21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e três

De pé na plataforma onde tinha sido coroado rei de Luna, Kai cruzou os braços e olhou com irritação para a plateia. Os líderes e diplomatas da União Europeia estavam com expressões pétreas, na tentativa de esconder a raiva que ardia embaixo da superfície.
Levana os tinha trancado no salão com guardas do lado de fora de cada porta, junto com centenas de aristocratas lunares, que davam risadinhas dos terráqueos, como se eles fossem animais exóticos: adoráveis e fascinantes e inofensivos.
Ele ouvia os sons distantes de luta e pés correndo, mas eram abafados pelas paredes grossas.
A ameaça de revolta e massacre de milhares de conterrâneos não bastava para atrapalhar a festança. Eles agiam como se estivessem em um circo. Comemorando quando os sons de luta ficaram mais altos lá fora. Fazendo apostas em diferentes taumaturgos e em quem teria as maiores contagens de morte quando acabasse. Fazendo piadas grosseiras sobre quem entre eles ficaria sem casacos de casimira e vinho de mirtilo na próxima estação se os trabalhadores dos setores externos não parassem de brincar de guerra e voltassem a trabalhar, palhaços preguiçosos que eram.
Ouvir isso tudo fez a visão de Kai arder em vermelho. Ele não percebeu que estava apertando as mãos trêmulas em punhos até que Torin tocou seu ombro. Kai levou um susto, se obrigou a abrir as mãos e respirou fundo para se acalmar.
— Eles não fazem ideia — disse ele. — Não sabem como é nos setores externos, não têm gratidão nenhuma pelos trabalhadores que permitem que eles tenham os luxos que têm. Acreditam que é direito deles tudo o que sempre tiveram.
— Eu concordo, é doentio e talvez até imperdoável — respondeu Torin. — Mas temos que considerar que eles ficaram na ignorância tanto quanto as pessoas dos setores externos.
Kai rosnou. Não estava com humor para sentir empatia por aquelas pessoas.
— Parece que a lua de mel acabou.
— Eu diria que a rainha tem um talento para o drama. — Torin deu um sorriso malicioso para Kai. — E parece que a sobrinha dela também.
Kai sufocou uma pontada de orgulho. Cinder tinha mesmo gosto por fazer uma entrada de impacto.
— O que sabemos?
— Todas as saídas foram fechadas por fora, e, se podemos acreditar nos lunares, tem dois guardas posicionados em cada saída.
— Os guardas são fáceis de manipular, não são? — Kai indicou a plateia. — Esses lunares… você acha que eles conseguiriam controlar os guardas através das portas? Cinder sempre disse que detectava pessoas através de portas, mas não sei se também conseguiria manipulá-las. Mas se pudéssemos fazer alguns desses lunares manipularem os guardas para que abrissem as portas a fim de abrirmos caminho até as docas… talvez pudéssemos levar todo mundo para um lugar seguro.
— As docas ofereceriam abrigo e um potencial de fuga se Linh-dàren fracassar — falou Torin. — Mas não imagino esses lunares escolhendo nos ajudar em momento nenhum.
Kai piscou. Era a primeira vez que ele ouvia alguém se referir a Cinder como Linhdàren, um título de alta honra.
— Você está certo — disse ele. — Eles não vão nos ajudar, e são idiotas por isso. Por acaso pararam para pensar por que Levana também os trancou aqui? Eles acham que são invencíveis porque estão sob a proteção dela, mas Levana não liga para eles. Ela vai usá-los com a mesma rapidez com que faria com qualquer pessoa, se achar que vai ajudar sua causa.
Um rugido distante sacudiu o palácio, seguido de gritos graves e furiosos, do que poderiam ser mil vozes. Em seguida, uma chuva de balas.
Kai tremeu. Mesmo sabendo que Levana foi se encontrar com Cinder e com os aliados que persuadiu a se juntarem a ela, não parecia real. Uma revolução, uma batalha… era incompreensível. Mas agora havia armas, e pessoas estavam morrendo, e eles estavam encurralados.
— Isso foi uma bomba! — gritou um representante da Europa Ocidental. — Estão jogando bombas no palácio! Vão matar todos nós!
Um grupo de lunares próximos começou a rir e gritar com imitação de medo:
— Uma bomba! Ah, pelas estrelas, uma bomba, não!
Kai apertou os olhos. Ele não sabia se os sons foram causados por explosivos, mas o medo do companheiro lhe deu uma ideia.
O tablet que Levana jogou no chão ainda estava ao lado do altar. Ele foi até lá e juntou as peças. Alguns painéis de plástico tinham se quebrado, e havia um amassado permanente no canto, mas o aparelho ganhou vida quando Kai o ligou.
Mas, quando a tela se acendeu, estava embaralhada e pixelada, cheia de pontos pretos e ícones partidos. Ele falou um palavrão, passou os dedos pela tela, apertou os controles.
Nada mudou.
— Vossa Majestade? — Torin se agachou ao lado dele.
Kai mostrou o tablet quebrado.
— O que Cinder faria? Como ela consertaria?
A testa de Torin se franziu.
— Você quer mandar uma mensagem pedindo ajuda?
— Mais ou menos.
Ele enfiou a mão no cabelo, pensando, pensando. Imaginou Cinder na barraca dela na feira. Ela estaria cercada de ferramentas e peças. Saberia o que fazer. Faria…
Ele ficou de pé com a pulsação disparada e bateu o canto do tablet com força no altar.
Torin deu um pulo para trás.
Kai olhou de novo e soltou um grito animado. Metade da tela tinha se ajeitado.
Ele abriu uma mensagem.
— Como você fez isso? — perguntou Torin.
— Não sei — disse ele, digitando uma mensagem rápida. — Mas você ficaria surpreso de saber a frequência com que isso funciona.
Uma explosão de gargalhadas chamou novamente a atenção dele para a plateia. Um grupo de lunares tinha formado um círculo ao redor de uma serva que ficou trancada com eles. A garota estava dançando, mas com movimentos desajeitados e esquisitos. Havia lágrimas no rosto dela, apesar de os olhos estarem fechados e a expressão estar contorcida na tentativa de se imaginar em outro lugar. Isso fez o coração de Kai murchar no peito.
De alguma forma, ele soube que essa não era uma ocorrência incomum para a garota. Ele se perguntou se ela já tinha passado um dia inteiro sem a vontade de outra pessoa ser forçada nos membros dela.
— Isso não é valsa! — gritou um lunar, batendo no ombro do companheiro. — Deixe-me tentar. Posso deixá-la bem mais graciosa do que isso.
— Ela precisa de um par, não precisa? — disse outra pessoa. — Vamos pegar um daqueles terráqueos e fazer um teatro de marionetes enquanto esperamos.
— Ei… que tal aquela moça fofa da Comunidade, a parente da ciborgue? Lembram-se dela, do julgamento? Onde ela está?
Kai ouviu um choramingo. A madrasta e a meia-irmã de Cinder estavam ajoelhadas no chão entre duas fileiras de cadeiras, se abraçando, na tentativa de passarem despercebidas.
Ele afastou o olhar e prendeu o tablet no cinto.
— Já chega — disse ele, andando na direção do grupo — Soltem a criada agora mesmo!
— Ah, parece que o belo imperador também quer dançar.
Os gritos que receberam Kai soaram cruéis, mas, para seu alívio, ninguém tomou o controle do corpo dele, nem quando ele passou o braço ao redor da serva e a envolveu.
Ela parou de dançar na mesma hora e despencou contra o corpo dele, exausta.
— Vocês estão falando com seu rei — disse ele, enunciando cada palavra. Ele estava feliz de ainda estar usando a coroa lunar pontuda, apesar de rei consorte não ser um título que carregasse muito poder. Mas só podia torcer para que nem todo mundo soubesse disso. — Vocês não parecem compreender a situação. Somos todos prisioneiros nesta sala, cada um de nós. Isso também nos torna aliados, quer nós gostemos ou não. — Ele apontou para a parede dos fundos. — Quando Levana se der conta de que suas forças são inferiores, e são mesmo, ela vai recuar. E para onde acham que ela vai?
Ele fixou o olhar nas pessoas mais próximas. Estavam rindo com deboche. Achando graça da fúria de Kai.
— Ela não nos trancou aqui para nossa proteção nem porque queria que continuássemos com a festa. Ela está nos deixando aqui como reservas. Quando os guardas morrerem, vocês serão os próximos na linha de defesa. Ela vai usar seus corpos como escudo. Vai transformar vocês em armas. Vai sacrificar todas as pessoas desta sala e não vai sentir nem uma pontada de remorso, desde que ela sobreviva. Não entendem? Ela não liga para vocês. Só quer ter mais corpos à disposição quando precisar.
Os olhos ao redor dele ainda brilhavam. Era impossível saber se suas palavras estavam tendo impacto, mas ele continuou:
— Não temos que ficar aqui parados esperando que ela volte. Com sua ajuda, podemos sair desta sala. Podemos ir todos para o porto real, onde ficaremos em segurança e onde Levana não vai poder nos usar para lutar as batalhas dela.
Um homem não muito longe estalou a língua.
— Ah, pobre e patético rei terráqueo, falando conosco como se fôssemos criancinhas indefesas que vão se curvar a ele só porque usa coroa. Não somos aliados, Vossa Graça, e jamais nos rebaixaríamos a ponto de nos considerarmos semelhantes aos seus. Nossa rainha pode ter visto benefício ao fazer de você marido dela e coroá-lo rei, mas, na verdade, você e os seus não são dignos de lavar os vãos entre os dedos dos nossos pés.
A sala explodiu em gargalhadas. O homem que falou riu com desprezo para Kai, enquanto suas palavras eram recompensadas com sugestões gritadas de todos os tipos de outras coisas horríveis de que os terráqueos não eram dignos.
— Tudo bem — rosnou Kai, com tom gelado. — Permitam-me persuadi-los.
Ele soltou o tablet e abriu um mapa holográfico de Luna, ampliando-o acima das cabeças deles. A imagem ocupou o espaço do grande salão, a superfície cheia de crateras da Lua tocando no teto alto. Kai ajustou o mapa para que todos tivessem uma boa visão de Artemísia Central e das oito cidades-setores das redondezas. Depois, iluminou a frota espacial que mandou assumir posição em espaço neutro naquele mesmo dia, sessenta naves que logo responderam à mensagem dele. Sessenta naves que estavam seguindo caminho na direção da capital de Luna.
— Cada uma dessas naves terráqueas carrega armas capazes de destruir seus biodomos. Temos munição suficiente para reduzir seu país todo a escombros.
Era mentira. Nem todas as naves tinham armas, mas havia o bastante, ele esperava, para provocar danos consideráveis. Para deixá-los com medo. A energia na sala mudou. Os sorrisos ficaram hesitantes. As gargalhadas ficaram inseguras.
— Enquanto vocês estavam ocupados provocando essa pobre criada, eu mandei uma mensagem para meus militares dando a ordem de abrir fogo assim que chegarem ao nosso alcance. Mas vou revogar essa ordem quando meu povo estiver reposicionado em segurança nos portos.
Uma mulher riu, mas foi um som agudo e ansioso.
— Você não ousaria arriscar um ataque enquanto está no palácio! Você e todos os seus amigos terráqueos estariam mortos.
Kai sorriu.
— Você está certa. Eu não atacaria Artemísia Central. Mas, se não estou enganado, a maioria das casas de vocês não fica no domo central, fica? A maioria fica nessas cidades-setores, não é?
As naves cintilantes na holografia chegaram mais perto. Mais perto.
Os aristocratas trocaram olhares, mostrando os primeiros sinais de nervosismo. Era como se ainda estivessem desafiando silenciosamente uns aos outros a tentar desmascará-lo, mas ninguém queria ser quem faria isso.
— Se não estou enganado — disse Kai —, temos menos de vinte minutos até as naves chegarem. Se vocês querem ver suas casas novamente, sugiro que ajam rápido.


— Isso não é bom — disse a voz anasalada que Cress tinha passado a chamar, de forma não muito original, de Sinus, o técnico de computação estúpido da rainha.
Sinceramente. Se Sybil a tivesse deixado ficar em Luna, Cress, aos dez anos de idade, conseguiria tirar o emprego desse cara.
— Isso é muito, muito ruim — prosseguiu ele, com a voz tremendo pelo destino fatídico.
— Faça parar — gritou uma voz masculina mais grave. Cress tinha quase certeza de que era o mesmo guarda que fora posicionado no corredor antes.
— Não consigo! O vídeo já foi transmitido. Você quer que eu destransmita? — Sinus grunhiu. — Ela… ela vai me matar. A rainha vai mandar me executar por isso.
Segurando um suspiro, Cress se esforçou para mexer o tornozelo. Uma câimbra estava surgindo na panturrilha esquerda, e ela estava com a sensação de que ia aumentar com rapidez se não tivesse oportunidade de alongar o músculo logo. Ela mexeu o tornozelo um pouquinho, mas o movimento suave só lembrou aos músculos como estavam apertados naquela pequena alcova.
O técnico sabia que era tarde demais. Sabia que não poderia impedir a transmissão do vídeo. Por que ainda não tinha saído da sala?
— E então? — perguntou o guarda. — Ela deixou mais alguma surpresa para nós?
— De que mais você precisa? Aquele vídeo… a rainha vai… — Ele não terminou, mas Cress sentiu o tremor na voz dele.
Como já tinha visto o vídeo na mansão, Cress sabia que a visão não os abandonaria tão cedo. O rosto marcado de Levana, a órbita ocular vazia, a orelha cortada. Não era um rosto do qual se afastava o olhar, por mais que se quisesse. Não era um rosto que se esquecia.
E todos tinham visto. Cress esperava que a própria Levana tivesse visto. Ela desconfiava que não seria fácil recuperar o glamour depois de um choque daqueles.
Mas talvez não. Levana praticava sua enganação havia muito, muito tempo.
— Já a pegaram? — perguntou Sinus. — A garota que fez isso? Ela… ela sabia muito bem o que estava fazendo.
O comentário poderia ter deixado Cress lisonjeada se não estivesse em uma posição tão desconfortável. No momento, só queria que eles fossem falar sobre ela em outro lugar. Ainda estava segurando o cabo da arma que lhe dera Thorne, e ele tinha deixado marcas vermelhas incômodas na palma da mão.
— Isso não é problema seu — resmungou o guarda. — Só faça voltar ao normal. E se livre daquele vídeo antes…
Ele não terminou. Não havia antes. Eles já estavam no depois.
— Estou tentando — disse Sinus. — Mas as transmissões cruzadas foram todas reestruturadas e eu poderia levar dias para…
Cress parou de ouvir, com a atenção roubada pela câimbra na panturrilha direita. Ela ofegou e envolveu os músculos com as mãos, na tentativa de massagear para afrouxar a contração.
— O que foi isso? — indagou Sinus.
Cress estremeceu e saiu da alcova. Assim que ficou de pé, apontou a arma para o técnico, depois para o guarda e novamente para o técnico. Com aquela voz fraca, ela imaginou um cara não muito mais velho, mas ele parecia ter uns cinquenta anos.
O técnico empurrou a cadeira para trás. O guarda esticou a mão para a arma.
— Não se me… ah! — Cress fez uma careta quando o músculo na perna se contraiu, e ela caiu na mesa. A quina afundou no quadril ainda dolorido da estátua que tinha caído em cima dela no corredor dos criados. Gemendo, ela se abaixou para massagear o músculo.
Lembrando-se da arma, começou a levantá-la de novo, ao mesmo tempo que o guarda a tirou de sua mão. Cress gritou e tentou pegar de volta, mas a arma já estava longe.
Choramingando, voltou a massagear o músculo e levantou a mão vazia em uma rendição exausta.
O guarda manteve a arma apontada para ela.
— Estou desarmada — disse ela docilmente.
Ele não pareceu se importar.
— Você… — Sinus olhou dela para as telas. — Você fez isso?
— Sim, senhor. — Ela deu um suspiro de alívio quando a dor começou a passar. — E posso fazer uma sugestão? Eu estava ouvindo vocês conversarem e tenho que me perguntar… Se vocês têm certeza de que Levana vai mandar executar vocês por não conseguirem impedir o vídeo, já pensaram em se juntar ao outro lado?
Os dois ficaram olhando para ela.
Cress fechou as mãos e bateu nas laterais da perna. Ela teria que começar a fazer exercícios de novo. Ou, pelo menos, parar de se esconder em espaços confinados.
— Estou falando sério — disse ela. — Eu conheço a princesa Selene e ela é bem legal. Ela não mandaria executar vocês, principalmente por uma coisa que não foi culpa sua.
— Vou levar você presa — disse o guarda, segurando o cotovelo dela.
— Espere! — gritou ela, incapaz de se soltar da mão dele. — Vocês não vão nem pensar? Prefeririam a execução nas mãos de Levana a… não serem executados?
O guarda deu um sorrisinho quando a afastou da série de invisitelas.
— A rebelião não vai ter sucesso.
— Vai, sim. Levana vai ser destronada e Selene vai ser nossa nova governante e…
Ela foi interrompida por um alarme soando em uma tela do outro lado do centro de controle. O guarda se virou para o som e segurou Cress junto ao peito, como se ela fosse uma ameaça, com a perna com câimbra e o vestido laranja.
— O que está acontecendo agora? — gritou o guarda.
Sinus já estava em frente à tela de alerta. Ele ficou olhando boquiaberto por um momento, e murmurou:
— Eu acho… acho que estamos sendo atacados.
— É claro que estamos sendo atacados!
Sinus balançou a cabeça e aumentou uma holografia. Acima dos domos cintilantes de Artemísia, um regimento de espaçonaves saiu do espaço neutro e se movia com rapidez na direção da cidade.
— Não por civis — disse ele. Uma gota de suor escorreu pela têmpora. — São naves terráqueas militares.
Todos ficaram olhando para as naves, vendo as luzes piscantes chegarem cada vez mais perto. Foi Cress quem organizou os pensamentos primeiro. Ela tentou se empertigar, mas o guarda a segurava com muita força.
— Isso mesmo — disse ela, aliviada por sua voz não estar tremendo. — A princesa Selene se aliou à Terra. Se Levana não se render, estamos preparados para destruir vocês todos.
Ela passou a língua pelos lábios secos e inclinou o pescoço para olhar para o guarda. Torceu para ser convincente quando falou:
— Mas não é tarde demais para vocês se juntarem ao lado vencedor.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!