21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e um

Exploradores foram enviados para garantir que não houvesse emboscada os esperando na plataforma dos trens. Foi ideia de Strom, e apesar de Cinder ficar um pouco irritada em ver outra pessoa assumindo o controle, também era bom ter outro líder se debruçando sobre a estratégia e cuidando para que Cinder não cometesse outro erro tático idiota. Era o tipo de coisa que Lobo faria se estivesse ali.
Não, ela não queria pensar em Lobo. Teve que contar para Scarlet que eles foram separados assim que foram levados para Artemísia e que não fazia ideia do que tinha acontecido com ele. A lembrança abria um ferimento que ainda era recente demais, que ela não teve tempo de deixar cicatrizar.
Ela tentou acalmar a pulsação disparada, concentrando-se nos aliados que ainda tinha. Iko estava a seu lado novamente. Scarlet estava em um dos outros túneis, junto com outro grupo de soldados e civis. Thorne e Cress estavam no palácio, e se a retirada dos bloqueios fosse indicação, eles ainda estavam seguros. Winter e Jacin estavam percorrendo os setores próximos, recrutando o máximo de reforços possível.
Ela sentia como se estivesse jogando um daqueles jogos de estratégia de Cress. Todos os peões dela se encontravam em posição, e o ataque final estava prestes a começar.
Uma mão segurou a dela. Iko, oferecendo um último momento de alento.
Um uivo baixo ecoou pelo túnel sufocante.
O sinal.
Cinder apertou a mão de Iko e balançou o braço. Hora de ir.
Eles subiram na plataforma vazia, onde os netscreens anunciavam que a coroação tinha terminado. Levana era imperatriz.
Eles entraram na escadaria e seguiram para a luz do dia. Embora a noite artificial logo fosse aparecer no alto dos domos, a verdadeira luz do dia podia ser vista no horizonte, um pedacinho do sol ardente.
O nascer do sol.
Era lindo.
Os passos deles soaram nas ruas de pedra de Artemísia. Ela esperava que as ruas estivessem tão vazias quanto antes, mas, conforme o som da marcha deles ecoou nas paredes de mansões e por jardins bem-cuidados, silhuetas foram atraídas para as janelas.
Ela ficou tensa, se preparando para um ataque surpresa. Mas um dos lobos murmurou:
— Criados.
Ao olhar melhor, ela viu que ele estava certo. Vestidos com roupas simples, o olhar transbordando medo, eram as classes mais baixas que viviam nas sombras da cidade branca e cuidavam das necessidades e desejos de seus senhores.
Cinder torceu para alguns serem corajosos o bastante para lutar. Afinal, aquela era a hora de demonstrar. Mas, para sua decepção, a maioria voltou para algum lugar escondido. Ela tentou não guardar ressentimento. Sem dúvida, eles tinham sofrido anos de punições e lavagens cerebrais.
Ocorreu a ela que podia ser a primeira vez que eles ouviam falar da rebelião.
O palácio surgiu, cintilante e majestoso.
— Alfas! — gritou Strom, mais alto que o barulho dos passos firmes. — Espalhem-se e cerquem o palácio. Vamos nos aproximar dele por todas as ruas abertas.
Eles eram uma máquina bem lubrificada, e ver a segurança com que as matilhas se dividiram, cada uma liderando seu regimento de civis por várias ruas menores, provocou um arrepio em Cinder. Apesar de as pessoas parecerem ter medo, elas também ganhavam confiança nos homens bestiais que as lideravam. Era o tipo de confiança que ela não sabia se teria inspirado sozinha.
Quando chegaram aos portões do palácio, o barulho dos passos parou.
Não havia ninguém à vista. Até a torre da guarda estava vazia. O pesado portão de ferro estava aberto, convidando-os a entrar. Era como se Levana não fizesse ideia de que estava cercada… ou como se estivesse confiante demais para dar atenção às ameaças de Cinder.
Ou talvez fosse uma armadilha.
As portas douradas do castelo estavam bem fechadas.
Cinder saiu da linha de frente do exército e parou na frente do portão aberto. Havia uma energia vibrando nela, uma impaciência formigando na pele. Strom e Iko ficaram ao lado dela, prontos para protegê-la se um ataque viesse de uma das janelas do palácio.
Cinder examinou as janelas brilhantes, mas não viu sinal de vida. A expectativa foi envolvendo o corpo dela como uma corda, ficando cada vez mais apertada. Ela sentia como se estivesse na beirada de um penhasco, esperando ser empurrada.
Da linha de frente, viu surgirem os grupos que tinham se separado, ocupando os cruzamentos de todas as ruas da cidade. Os soldados esperavam em formação militar perfeita. O treinamento e a força de vontade os transformavam em estátuas ferozes, mas ela reparou no tremer de um músculo, no flexionar de um punho, na ansiedade estalando embaixo da pele deles.
Atrás, milhares de civis esperavam. Menos intimidantes, menos preparados, mas não menos determinados. Ela viu o cabelo ruivo de Scarlet na multidão.
Nem todo mundo que se juntou a eles veio de EM-12. Algumas pessoas foram com base na fé, por causa de alguns vídeos e da promessa de que a verdadeira rainha tinha voltado. Algumas pessoas foram encorajadas pelas mensagens que Cinder mandou. Algumas, esperava ela, ainda estavam a caminho.
Cinder inspirou fundo e forçou os pensamentos, procurando todas as pulsações elétricas ao seu alcance, e espalhou sua vontade pelos aliados. Era o que deveria ter feito em MR-9, antes que Aimery tivesse tomado o controle. Ela disse a si mesma que era uma proteção contra Levana e os taumaturgos. Enquanto os civis estivessem sob o controle dela, a rainha não poderia tê-los.
Mas ela também sabia que os usaria se precisasse.
Ela os sacrificaria, até. Se precisasse.
Cinder ordenou a seus aliados mais fortes que fizessem a mesma coisa: tomassem controle dos colegas antes que Levana e a corte dela tivessem a chance. Eles não podiam controlar todo mundo, mas ela tinha que acreditar que Levana também não podia.
Cinder precisava de gente suficiente para superar as defesas da rainha. Tinha que bastar.
Eles tinham que bastar.
— Se Levana não se render, nós vamos tomar o palácio à força — gritou Cinder no silêncio sinistro. — Há entradas múltiplas neste andar principal. Tomem todas. Quebrem janelas. Mas não esqueçam que a rainha e os asseclas dela estão lá dentro.
Ela observou as janelas de novo, nervosa por ainda não haver sinal de oposição. Uma sensação de medo surgiu na boca do estômago.
Ela estava confiante no plano, mas não muito. Eles chegaram à porta da rainha sem sinal de resistência depois dos túneis bloqueados. Alguma coisa já deveria ter acontecido.
— Taumaturgos vão tentar manipular vocês — continuou ela. — Matem-nos se tiverem oportunidade, pois eles não vão hesitar na hora de matar vocês ou de usá-los para matarem seus amigos e vizinhos. Os guardas da rainha são soldados treinados, mas a mente deles é fraca. Usem isso em sua vantagem. Acima de tudo, lembrem por que estão aqui hoje. Esta noite, eu serei sua rainha, e vocês não serão mais escravos!
Um grito se espalhou pelo pátio, acompanhado de um uivo de gelar os ossos que percorreu o corpo de Cinder. Ela levantou o braço, mandando seus aliados ficarem prontos. Preparou-se para baixá-lo: o sinal para atacar. Ela observou Iko com o canto do olho, esperando que avisasse que os dez minutos tinham acabado.
Seu olho captou um movimento.
As portas do palácio estavam se abrindo.
Os soldados assumiram postura de luta. Um rosnado baixo fez o chão tremer, chegando às solas das botas roubadas de Cinder. Quando as portas se abriram, revelaram uma silhueta cintilante. Não um taumaturgo de casaco comprido nem a figura magra da rainha.
Um mutante. Um dos soldados da rainha.
Uma mão segurou o cotovelo de Cinder e a puxou para trás da linha de frente.
O soldado foi até a escada do palácio. Os movimentos dele eram graciosos e precisos. Havia uma familiaridade nele que Cinder lutou para localizar, algo diferente em relação aos soldados que a cercavam. O mesmo rosto deformado. Os mesmos dentes projetados. Olhos furiosos observando a multidão. Ele estava vestindo não os uniformes simples e práticos do regimento, mas um uniforme mais adequado à guarda real, todo cheio de compostura.
Sua respiração travou.
Era Lobo. Lobo, repugnante e bestial, parado na beirada da escada.
Seus pensamentos dispararam para Scarlet, mas ela não ousou se virar para ver a reação da amiga.
Outra pessoa saiu do castelo. A própria rainha Levana. O taumaturgo Aimery saiu atrás e, depois deles, taumaturgos de vermelho e preto, formando uma fila de expressões arrogantes e desprezo divertido, com as mãos enfiadas nas mangas amplas. As runas bordadas brilhavam na primeira luz natural que eles viam em semanas.
Pela primeira vez, Cinder não tinha detector de mentiras para lhe dizer que o glamour da rainha era ilusão. Também não tinha evidência de que aquele era Lobo, e não alguém com glamour para se parecer com ele.
Mas também não tinha motivo para duvidar.
Ela procurou novamente as linhas de força que a ligavam aos homens e mulheres cujo controle tinha assumido. Ela nunca tinha controlado tantas pessoas de uma vez, e o domínio parecia delicado e fraco.
— “Esta noite, eu serei sua rainha” — citou Levana, dando seu sorriso cruel — “e vocês não serão mais escravos.” Que palavras destemidas da garota que provoca caos e morte aonde quer que vá. — Levana levantou as mãos, como uma oferta de paz que não queria dizer nada. — Aqui estou eu, garota que alega ser a princesa Selene. Não vou fazer você me procurar. Vá em frente. Tente pegar minha coroa.
O olho de Cinder tremeu. Sua pulsação estava disparada por baixo da superfície, mas havia uma calma no centro da mente dela. Talvez porque, pela primeira vez, o cérebro ciborgue não estivesse revelando as estatísticas do mundo ao redor. Ela achava que seus níveis de adrenalina estavam disparados e que a pressão sanguínea estava preocupante, mas, sem o fluxo vermelho de texto de aviso, ela não se importava.
Com o braço ainda levantado, ela abriu os dedos, indicando que as pessoas que a acompanhavam deviam esperar e não atacar.
Levana estava apostando na lealdade de Cinder a Lobo. Devia acreditar que Cinder não ia atacar enquanto ele pudesse ficar preso no fogo cruzado. Que ela não ousaria colocar o amigo em perigo.
Mas ela não tinha como ter certeza de que ele ainda era seu amigo. Ainda era Lobo ou era uma coisa diferente? Um monstro, um predador?
Ela contraiu o maxilar e reconheceu a hipocrisia de seus pensamentos. Ele era a mesma coisa que os soldados ao lado dela, prontos para lutar e morrer por sua liberdade.
O que quer que Lobo tivesse se tornado, ela tinha que acreditar que ele ainda era seu aliado.
A verdadeira questão era se Lobo, seu amigo, seu aliado, seu professor, era ou não um sacrifício válido para vencer a guerra.
— Princesa — rosnou Strom —, ela trouxe reforços.
Cinder não ousou afastar o olhar de Levana, embora a curiosidade ardesse dentro dela.
— Sinto o cheiro deles se aproximando. Uma dezena de matilhas, talvez mais, junto com os mestres. Em pouco tempo, vamos estar cercados.
Cinder manteve a expressão controlada.
— Esta é sua última chance — disse ela, sustentando o olhar da tia pelo pátio. — Proclame perante todas essas testemunhas que sou Selene Blackburn, a herdeira por direito do trono lunar. Me dê sua coroa, e deixo você e seus seguidores viverem. Nenhuma vida precisa ser perdida.
Levana curvou os lábios vermelhos como sangue na pele branca.
— Selene está morta. Eu sou a rainha de Luna, e você não passa de uma impostora.
Cinder respirou fundo devagar e retribuiu o sorriso.
— É o que pensei que você diria.
Ela baixou o braço.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!