20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e cinco

— Não tem nenhum tipo de transmissão nessa pedra esquecida pelas estrelas? — resmungou Kai, passando os dedos pela base do hológrafo, a versão de Luna do sempre presente netscreen.
— Nós estamos em uma ditadura, Vossa Majestade — disse Torin, com os braços cruzados enquanto olhava pela janela, na direção do lago cintilante abaixo. — Você acredita que o noticiário seria confiável se houvesse?
Ignorando-o, Kai passou o dedo no hológrafo de novo.
Ele tinha mandado uma mensagem para a rainha naquela manhã, dizendo que infelizmente o casamento teria que ser adiado se ele não tivesse permissão de encontrar seu conselheiro antes da cerimônia, pois ele era a pessoa mais conhecedora dos votos e costumes que cimentariam o casamento como união política reconhecida.
Para uma certa surpresa dele, ela concordou.
Foi um alívio ver Torin de novo e verificar que seu conselheiro não foi ferido, mas esse alívio veio acompanhado de frustração e inquietação crescentes. As redes de transmissão da rainha eram seu mais recente motivo de reclamação. Elas pareciam conter um monte de asneiras sem sentido e nada de útil.
— Quero saber o que está acontecendo lá fora — disse ele, desligando o hológrafo. — Sei que começou. Sei que Cinder fez alguma coisa.
Torin deu de ombros, de certa forma pedindo desculpas.
— Tenho tantas respostas quanto você.
— Eu sei. Não espero que tenha. É que é tão frustrante estar preso aqui com ela… com eles todos lá fora! Fazendo… o que estiverem fazendo! — Ele se juntou a Torin na janela e passou a mão pelo cabelo. — Como as pessoas aqui aguentam ficar desconectadas do resto do país? Sem comunicação, elas não têm como saber o que está acontecendo nos outros setores. Elas não ficam malucas com isso?
— Eu diria que não — disse Torin. — Veja o esplendor que podem apreciar, graças ao trabalho dos setores externos. Acha que as pessoas aqui querem a ilusão de paraíso delas destruída ao testemunhar a esqualidez do resto do país?
Kai fez cara feia. Ele já sabia disso e lamentava o quanto a pergunta soou inocente. Mas não entendia. Ele ainda se lembrava do dia em que Nainsi contou para ele as estatísticas de pobreza e pessoas sem lar na Comunidade, quando ele tinha dez anos. Nainsi deixou claro para ele que os números eram bons. Que, apesar de terem subido desde o espalhamento da letumose, continuavam mais baixos do que eram nas décadas seguintes à Quarta Guerra Mundial. Mesmo assim, Kai ficou uma semana quase sem dormir, pensando em todas aquelas pessoas, seu povo, que não tinham onde dormir e nem comida para comer, enquanto ele estava tão bem acomodado e bem cuidado no palácio.
Ele até escreveu uma proposta para o aluguel de partes do palácio para os cidadãos mais necessitados, oferecendo metade de seus aposentos pessoais se ajudasse, mas, apesar de o pai ter prometido ler a proposta, Kai duvidava que tivesse levado a sério.
Ele reconheceu o quanto sua proposta tinha sido infantil, mas não imaginava não querer fazer nada para ajudar os cidadãos da Comunidade, como não imaginava como os membros da corte de Levana podiam não ter compaixão pelas pessoas que construíram o paraíso que eles podiam agora apreciar.
— Seu rosto cicatrizou bem — comentou Torin. — Tenho certeza de que mal vai dar para reparar nas fotos do casamento.
Kai demorou um momento para entender.
— Ah, certo. — Ele levantou a mão e tocou na bochecha em que Lobo dera um soco. Estava só dolorida ao toque, e, sem espelhos para se ver, ele tinha se esquecido dela. — Acho que esse artifício não ajudou em nada — murmurou ele, enfiando as mãos nos bolsos.
— Mas foi um esforço valoroso, mesmo assim — disse Torin. — Falando do seu tempo longe, você viu o relatório das forças militares americanas que chegou esta manhã?
Ele se virou.
— Claro que não. Ela pegou meu tablet.
Torin fez uma careta de solidariedade.
— Certo. Vou deixar o meu com você.
— Obrigado, Torin. Que relatório?
— Parece que encontraram a nave dos seus amigos orbitando no espaço, abandonada. Estão rebocando de volta para a República para começar a procurar evidências a serem usadas contra seus sequestradores. Quando eles forem encontrados, claro.
Kai massageou a nuca.
— Eles sabiam que aconteceria, mas Thorne não vai ficar feliz quando descobrir.
— A nave era roubada. Independentemente do lado em que ele está agora, o sujeito é ladrão e desertor. Tenho dificuldade em ter solidariedade pela perda dele.
Kai não conseguiu sufocar um sorriso irônico.
— Eu não discordo, mas, quando virmos Thorne de novo, talvez devesse ser eu a dar a notícia para ele.
Ele deixou que seu olhar viajasse até a beira do lago, onde a água tocava no domo. Lá parecia o fim do mundo. A civilização dentro de uma cápsula perfeita, toda cintilante e imaculada. Depois dela, nada além de terreno inóspito. No horizonte, ele via a beirada de outro domo e se perguntou qual era.
Ele escolheu as palavras com cuidado. Quando vissem Thorne de novo, não se. Porque era assim que ele tinha que pensar em todos os seus aliados, seus amigos. Era assim que tinha que pensar em Cinder se queria passar por aquilo. Ele se perguntou onde ela estava, até onde tinha ido. Estaria segura?
Uma batida na porta assustou Kai, mas a surpresa foi sufocada pelo medo.
— Agora vai começar — murmurou ele. — Entre.
Mas não era um estilista do casamento, e sim um de seus guardas na porta, segurando um pequeno pacote envolto em tiras de veludo colorido.
— Perdoem a interrupção. Isto foi entregue por um servo como presente de casamento de Sua Majestade, a rainha. Fizemos testes em busca de produtos químicos e explosivos, e determinamos que é seguro e pode ser aberto. — Ele esticou o pacote para Kai.
— Você quer dizer que ela não pretende me explodir antes da cerimônia? — perguntou Kai, pegando a caixa. — Que decepcionante.
O guarda pareceu querer abrir um sorriso, mas resistiu. Ele fez outra reverência e saiu pelo corredor.
Kai abriu depressa o pacote, ansioso para acabar logo com o novo tormento que Levana tinha elaborado para ele. Ele estava imaginando uma bola de ferro com corrente pequenininha quando levantou a tampa.
Ele ficou paralisado. O sangue desceu da cabeça e se espalhou pelos pés.
Um dedo ciborgue estava sobre uma base de veludo branco. Havia graxa nas juntas do dedo e fios desconectados na parte de fora.
O estômago dele deu um nó.
— Ela está com Cinder — disse ele, passando a caixa para Torin. Atordoado, andou até a janela, com os pensamentos enevoados de negação. Esse presente respondia tantas das suas perguntas, e ele percebeu que Torin estava certo.
Às vezes, era melhor não saber das coisas.


Fazia séculos que Levana não se lembrava de sentir tanta alegria.
A sobrinha chata estava novamente em cativeiro, e logo não seria mais incômodo nenhum.
Sua enteada irritante estava morta, e Levana nunca mais teria que ouvir os murmúrios dela nem atender a seus pedidos frívolos.
Em poucas horas, estaria casada com o imperador da Comunidade das Nações Orientais e, em poucos dias, receberia uma coroa e o título de imperatriz. Não demoraria para que toda a Terra fosse dela. Recursos. Solo. Um lugar para seu povo apreciar a beleza e os luxos que os terráqueos não valorizavam.
Ela imaginou os textos de histórias de séculos depois, contando a saga da rainha lunar que conquistou o planeta azul e começou uma nova era. Uma era governada pelos mais valorosos.
Ela mal sentia o peso das pedras presas às mangas do vestido e penduradas na gola. Mal reparava nos servos se movendo ao redor, ajustando a saia do vestido de noiva, endireitando a armação, fazendo reparos finais ao caimento do corpete.
Sem espelho, Levana sabia que era bonita. Ela era a rainha mais bonita que Luna já tinha tido, e Kaito tinha sorte de ter uma noiva assim.
Estava sorrindo para si mesma quando finalmente dispensou os servos.
— Lindíssima, minha rainha.
Ela se virou e viu Aimery na porta.
— Que liberdades você toma ao entrar sem se anunciar — disse Levana, embora quase não houvesse veneno no tom dela. — Estou me preparando para minha cerimônia de casamento. O que você quer?
— Eu não quero ser uma distração. Entendo que é uma ocasião especial, e para todos nós. Mas quero deixá-la tranquila quanto à… convidada especial desta noite. A ciborgue será levada à sala do trono durante a festa, como pedido. Tudo está preparado.
— Fico feliz em saber. Que surpresa será a presença dela para meu novo marido. — Ela passou o polegar pela base do dedo anelar enquanto falava, sentindo a tira de pedra gasta. Era uma lembrança constante do primeiro marido, o pai de Winter. Ele sempre seria seu único amor, e ela jurou tempos atrás que aquele anel jamais seria retirado do dedo.
Escondê-lo era tão natural para ela quanto o glamour dos lábios vermelhos e da voz serena.
— Tenho mais uma notícia para dar — disse Aimery —, apesar de ainda ser uma investigação em andamento e eu não querer aborrecê-la tão perto da hora de seu casamento.
— Enquanto a ciborgue estiver sob nossa custódia, nada mais pode me aborrecer — declarou Levana, com um sorriso.
— Fico feliz em ouvir, minha rainha. Pois descobrimos uma coisa suspeita na nossa visita ao setor de mineração. Havia uma nave real lá, e, após inspeção detalhada, descobrimos que a nave foi licenciada justamente para Sir Jacin Clay.
Levana se virou para dar atenção total a Aimery.
— Continue.
— Temos documentação dessa nave saindo de Artemísia quarenta e sete minutos depois da morte da princesa Winter. Claro, Sir Clay ainda estava aqui, no palácio, nessa hora, e não sabemos quem estava pilotando. Também parece suspeito que, independentemente de quem estava a bordo daquela nave, a pessoa tenha ido parar no mesmo setor que a ciborgue e seus companheiros.
Embora a expressão de Aimery permanecesse neutra, era fácil perceber as desconfianças dele.
— Temos imagens de vídeo da morte de Winter, não temos?
— Temos, minha rainha. No entanto, como Vossa Majestade talvez possa se lembrar, tivemos dificuldades técnicas naquele dia, com falhas esporádicas de energia que afetaram a vigilância de todo o palácio. Permita-me.
Ele se aproximou do netscreen que Levana mandara ser colocado na moldura lindíssima que já tinha sido a do espelho de sua irmã, antes de todos os espelhos serem destruídos. Um momento depois, Levana estava vendo Jacin e Winter no jardim. O lobo andava atrás deles. Winter beijou o guarda com tanta paixão que Levana rosnou. Então, Jacin levantou a faca e enfiou nas costas dela. O corpo de Winter ficou inerte, e ele a colocou no chão com toda a delicadeza de um homem apaixonado. Sangue começou a se espalhar embaixo dela.
O vídeo terminou.
Ela levantou uma das sobrancelhas.
— Ela está morta, então.
— Talvez. Mas tenho receio de que essa morte tenha sido armada. É aqui que o vídeo termina. Não temos imagens de Jacin removendo o corpo ou matando o lobo para encobrir as pistas, como ele alega ter feito. Parece uma hora conveniente para essa câmera em particular ter parado de funcionar.
Levana inspirou fundo.
— Entendo. Detenha Sir Clay em uma cela por enquanto. Vou interrogá-lo depois da festa.
— Eu já tinha tomado a liberdade de mandar guardas buscarem-no, Vossa Majestade, e preciso dizer que ele sumiu.
Isso, mais do que qualquer coisa, a fez parar.
— Sumiu?
— Ele tinha que ter se apresentado ao serviço duas horas atrás, mas não foi visto. Dentre os guardas com quem falou, ninguém alega tê-lo visto depois que terminou o turno de ontem à noite.
O olhar de Levana se perdeu quando ela se virou para a janela, na direção do lindo lago, de sua linda cidade.
Jacin tinha fugido.
Só homens culpados fogem.
Só podia querer dizer que Winter estava viva.
Ela trincou os dentes de ódio, não só porque a enteada continuava a existir, mas pela audácia de um guarda de mente fraca em tentar fazê-la de tola. Mas se obrigou a respirar e deixou o ódio se esvair dos ombros tensos.
— Não importa — disse ela. — A princesa está morta se o povo acreditar que está. Isso não muda nada. Tenho assuntos bem mais importantes a resolver.
— Claro.
— Se Jacin Clay for encontrado, ele deve ser morto na hora. Se houver qualquer notícia da princesa, quero ser informada imediatamente.
Aimery fez uma reverência.
— Sim, minha rainha. Vou deixá-la com seus preparativos. Parabéns pela felicidade iminente.
O sorriso de Levana não foi forçado. Felicidade iminente. Ela gostou muito do som disso.
Aimery se virou para sair.
Levana ofegou.
— Espere, mais uma coisa.
Aimery parou.
— Os pais de Jacin Clay devem ser executados por traição, e publicamente, como lembrete de que esse tipo de coisa não será tolerada. Mande os guardas do setor dele fazerem isso agora, para que as mortes não estraguem a transmissão do casamento esta noite. — Ela ajeitou a frente do corpete. — Jacin vai saber que a culpa das mortes é toda dele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!