21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta

Lobo se esforçou durante toda a cerimônia de coroação. Sua cabeça doía pelo esforço, pela luta constante para controlar a fome, mas parecia que a sensação o corroía por dentro. Apesar de ter devorado a carne que lhe deram, a fome ainda ardia. Mil aromas enchiam suas narinas. Cada terráqueo. Cada lunar. Cada guarda e cada taumaturgo, cada um com um cheiro delicioso o bastante para ele não conseguir evitar se imaginar afundando os dentes na carne deles, rasgando os músculos dos ossos, se deleitando com a gordura…
O único instinto mais forte do que essa fome desvairada era o medo do que a taumaturga faria com ele caso se comportasse mal. Ele não suportaria passar por aquele sofrimento de novo. A dor de facada que disparava por cada músculo e cortava cada tendão.
Sua boca salivou, mas ele engoliu a saliva. E não se mexeu.
Sua atenção grudou na rainha. O imperador Kaito já tinha se ajoelhado à frente dela e aceitado a coroa lunar e o título de rei consorte, o que foi seguido de aplausos entusiasmados, embora a expressão do imperador fosse a mesma de quem aceita um frasco de veneno.
Era a vez da rainha.
O imperador levantou a coroa da Comunidade das Nações Orientais e repetiu o discurso da rainha, ruminando no poder político que havia em sua posição, nas obrigações e deveres, nas honras e expectativas, no simbolismo e na história contidos naquele pedaço de metal com cem pedras preciosas brilhantes.
Levana se ajoelhou. Ela vibrava de expectativa. Os lábios tremiam com um sorriso controlado. Os olhos devoravam a coroa quando Kai se virou para ela.
Lobo engoliu mais saliva. A carne da rainha era a mais tentadora de todas, adocicada pela sabedoria de que ela era sua mestra e sua inimiga. Ela mandou que Lobo fosse tirado da família. Mandou que ele fosse transformado nesse monstro. Era por ordem dela que os taumaturgos o torturavam.
Ele devoraria o coração dela se tivesse a oportunidade.
— Você jura — disse Kai — governar os povos da Comunidade das Nações Orientais de acordo com as leis e costumes criados pelas gerações de governantes passados, usar todo o poder concedido a você para perpetuar a justiça, ser misericordiosa, honrar os direitos inerentes a todos os povos, respeitar a paz entre todas as nações, governar com gentileza e paciência, e buscar sabedoria e conselho de nossos semelhantes e irmãos? Você promete fazer isso hoje e todos os dias de seu reinado como imperatriz da Comunidade das Nações Orientais, perante todas as testemunhas das terras e dos céus?
Ela estava olhando para a coroa, não para o imperador.
— Prometo — sussurrou ela.
A expressão de Kai era sombria. Ele hesitou, segurando a coroa no ar. Seus braços tremiam.
Lobo viu Kai se obrigar a colocar a coroa na cabeça de Levana. Ela fechou os olhos, a expressão beirando a euforia.
— Pelo poder concedido a mim pelos cidadãos da Comunidade das Nações Orientais e por nossos aliados da União Terráquea, como imperador da Comunidade das Nações Orientais, eu a proclamo…
Ele fez uma pausa. Esperou. Lobo ouvia a esperança murchando dentro dele e achou que entendia a tentação de esperar um segundo a mais, só mais um segundo
O segundo passou, e Kai deixou a expressão no rosto pétrea.
— … imperatriz Levana da Comunidade das Nações Orientais. A partir deste dia até o dia em que um de nós ou os dois morram, você é minha esposa e vou dividir com você meu trono.
A voz dele falhou na última palavra. Kai afastou as mãos da coroa como se tivesse se queimado.
A plateia explodiu, serpentina e pétalas de flores surgindo de bolsos escondidos, transformando a cerimônia sóbria e sagrada em uma cacofonia de barulho. Levana se levantou. Com os braços esticados, ela foi até a beirada do palco, aceitando a homenagem torrencial dos aristocratas lunares.
Antes que falasse, os gritos de triunfo foram interrompidos por um guincho repentino, o som perfurando os ouvidos de Lobo como agulhas entrando no cérebro. Ele se agachou e rosnou. A plateia se encolheu. O barulho surgiu de todos os lados ao mesmo tempo.
Lobo levantou a cabeça. Era sua chance. Embora o som tivesse deixado sua visão branca, e os ouvidos hipersensíveis lhe dessem vontade de cair no chão em convulsões, seu ódio pela rainha era maior do que a dor.
Ele deu um salto, a visão preenchida por ela e seus pontos mais frágeis. O pescoço. A barriga.
Ele ouviu um grito de guerra. Um guarda pulou na sua frente, bloqueando o caminho. Lobo o cortou com as novas unhas afiadas e puxou a faca do guarda da bainha na lateral do corpo. Levantou a faca acima do ombro.
O grito do guarda tinha chamado atenção, mesmo em meio ao ruído. A rainha se virou quando a mão de Lobo se esticou.
O sofrimento tomou conta dele de repente, como tornos de metal ardente se prendendo nos dedos, no pulso, no braço. Ele lançou a faca meio segundo cedo demais, sabendo que errou no instante em que seus dedos congelados ficaram vazios. A lâmina raspou no pescoço da rainha, embora devesse ter se alojado no coração, e atravessou as cortinas pesadas atrás do altar.
Lobo desabou no chão, cego pela torrente de dor que rasgava sua pele, destroçava sua mente.
O barulho parou e, com ele, o tormento.
A ausência repentina era como um aspirador sugando todos os outros sons do grande salão. Eles ficaram no silêncio cristalizado, centenas de corpos paralisados de choque.
Lobo ficou caído no chão, ofegante, desejando estar morto.
Ele sabia que não haveria outra chance. Sabia que sua punição só tinha começado.
Levana também estava ofegante, os olhos ardendo. Os lábios pareciam mais vermelhos do que o habitual, combinando com o sangue que surgia na lateral do pescoço.
— Controle-o!
— Sim, minha rainha — disse a mestra Bement. — Não vai acontecer de novo, minha rainha.
Então, através do silêncio pesado, soou uma voz. O palácio parou para ouvir. Lobo se concentrou no teto, se perguntando se a dor o deixou delirante.
Era a voz de Cinder.
— Oi, minha querida tia Levana — disse ela com tom leve e provocador. — Lamento interromper, mas eu queria ter certeza de ter sua total atenção. Primeiro, permita-me parabenizá-la. Parece que você finalmente tem tudo o que sempre quis. Agora, é minha vez.
Houve uma longa pausa. Os alto-falantes estalaram.
A voz de Cinder não estava mais jovial quando ela falou:
— Você tem dez minutos para ir até o portão da frente do palácio e se render.
E só.
As pessoas esperaram mais. Mais provocações. Mais ameaças. Mais explicações. Mas a mensagem tinha acabado.
Levana parecia visivelmente abalada, enquanto o imperador parecia prestes a cair na gargalhada.
Mas Kai olhou para Lobo e o sorriso sumiu. Sua testa se franziu de preocupação.
Lobo estava com fúria nos olhos e se levantou sobre pernas fracas, feliz pelo fato de a taumaturga não o ter impedido.
— É um truque! — gritou Levana com voz fragmentada. — Ela não pode fazer nada comigo!
Um som de passos apressados interrompeu o acesso de fúria da rainha. Eles entraram por uma das portas laterais, o taumaturgo-chefe Aimery Park ladeado por dois guardas.
Um rugido tentou escapar da garganta de Lobo, e ele mal conseguiu sufocá-lo. Aquele homem tinha matado sua mãe.
— O quê? — disse a rainha com rispidez.
— Fomos informados que, desde que a falha na segurança ocorreu, nosso sistema não consegue passar informações dos túneis…
— Rápido, Aimery.
A expressão dele ficou sombria.
— Eles estão na cidade, minha rainha. Nossos oito bloqueios caíram.
— Quem está na cidade?
— A ciborgue. Civis dos setores externos. Até alguns dos nossos soldados se juntaram a eles.
Levana estava hiperventilando, fervendo de fúria.
— A próxima pessoa que usar a palavra ciborgue na minha presença vai perder um membro. — Ela inspirou fundo. — Por que eles não foram impedidos?
— Nossos recursos são parcos, Vossa Majestade. Muitos dos nossos homens foram enviados para os setores externos a fim de sufocar os levantes. Não podemos enviar reforços contra esses rebeldes sem enfraquecer nossa posição aqui no palácio.
Levana segurou a saia nas mãos e ergueu os ombros até tão perto do pescoço que uma mancha de sangue ficou na dobra da roupa.
— Tudo bem — sibilou ela. — Essa rebeliãozinha termina aqui.
— Além do mais, minha rainha, nós encontramos isto no centro de controle dos sistemas depois que descobrimos que nossa segurança tinha sido invadida. — Aimery segurou um tablet. — Parece que pertence a ninguém menos que nosso honrado rei consorte.
O olhar de Levana falava em assassinato quando se virou para o imperador Kaito.
— Eu estava me perguntando aonde isso tinha ido parar — disse ele, retorcendo a boca em um desafio. — E pensar que passei a manhã inteira procurando.
Levana dilatou as narinas, sua expressão era cruel e calculista. Ela pegou o tablet da mão de Aimery e o jogou no altar. A cobertura de plástico rachou.
— Esta celebração acabou — disse ela, a voz amplificada por alto-falantes ao redor do salão quando se virou para a plateia. — Parece que alguns dos meus subordinados escolheram esta noite para incitar o que veem como rebelião. Mas não fiquem alarmados. Tenho certeza de que não passa de uma exibição tola. — Ela estava recuperando aos poucos o controle sobre as emoções. — Para sua segurança, peço que todos, como meus distintos convidados, permaneçam sentados enquanto verifico o alvoroço.
Um burburinho se espalhou entre a plateia.
— Espere — disse uma voz de homem, falando das fileiras de terráqueos. — Você não pode esperar que fiquemos neste salão enquanto o palácio está sendo atacado. Essa guerra é sua, não nossa. Exijo permissão para voltar para minha espaçonave imediatamente.
O homem tinha um sotaque terráqueo europeu, e uma visão da garota ruiva surgiu nos pensamentos de Lobo. Ele franziu a testa e procurou o homem na multidão, enquanto um som de concordância surgia no meio dos terráqueos.
Levana franziu os lábios.
— Vocês vão ficar aqui — disse ela, cada palavra dura e fria como um cubo de gelo. — Até eu dar permissão para irem embora.
Na mesma hora, toda a discordância dos terráqueos sumiu. Levana voltou a atenção aos guardas.
— Bloqueiem as portas. Ninguém sai deste salão até eu permitir. — Ela olhou para Lobo e estalou os dedos. — Aquele ali fica do meu lado. Ele vai ser o escudo perfeito se eu precisar.
— Minha rainha — disse um dos guardas —, temos que insistir que nos permita escoltá-la até um lugar seguro. Os tubos de lava embaixo da cidade…
— De jeito nenhum — negou Levana, furiosa. — Esse é meu povo. É o meu reino. Não vou abandoná-los.
Ela saiu marchando para a saída principal, mas Kai a acompanhou.
— Esses terráqueos não são seus para que você os tranque. Nós não somos reféns.
— Tem certeza disso, marido? — Levana estalou os dedos para dois dos guardas mais próximos. — Levem-no de volta até os outros.
Eles se apressaram para obedecer e arrastaram Kai para longe da rainha, na direção do grupo de terráqueos controlados.
— Soltem-me! — gritou Kai. — Tenho o mesmo direito de dar ordens quanto você, para qualquer guarda ou soldado lunar!
Levana riu, e teria parecido achar graça se o som não tivesse sido quase histérico.
— Espero que você não acredite nisso.
Lobo estava ao lado de Kai quando ele foi afastado da rainha, mas saber que havia uma taumaturga observando seus movimentos o impediu de se adiantar em defesa do imperador. Um tremor o percorreu só de pensar em ter a reprovação dela de novo.
Quando a rainha fez sinal para que ele a seguisse, ele obedeceu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!