3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Onze

CINDER PISCOU RAPIDAMENTE, TENTANDO DISPERSAR A NÉVOA em seu cérebro. A luz laranja no canto de sua visão desapareceu — ainda não tinha ideia do que a causara.
Talvez o choque anterior em seu sistema tivesse mexido com a programação.
O doutor passou por ela e gesticulou para a imagem holográfica projetada na tela.
— Sem dúvida você reconhece isto — disse ele, deslizando o dedo ao longo da tela de forma que o corpo girasse preguiçosamente em um círculo. — Deixe eu lhe dizer o que há de peculiar aqui.
Cinder puxou mais a luva, fazendo a bainha cobrir a cicatriz. Ela foi depressa em direção a ele, e, sem querer, chutou a chave inglesa, que bateu na mesa de exame.
— Eu diria que 36,28% é bem peculiar.
Já que o dr. Erland não estava olhando para ela, Cinder se abaixou e pegou a chave inglesa. Parecia mais pesada do que antes. Na verdade, tudo parecia mais pesado. Sua mão, sua perna, sua cabeça.
O doutor apontou para o cotovelo direito da holografia.
— Este é o ponto em que injetamos os micróbios hospedeiros de letumose. Eles foram marcados para que pudéssemos monitorar o progresso em seu corpo. — Ele tirou o dedo, dando um tapinha no lábio. — Agora você vê o que há de peculiar?
— O fato de que não estou morta, e você não parece preocupado em estar na mesma sala que eu?
— Sim, de certa forma. — Ele a encarou, esfregando a cabeça por cima do boné de lã. — Como você pode ver, os micróbios se foram.
Cinder coçou o ombro com a chave inglesa.
— O que você quer dizer?
— Que eles se foram. Desapareceram. Puf. — Ele gesticulou com as mãos, imitando uma explosão.
— Então… eu não estou com a peste?
— Exatamente, srta. Linh. Você não está contaminada.
— E não vou morrer.
— Correto.
— E não sou contagiosa.
— Sim, sim, sim. É uma sensação adorável, não é?
Ela se apoiou na parede. A onda de alivio que a tomou foi seguida por desconfiança. Eles haviam injetado a peste nela, mas agora estava curada? Sem nenhum antídoto?
Parecia uma armadilha, mas a luz laranja não estava em lugar algum. Ele lhe dizia a verdade, não importava o quão inacreditável parecesse.
— Isso já aconteceu antes?
Um sorriso maldoso cruzou o rosto envelhecido do médico.
— Você é a primeira. Tenho algumas teorias sobre como isso pode ser possível, mas preciso fazer mais testes, claro.
Ele abandonou a holografia e foi até a bancada, pousando os dois frascos.
— Essas são suas amostras de sangue, uma tirada antes da injeção, outra depois. Estou muito animado para ver quais segredos elas guardam.
Ela correu os olhos para a porta e depois de volta para o doutor.
— Você está dizendo que acha que sou imune?
— Estou! É exatamente isso o que parece. Muito interessante. Muito especial. — Ele juntou as mãos. — É possível que você tenha nascido assim. Algo no seu DNA predispôs seu sistema imunológico a combater essa doença em particular. Ou talvez você tenha sido contaminada com uma quantidade muito pequena de letumose no passado, talvez ainda na infância, e seu corpo foi capaz de combatê-la, criando a partir daí a imunidade que você utilizou hoje.
Cinder se encolheu, constrangida pelo olhar ávido dele.
— Você se recorda de algo de sua infância que poderia estar ligado a isso? — continuou ele. — Alguma doença terrível? Algum contato com a morte?
— Não. Bem… — hesitou ela, guardando a chave inglesa em um bolso lateral da calça cargo. — Talvez, acho. Meu padrasto morreu de letumose há cinco anos.
— Seu padrasto. Você sabe onde ele poderia ter contraído a doença?
Ela encolheu os ombros.
— Não sei. Minha mad… minha guardiã, Adri, sempre suspeitou de que ele a tivesse contraído na Europa. Quando me adotou.
As mãos do doutor tremiam, como se a tensão de seus dedos, por si só, evitasse que ele entrasse em combustão.
— Então você é da Europa.
Ela assentiu, sem muita certeza. Era estranho pensar que nascera em um lugar do qual não tinha memória alguma.
— Você se recorda de haver muita gente doente lá na Europa? Algum surto importante na sua província?
— Não sei. Não me lembro, na verdade, de nada de antes da cirurgia.
As sobrancelhas dele se ergueram, seus olhos azuis absorvendo toda a luz do ambiente.
— A operação cibernética?
— Não, a de mudança de sexo.
O sorriso do doutor se esvaiu.
— Estou brincando.
O dr. Erland retomou sua compostura.
— O que quer dizer quando fala que não se lembra de nada?
Cinder soprou um cacho de cabelo para longe do rosto.
— Simplesmente isso. Aconteceu alguma coisa quando eles instalaram a interface do cérebro… algum dano à minha… você sabe, seja lá o que for. A parte do cérebro que se lembra das coisas.
— O hipocampo.
— Deve ser.
— E quantos anos você tinha?
— Onze.
— Onze. — Ele soltou a respiração depressa. Seu olhar disparou casualmente, como se a razão para sua imunidade estivesse escrita ali. — Onze. Por causa de um acidente de aerodeslizador, não foi?
— Foi.
— Acidentes de aerodeslizador são praticamente impossíveis hoje em dia.
— Até que algum idiota remova o sensor de colisão, tentando fazer com que ele vá mais rápido.
— Mesmo assim, alguns inchaços e feridas não justificariam a quantidade de reparos que foram feitos em você.
Cinder batucou no quadril com os dedos. Reparos — que termo bem apropriado para um ciborgue.
— Sim, bem, o acidente matou meus pais e me arremessou através do para-brisa. O impacto expulsou o aerodeslizador dos trilhos do trem de alta velocidade. Ele capotou algumas vezes, e fiquei presa embaixo dele. Depois alguns dos ossos da minha perna adquiriram a consistência de serragem. — Ela parou de falar, brincando com as luvas. — Pelo menos, foi o que me falaram. Como eu disse, não me lembro de nada.
Ela apenas se lembrava muito vagamente de um entorpecimento induzido por drogas, seus pensamentos sem consistência. E depois, o sofrimento. Cada músculo queimando. Cada articulação gritando. Seu corpo se rebelando como se tivesse descoberto o que lhe fora feito.
— Você tem alguma dificuldade em reter memórias desde então, ou em formar novas?
— Não que eu saiba. — Ela o fitou. — Isso é relevante?
— É fascinante — respondeu o dr. Erland, esquivando-se da pergunta. Ele pegou o tablet e fez uma anotação. — Onze anos — murmurou de novo, e então: — Você deve ter tido uma enorme quantidade de membros protéticos até chegar a esses.
Cinder torceu os lábios. Ela deveria ter tido uma enorme quantidade de membros, mas Adri se recusara a pagar por novas partes para a aberração que era sua enteada. Em vez de responder, ela fixou os olhos na porta, e em seguida nos frascos repletos de sangue.
— Então… estou livre para partir?
Os olhos do dr. Erland faiscaram como se tivessem sido feridos pela pergunta.
— Partir? Srta. Linh, você deve ter consciência do quão importante se tornou com essa descoberta.
Os músculos dela se contraíram, os dedos percorrendo as linhas ásperas da chave inglesa no bolso.
— Então ainda sou prisioneira. Só que agora sou valiosa.
A expressão dele se suavizou, e ele enfiou o tablet em algum lugar fora de vista.
— Isso é muito mais do que você pode mensurar. Você não tem ideia de como é importante… não imagina seu valor.
— E o que acontece agora? Você vai injetar mais dessas doenças letais em mim, para ver como meu corpo reage?
— Nossa, não. Você é preciosa demais para que a matemos.
— Você não estava dizendo exatamente isso há uma hora.
O olhar do dr. Erland se desviou para a holografia, a testa enrugada como se estivesse pensando nas palavras dela.
— As coisas agora são bem diferentes do que eram há uma hora, srta. Linh. Com sua ajuda, podemos salvar centenas de milhares de vidas. Se você for o que acho que é, poderíamos… bem, poderíamos, para começar, interromper os testes com ciborgues. — Ele encostou o punho na boca. — Além disso, pagaríamos a você, é claro.
Pendurando os polegares nos passadores de cinto da calça, Cinder se apoiou na bancada em que estavam todas as máquinas que pareciam tão ameaçadoras antes.
Ela era imune.
Ela era importante.
O dinheiro era tentador, é claro. Se ela pudesse provar sua autossuficiência, seria capaz de anular a guarda legal de Adri sobre ela. Poderia comprar sua liberdade.
Mas mesmo essa perspectiva se desbotou quando pensou em Peony.
— Você realmente acha que posso ajudar?
— Acho. Na verdade, acho que cada pessoa na Terra pode, dentro em breve, ser imensamente grata a você.
Ela engoliu em seco e subiu na mesa de exame, dobrando ambas as pernas debaixo de si.
— Tudo bem, desde que esclareçamos tudo. Agora eu estou aqui como voluntária, o que significa que posso desistir na hora que quiser. Sem perguntas e sem discussões.
A face do doutor se iluminou, os olhos brilhando como lanternas entre as rugas.
— Sim. Absolutamente.
— E espero pagamento, como você disse, mas preciso de uma conta à parte. Algo a que minha guardiã legal não tenha acesso. Não quero que ela tenha ideia de que concordei em fazer isso, ou que possa, de alguma forma, pôr as mãos no dinheiro.
Para a surpresa dela, ele não hesitou.
— É claro.
Ela respirou fundo para se acalmar.
— E mais uma coisa. Minha irmã. Ela foi levada para a quarentena ontem. Se você realmente encontrar um antídoto, ou qualquer coisa que talvez pareça ser um, quero que ela seja a primeira a tomá-lo.
Desta vez, o olhar do doutor vacilou. Ele se virou e caminhou em direção à holografia, esfregando de cima para baixo as mãos na parte da frente do jaleco.
— Isso eu temo não poder prometer.
Ela apertou os punhos.
— Por que não?
— Porque o imperador deve ser o primeiro a receber o antídoto. — Suas pálpebras enrugaram-se com simpatia. — Mas eu posso prometer que sua irmã será a segunda.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!