21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e sete


A realidade se desintegrou. O mundo era formado por mil pixels indefinidos se partindo, deixando espaços pretos no meio, depois se juntando com fagulhas cegantes.
Winter se encolheu o máximo que pôde na porta da loja da via principal de Artemísia. Os braços trêmulos formaram um escudo protetor ao redor do corpo, e os pés se encurvaram com força. Ela perdera um sapato. Não sabia como nem quando.
Aimery estava morto.
A amiga Scarlet o esfaqueou nove vezes.
Winter o esfaqueou nove vezes.
A querida Scarlet. A selvagem, teimosa e dona de uma mente fraca Scarlet.
Depois que ela começou, Winter não conseguiu detê-la. Nove vezes. Fazia anos que não manipulava ninguém, e nunca com intenções violentas. Aimery, em sua determinação de domar todos com seu dom, só tentou fugir depois da segunda facada. Mas então Winter já tinha se perdido. Não conseguia detê-la. Só pensava em apagar para sempre aquele sorriso horrendo e encantador. Em destruir a mente dele, para não ser obrigada a colocar as mãos no pescoço de Jacin de novo e terminar o que começou.
E Aimery estava morto.
As ruas estavam cheias do sangue dele. Fediam com o odor.
— O que há de errado com ela? — gritou uma voz distante. — Por que ela está agindo assim?
— Dê um espaço a ela.
Essa ordem foi seguida de um grunhido. Jacin? Será que era o guarda dela, tão próximo, sempre tão próximo?
Jacin foi quem agarrou Scarlet e arrancou a faca dela, interrompendo a força de Winter sobre a garota. Se não fosse assim, ela sabia que teria continuado a esfaquear e esfaquear e esfaquear, até Aimery não ser nada além de pedacinhos de carne e sorriso.
A cabeça de Winter estava cheia de distrações, coisas demais para compreender. A placa da loja balançava. Havia uma cortina rasgada atrás do vidro quebrado. Buracos de bala nas paredes. Tetos afundados. Vidro estilhaçado debaixo dos pés dela.
— Temos que encontrar Cinder. — A voz era insistente, mas apavorada. — Temos que ver se ela está bem, mas não posso… não quero deixar Winter…
Winter arqueou as costas e enfiou as unhas nos cabelos, ofegando por uma overdose de sensações. Cada centímetro de sua pele era uma colmeia de abelhas picando.
Braços a envolveram. Ou talvez estivessem ali havia muito tempo. Ela mal conseguia senti-los fora do casulo que erigiu, apesar de estar coberto de fraturas finas.
— Está tudo bem. Estou com Winter. Vão.
Um casulo.
Um envoltório de gelo.
Um cinto de espaçonave a estrangulando, a tira cortando sua pele.
— Vão!
Winter agarrou as tiras, tentando se soltar. Os mesmos braços fortes tentaram segurá-la. Tentaram impedir que ela se debatesse. Ela bateu os dentes, e o corpo se afastou. Ela foi tirada da porta, os corpos foram reposicionados, para que os braços pudessem controlá-la sem estarem em perigo. Ela lutou com mais força. Chutou e se contorceu.
E gritou.
esfaqueando e esfaqueando e esfaqueando e esfaqueando e esfaqueando e
Sua garganta ardia.
Talvez ela estivesse gritando havia muito tempo.
Talvez o som estivesse aprisionado dentro do casulo, preso como ela. Talvez ninguém fosse ouvi-la. Talvez ela fosse gritar até a garganta sangrar e ninguém saberia.
Seu coração se partiu em dois. Ela era um animal. Uma assassina e uma predadora.
Os gritos viraram uivos.
Uivos tristes e arrasados.
Uivos assombrados e furiosos.
— Winter? Winter!
Os braços ao redor dela eram incansáveis. Ela achou que talvez houvesse uma voz, familiar e gentil, em algum lugar ao longe. Achou que pudesse haver boas intenções naquela voz. Achou que, se seguisse o som, ele a levaria para um lugar seguro e calmo, onde ela não era mais assassina.
Mas Winter já estava sufocando sob o peso de seus crimes.
Animal. Assassina. Predadora. E os lobos todos uivam, auuuuuuuuu…

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Boa leitura, E SEM SPOILER!