7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Onze


O OVO SIBILOU AO DESLIZAR NA MANTEIGA DERRETIDA, COM A gema de um amarelo vívido estalando em meio ao branco. Scarlet tirou uma pena do ovo seguinte antes de quebrá-lo com a mão, simultaneamente passando a espátula pelo fundo da frigideira. A clara aguada ficou opaca, afofou e criou uma película crocante nas beiradas da frigideira. Fora isso, a casa estava em silêncio. Tinha dado uma olhada no pai ao chegar em casa depois da luta e o encontrado desmaiado na cama da avó, uma garrafa de uísque roubada da cozinha aberta em cima da cômoda.
Ela derramou o resto do uísque no jardim, junto com todas as outras garrafas de bebida alcoólica que conseguiu encontrar, e passou quatro horas se revirando na cama. A noite anterior girava em sua cabeça: as marcas de queimadura nos braços do pai, o terror no seu rosto, o desespero para encontrar seja lá o que fosse que a avó tinha escondido.
E Lobo, com a tatuagem, a expressão intensa e o tom quase convincente: Não era eu.
Deixando a espátula equilibrada na beira da frigideira, Scarlet tirou um prato do armário e cortou uma fatia gorda do pão dormido na bancada. O horizonte estava iluminado, e o céu claro prometia outro dia de sol, mas um vento surgira durante a noite, varrendo o milharal e assoviando pela chaminé. Um galo cacarejou no quintal.
Suspirando, ela colocou os ovos no prato e se sentou à mesa de jantar. Devorou a comida, a fome mais intensa do que o nervosismo. Com a mão livre, pegou o tablet na mesa e conectou à rede.
— Busca — murmurou ela, com a boca cheia. — Tatuagem S-L-O-M.
INCAPAZ DE IDENTIFICAR COMANDO.
Resmungando, ela digitou os termos e engoliu o resto dos ovos, quando uma série de links surgiu: tatuagens extremas. Desenhos de tatuagens. Modelos virtuais de tatuagem. A ciência por trás da remoção de tatuagens. O mais moderno em tecnologia de tatuagens, praticamente indolor!
Ela tentou: TATUAGEM SLOM962.
Nenhuma correspondência encontrada.
Ela pegou o pão e arrancou um pedaço com os dentes.
TATUAGEM DE NÚMEROS NO ANTEBRAÇO
Uma coleção de imagens ocupou a tela, mostrando braços finos e fortes, claros e escuros, cobertos de desenhos ou exibindo pequenos símbolos nos pulsos. Trezes e algarismos romanos, datas de aniversário e coordenadas geográficas. O primeiro ano de paz, “1 T.E.”, era popular. Com o maxilar começando a doer, Scarlet largou o resto do pão no prato e esfregou as palmas das mãos nos olhos. Tatuagens de lutadores de rua? Tatuagens de sequestradores? Tatuagens da máfia?
Quem eram essas pessoas?
Levantou e começou a preparar um café.
— Lobo — sussurrou para si mesma quando a água começou a passar pelo coador. Ela deixou a palavra se prolongar, sentindo-a nos lábios. Para alguns, uma fera selvagem, um predador, um problema. Para outros, um animal tímido, mal-compreendido pela humanidade.
Um desconforto ainda resistia na boca do estômago. Não conseguia esquecer a memória dele, quase matando o oponente em meio a tantos espectadores, antes de correr para os campos como se estivesse possuído. Na hora, ela acreditou que o uivo ouvido minutos depois havia sido de um lobo de verdade andando pelas fazendas (a presença deles não era incomum, não depois do ato de proteção de espécies estipulado séculos antes), mas sua certeza estava se esvaindo.
Me chamam de Lobo nas lutas.
Ela colocou o prato e a frigideira vazia na pia, abriu a torneira e observou pela janela as sombras nos campos que balançavam com o vento. Em pouco tempo, a fazenda estaria tomada de vida: androides e trabalhadores e abelhas geneticamente aperfeiçoadas.
Scarlet serviu o café antes de a água terminar de passar pelo filtro, colocou um pouco de leite na caneca e voltou para a mesa.
LOBOS
Uma imagem de um lobo-cinzento preencheu a tela, dentes à mostra, orelhas para trás. Flocos de neve presos no pelo denso.
Scarlet deslizou o dedo na tela para mandar a imagem embora. As imagens que surgiram em seguida eram mais pacíficas: lobos rolando com outros lobos, filhotes dormindo empilhados uns nos outros, lobos magníficos de pelagem branca e cinzenta se esgueirando por bosques de outono.
Ela escolheu um link de uma das sociedades de preservação da espécie e passou os olhos pelo texto, fazendo uma pausa quando chegou à parte sobre uivos.
LOBOS UIVAM PARA OBTER A ATENÇÃO DA MATILHA OU DAR AVISOS TERRITORIAIS. LOBOS SOLITÁRIOS QUE SE SEPARARAM DA MATILHA UIVAM PARA ENCONTRAR OS COMPANHEIROS. EM GERAL, O MACHO ALFA É O UIVADOR MAIS AGRESSIVO DA MATILHA. SUA AGRESSIVIDADE PODE SER DETECTADA PELOS UIVOS GRAVES E ROUCOS QUANDO SE APROXIMA DE UM ESTRANHO.
Um arrepio fez Scarlet tremer tanto que derramou café da caneca. Xingando, ficou de pé para pegar um pano e limpar o café derramado, irritada por se deixar assustar por um artigo idiota. Pensava mesmo que o lutador de rua maluco estava tentando se comunicar com sua matilha?
Ela jogou o pano na pia e pegou o tablet para passar os olhos pelo resto do artigo, parou e abriu outro link, sobre hierarquia da matilha.

LOBOS VIAJAM EM GRUPOS DE SEIS A QUINZE MEMBROS E TÊM UMA HIERARQUIA BEM DEFINIDA. NO TOPO DA ESTRUTURA SOCIAL ESTÃO O MACHO ALFA E A FÊMEA ALFA, UM CASAL. APESAR DE COSTUMAREM SER OS ÚNICOS LOBOS DA MATILHA A PROCRIAR E TER FILHOTES, TODOS OS OUTROS MEMBROS AJUDAM NA ALIMENTAÇÃO E CRIAÇÃO.
MACHOS ESTABELECEM A HIERARQUIA POR UM COMBATE RITUAL: UM LOBO PODE DESAFIAR OUTRO, O QUE RESULTA EM UMA LUTA QUE DETERMINA QUAL LOBO É SUPERIOR. VITÓRIAS REPETIDAS CONQUISTAM RESPEITO PARA O LOBO E ACABAM LEVANDO À ESCOLHA DO LÍDER DA MATILHA.
A CLASSE SEGUINTE NA HIERARQUIA DA MATILHA SÃO OS LOBOS BETA, QUE COSTUMAM CAÇAR E PROTEGER OS FILHOTES.
O LOBO ÔMEGA É O DE POSIÇÃO MAIS BAIXA NA MATILHA. TRATADO COM FREQUÊNCIA COMO BODE EXPIATÓRIO, OS ÔMEGAS SOFREM DISCRIMINAÇÃO OCASIONAL DO RESTO DA MATILHA. ISSO PODE LEVAR AO DESLOCAMENTO DO ÔMEGA PARA OS LIMITES DO TERRITÓRIO DO GRUPO E, DE VEZ EM QUANDO, A ABANDONAR COMPLETAMENTE A MATILHA.

Uma sinfonia de cacarejos assustou Scarlet.
Pousando o tablet na bancada, olhou pela janela. Seu estômago se revirou.
A sombra de um homem se esticava pelo quintal, e as galinhas reunidas corriam para longe dele, na direção do galinheiro.
Como se sentisse sua presença, Lobo levantou o olhar e viu Scarlet na janela.
Ela saiu correndo. Engolindo o pânico crescente, correu para o saguão e pegou a espingarda da avó num canto, embaixo da escada.
Lobo não tinha se movido quando ela abriu a porta da frente. As galinhas já estavam se acostumando com o estranho e bicavam ao seu redor em busca de alimento.
Scarlet aninhou a arma nos braços e soltou a trava de segurança.
Se ele ficou surpreso, não demonstrou.
— O que você quer? — gritou ela, assustando as galinhas, que correram para longe. A luz da casa se espelhava ao redor dela pelo cascalho. Sua sombra se esticava na entrada da casa e quase tocava os pés de Lobo.
A loucura da luta tinha sumido e mal se viam os hematomas no seu rosto. Parecia calmo e despreocupado em relação à arma, mas não se deslocou em direção a ela.
Depois de um longo silêncio, ele levantou as duas mãos ao lado do corpo com as palmas abertas.
— Me desculpe. Assustei você de novo. — Como se para fazer as pazes, ele recuou: dois, três passos.
— Você tem o dom — retrucou Scarlet, sem se afetar. — Mantenha as mãos levantadas.
Os dedos dele tremeram para indicar concordância.
Scarlet saiu da casa, mas parou quando sentiu o cascalho nos pés descalços. Seus sentidos se apuraram, esperando que Lobo fizesse algum movimento repentino, mas ele estava tão imóvel quanto a casa de pedra atrás dela.
— Já comuniquei à polícia — mentiu, pensando no tablet largado na bancada da cozinha.
A luz se refletiu nos olhos dele, e Scarlet de repente se lembrou do pai dormindo no andar de cima. Era demais ter esperanças de que sua voz erguida fosse despertá-lo do estado de estupor?
— Como você chegou aqui?
— Andando. Correndo, na verdade — disse, as mãos ainda erguidas, o vento deixando o cabelo dele desgrenhado. — Quer que eu vá embora?
A pergunta a pegou de surpresa.
— Quero que me diga o que está fazendo aqui. Se pensa que tenho medo de você...
— Não estou tentando deixar você com medo.
Com uma expressão de raiva, ela olhou ao longo do cano da arma para ter certeza de que ele ainda estava na mira.
— Eu queria falar sobre o que você disse na luta. Sobre a tatuagem... e o que aconteceu com sua avó. E com o seu pai.
Scarlet trincou os dentes.
— Como você descobriu onde eu moro?
Ele franziu a testa, como se estivesse confuso.
— Sua nave tem o nome da fazenda na lateral, então pesquisei. Não quero te causar mal. Só me pareceu que você precisava de ajuda.
— Ajuda? — As bochechas dela ficaram quentes de raiva. — Do psicopata que torturou meu pai? Que sequestrou minha avó?
— Não fui eu — disse ele em tom firme. — Há outras tatuagens como a minha. Foi outra pessoa.
— Ah, é? Você faz parte de um culto ou alguma coisa assim? — Uma das galinhas se encostou em sua perna, ela levou um susto e quase perdeu a mira da arma.
— Alguma coisa assim — respondeu, dando de ombros. Um dos pés pisando no cascalho.
— Não se aproxime! — gritou Scarlet. A galinha cacarejou e saiu andando. — Vou atirar, sabe.
— Eu sei. — Um traço de gentileza passou pelo rosto dele, e ele apontou para a testa. — É melhor mirar na cabeça. Costuma ser um tiro fatal. Ou, se você estiver nervosa, no tronco. É um alvo maior.
— Sua cabeça parece bem grande daqui.
Ele riu, e a expressão mudou tudo nele. A postura relaxou, o rosto ficou mais caloroso.
Um rosnado enojado vibrou na garganta de Scarlet. Esse homem não tinha o direito de estar rindo, não com a avó dela ainda desaparecida.
Lobo baixou os braços e cruzou-os. Antes de Scarlet mandar que os levantasse de novo, ele estava falando.
— Eu esperava impressionar você ontem à noite, mas parece que o tiro saiu pela culatra.
— Não costumo me deixar impressionar por homens com problemas para controlar a raiva que sequestram minha avó e me seguem por aí...
— Eu não sequestrei sua avó. — Pela primeira vez, as palavras dele foram incisivas, o que calou Scarlet. Sua atenção voltou para o cacarejo das galinhas que caminhavam ao redor da porta. — Mas, se foi mesmo alguém com uma tatuagem como a minha, posso ajudar a descobrir quem foi.
— Por que devo acreditar em você?
Ele levou a pergunta a sério e refletiu por bastante tempo.
— Não tenho prova nenhuma além do que falei para você ontem à noite. Estou em Rieux há quase duas semanas. As pessoas da taverna me conhecem, as pessoas das lutas me conhecem. Se seu pai me visse, não me reconheceria. Nem sua avó. — Ele se remexeu como se estivesse ficando ansioso por ficar tanto tempo em pé. — Eu quero ajudar.
Franzindo a testa, Scarlet olhou para o cano duplo da arma. Se ele estivesse mentindo, era um dos homens que tirou a avó dela. Era cruel. Era mau. Merecia uma bala no meio da testa.
Mas ele era a sua única pista.
— Você vai me contar tudo. Tudo. — Ela tirou o dedo do gatilho e baixou a arma, apontando para a coxa dele. Um alvo não fatal. — E vai deixar as mãos onde eu consiga ver o tempo todo. Só porque vou deixar você entrar, não quer dizer que confio em você.
— É claro. — Ele assentiu, todo obediente. — Eu também não confiaria em mim.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!