. Foi rapidamente repetido pelos outros soldados, e o som foi ensurdecedor.
Cinder cambaleou na base da rampa e olhou para trás. Dois soldados estavam caídos e imóveis, os dois que tinham sido acertados primeiro pela nave. O restante estava de quatro, com o rosto virado para o céu, uivando.
O taumaturgo, mais afastado, se levantou do chão com uma expressão de desprezo. Apesar de estar escuro demais para se conseguir ver sangue, Cinder notou que ele estava poupando a perna atingida.
Tirando o suor dos olhos, ela se concentrou no soldado mais próximo. Buscou mentalmente as ondas bioelétricas que emanavam dele, desesperadas e famintas, e mirou seus pensamentos nelas.
Um uivo deixou de acompanhar o resto.
Uma dor de cabeça já estava se formando em suas têmporas pelo esforço necessário para controlá-lo, mas ela sentiu a mudança imediatamente. O soldado ainda era violento, ainda estava com raiva, mas não era mais uma fera selvagem enviada para destruir qualquer pessoa em seu caminho.
Você. Ela não sabia se tinha falado em voz alta ou apenas pensado. Você é meu, agora. Pegue esses dois homens e coloque na nave.
Os olhos dele piscaram, com ódio, mas sob controle.
— Agora.
Enquanto ele andava pesadamente na direção dela, o restante dos uivos parou. Quatro rostos olhavam para Cinder e para o traidor. O taumaturgo grunhiu, mas Cinder mal conseguia vê-lo.
Pontos luminosos dançavam em sua visão. Suas pernas estavam começando a tremer pelo esforço de se manter de pé enquanto controlava o homem.
Ele segurou Lobo e Thorne pelos pulsos e começou a arrastá-los rampa acima, como uma marionete puxada por cordinhas.
Mas ela já conseguia sentir as cordinhas se rompendo.
Bufando, ela se apoiou em um joelho.
— Impressionante.
A voz do taumaturgo soou abafada em sua cabeça. Atrás dela, seu peão colocou Lobo e Thorne no chão do compartimento de carga.
— Consigo entender por que minha rainha teme você. Mas tomar controle de um dos meus bichinhos dificilmente vai te salvar agora.
Ela estava tão perto. Era só tirar o soldado da nave. Era só entrar na nave.
Conseguiu levá-lo até a porta, até a beirada da rampa, antes de o controle acabar. Caiu para a frente, segurando as têmporas, sentindo como se cem agulhas estivessem sendo enfiadas em seu cérebro. Não tinha doído assim quando precisara controlar outras pessoas, nunca sentira dor.
Mas a dor começou a diminuir. Ela apertou os olhos. O taumaturgo estava rosnando, com um braço apertando a barriga, onde a rampa o acertou.
O resto dos soldados só estava ali de pé, com os olhos ainda brilhando, mas expressões passivas, e ocorreu a Cinder que o taumaturgo estava machucado demais para manter o controle de todos. Que até o contato dele com os outros era tênue.
Mas não importava. Ela não tinha mais forças.
Ela se sentou nos calcanhares e deixou as mãos penderem ao lado do corpo. Seu corpo oscilou. Conseguia sentir a inconsciência chamando-a, penetrando em seu cérebro.
Um sorriso mais uma vez curvou os lábios do taumaturgo, mas daquela vez mostrava mais alívio do que diversão.
— Troya — disse —, entre e recolha a mademoiselle Benoit. Vou ter que decidir o que fazer com o Alfa Kes...
O olhar dele se deslocou para trás de Cinder no mesmo momento em que ela ouviu um tiro.
O taumaturgo cambaleou para trás segurando o peito.
Cinder escorregou para o lado, olhou para trás e viu Scarlet descendo a rampa com uma escopeta nas mãos.
— Mademoiselle Benoit recolhida — disse ela, e colocou o calcanhar nas costas do soldado tonto e de expressão vazia, empurrando-o para fora da rampa. — E não se preocupe, vamos tirar o Alfa Kesley das suas mãos.
Com olhar de desprezo, o taumaturgo caiu no chão. O sangue começou a jorrar por entre os dedos.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou Cinder com dificuldade.
— Em uma das caixas no compartimento de carga — respondeu Scarlet. — Venha, vamos...
Uma mistura de emoções surgiu nos olhos dela: fúria atormentada, confusão assustada, vazio.
Scarlet baixou a arma.
Cinder falou um palavrão.
— Iko, a rampa! — gritou, rastejando pela rampa e desmoronando nos pés de Scarlet. Cinder esticou a mão e agarrou a arma antes que o taumaturgo conseguisse fazê-la ser apontada para uma das duas, e a rampa começou a subir, fazendo-as cair no compartimento de carga.
Um grito furioso chegou a elas, seguido de outro coro de uivos que desapareceu rapidamente.
Os últimos esforços do taumaturgo para controlar seus bichinhos.
Cinder viu Scarlet balançando a cabeça para se livrar da névoa, e logo se levantou.
— Segure em alguma coisa se conseguir — gritou Scarlet ao entrar no cockpit. — Nave, acionar elevação magnética e propulsores posteriores!
Cinder se deitou no chão, exausta, ainda segurando a arma. Momentos depois, sentiu a nave subindo para longe da Terra, disparada pelo céu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!