13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e cinco


IKO JOGOU BEIJOS E DEU UM ACENO LEVE COM CINCO DEDOS balançando quando a nave se aproximou da rua e se misturou com o tráfego matinal. Não era uma caminhada longa até o armazém, mas ela sentia o processador interno zumbindo de empolgação por todo o caminho.
Pelos cálculos dela, chegaria ao armazém às 7h25. O aerodeslizador das entregas com a encomenda para o palácio de sessenta acompanhantes devia partir do armazém às 7h32. Metade dos acompanhantes seria deixada na sede do bufê às 7h58. O resto seria entregue ao florista às 8h43, para ser levado ao palácio junto com a equipe humana.
Iko esperava estar no palácio no máximo às 9h50.
O bairro industrial estava quase deserto. A maior parte da cidade e talvez do mundo todo tinha decretado feriado para ver o casamento real. Não havia ninguém por perto para reparar em Iko quando ela entrou no beco em direção ao armazém e pulou com alegria a cerca de arame para o jardim onde cinco naves de entrega estavam encostadas nas plataformas de carregamento.
Ela se vestia de forma simples, com uma calça preta e uma blusa branca. Ainda estava um pouco decepcionada por não poder usar um vestido chique de festa, mas sentia-se linda de um jeito só seu.
Mal podia esperar para o imperador Kai vê-la. A ideia acrescentou um gingado ao seu passo quando ela contornou a frente da primeira nave e subiu a escada para a plataforma.
A visão à frente dela a fez parar e quase cair de cara sobre o nariz perfeito.
O armazém estava lotado de androides-acompanhantes, a maioria garotas, de todos os tons de pele e cores de cabelo. A maior parte estava despida, sentada no chão com os braços ao redor dos joelhos e as cabeças abaixadas. Havia mais de duzentos androides alinhados em fileiras organizadas. Alguns tinham fita e papel de embalagem ao redor dos membros para protegê-los durante o transporte. Alguns foram colocados em bases de madeira e em caixas plásticas. Isopor e papelão cobriam o chão ao redor.
Na parede à esquerda de Iko havia três andares de prateleiras de metal cheias de caixas, todas com rótulos com as marcas e modelos e características especiais dos acompanhantes.
— Isso é tudo? — perguntou um homem.
Iko se abaixou atrás da parede do armazém e se aproximou devagar para espiar pela porta. Viu sessenta androides, quarenta e cinco mulheres e quinze homens, todos de pé em fileiras. Estavam vestidos com calças pretas e blusas rosadas de seda idênticas: camisas simples com gola japonesa para os homens e blusas elegantes de amarrar para as mulheres, presas na cintura e caídas como quimonos sobre os braços. Cada garota estava com o cabelo preso em um coque firme e com uma orquídea presa de lado.
— Verificando o pedido agora — disse uma mulher, que estava andando entre as fileiras e tomando notas no tablet. — O pedido especificou um modelo pequeno da marca 618, não médio.
— Eu sei, mas nossa última pequena foi despachada semana passada. Esclareci a mudança com o palácio na quinta-feira.
A mulher digitou alguma coisa no tablet.
— Cinquenta e nove... sessenta. São todos.
— Ótimo. Vamos carregar. Não podemos deixar que se atrasem para a missão real.
O homem puxou a enorme porta rolante e abriu a baia para uma das naves de entrega, enquanto a mulher começou a andar entre os androides de novo, abrindo um painel no pescoço de cada um. As posturas ficaram mais relaxadas.
— Entrem em fila única — ordenou o homem. — Apertem-se. Vai caber certinho.
Os androides entraram na nave um a um.
Não havia como Iko se aproximar sem ser notada, e as roupas diferentes deixariam claro que ela não era parte do grupo.
A ideia de que poderiam confundi-la com um androide fujão e enviá-la para reprogramação fez sua fiação tremer.
Ela se manteve abaixada e seguiu em paralelo à parede, para longe dos dois funcionários, e se escondeu atrás da primeira torre de prateleiras industriais. Escondida atrás das caixas, ela seguiu na direção das fileiras de androides-acompanhantes que estavam esperando para ser empacotados. Ao chegar à última, ela se agachou atrás de uma androide e procurou a tranca no pescoço. Iko ergueu o olhar e viu que metade dos androides-acompanhantes tinha entrado na nave.
Murmurando sozinha, ela ligou o androide. O processador zumbiu e a cabeça dela se levantou. Tinha cabelo louro-branco com pontas verdes fluorescentes que chegava à cintura. Iko tirou o cabelo do ombro dela e sussurrou:
— Ordeno que você se levante, grite e corra para a saída.
A garota ficou de pé quase antes de Iko terminar de falar. Começou a gritar, um som de gelar a espinha e fazer as orelhas sangrarem.
Iko se jogou no chão atrás da fileira de androides ainda sentados e alheios e ajustou o volume do processador de áudio, mas era tarde demais. O androide já tinha parado de gritar e estava correndo a toda velocidade para a saída, derrubando os colegas imóveis ao passar.
Iko ouviu os gritos de choque dos dois funcionários e os passos deles atrás do androide. Assim que eles pularam para o pátio de carregamento, Iko se levantou e correu pelas fileiras de androides. Os acompanhantes alugados não disseram nada, só olharam preguiçosamente enquanto ela andava em meio a eles.
— Me desculpem, não prestem atenção em mim, estou passando, ah, oi, você... — Isso ela disse para um androide particularmente bonito, parecido com Kai, que não reagiu tanto quanto os outros. — Ou não — murmurou ao passar por ele. — Com licença, um espacinho, por favor?
Quando os dois funcionários voltaram, ofegantes e reclamando sobre chips de personalidade defeituosos e os imbecis da programação, Iko tinha se acomodado no fundo da nave, espremida entre dois de seus primos distantes e com dificuldade para não sorrir como uma doida.
No fim das contas, ser humana era tão divertido quanto ela sempre achou que seria.


ERA FÁCIL ENTENDER POR QUE O GOVERNO DE CENTO E VINTE E SEIS anos antes tinha escolhido aquele local como esconderijo da família real. Ficava a menos de quinze quilômetros da cidade de Nova Pequim, mas estava separado de lá por penhascos tão irregulares que davam a impressão de que eles estavam em outro país. A casa tinha sido construída em um vale cheio de plantações de arroz, embora Cinder duvidasse que houvesse arroz sendo cultivado lá havia várias gerações, dando a casa uma sensação de abandono.
Jacin pousou a nave ao lado da fazenda, e eles saíram em uma área de terra ainda úmida das chuvas pesadas de verão. O mundo permanecia silencioso ao redor deles, e o ar estava perfumado de gramas e flores silvestres.
— Espero que a garota esteja certa — falou Jacin, seguindo em direção a casa.
Apesar das janelas cobertas, ela parecia bem cuidada. Cinder desconfiava que havia uma equipe responsável por cuidar dela duas vezes por ano, para consertar telhas e garantir que o gerador estivesse funcionando direito, de forma que, se acontecesse alguma catástrofe, o local ainda seria seguro para o imperador se esconder.
E devia ser monitorada, mas ela torcia para que naquele dia, dentre todos os outros, a equipe de segurança do país estivesse ocupada demais com outras coisas.
— Só tem um jeito de descobrir — disse ela, andando para a lateral da casa, onde havia portas de ferro fechadas na entrada do porão.
Se Cress estivesse certa, essas portas não levavam a um porão de armazenamento, mas a um túnel por baixo dos penhascos que conduzia diretamente ao subterrâneo do palácio.
Cinder abriu as portas e apontou a lanterna embutida para a escada. A luz iluminou teias de aranha e concreto e um interruptor antiquado que iluminaria o túnel embaixo, ao menos um certo trecho dele.
— Parece ser isso — disse ela, olhando para o grupo.
Thorne, com a venda nos olhos, estava com o cotovelo apoiando em um dr. Erland de cara feia.
Seria uma longa caminhada.
— Tudo bem — disse ela. — Jacin, volte com a Rampion e voe ao redor da cidade até receber minha mensagem.
— Eu sei.
— E fique de olho em qualquer coisa suspeita. Se detectar qualquer coisa, siga em frente e espere contato nosso de novo.
— Eu sei.
— Se tudo correr como planejado, estaremos na área de pouso do palácio às seis da tarde, mas, se alguma coisa der errado, talvez tenhamos que voltar para cá ou seguir por um dos túneis de fuga até a outra...
— Cinder — disse Thorne. — Ele sabe.
Ela olhou para ele com raiva e teve vontade de discutir, mas repassar o plano de fuga mais uma vez não faria nada além de lembrá-la de todas as coisas que poderiam dar errado. Jacin sabia; eles discutiram a questão exaustivamente, e todos estavam cientes de que o plano poderia desmoronar sem ele. Sem qualquer um deles.
— Tudo bem. Vamos.

Um comentário:

  1. Mds, minha mãe tá mandando eu dormir, mas como eu posso dormir justo agr??????

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Boa leitura, E SEM SPOILER!