21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e seis

Jacin estava segurando a mão dela com os dedos fortes e tensos, como se tivesse medo de que ela fosse desaparecer caso ele afrouxasse o aperto. Eles saíram com uma multidão de gente dos túneis dos trens em Artemísia Central. O lar da infância de Winter. De Jacin também. Ela se sentia um fantasma. Sentia-se uma conquistadora.
Eles demoraram horas para atravessar Luna, visitando dezenas dos setores mais próximos, espalhando a história da sobrevivência de Selene e o chamado às armas, e pedindo às pessoas para se juntarem a eles. Foi preciso menos persuasão do que ela esperava. Já estimulados pelo vídeo que Cinder transmitira e irritados pela tentativa de Levana de assassinar a princesa (de novo), as pessoas estavam em frenesi quando Jacin e Winter chegaram e deram a notícia. Muitas já estavam a caminho da capital.
Assim que ela e Jacin saíram na superfície, as pessoas foram correndo para o palácio, rugindo e segurando as armas. Winter tentou acompanhá-las, mas o aperto de Jacin aumentou e a puxou para o lado dele, mantendo-a protegida da multidão.
O pátio em frente ao palácio já era um depósito de cadáveres, apesar de ainda haver gente se esforçando para continuar na batalha. Um batalhão de taumaturgos e incontáveis lobos não perdeu tempo e partiu para cima dos recém-chegados, e os gritos corajosos de guerra das linhas de frente logo viraram berros. Ainda havia mais gente vindo, saindo dos túneis e ocupando as ruas, e Winter reconheceu muitos dos seus próprios soldados tentando arrancar os mutantes de cima dos aliados. A confusão reinava. Civis controlados por taumaturgos viravam inimigos, e às vezes era impossível saber quais dos soldados lobos estavam do lado deles.
Garras abriram o peito de uma pessoa.
Uma bala rasgou a lateral do rosto de uma mulher.
Uma lança empalou o abdome de um homem.
Uivos de dor e de vitória, indistinguíveis. O odor forte de sangue. Mais pessoas chegavam e chegavam e chegavam. As pessoas que ela levara até ali.
A cabeça de Winter doía com aquilo tudo. Os pés estavam grudados no chão. Ela estava feliz por Jacin tê-la segurado.
— O palácio vai ficar encharcado de sangue — sussurrou ela. — As águas do lago Artemísia vão ficar vermelhas, e até os terráqueos vão ver.
Os olhos de Jacin se tomaram de preocupação.
— Winter?
Ela mal ouviu Jacin em meio à algazarra dentro do crânio. Afastando-se dele, cambaleou para a frente e desabou em cima do corpo de um dos soldados lobo. Havia familiaridade na posição do maxilar, nos olhos mortos olhando para o alto.
Afastando uma mecha suja de sangue da testa do homem, Winter começou a chorar.
Era Alfa Strom.
E era culpa dela, culpa dela ele estar ali. Winter lhe pediu para lutar por ela, e agora ele estava morto, e…
Jacin segurou o braço dela.
— Winter, o que você está fazendo?
Ela caiu chorando em cima do corpo de Strom.
— Eu estou morrendo — choramingou ela, afundando os dedos no tecido imundo da camisa de Strom.
Jacin falou um palavrão.
— Eu sabia que isso era má ideia. — Ele a puxou, mas ela arrancou o braço da mão dele e observou a batalha furiosa ao redor.
— Eu estou destruída — disse ela. A bochecha estava coberta de lágrimas, misturadas com todo aquele sangue. — Não sei nem se uma pessoa sã consegue se recuperar. Então, como eu poderia?
— É precisamente por isso que deveríamos ir. Venha.
Desta vez, ele não deu escolha, passou as mãos debaixo dos dois braços dela e a puxou para que ficasse de pé. Winter escorregou para perto dele e permitiu que ele a encaixasse no corpo. Um grito surpreendente chamou a atenção dela novamente para o palácio, e ela viu os taumaturgos fugindo para dentro. Muitos tinham sido vencidos e estavam mortos ou morrendo na escada do palácio. Eles foram dominados. Havia gente demais para os asseclas da rainha os controlarem, como Cinder esperava que acontecesse.
Exércitos estavam caindo… dos dois lados.
Tantas mortes.
Animadas pela vitória, as pessoas correram para o palácio, entrando pelas enormes portas e correndo atrás dos taumaturgos.
Winter notou um vulto de cabelos ruivos e seu coração saltou.
— Scarlet! — gritou ela, lutando contra Jacin, embora ele a segurasse com firmeza. — Não, Scarlet! Não entre lá! As paredes estão sangrando! — Suas palavras viraram choro, mas deu certo. Scarlet se virou e olhou. Procurou na multidão quem tinha dito seu nome.
Jacin arrastou Winter para baixo do toldo de uma loja de vestidos e a encostou no abrigo da porta.
— Não é seguro! — gritou Winter, esticando a mão para além dele, na direção da amiga, mas não conseguia mais ver Scarlet na confusão. Ela olhou nos olhos de Jacin, que estavam em pânico. — Não é seguro lá dentro. As paredes… o sangue. Ela vai se machucar e vai morrer e todos vão morrer.
— Tudo bem, Winter. Se acalme — disse ele, acariciando o cabelo de Winter. — Scarlet é forte. Ela vai ficar bem.
Ela choramingou.
— Não é só Scarlet. Todo mundo vai morrer, e ninguém sabe, ninguém vê, só eu… — A voz dela falhou, e ela começou a soluçar. Histericamente. Winter desabava, mas Jacin a segurou e a puxou contra si, deixando que chorasse em seu peito. — Eu vou perder todos eles. Eles vão se afogar no próprio sangue.
Os sons de luta estavam distantes e abafados dentro das paredes do palácio, substituídos nas ruas e no pátio pelos gemidos de morte e tosse sangrenta. A visão de Winter estava borrada quando ela olhou por cima do ombro de Jacin. Na maior parte, eram corpos e sangue, mas havia algumas pessoas andando. Algumas dezenas de pessoas seguindo caminho em meio à destruição. Tentando cuidar dos que ainda estavam vivos. Tirando corpos de cima de outros corpos. Uma garota de avental surpreendentemente limpo arrancou os botões do casaco preto de um dos taumaturgos.
— Eu deveria ter deixado você com os lenhadores — murmurou Jacin.
A garota de avental reparou neles, levou um susto e saiu correndo para o outro lado do pátio, para remexer nos bolsos de outras vítimas. Uma serva da cidade, supôs Winter, embora não a reconhecesse.
— Eu poderia ter sido você — sussurrou Winter na direção dela. Os dedos de Jacin afundaram nas costas dela. — A filha humilde de um guarda e uma costureira. Eu deveria ter sido ela, pilhando restos. Não da realeza. Não isto.
Segurando o rosto dela com as duas mãos, Jacin a obrigou a olhá-lo.
— Ei — disse ele, meio severo e gentil ao mesmo tempo. — Você é minha princesa, certo? Sempre seria minha princesa, independentemente de como nasceu, independentemente de com quem seu pai se casou.
Os olhos dela estavam embaçados. Ela levantou a mão e dobrou os dedos nos antebraços de Jacin.
— E você sempre vai ser meu guarda.
— Isso mesmo. — Um toque levíssimo. O polegar calejado dele na têmpora dela. O corpo todo de Winter tremeu. — Venha. Vou tirar você daqui.
Ele começou a se afastar, mas ela afundou os dedos no braço dele com força.
— Você precisa ajudar Selene, Scarlet e o resto.
— Não. Ou ela está ganhando ou está perdendo. Minha presença não vai fazer diferença a essas alturas. Mas você… eu posso cuidar de você. Pela primeira vez.
— Você sempre cuida de mim.
Os lábios dele se apertaram e ele voltou a atenção para as cicatrizes dela antes de afastar o olhar. Estava prestes a falar de novo quando Winter percebeu um movimento.
A criada de avental tinha se aproximado e estava com um olhar vazio no rosto. Ela levantou uma faca ensanguentada acima da cabeça.
Winter ofegou e puxou Jacin para o lado. A ponta da faca roçou a parte de trás do braço dele e rasgou a camisa. Rosnando, ele se virou contra a agressora e segurou o pulso dela antes que pudesse golpear de novo.
— Não a machuque! — berrou Winter. — Ela está sendo manipulada!
— Eu reparei — grunhiu ele, puxando os dedos da mulher até ela soltar a faca. Caiu com um estalo no piso de pedra. Jacin a empurrou e ela desabou de lado.
No mesmo movimento, Jacin puxou as tiras do ombro que prendiam a arma e a faca, e jogou o mais longe que conseguiu na pista de obstáculos de corpos. Antes que fossem usadas contra eles. Antes que suas próprias mãos virassem armas contra ele.
— Espero que você não ache que isso vá fazer diferença.
Choramingando, Winter se encostou na porta.
Aimery. Ele estava de pé na rua… sem sorrir. Pela primeira vez, sem nem fingir sorrir. Não arrogante, nem cruel, nem provocador.
Ele parecia desequilibrado.
A criada, liberada do controle dele, se afastou de quatro o mais rápido que pôde em uma viela. Winter ouviu o rastejar dela virar uma corrida apressada. Aimery a deixou ir. Nem olhou para ela.
Jacin se posicionou entre Winter e Aimery, embora ela não soubesse por quê. Aimery poderia ter obrigado Jacin a chegar para o lado com um leve pensamento. Aimery poderia brincar com eles como se fossem peões em um jogo de damas.
— Como você é inútil com seu dom — disse Aimery, os olhos escuros em chamas. — Talvez você não entenda que não precisamos de armas e facas para provocar danos. Quando se tem o poder que tenho, o mundo todo é um arsenal, e tudo nele é uma arma.
Aimery enfiou as mãos nas mangas, embora não estivesse com a compostura de sempre. A expressão era exausta e raivosa.
— Você poderia ser estrangulado com o próprio cinto — continuou ele, falando devagar. — Poderia se empalar com um garfo. Poderia enfiar os próprios polegares nos olhos.
— Você acha que eu não sei o tipo de coisa que você é capaz de fazer? — O corpo de Jacin estava rígido, mas Winter achava que Aimery ainda não tinha tomado o controle dele.
Ainda não.
Mas poderia.
Ali estava o sorriso de pesadelo de Aimery, mas misturado a uma expressão de desprezo.
— Você é tão inferior a mim quanto um rato. — Ele voltou a atenção para Winter. Seu lábio se curvou de repulsa. — Mesmo assim, ela fez a escolha dela, não fez?
O coração de Winter pulava na caixa torácica, as palavras de Aimery ecoando no crânio confuso. Estrangular. Empalar. Enfiar.
Ele faria isso. Ainda não. Mas, depois, sim.
Um arrepio percorreu a pele dela, pelo puro ódio que Winter viu no rosto de Aimery.
— Você deveria ter me aceitado quando teve a chance — retrucou ele.
Ela tentou engolir, mas sua saliva parecia pastosa.
— Eu poderia — disse ela. — Mas não teria sido mais real do que as visões que me afligem.
— Então você escolheu um guarda patético.
Os lábios dela tremeram.
— Você não entende. Ele é a única coisa que é real.
A expressão de Aimery ficou sombria.
— E logo ele estará morto, princesinha. — Ele cuspiu o título dela como se fosse um insulto. — Real ou não, eu vou ter você. Se não for como esposa ou amante por vontade própria, então como uma posse para ser exibida em uma bela caixa decorada. — Seus olhos assumiram um tom de loucura. — Eu esperei anos demais para perdê-la assim agora.
Jacin estava de costas para Winter, os ombros contraídos. Um filete de sangue desceu pelo cotovelo e pingou do pulso. Caiu no chão abaixo. Ele estava impotente para fazer qualquer coisa além de ficar ali e dizer coisas frias e cruéis, e torcer para ninguém perceber o quanto ele realmente estava assustado e frustrado.
Mas Winter sabia. Ela tinha vivido a vida com aquele medo.
Aimery pareceu satisfeito ao olhar novamente para Jacin.
— Estou esperando isso desde que você foi levado perante a corte. Eu deveria ter visto você sangrar no piso da sala do trono naquele dia.
Winter tremeu.
— Deve ter sido uma decepção tão grande para você — disse Jacin.
— Foi mesmo — concordou Aimery. — Mas acho que vou apreciar esse momento mais ainda. — A bochecha dele tremeu. — Como vai ser? Pela minha mão? Pela sua? — Os olhos dele brilharam. — Pela dela? Ah… como ela ficaria inconsolável em ser o instrumento da morte do amado. Talvez eu faça com que ela bata na sua cabeça com uma pedra. Talvez eu a mande sufocar você com esses dedos bonitos.
Ela foi tomada de náusea.
Jacin…
Jacin.
— Gostei bastante dessa ideia — refletiu Aimery.
As mãos de Winter tremeram. Ela não sabia se estrangulariam, sufocariam, bateriam ou empalariam. Só sabia que Aimery a dominava, e que Jacin estava em perigo, e que esse era o fim. Não havia área indefinida. Não havia vencedores. Ela era uma tola, tão tola, tão tola.
Winter manteve os olhos bem abertos contra as lágrimas quentes.
Jacin se virou para encará-la quando as mãos envolveram seu pescoço. Os polegares dela pressionados contra a pele da garganta dele. Houve um ofego e, se ele quisesse empurrá-la, Aimery não deixaria.
Winter não podia olhar. Não podia assistir. Estava chorando descontroladamente, e a sensação horrível da garganta de Jacin debaixo dos polegares dela era horrível demais, frágil demais…
Um brilho vermelho surgiu entre as lágrimas que se acumulavam.
Era Scarlet, chegando por trás de Aimery. Esgueirando-se entre os corpos caídos. Com uma faca na mão.
Ao perceber que Winter a tinha visto, Scarlet levou um dedo aos lábios.
Aimery virou a cabeça.
Não na direção de Scarlet, mas na direção de uma figura enorme, rugindo.
Aimery riu e balançou a mão no ar. Lobo estava a alguns passos de distância quando caiu, uivando de dor.
— Eu sou o taumaturgo da própria rainha! — gritou Aimery, seus olhos ardendo enquanto olhava com desprezo para o corpo de Lobo, se contorcendo. — Você acha que não o sinto se aproximando de mim? Acha que não sou capaz de lutar contra um mutante patético, um guarda de mente fraca e uma terráquea?
Ele se virou para olhar para Scarlet. Ela ainda estava a alguns passos de distância dele e parou, com os dedos apertando o cabo da faca.
O sorriso de Aimery sumiu. Sua testa tremeu quando ele se deu conta de que a bioeletricidade ao redor do corpo de Scarlet já tinha sido tomada por alguém.
Ele apertou os olhos e procurou no campo de mortos onde eles estavam, mas não havia ninguém ali para controlar Scarlet. Ninguém que superasse os poderes dele.
Exceto…
Scarlet chegou mais perto. O andar era manco e desajeitado. O braço tremeu quando ela ergueu a faca.
Aimery deu um passo para trás, e sua atenção se voltou para Winter. No momento em que ele foi distraído por Lobo, o pobre e torturado Lobo, ele soltou as mãos e a mente de Winter. Jacin ainda estava massageando o pescoço e lutando para respirar, e Winter…
Winter estava olhando para Scarlet. Horrorizada. Tremendo. Mas determinada.
Jacin soltou a mão e deu um tapa na cara de Winter. Ela se chocou contra a parede da loja, mas não sentiu a força do golpe. Seu foco estava em Scarlet, só Scarlet, Scarlet e a faca.
Winter estava chorando e se odiando. Estava arrasada e se sentindo cruel, mas não hesitou e forçou Scarlet a entrar em batalha. Aimery cambaleou para trás de novo e levantou as mãos em defesa. Scarlet pulou em cima dele. Aimery tropeçou na perna de um civil morto e caiu para trás. Scarlet caiu de joelhos ao lado dele e se adiantou. Seus olhos estavam confusos, a boca estava frouxa de descrença, mas o corpo agiu com perversidade e determinação quando enfiou a faca na carne dele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!