21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e oito

Cinder verificou a munição da arma e contou as balas enquanto corria. Estava respirando pesado, mas não se sentia cansada nem dolorida. A adrenalina corria quente por suas veias, e, pela primeira vez, ela ficou ciente disso só porque conseguia se sentir tremendo, e não porque a interface do cérebro estava avisando.
Os sons de batalha ecoavam pelo palácio, baixos e distantes. Muitos pisos abaixo. Eles estavam dentro, ela percebeu. Haveria muitas mortes, ela sabia.
Ela sentia que eles podiam estar ganhando. Ela podia ganhar.
Mas tudo desmoronaria se ela não terminasse o que foi fazer. Se não encontrasse uma forma de acabar com a tirania de Levana de vez, as pessoas estariam sob o controle dela já de manhã.
Ela subiu a escada dois degraus de cada vez. Sentiu os cabelos da nuca se eriçarem, quando chegou ao corredor do quarto andar. Ela espiou o corredor vazio, com suas obras de arte e tapeçarias e pisos brancos brilhantes, prestando atenção em qualquer som que indicasse uma emboscada.
Não que emboscadas tivessem barulhos de alerta.
Tudo estava sinistro e assombrado depois do caos do pátio.
Não era consolo, para Cinder, ter chegado à sala do trono sem incidentes. Não era a cara de Levana facilitar as coisas para ela, o que queria dizer que Levana estava tão abalada pelo vídeo que não estava mais pensando direito ou, mais provável, que Cinder estava entrando em uma armadilha.
Ela segurou a arma com uma das mãos, a faca com a outra, e tentou acalmar o coração disparado. Fez o melhor que pôde para pensar em algum plano para quando chegasse à sala do trono, supondo que Levana estivesse lá, provavelmente com um grupo de guardas e taumaturgos.
Se os guardas já não estivessem sob o controle de alguém, ela os roubaria e formaria uma barreira protetora ao redor de si mesma. Assim que uma oportunidade se apresentasse, ela atiraria em Levana. Sem hesitar.
Porque Levana não hesitaria em matá-la.
Ela se viu em frente às portas da sala do trono, com a insígnia lunar entalhada na superfície. Engoliu em seco e desejou conseguir sentir quantas pessoas estavam dentro, mas a sala estava muito bem selada. O que havia atrás daquelas portas era um mistério.
Uma emboscada, o bom senso sussurrou. Uma armadilha.
Lambendo o sal dos lábios, ela se preparou e chutou uma das portas, entrando antes que pudesse se chocar de volta contra ela. Seu corpo estava tenso, preparado para um impacto, um soco, uma bala, qualquer outra coisa além da imobilidade que a recebeu.
Só havia duas pessoas na sala, o que a fez parecer infinitamente maior do que durante o banquete de casamento. As cadeiras da plateia ainda estavam ali, mas muitas foram empurradas contra as paredes ou esmagadas na destruição que ela provocou.
Mas o trono não tinha sido movido, e Levana estava sentada nele como antes. Em vez de parecer arrogante e cruel como sempre, ela estava caída no trono enorme com um ar de derrota. Estava usando as cores da bandeira da Comunidade das Nações Orientais no vestido, um deboche de tudo o que Kai e seu país defendiam. O glamour tinha voltado. Ela estava com o rosto virado para longe de Cinder, escondido atrás do muro de cabelos brilhantes, e Cinder só via a ponta do nariz e um toque de lábios vermelhos.
A segunda pessoa na sala era Thorne. Ela sentiu uma dor no coração, mas logo foi tomada de uma esperança leve. Talvez fosse só um lunar com um glamour para parecer Thorne. Ela apertou os olhos com desconfiança, sem ousar entrar mais na sala.
— Bem, estava mais do que na hora — disse Thorne, com um tom de deboche reconfortante na voz. — Você não faz ideia de como esses últimos minutos foram constrangedores.
O coração de Cinder se apertou e a esperança morreu. Era Thorne, sem dúvida, e ele estava perto demais da varanda da sala do trono, de onde Cinder tinha pulado. As mãos estavam nas costas, provavelmente presas. A gravata-borboleta piscante tinha sumido e o terno roxo havia sido reduzido à camisa, desabotoada na gola. Havia um buraco na coxa da calça e sangue seco acima do joelho. Uma área levantada acima do tecido sugeria um curativo apressado.
Cinder o procurou com os pensamentos, mas Levana já o tinha tomado e segurava os pés dele com a força de aros de ferro.
O olhar de Thorne percorreu as roupas sujas de sangue de Cinder e as armas em cada uma das mãos dela. Uma sobrancelha se ergueu.
— Dia difícil?
Cinder não respondeu. Ela ainda estava esperando o ataque surpresa. Um tiro no coração. Um guarda aparecendo das sombras e a derrubando no chão.
Nada aconteceu.
Nenhum som além de sua respiração pesada.
— Sua perna? — perguntou ela.
Thorne deu de ombros.
— Dói à beça, mas não vai me matar. A não ser que a prisão estivesse cheia de bactérias nojentas e o ferimento infeccione, o que, vamos ser sinceros, é plausível.
Olhando para trás para ter certeza de que ninguém estava se aproximando pelo corredor, Cinder deu um passo hesitante à frente.
Thorne deu um passo para trás. Um passo para mais perto da varanda.
Cinder parou.
— Não chegue mais perto — disse Levana. A voz dela estava fraca e cansada, bem diferente da alegria arrogante com que ordenou a execução de Cinder. Ela não levantou a cabeça. — Sugiro que também não levante as armas. A não ser que você ache que ele é sortudo como você.
— Tenho certeza de que ele é mais.
Thorne assentiu em concordância, mas não disse nada, e Cinder não se mexeu. Olhando para ele, ela fez movimentos labiais formando uma única palavra: Cress?
A indiferença dele sumiu, e ele balançou a cabeça de leve. Ela não sabia se isso queria dizer que ele não sabia onde ela estava ou se alguma coisa ruim tinha acontecido e ele não queria falar naquele momento.
Sua curiosidade foi interrompida quando Cinder sentiu sua mão tremendo. Ela estava levantando a arma para a própria cabeça.
Estava na metade do caminho quando trincou os dentes e obrigou seu membro a parar. Para seu alívio, funcionou.
Rosnando, baixou a arma para a lateral do corpo.
Levana riu, mas o som saiu mais frágil do que satisfeito.
— Achei que isso pudesse acontecer — disse ela, massageando a testa. — Eu… não sou eu mesma no momento. Mas parece que você também não.
Cinder franziu a testa e se perguntou por que Levana conseguiu controlá-la no pátio, mas não agora. Era porque sua força mental estava frágil demais naquele momento, tentando manter o controle de tanta gente, ou era a rainha que estava ficando fraca?
Talvez o vídeo mostrando a verdadeira cara dela tivesse fragmentado suas habilidades.
Não parecia afetar a habilidade dela de manipular Thorne, mas, para ser justa, Cinder tinha certeza de que um bebê lunar seria capaz de manipular Thorne.
Levana suspirou.
— Por quê, Selene? Por que você quer tirar tudo de mim?
Cinder apertou os olhos.
— Foi você quem tentou me matar, lembra? É você quem está sentada no meu trono. Foi você quem se casou com meu namorado!
A palavra saiu antes de ela pensar nisso, e Cinder achou que era a primeira vez que a pronunciava. Ela nem sabia se era verdade. Mas parecia certo, exceto pela história de ele ter se casado com a tia dela.
Mas Levana não parecia estar prestando atenção.
— Você não entende o quanto me esforcei por tudo isso. Quantos anos de planejamento, de construção de bases eu tive. A doença, os cascudos, o antídoto, os soldados, os agentes especiais, os ataques cuidadosamente orquestrados. — Ela apertou a mão pálida na têmpora. Parecia infeliz. — Foi feito. Foi perfeito. Ele teria anunciado nosso noivado no baile, mas, não… você tinha que estar lá. Voltando dos mortos para me assombrar. E vem aqui, e pede ao meu povo para me odiar, e mostra aquele… aquele vídeo horrível, e enche as cabeças deles com suas mentiras.
— Minhas mentiras! É você quem faz lavagem cerebral neles. Eu só mostrei a verdade.
Levana se encolheu e virou a cabeça ainda mais, como se não suportasse ser lembrada do que estava escondendo embaixo da ilusão de beleza.
Expirando bem alto, Cinder deu um passo à frente.
Thorne deu um passo para trás.
Ela fez uma careta. Não havia mesmo como esperar que Levana estivesse absorta demais nas ilusões para deixar de prestar atenção.
— O que não entendo é como você pôde fazer aquilo comigo — disse Cinder, aliviando o tom. — Eu era só uma criança, e você… — Ela virou a cabeça. — Sei que as cicatrizes que você tem são de queimadura. Tenho o mesmo tipo de tecido de cicatriz onde perdi a perna. Sabendo como é, tendo que viver com isso… como você pôde fazer com outra pessoa?
— Você não deveria ter sobrevivido — cortou Levana, como se isso tornasse tudo melhor. — Pelo menos eu teria tido a misericórdia de matar você, de acabar com tudo de uma vez.
— Mas eu não morri.
— É, eu reparei. Não é culpa minha alguém ter achado que valia a pena salvar você. Não é culpa minha terem transformado você… nisso. — Ela fez um gesto desanimado na direção de Cinder.
Cinder trincou os dentes, querendo discutir, mas mordeu a língua. Levana vivia com suas desculpas havia muito tempo.
Ela lançou um olhar para Thorne. Ele estava sugando os dentes e olhando para o teto. Parecia entediado.
Cinder deu um passo para trás como um sinal de paz, mas Thorne ficou onde estava.
— Quem fez isso com você, afinal? — perguntou ela, tentando ser gentil. — Quem machucou você assim?
Levana fungou e finalmente ousou olhar para Cinder. Havia toda aquela beleza cintilando na superfície, mas, uma vez que Cinder tinha visto o que havia por baixo, não dava para esquecer a verdade. Fosse a programação ciborgue dela ou a fraqueza de Levana, ela enxergava como a tia era. Marcada e deformada.
Houve uma pontada de solidariedade na barriga dela, mas só uma pontada.
— Você não sabe? — perguntou Levana.
— Por que eu deveria?
— Criança burra. — Uma mecha de cabelo caiu no rosto de Levana. — Porque foi sua mãe.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!