21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e quatro

Iko estava começando a entender por que os humanos se encolhiam em posição fetal quando sentiam medo. No chão, de lado, com o nariz encostado nos joelhos e o braço bom em cima da cabeça, ela não queria se mexer nunca mais. Lobo tinha mordido o braço já danificado, e ela percebeu que ele provocara um dano considerável no abdome e nas coxas também, não que estivessem muito bem antes do ataque.
O que ela tinha que atraía garras e dentes afiados? Balas também, na verdade. Era uma injustiça androide que precisava ser resolvida assim que a revolução ficasse para trás.
Uma bota se chocou contra o chão a centímetros de sua cabeça, e ela se encolheu ainda mais. Não queria se levantar. Não queria se mexer. Ela queria uma bateria para se conectar e, em seguida, acordar inteira de novo, depois que Cinder a tivesse consertado e…
Cinder.
Cinder não tinha a opção de ficar deitada em coma no meio da revolução. Cinder estava por aí, em perigo.
Choramingando, Iko ousou baixar o braço e observar os arredores. Para todo o lado, gritos de guerra e berros sobrecarregavam seu sensor de áudio, e o trovejar de passos fazia seus membros tremerem. Ela espiou pela torrente de pernas e armas: primeiro os soldados lobos, depois os homens e mulheres dos setores externos, segurando lanças e facas. Todos correndo para o castelo enquanto os taumaturgos tentavam retomar o controle.
Mas eram muitos, e os lobos eram difíceis de controlar. Era o que Lobo dizia desde o começo, não era? Os soldados foram feitos para serem soltos na Terra, um suplício de morte e terror. Eles não foram feitos para serem soldados afetados, adequados, bem organizados.
E havia tantos. Mais do que Cinder levou pelos túneis. Iko fez uma careta quando um novo regimento de soldados atacou na confusão, batendo os dentes. Pegando qualquer pessoa que se movesse. Ao redor, mutantes lutavam uns com os outros. Lâminas cortavam gargantas. Lanças afundavam na carne.
— Tudo bem, Cinder — sussurrou ela, se obrigando a se levantar. — Estou chegando.
Seus sistemas internos estavam estragados, seu processador era uma mistura de mensagens misturadas, e ela sentia pelo menos dois fios desconectados soltando fagulhas na barriga. Pegou a arma no chão.
Demorou uma eternidade para encontrar Cinder, se movendo pelo caos com o braço ruim pendurado na lateral do corpo. Iko ficou com a arma em posição e atirava quando achava que poderia salvar alguém, ignorando os rasgos que apareciam como magia nas roupas e pele sintética. O que eram mais alguns arranhões a essa altura, afinal? Pela primeira vez, ela ficou feliz por não ter terminações nervosas. Só esperava que o corpo não fosse se desligar com tantos danos.
Quando chegou a Cinder, não tinha mais balas. Graças às estrelas, Cinder estava longe do fogo cruzado. Algumas das estátuas de pedra no pátio foram derrubadas, e ela estava agachada atrás de uma delas, vendo a batalha como se estivesse esperando a oportunidade certa de entrar.
Iko parou ao lado dela e encostou as costas na estátua.
— Belo discurso mais cedo.
Com um susto, Cinder virou a cabeça e quase esmagou o nariz de Iko com um soco instintivo. Ela parou bem a tempo. Os olhos se tomaram de alívio.
— Você está bem — ofegou ela. — Lobo?
— Pode estar com problemas de controle de raiva. Scarlet?
Cinder balançou a cabeça.
— Eu a perdi.
Um soldado inimigo apareceu do nada. Cinder empurrou Iko de lado e com o punho de metal bateu a cabeça do soldado na estátua. A estátua rachou, um pedaço de pedra caiu no chão e o soldado desabou, inconsciente.
— Cinder, você está sangrando — disse Iko.
Cinder olhou para o ombro, onde o ferimento com curativo feito na mansão estava sangrando. Ela não pareceu incomodada, e pegou o cotovelo de Iko e a puxou para a proteção que a estátua oferecia.
— Levana voltou para o palácio. Preciso entrar lá.
— Você acha que Kai também está lá?
— Provavelmente.
Iko assentiu.
— Então eu vou com você.
Um grito trêmulo chamou a atenção de Iko para a briga a tempo de ver uma mulher do setor madeireiro virar a faca para si e afundar no próprio peito. Iko arregalou os olhos. Não conseguiu afastar o olhar quando a mulher caiu de joelhos, olhando boquiaberta para as próprias mãos traiçoeiras.
Ao lado dela, Cinder soltou um grito de guerra e correu na direção de um taumaturgo. Pegou uma faca da mão de um guarda antes de ele atacar e no mesmo movimento…
Iko se encolheu. Já tinha testemunhado morte suficiente, mesmo aquele sendo um inimigo.
— Iko, venha!
Ela levantou a cabeça de novo, e viu Cinder pular por cima do taumaturgo caído e continuar correndo para as portas do palácio. Ainda estava segurando a faca do guarda, mas Iko não sabia quanto do sangue no objeto era novo.
— Certo. Vamos só matar todos os maus. — Iko olhou para a mão inerte, balançou-a um pouco e viu os dedos oscilarem inutilmente. — Bom plano.
Ela se preparou e correu no meio da briga, desviando entre os mortos e os que lutavam. Alcançou Cinder quando ela correu pelas portas abertas do palácio. Iko foi atrás e parou de repente. O olhar subiu e subiu e subiu até o alto da enorme escultura de deusa no meio do saguão.
— Nossa.
— Iko.
Ela viu Cinder ofegante do outro lado da estátua, virando a atenção de um lado para outro. A faca suja de sangue ainda estava apertada na mão branca.
— Para que lado você acha que ela foi? — perguntou Cinder.
— Para os portos, para fugir e nunca mais ser vista?
Cinder deu um olhar sério para ela.
— Ou foi pedir reforços?
— Talvez. Precisamos encontrar Kai. Levana vai usá-lo contra mim se puder.
Iko puxou uma trança, feliz de que, por pior que seu corpo estivesse, o cabelo ainda estava bonito.
— A coroação ia acontecer no salão principal. Podemos começar lá.
Cinder assentiu.
— Não tenho mais acesso às plantas do palácio. Você pode ir na frente?
As sinapses internas de Iko trabalharam por alguns momentos antes de computarem as palavras de Cinder. Ela repassou todos os planos e estratégias, todos os diagramas e mapas que eles tinham elaborado. Levantou a mão boa e apontou:
— O salão é por ali.


Scarlet ouvia a voz da avó, gentil e firme, enquanto a batalha explodia ao redor. Já tinha usado dois pentes e tinha visto mais abdomes rasgados por garras e gargantas destroçadas por dentes do que os pesadelos poderiam ter mostrado. Ainda assim, soldados continuavam chegando. Ela sabia que havia um regimento do lado deles, mas não conseguia nem começar a adivinhar quantos estavam contra, e, independentemente de quantos morressem, sempre haveria mais prontos a substituí-los.
Com medo de atirar em um aliado com todos os civis cobertos de sangue parecendo inimigos, Scarlet se concentrou nos alvos óbvios. Os taumaturgos de casacos cor de vinho e pretos eram fáceis de encontrar na confusão. Cada vez que Scarlet sentia a consciência vindo perturbá-la (era uma vida, uma vida humana que ela estava prestes a tirar), via um civil levar uma arma à própria cabeça ou esfaquear um integrante da própria família e escolhia um taumaturgo que estivesse com o rosto contraído de concentração, e todas as inquietações desapareciam.
Segure a arma com as duas mãos, dizia a avó. Sei que é diferente nas novelas, mas os que fazem as novelas não passam de idiotas. Mire no alvo usando a visão da frente e de trás. Não puxe o gatilho… aperte. Vai disparar quando estiver pronto.
A taumaturga em quem ela estava mirando cambaleou para trás, com uma mancha escura surgindo no casaco.
Clique. Clique.
Scarlet levou a mão ao bolso de trás.
Vazio.
Ela falou um palavrão. Enfiando a arma na cintura, virou-se e procurou outra arma no chão. Por estar tão concentrada nos inimigos, ficou surpresa ao se ver em um mar de corpos e sangue.
Uma gota de suor escorreu pela têmpora.
Quantos eles tinham perdido? Parecia que a luta tinha acabado de começar. Como havia tantas pessoas mortas? Seus pulmões se encheram de consternação.
Aquilo era um campo de batalhas. Um massacre. E ela estava bem no meio.
Ela soltou o ar e desejou expirar o terror que sentia. A voz da grand-mère desapareceu assim que ela guardou a arma. Só havia o som da matança. Berros e gritos de guerra. O fedor de sangue.
Ao ver um machado, ela se inclinou para pegar e só percebeu que a lâmina estava afundada em um corpo quando sentiu resistência. Com uma careta, fechou os olhos, trincou os dentes e o soltou. Não verificou de quem era o corpo em que estava preso.
Estava exausta de todas as formas, exausta a caminho do delírio. Sua atenção se voltou para uma mulher de meia-idade que, a uma primeira olhada, a lembrou de Maha, porém mais velha. A mulher estava tremendo de choque e o braço estava cortado, arrancado por dentes, Scarlet supôs, e ela usava a mão boa para arrastar um homem ferido para um lugar seguro.
Scarlet cambaleou para a frente, segurando o cabo do machado. Deveria ajudá-la. Ela quis largar o machado, mas seus dedos tremeram, o que foi seu primeiro aviso.
Arregalando os olhos, observou a mão. Os nós dos dedos estavam brancos no cabo do machado, apertando-o com mais força. Um tremor percorreu o corpo dela.
Outra pessoa estava no controle de suas mãos.
Mas não pensou em controlar sua língua, pelo menos.
— Saiam de perto de mim! — gritou ela para ninguém em particular. Para qualquer pessoa perto o bastante para ouvir. — Corram!
A mulher parou e a encarou. Não havia tempo. As pernas descoordenadas de Scarlet tropeçaram na direção dela, e ela segurou o machado nas duas mãos e o levantou acima da cabeça, os músculos se contraindo com o peso.
— Corra! — gritou ela de novo, o pânico apertando sua garganta, a mente sufocada pela terrível realidade de estar sob o controle de um taumaturgo.
O rosto da mulher foi tomado de compreensão, e ela cambaleou para trás. Tentou correr, mas tropeçou.
Scarlet gritou de angústia. A mulher levantou as mãos para se proteger. Scarlet fechou os olhos, afastando lágrimas que não sabia que estavam lá, e os braços golpearam com o machado na direção da barriga da mulher.
O machado parou de repente, no meio do golpe.
Ofegante e com os batimentos disparados, Scarlet ousou olhar para cima.
Uma forma enorme, escura e coberta de sangue parou à frente dela. Scarlet choramingou. De alívio, de gratidão, com mil sentimentos que não podiam ser expressados por palavras.
— Lobo.
Os olhos dele continuavam de um verde tão vibrante como sempre, apesar de estarem mais afundados do que antes, resultado do nariz e do maxilar proeminentes.
O braço de Scarlet tentou puxar o machado, mas ele arrancou a arma da mão dela. Os dedos independentes mudaram de tática e procuraram uma fraqueza, apesar de não haver muitas. Os polegares foram na direção dos olhos dele.
Lobo a pegou com facilidade, ainda segurando o machado enquanto os braços envolveram Scarlet e prenderam os dela na lateral do corpo. Ela gritou, mas não sabia se era sua própria frustração ou a de um taumaturgo gritando por ela. Suas pernas se debateram e chutaram e pisotearam, com o corpo se contorcendo no aperto de ferro de Lobo. Ele estava imóvel e impiedoso, curvando o corpo ao redor dela como um casulo.
O taumaturgo desistiu e foi controlar uma vítima mais fácil. Scarlet sentiu a libertação como um elástico estalando nos membros. Ela tremeu e derreteu no abraço de Lobo com um soluço.
— Ah, pelas estrelas! — chorou ela, escondendo o rosto no peito dele. — Eu quase… eu teria…
— Mas não fez.
A voz estava um pouco mais rouca, mas ainda era a dele.
Scarlet apoiou as mãos no peito dele, se afastou e o observou. A respiração ainda estava agitada nos pulmões e os sons da batalha ainda ecoavam nos ouvidos dela, mas havia dias que ela não sentia tão pouco medo. Levantou a mão, hesitante no começo, e passou os dedos pelas novas maçãs do rosto proeminentes, pela testa estranha. Lobo fez uma careta. A mesma que ele tinha feito quando ela descobriu as presas dele.
Ela encontrou a cicatriz na sobrancelha esquerda e a cicatriz na boca, e estavam bem onde ela se lembrava, da noite em que o beijou a bordo do trem a caminho de Paris.
— Ainda é você, não é? Eles não… mudaram você?
Ela viu o maxilar dele trabalhando.
— Sim — disse ele, engasgado. E então: — Não sei. Acho que sim. — O rosto dele desmoronou, como se ele fosse começar a chorar, mas não começou. — Scarlet. Estou tão cansado do gosto de sangue.
Ela passou o polegar pelo lábio inferior dele até encontrar um canino afiado.
— Que bom — disse ela. — Não servimos muito sangue na fazenda, então vamos ter que trabalhar na sua dieta. — Ao reparar em uma mancha de sangue seco na bochecha dele, ela tentou limpar, mas logo desistiu. — Você viu Cinder? A gente deveria procurar…
— Scarlet. — A voz dele tremeu de desespero e medo. — Eles me modificaram. Sou perigoso agora. Sou…
— Ah, por favor. Nós não temos tempo para isso.
Ela afundou as mãos no cabelo dele, o mesmo cabelo macio, denso, desgrenhado, e o puxou para perto. Não tinha certeza de como seria um beijo, e foi diferente e desajeitado naquele momento apressado e roubado, mas ela tinha confiança de que eles poderiam melhorar depois.
— Você sempre foi perigoso. Mas é meu alfa e eu sou a sua, e isso não vai mudar porque alteraram seus dentes. Agora, venha. Nós temos que…
Atrás de Lobo, um soldado soltou um grito de dor e caiu no chão, sangrando de vários ferimentos diferentes. Lobo puxou Scarlet para trás e a protegeu. Havia sangue cobrindo sua lateral, e ela lembrou que Iko tinha atirado nele, mas ele mal parecia perceber o ferimento.
Ela olhou de novo, verificando as armas, os membros, os corpos.
Menos caos do que antes. A batalha estava começando a resfriar.
Não havia tanta gente para lutar, e mesmo assim ela enxergou taumaturgos reunidos ao longe. Alguns tinham morrido, certamente, mas eles permaneciam numerosos. Era fácil demais tomarem controle dos civis, e com os soldados lobos os mantendo ocupados…
Era possível que eles estivessem perdendo?
Um civil controlado se aproximou dela correndo, com uma lança acima da cabeça. Lobo o empurrou para longe e partiu a lança no meio antes que Scarlet reagisse. Virando-se, ele rosnou e puxou Scarlet para o lado momentos antes de uma faca cortar o ar. Com um único movimento do punho de Lobo, o homem caiu inconsciente. Embora ainda estivesse segurando o machado, Lobo não o levantou. Afinal, eles eram aliados, mesmo se tornando armas para o inimigo.
Quanto mais caíssem, mais fácil seria para os taumaturgos tomarem o controle…
— Fique abaixada! — gritou Lobo, empurrando Scarlet para o chão e se encolhendo em cima do corpo dela. Um escudo vivo. O instinto dele ainda estava presente, pelo menos. O desejo de protegê-la acima de tudo.
Essa era toda a confirmação de que ela precisava.
Sentindo-se mais segura do que deveria, Scarlet ficou abaixada e verificou, no caos, se encontrava algum sinal de Cinder ou de Iko ou de Alfa Strom ou…
Ela viu um soldado lobo que não reconheceu prestes a se jogar neles.
— Lobo!
Lobo rosnou e mostrou os dentes.
O soldado hesitou. Farejou o ar uma vez, olhou de Lobo para Scarlet e para Lobo novamente. Em seguida, virou-se e saiu correndo para procurar outra vítima.
Depois de umedecer os lábios secos, Scarlet colocou a mão no cotovelo de Lobo.
— Nós estamos perdendo? — perguntou ela, tentando contar, mas era impossível saber quantos soldados lobos eram deles e quantos eram de Levana. Ela sabia que os civis estavam morrendo cada vez mais rápido, com a balança se virando a favor dos taumaturgos.
— Não por muito tempo — disse Lobo.
Ela inclinou a cabeça para cima. Os olhos dele ainda brilhavam perigosamente, procurando ameaças imediatas.
— O que você quer dizer?
O nariz dele tremeu.
— A princesa Winter está perto e… trouxe reforços.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!