7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e Cinco

TINHA MANDADO CONSTRUIR A PONTE DE COMANDO ESPECIALMENTE para ela com vidro especial, para que pudesse ver os soldados de cima (vê-los treinar, vê-los lutar, vê-los se adaptar às novas mutações) sem ser observada. Estava intrigada agora com uma nova matilha que tinha completado a transformação genética alguns dias antes. Ainda eram tão jovens. Meros garotos, com no máximo doze anos.
Eram quase preciosos, pela forma como alguns se destacavam do grupo, verificavam constantemente o pelo fino nos dedos, pulavam para a frente e para trás nos membros reestruturados, enquanto os outros já estavam gritando e provocando uns aos outros.
Procurando seu espaço, determinando a hierarquia.
Como os animais que eram.
Cada taumaturgo sinalizava para os subordinados atribuídos a eles e os guiava por várias formações. Isso também sempre a fascinava. Como alguns deles forçavam o controle, enquanto outros tentavam seduzir os filhotes, como mães carinhosas.
Observou o grupo mais jovem com prazer crescente. Sete tinham se formado em fila sem perguntas e deixaram só um separado do resto. Agachado de quatro, ele estava rosnando para a taumaturga, com os dentes à mostra, mais parecido com um lobo do que qualquer outro.
Rebelião e ódio brilhavam por trás dos olhos dourados.
Aquele seria um alfa. Já conseguia perceber.
— Vossa Majestade.
Ela inclinou a cabeça, mas não tirou os olhos do garoto.
— Sybil.
Os calcanhares da taumaturga-chefe estalaram no piso de vidro. Ela detectou o movimento de tecido quando Sybil fez uma reverência.
Lá embaixo, na caverna, o filhote estava andando em círculo ao redor da mestra, uma garota jovem e loura que parecia pálida demais com o casaco preto. A expressão dela demonstrava um traço de ansiedade, uma sombra de dúvida se teria força mental suficiente para controlar aquele menino.
— Todos os agentes especiais foram temporariamente dispensados de suas missões e voltaram para os esconderijos. Estimamos a morte de duzentos e sessenta agentes.
— Os terráqueos vão reparar nas tatuagens em pouco tempo, se é que já não repararam. Certifique-se de que eles as escondam bem.
— É claro, Vossa Majestade. Infelizmente, também tenho a morte de um taumaturgo a relatar.
Levana ergueu o olhar, esperando por um momento ver o reflexo de Sybil no vidro, mas não havia reflexo, não naquela janela. Não em nenhuma das janelas reais. Ela cuidava para que não houvesse. Mesmo assim, depois de todos esses anos, ainda não tinha se acostumado.
Ergueu uma sobrancelha para encorajar Sybil a continuar.
— O taumaturgo Jael. Levou um tiro no peito.
— Jael? Não é do perfil dele abandonar seu santuário, mesmo durante uma batalha.
— Um dos betas dele me informou que Linh Cinder apareceu. Parece que estava tentando prendê-la pessoalmente.
As narinas de Levana se dilataram, e ela virou para a área de treinamento bem na hora em que o filhote pulou para cima da mestra. A garota gritou e caiu de costas antes de todo o corpo dela ser tomado de concentração. Mesmo de seu ponto de observação, Levana conseguia ver gotas de suor se formando na testa, escorrendo pela têmpora.
O filhote abriu a boca, com os dentes cintilando, mas hesitou.
Levana não conseguia perceber o que estava lutando contra o instinto animal dele: a taumaturga buscando obter controle ou os resquícios de um garoto lunar ainda agarrado aos pensamentos na própria cabeça.
— A matilha de Jael já debandou, exceto pelo beta que foi encontrado no forte de Paris. Vou mandar o taumaturgo Aimery buscá-los.
O filhote saiu de cima da mestra e se encolheu de lado. Tremendo. Choramingando. Com dor evidente.
A taumaturga, abalada, ficou de pé e tirou o pó preto de regolito do casaco. Havia pó de regolito para todos os lados naquelas cavernas, tubos de lava criados naturalmente que jamais ficariam limpos, independentemente do quanto continuassem a ser desenvolvidos e se construísse dentro deles. Levana odiava o pó, a forma como se agarrava ao cabelo e às unhas, enchia os pulmões. Ela evitava os túneis sempre que podia e preferia ficar no domo iluminado e brilhante que abrigava a capital de Luna e seu palácio.
— Vossa Majestade? — disse Sybil.
— Não, não mande Aimery — respondeu, com a atenção grudada no filhote enquanto ele se contorcia de dor. Ainda lutando contra o controle da mestra. Ainda lutando para manter a própria mente. Ainda querendo ser um garotinho. Não um soldado. Não um monstro. Não um peão. — Deixe a matilha de Jael pra lá. Os agentes já serviram a seus propósitos.
O filhote acabou parando de se contorcer. Com o pelo fino das bochechas molhado de lágrimas, ficou deitado no chão, ofegante.
O olhar da mestra era intenso, tão animalesco quanto suas ordens. Levana quase conseguia ouvir as ordens da mulher, apesar de nenhuma palavra estar sendo falada. Mandando-o ficar de pé. Entrar na fila. Obedecê-la.
O garoto obedeceu. Movendo-se lenta e dolorosamente, se levantou nas pernas magras e entrou na fila. Com a cabeça baixa. Os ombros encolhidos.
Como um cachorro repreendido.
— Esses soldados estão quase prontos — disse Levana. — As modificações genéticas estão completas e os taumaturgos estão preparados. Na próxima vez que atacarmos a Terra, esses homens vão liderar o ataque, e não vamos disfarçá-los.
— Sim, Vossa Majestade. — Sybil fez uma reverência. Levana sentiu o respeito emanando dela tanto quanto ouviu. — E eu também gostaria de dar meus calorosos parabéns por seu noivado, Minha Rainha.
Levana fechou a mão esquerda e passou o polegar sobre o anel de pedra no dedo. Ela sempre o escondia com o glamour. Não sabia se alguém vivo sabia que ainda o usava. Ela mesma costumava se esquecer que estava ali, mas seu dedo estava formigando hoje, desde que o imperador Kaito aceitara a aliança de casamento.
— Obrigada, Sybil. Isso é tudo.
Outra reverência e o som de passos se afastando.
Abaixo, os grupos estavam começando a debandar com o fim do dia de treinamento. Os taumaturgos os conduziram para cavernas separadas, para o labirinto natural sob a superfície de Luna.
Era peculiar observar aqueles homens e garotos, aquelas criaturas que eram só um experimento na época dos pais dela, mas que tinham se tornado realidade no seu reinado. Um exército mais rápido e mais forte do que qualquer outro. A inteligência dos homens, os instintos dos lobos, a flexibilidade das crianças. Eles a deixavam nervosa, uma sensação que não tinha havia muitos anos. Eram tantos lunares, com ondas cerebrais tão peculiares, que nem ela conseguia controlar todos. Não ao mesmo tempo.
Aqueles animais, aquelas criações científicas, jamais a amariam.
Não como o povo de Luna a amava.
Não como o povo da Terra em breve amaria.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!