20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Onze

— Achei que encontraria você aqui.
Cinder espiou pela lateral da nave de passeio. Kai estava parado na porta com as mãos nos bolsos, vestindo novamente as roupas elegantes do casamento.
Ela tirou algumas mechas de cabelo da testa.
— Só estou fazendo algumas manutenções básicas — disse ela, soltando o medidor de bateria da nave e fechando a escotilha. — Cuidando para que esteja pronta para sua grande volta. Achei que era arriscado deixar que Thorne fosse seu piloto. O mínimo que eu podia fazer era ter certeza de que o transporte estaria em boas condições.
— Eu queria que você fosse com a gente.
— É, eu também, mas não podemos arriscar.
— Eu sei. É que é bom ter uma mecânica a bordo. Caso alguma coisa, sabe… quebre. — Ele coçou a orelha.
— Ah, é por isso que você me quer junto. Que lisonjeiro. — Cinder enrolou o fio no medidor e guardou no armário preso à parede.
— Isso e o fato de que vou sentir saudades. — A voz suave aqueceu a boca do estômago dela.
— Com sorte, nós vamos nos ver em breve.
— Eu sei.
Cinder tirou as luvas de trabalho e enfiou no bolso de trás. Ainda havia uma pontada de pânico nesse gesto, o cérebro lembrando-a, por questão de hábito, que ela não deveria tirar as luvas na frente de ninguém, principalmente Kai, mas ela ignorou a sensação. Kai nem piscou ao ver a mão ciborgue, como se nem reparasse mais nela.
Cinder sabia que ela estava pensando cada vez menos nisso. Às vezes, ficava até surpresa ao ver um brilho de metal com o canto do olho quando ia pegar alguma coisa. Era estranho. Ela sempre esteve bem ciente da mão ciborgue, morria de medo de alguém a ver.
— Você está com medo? — perguntou ela, tirando uma chave-inglesa do cinto de ferramentas.
— Morrendo — disse ele, mas com um descaso que a fez se sentir melhor por suas entranhas estarem todas cheias de nós de tensão. — Mas estou pronto para voltar. Tenho certeza de que Torin está prestes a ter um ataque cardíaco. E… — Ele deu de ombros. — Estou com uma certa saudade de casa.
— Vão ficar felizes de receber você de volta. — Cinder se ajoelhou ao lado da nave para verificar os parafusos no trem de pouso. Encaixou a chave-inglesa em um, dois, três parafusos. Nenhum estava solto. — Você sabe o que vai dizer para Levana?
Kai se agachou ao lado dela, com os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Vou dizer que me apaixonei por uma de minhas captoras e que o casamento está cancelado.
Cinder parou de mexer o braço.
Ele deu um sorrisinho.
— Ao menos, era o que eu queria poder dizer.
Ela soprou uma mecha de cabelo do rosto e terminou de verificar os parafusos antes de ir para o outro lado da nave e repetir o processo.
— Vou dizer a ela que não tive nada a ver com o sequestro — disse Kai, usando o que Cinder tinha passado a chamar de sua voz de imperador. — Não tenho ligação nenhuma com você e me esforcei para negociar uma libertação rápida. Eu fui vítima, fiquei preso como refém, não conseguia fugir. Devo inventar alguma coisa sobre tratamento desumano.
— Parece boa ideia.
— Depois, vou implorar para ela se casar comigo. De novo. — Ele curvou o lábio, cheio de repugnância.
Cinder não podia culpá-lo. Quanto mais pensava na situação, mais tinha vontade de sequestrar aquela nave e ir para Marte.
— Quando eu vir você de novo, vou ter roupas para todo mundo e placas novas para Iko — prosseguiu Kai. — Se você pensar em qualquer outra coisa de que possa precisar, Cress acha que consegue me mandar uma mensagem codificada. — Ele inspirou profundamente. — Aconteça o que acontecer, eu estou do seu lado.
O sentimento ao mesmo tempo a encorajou e gerou um choque de ansiedade nos seus nervos.
— Sinto muito por ter que botar você em tanto perigo.
— Você não está — disse ele. — Ela já ia me matar mesmo.
— Você pode tentar parecer mais preocupado quando diz isso.
— Com que preciso me preocupar? — Os olhos dele brilharam. — Você vai me salvar bem antes que isso aconteça.
Depois de ter terminado com os parafusos, ela se levantou e enfiou a chave-inglesa de volta no cinto.
— Cinder…
Ela parou, desconcertada pelo tom sério da voz dele.
— Tem uma coisa que tenho que dizer antes de ir. No caso…
— Não. Nem pense que essa vai ser a última vez que vamos nos ver.
Um sorriso melancólico surgiu nos lábios dele, mas sumiu com a mesma rapidez.
— Quero pedir desculpas.
— Por sugerir que essa pode ser a última vez que nos vemos? Porque isso é muito cruel quando estou aqui tentando trabalhar e…
— Cinder, me escute.
Ela contraiu o maxilar e deixou que Kai segurasse seus ombros, com os polegares delicados nas omoplatas.
— Desculpe pelo que aconteceu no baile. Desculpe por eu não ter confiado em você. Desculpe por… ter dito aquelas coisas.
Cinder afastou o rosto. Embora muita coisa tivesse mudado entre eles desde aquela noite, ainda parecia um golpe de furador de gelo no coração lembrar o jeito como ele a olhou e suas palavras horrorizadas: É ainda mais doloroso olhar para você do que para ela.
— Não importa mais. Você estava em estado de choque.
— Fui um idiota. Tenho vergonha agora de como tratei você. Eu deveria ter tido mais fé em você.
— Por favor. Você mal me conhecia. Depois, descobriu de uma vez só que sou ciborgue e lunar… Eu também não teria confiado em mim. Além do mais, você estava muito estressado e…
Ele se debruçou e deu um beijo na testa dela. A delicadeza a fez parar.
— Você ainda era a garota que consertou Nainsi — disse ele. — Ainda era a garota que me avisou sobre os planos de Levana. Ainda era a garota que queria salvar a irmãzinha.
Ela se encolheu ao ouvir a menção a Peony, sua irmã mais nova. A morte dela era um ferimento que ainda não estava totalmente cicatrizado.
As mãos de Kai deslizaram pelos braços dela e seus dedos se entrelaçaram, pele com metal.
— Você estava tentando se proteger, e eu deveria ter me esforçado mais para defender você.
Cinder engoliu em seco.
— Quando você disse que era ainda mais doloroso olhar para mim do que para Levana…
Kai inspirou intensamente, como se a lembrança das palavras o machucasse tanto quanto a ela.
— … eu… eu estava parecida com ela? Meu glamour se parece com o dela?
Ele franziu a testa entre as sobrancelhas e ficou olhando para ela, para dentro dela, e balançou a cabeça.
— Não exatamente. Você ainda estava com sua aparência, mas… — Ele lutou para achar uma palavra. — Perfeita. Uma versão sua sem defeitos.
Ficou claro que ele não falou como elogio.
— Você quer dizer uma versão nada natural de mim.
Depois de um momento de hesitação, ele disse:
— Acho que sim.
— Acho que foi instinto — disse ela. — Eu não me dei conta de que estava usando glamour. Só sabia que não queria que você soubesse que eu era ciborgue. — Um risinho sardônico. — Parece tão bobo agora.
— Que bom. — Ele a puxou para perto. — Acho que fizemos progresso.
Os lábios dele mal tocaram nos dela quando a porta se abriu.
— Estão com tudo de que precisamos? — perguntou Thorne, com a alegria de sempre.
Iko, Cress e Lobo entraram depois dele.
Kai soltou as mãos de Cinder e ela deu um passo para trás, ajeitando o cinto de ferramentas.
— A nave está pronta. Verifiquei três vezes. Não deve haver nenhuma surpresa.
— E o convidado de honra?
— Estou com tudo com que vim — disse Kai, indicando as roupas de casamento amassadas.
Iko deu um passo à frente e entregou para Kai uma caixa com o rótulo de barras de proteína.
— Também temos um presente para você.
Ele virou a caixa para o jogo infantil impresso atrás.
— Que… delícia?
— Abra — disse Iko, se balançando nas pontas dos pés.
Kai abriu a tampa, virou a caixa e deixou cair na palma da mão uma corrente e um medalhão de prata. Ele levantou até a altura dos olhos e inspecionou a insígnia meio apagada.
— Octogésimo Sexto Regimento Espacial da República Americana — leu ele. — Estou vendo por que fez vocês pensarem em mim.
— Encontramos em um dos uniformes militares antigos — disse Iko. — É para lembrá-lo de que você é um de nós agora, aconteça o que acontecer.
Kai sorriu.
— É perfeito. — Ele passou a corrente pelo pescoço e enfiou o medalhão dentro da camisa. Deu um abraço rápido de despedida em Cress, depois puxou Iko para um abraço apertado. Iko deu gritinhos e ficou paralisada.
Quando Kai se afastou, Iko olhou para ele, para Cinder e para ele de novo. Seus olhos de repente rolaram para dentro da cabeça e ela desabou no chão.
Kai deu um pulo para trás.
— O que aconteceu? Eu apertei o botão de desligar dela, por acaso?
Franzindo a testa, Cinder deu um passo para mais perto.
— Iko, o que você está fazendo?
— Kai me abraçou — disse Iko, ainda de olhos fechados. — Então, eu desmaiei.
Com uma gargalhada constrangida, Kai se virou para Cinder.
— Você não vai desmaiar também, vai?
— Duvido.
Kai passou os braços ao redor de Cinder e a beijou, e, apesar de ela não estar acostumada com plateia, não hesitou na hora de retribuir o beijo. Uma parte nada prática e nada calculista de seu cérebro mandou-a não o largar. Não dizer adeus.
A leveza se foi quando os dois se separaram. Ele encostou a testa na dela e as pontas de seu cabelo roçaram nas bochechas de Cinder.
— Estou do seu lado — disse ele. — Aconteça o que acontecer.
— Eu sei.
Kai se virou para olhar para Lobo por último. Ele levantou o queixo e ajeitou a camisa elegante.
— Tudo bem, estou pronto quando você…
O soco acertou Kai no queixo e o derrubou para trás, em cima de Cinder. Todos ofegaram. Iko deu um pulo com um grito de surpresa enquanto Kai apertava a mão no rosto.
— Desculpe — disse Lobo, se encolhendo de culpa. — É melhor quando você não vê que está para acontecer.
— Não sei, não — disse Kai, com as palavras arrastadas.
Cinder puxou a mão dele para examinar o ferimento, que estava vermelho e já começando a inchar.
— Não abriu a pele. Ele está bem. Vai haver um hematoma grande quando ele voltar para a Terra.
— Desculpe — disse Lobo de novo.
Kai balançou a cabeça e não reclamou quando Cinder deu um beijo em sua bochecha.
— Não se preocupe — sussurrou ela. — É bizarramente atraente.
A gargalhada dele foi irônica, mas apreciativa. Ele a beijou uma última vez antes de ir correndo para a nave, como se pudesse mudar de ideia se ficasse mais.
— Também vou ganhar beijo de despedida? — disse Thorne, entrando na frente de Cinder.
Com cara feia, Cinder o empurrou.
— Lobo não é o único que sabe dar um gancho de direita aqui.
Thorne riu e levantou uma sobrancelha sugestiva para Iko.
A androide, ainda no chão, deu de ombros como quem pede desculpas.
— Eu adoraria dar um beijo de despedida, capitão, mas esse abraço apertado de Sua Majestade pode ter fritado uns fios aqui, e tenho medo de um beijo seu derreter meu processador central.
— Ah, acredite — disse Thorne, piscando para ela. — Aconteceria isso mesmo.
Por um instante, enquanto a piada ainda estava no rosto, o olhar de Thorne se virou com esperança para Cress, mas ela estava concentrada nas unhas.
De repente, o olhar sumiu e Thorne saiu andando para o lado do piloto da nave.
— Boa sorte — desejou Cinder, vendo-os prenderem o cinto.
Thorne fez uma saudação rápida, mas era com Kai que ela estava preocupada. Ele tentou sorrir, ainda massageando o maxilar, e as portas se fecharam ao redor deles.
— Para você também.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!