13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Onze

— ELA ESTÁ COM SCARLET — AVISOU CINDER. — RÁPIDO, FECHE A comporta! Vou pegar a outra nave, vou atrás delas...
As palavras sumiram quando seu cérebro se deu conta.
Ela não sabia pilotar uma nave.
Mas poderia aprender. Poderia fazer o download de instruções e poderia... teria que...
— Seu amigo está morrendo.
Ela se virou. Tinha se esquecido do guarda lunar.
Ele estava com a mão pressionando o lado do corpo, onde o projétil de Cinder ainda se encontrava enfiado, mas sua atenção se voltava para Lobo.
Lobo, que estava inconsciente e cercado de sangue.
— Ah, não. Ah, não.
Ela ejetou a faca no dedo e começou a cortar o tecido molhado de sangue ao redor dos ferimentos de Lobo.
— Thorne. Precisamos pegar Thorne. Depois, podemos ir atrás de Scarlet, e eu... eu vou fazer um curativo em Lobo e...
Ela olhou para o guarda.
— Camisa — disse, com firmeza, embora a ordem fosse mais para concentrar seus pensamentos.
Em segundos, as mãos do guarda obedeciam a sua ordem, retiravam o coldre vazio e puxavam a camisa suja de sangue pela cabeça. Ela ficou feliz ao ver uma camiseta de baixo; tinha a sensação de que precisaria de qualquer “atadura” que encontrasse para estancar o sangramento de Lobo. Em algum momento, teriam que levá-lo para a enfermaria, mas ela não tinha como removê-lo nessas condições, especialmente escada acima.
Ela tentou ignorar o pensamento insistente de que isso não seria o bastante. De que nem as ataduras na enfermaria seriam o bastante.
Ela pegou a camisa do guarda e a apertou sobre o peito de Lobo. Pelo menos essa bala não tinha atingido o coração. E esperava que a outra também não tivesse atingido nada vital.
Seus pensamentos estavam confusos, repetindo-se sem parar na cabeça. Eles tinham que ir buscar Thorne. Tinham que ir atrás de Scarlet. Tinham que salvar Lobo.
Ela não podia fazer tudo isso.
Ela não podia fazer nada disso.
— Thorne... — Sua voz falhou. — Onde está Thorne? — Mantendo a mão apertada sobre o ferimento de Lobo, ela esticou a outra para o guarda, pegou-o pelo colarinho e puxou-o em sua direção. — O que você fez com Thorne?
— Seu amigo que entrou no satélite — disse ele, mais uma afirmação do que uma pergunta. Havia lamento na expressão dele, mas não o suficiente. — Ele está morto.
Ela gritou e o jogou contra a parede.
— Você está mentindo!
Ele se encolheu, mas não tentou se proteger, apesar de ela já ter perdido o foco. Não o manteria sob controle com os pensamentos tão divididos, com o caos e o desespero tomando conta da cabeça.
— A mestra Sybil mudou a trajetória do satélite, tirou-o de órbita. Vai pegar fogo ao entrar na atmosfera. Já deve ter acontecido. Não tem nada que você possa fazer.
— Não — disse ela, balançando a cabeça. Seu corpo inteiro estava tremendo. — Ela não sacrificaria sua programadora.
Mas não havia luz laranja delatora em sua visão. Ele não estava mentindo.
O guarda apoiou a cabeça na parede atrás de si enquanto observava Cinder da cabeça aos pés, como se examinando um espécimen estranho.
— Ela sacrificaria qualquer pessoa para chegar a você. A rainha parece acreditar que você é uma ameaça.
Cinder trincou os dentes com tanta força que sentiu que o maxilar quebraria com a pressão. Ali estava, declarado com simplicidade tão evidente.
Era culpa dela. Era tudo culpa dela.
Eles estavam atrás dela.
— Sua camiseta — sussurrou.
Ela não se deu ao trabalho de controlá-lo dessa vez, e ele retirou a camiseta de baixo sem discutir. Cinder tirou-a da mão dele e viu a cabeça do projétil na pele logo abaixo das costelas.
Ela afastou o olhar e apertou a camiseta sobre o ferimento nas costas de Lobo.
— Role-o de lado.
— O quê?
— Vire-o de lado. Vai abrir as vias e ajudá-lo a respirar.
Cinder olhou para ele com raiva, mas uma busca de quatro segundos na rede confirmou a veracidade da sugestão, e ela virou Lobo de lado com o máximo de delicadeza que conseguiu, posicionando as pernas como o diagrama médico em seu cérebro demonstrava. O guarda não ajudou, mas assentiu com aprovação quando Cinder terminou.
— Cinder?
Era Iko, com voz baixa e controlada. A nave tinha ficado escura, iluminada só por luzes de emergência e usando sistemas básicos. A ansiedade de Iko estava atrapalhando sua capacidade de agir tanto quanto a de Cinder.
— O que vamos fazer?
Cinder lutou para respirar. Uma dor de cabeça explodiu em seu crânio. O peso de tudo a oprimia tornando tentador demais se encolher em cima do corpo de Lobo e desistir.
Ela não podia ajudá-los. Não podia salvar o mundo. Não podia salvar ninguém.
— Não sei — sussurrou ela. — Não sei.
— Encontrar um lugar para se esconder seria um começo — disse o guarda, rasgando um pedaço do tecido da barra da calça. Ele fez uma cara de dor ao arrancar o projétil do corpo e jogá-lo no corredor, para depois pressionar o tecido em cima do ferimento. Pela primeira vez, ela reparou que ele ainda estava com o que parecia uma grande faca de caça no cinto. Como ela não respondeu, ele olhou-a com olhos afiados como furadores de gelo. — Talvez um lugar onde seu amigo possa receber ajuda. É uma ideia.
Ela balançou a cabeça.
— Não posso. Acabamos de perder os dois pilotos e não sei pilotar... Não sei...
— Eu sei pilotar.
— Mas Scarlet...
— Veja bem. A taumaturga Mira vai fazer contato com Luna para pedir reforços, e a frota da rainha não está tão longe quanto você talvez pense. Vai ter um exército inteiro atrás de você.
— Mas...
— Mas nada. Você não pode ajudar a outra garota. Considere-a morta. Mas pode ajudar ele.
Cinder baixou o queixo e se encolheu enquanto as decisões conflitantes em sua mente ameaçavam desestabilizá-la. A sugestão dele era sensata. Ela reconhecia isso. Mas era tão difícil admitir a derrota. Desistir de Scarlet. Fazer o sacrifício e ter que viver com isso.
Mas, a cada segundo, estava mais próxima de também perder Lobo. Ela olhou para baixo. O rosto de Lobo estava contorcido de dor, a testa coberta de suor.
— Nave — disse o guarda —, calcule nossa localização e trajetória relativa sobre a Terra. Qual é o lugar mais próximo para onde podemos ir? Um lugar não muito populoso.
Houve uma hesitação antes de Iko dizer:
— Eu?
Ele olhou para o teto com olhos apertados.
— É. Você.
— Me desculpe, certo. Calculando agora. — As luzes ficaram mais fortes. — Seguindo uma descida natural para a Terra, poderíamos chegar ao centro ou ao norte da África em aproximadamente dezessete minutos. Um raio de mil e quinhentos quilômetros se abre nas regiões mediterrâneas da Europa e na porção oeste da Comunidade das Nações Orientais.
— Ele precisa de um hospital — murmurou Cinder, mesmo sabendo que não havia hospital na Terra que não descobriria que ele era um dos híbridos de lobo da rainha assim que ele desse entrada. E o risco que ela corria ao levá-lo, e o quanto a Rampion seria reconhecível... Para onde eles poderiam ir a fim de encontrar alguma proteção?
Nenhum lugar era seguro.
Embaixo dela, Lobo gemeu. Seu peito tremeu.
Ele precisava de um hospital ou... de um médico.
África. O dr. Erland.
Ela olhou para o guarda e, pela primeira vez, lutou contra a confusão em sua cabeça para se perguntar por que ele estava fazendo isso. Por que não matou todos? Por que os estava ajudando?
— Você serve à rainha — disse ela. — Como posso confiar em você?
Os lábios dele tremeram, como se ela tivesse feito uma piada, mas seus olhos logo endureceram de novo.
— Eu sirvo a minha princesa. E a mais ninguém.
O chão despencou embaixo dela. A princesa. A princesa dele.
Ele sabia.
Ela esperou uma inspiração e uma expiração para que o detector de mentiras reconhecesse a falsidade dele, mas nada aconteceu. Ele estava falando a verdade.
— África — declarou ela. — Iko, nos leve para a África, para onde aconteceram os primeiros casos de letumose.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!