21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e nove

A palavra mãe era estranha aos ouvidos de Cinder. Mãe. Uma mulher que a trouxe ao mundo, mas só isso. Ela não tinha lembranças dessa mulher, só tinha ouvido boatos; eram histórias horríveis que diziam que a rainha Channary era ainda mais cruel do que Levana, embora seu reinado tivesse sido curto.
— Minha própria doce irmã — ronronou Levana. — Você quer saber como aconteceu?
Não.
Mas Cinder não conseguiu pronunciar a palavra.
— Ela tinha treze anos e eu tinha seis. Ela estava aprendendo a usar o dom, tendo um prazer enorme em manipular as pessoas ao redor, embora eu fosse sempre o alvo favorito. Ela era muito boa. Como eu sou. Como você é. Está no nosso sangue.
Cinder tremeu. Está no nosso sangue. Ela odiava pensar que tinha o mesmo sangue que qualquer pessoa daquela família.
— Naquela idade, o truque favorito dela era me convencer de que me amava muito. Como eu nunca senti amor dos nossos pais, não era difícil de acreditar nisso. Então, quando ela tinha certeza de que eu faria qualquer coisa por ela, me torturava. Nesse dia em particular, ela me mandou colocar a mão na lareira. Como me recusei, ela me obrigou. — Levana sorriu quando contou a história, uma expressão perturbada. — Como você viu, quando ela me soltou, não foi só minha mão que sofreu.
A boca de Cinder estava se enchendo de bile. Uma criança tão pequena, tão impressionável.
Seria tão fácil.
Mas era uma crueldade impossível de imaginar.
Sua mãe?
— Depois disso, começaram a me chamar de princesa feia de Artemísia, a pobre criaturinha deformada. Enquanto Channary era a bonita. Sempre a bonita. Mas eu treinei meu glamour e disse para mim mesma que um dia as pessoas esqueceriam o fogo e as cicatrizes. Um dia, eu seria rainha e garantiria que as pessoas me amariam. Eu seria a rainha mais bonita que Luna já teve.
Cinder apertou as armas.
— Foi por isso que você a matou? Para ser rainha? Ou foi porque ela… fez isso? Com você.
Uma das sobrancelhas perfeitas de Levana se ergueu.
— Quem disse que eu a matei?
— Todo mundo diz. Até na Terra já ouvimos os boatos. Que você matou sua irmã, seu próprio marido e a mim, tudo por causa de suas ambições.
Uma frieza surgiu no rosto de Levana, e ela se inclinou lentamente para se encostar no trono.
— O que fiz, eu fiz por Luna. Minhas lutas, meus sacrifícios. Tudo foi por Luna. Por toda a minha vida, só eu me importei, só eu vi potencial para nosso povo. Estamos destinados a algo muito maior do que essa pedra, mas Channary só se importava com vestidos e conquistas. Ela era uma péssima rainha. Era um monstro. — Ela fez uma pausa, as narinas dilatadas. — Mas, não. Eu não a matei, apesar de ter desejado mil vezes ter matado. Eu deveria tê-la matado antes de ela estragar tudo. Antes de ela ter você, um bebê saudável que cresceria e ficaria igual a ela!
Cinder rosnou.
— Eu não sei quem eu teria me tornado se tivesse crescido aqui — disse ela. — Mas eu não sou como ela.
— Ah, é — refletiu Levana, pulando de palavra em palavra como um riacho sobre pedras.  — Nisso eu acredito que você esteja correta. Quando vi seu glamour pela primeira vez no baile da Comunidade, fiquei surpresa com o quanto você se parecia com ela quando a sujeira e a graxa e essas extremidades horríveis de metal foram removidas. Mas parece ser aí que as similaridades terminam. — Ela repuxou os lábios vermelho-sangue, curvando-os ao redor de dentes perfeitos de pérola. — Não, sobrinhazinha. Você é muito mais parecida comigo. Disposta a fazer qualquer coisa para ser admirada. Para ser querida. Para ser rainha.
O corpo de Cinder ficou rígido.
— Eu também não sou como você. Estou fazendo isso porque você não me deu escolha. Você teve sua chance. Mas não podia ser justa. Ser uma boa governante que trata o povo com respeito. E a Terra! Você queria uma aliança, a Terra queria paz… por que você não pôde… simplesmente concordar? Por que a doença? Por que os ataques? Você realmente acreditou que esse era o jeito de fazer com que eles amassem você?
Levana olhou para ela, furiosa e cheia de ódio. Mas seus lábios se retorceram em algo parecido com um sorriso. Um sorriso furioso e cheio de ódio.
— O amor — sussurrou ela. — O amor é uma conquista. O amor é uma guerra. Não passa disso.
— Não. Você está errada.
— Tudo bem. — Levana passou os dedos pelo braço do trono. — Vamos ver o quanto seu amor vale. Abra mão de todos os direitos que você tem ao meu trono e eu não vou matar seu amigo.
Cinder apertou os lábios.
— Que tal nós levarmos à votação? Que o povo decida quem quer que o governe.
Thorne deu um passo para trás. O calcanhar esquerdo estava na beirada, e ele fez uma expressão de consternação quando olhou para o lago abaixo.
Cinder recuou.
— Espere. Eu posso prometer ceder meu trono a você, mas ainda vai haver dezenas de milhares de pessoas lá fora exigindo que você abdique. O segredo foi revelado. Eles sabem que sou Selene. Não posso anular isso.
— Diga que você mentiu.
Ela expirou alto.
— Além do mais, assim que você o matar, eu vou matar você.
Levana inclinou a cabeça para o lado, e, apesar de estar com o glamour, Cinder estava vendo a mulher do vídeo. Era seu olho bom, ela percebeu.
— Então vou mudar os termos da minha proposta — disse Levana. — Se você se sacrificar, não vou matá-lo.
Cinder olhou para Thorne, que pareceu indiferente ao fato de que estavam negociando pela vida dele. Ele estalou a língua.
— Até eu vejo que é um acordo ruim.
— Thorne…
— Você me faz um favor?
Ela franziu a testa.
— Diga a Cress que eu estava falando a sério.
Seu estômago se contraiu.
— Thorne…
Ele olhou nos olhos de Levana.
— Tudo bem, Vossa Rainhecência. Eu pago pra ver, já que ela não paga.
— Eu não estou negociando com você — cortou Levana.
— Se você me matar, vai perder sua última ficha de apostas e Cinder vai ganhar. Então, vamos falar das suas opções. Você pode aceitar que seu tempo como rainha acabou e deixar nós dois irmos embora, e talvez Cinder tenha misericórdia e não mande executar você como traidora. Ou pode me jogar dessa varanda e…
— Tudo bem.
Thorne arregalou os olhos. Ele deu um passo para fora da beirada da varanda. Com um grito, levantou os braços, um pulso ainda amarrado, a outra mão segurando a faca de cozinha que pegou na mansão. Ofegando, girou os braços; seu equilíbrio era precário.
Cinder largou as armas e correu para ele.
Thorne caiu… mas jogou o corpo para a frente no último minuto. Uma das mãos segurou a beirada. Ele grunhiu. Cinder mergulhou.
Levana se inclinou para a frente.
Os dedos de Thorne soltaram a borda na hora em que Cinder esticou a mão para segurar o braço dele. O ombro machucado doeu, mas ela o agarrou firme.
Thorne olhou para ela, com uma expressão que revelava, de longe, a maior dose de medo que Cinder já o viu demonstrar.
— Obrigado — ofegou ele.
A mão livre subiu e deu um soco no maxilar de Cinder. Ela se encolheu e desviou, mas sem soltar.
— Desculpe! Não fui eu!
— Eu sei — grunhiu ela. Apoiando a outra mão no chão, ela se empurrou para trás, arrastando Thorne consigo até o tronco dele estar na varanda, os pés tentando se apoiar.
Ela não ousou soltá-lo mesmo quando ele jogou o corpo no chão.
Cinder sabia que, assim que o soltasse, Levana o jogaria lá de cima para que morresse.
Tarde demais, ocorreu-lhe que ele tinha soltado as mãos atadas. Ele devia ter passado todo o tempo que ela estava discutindo com Levana tentando se soltar. A queda podia não o ter matado, e com os braços livres ele conseguiria nadar. Mas agora estava…
Thorne enfiou a faca na coxa dela.
Cinder gritou.
— Continua não sendo eu — disse ele, sem ar, enquanto puxava a faca. Ele levantou o braço acima da cabeça, se preparando para esfaqueá-la de novo.
Cinder o derrubou e tirou a arma da mão dele.
Thorne deu uma cotovelada no pescoço dela. Cinder ficou sem ar e pontos brancos mancharam sua visão. Thorne se afastou, mas não correu para a varanda.
Cinder colocou a mão no pescoço e massageou os músculos, incentivando-os a tomar ar novamente. Ainda tonta, obrigou-se a levantar com pernas bambas, pronta para pular em Thorne de novo.
Ela ouviu o clique da trava de uma arma ser solta.
Ela parou. Thorne tinha ido bem mais longe do que ela esperava e estava perto da entrada da sala, segurando a faca e a arma que ela tinha largado quando foi tentar salvá-lo.
O cano estava mirando na cabeça dela.
Cinder oscilou. Cambaleou uma vez. Recuperou o equilíbrio.
Um tiro ecoou nas paredes de pedra da sala. Cinder se encolheu, esperando uma pontada de dor, mas só ouviu um xingamento berrado. A arma que Thorne havia pegado escorregou pelo chão. Cinder afastou a tontura e olhou para ele, que encarava a própria mão, horrorizado. O braço ainda estava erguido, mas a mão estava vazia e coberta de sangue.
— Desculpe! — gritou Cress. Ela estava no chão perto da porta, tentando se levantar. O coice da arma tinha tirado seu equilíbrio. — Desculpe, capitão!
Thorne falou outro palavrão. A testa estava coberta de suor. Mas, quando olhou para Cress com o queixo caído, sufocou a dor e gritou:
— Belo tiro!
— Cress — grunhiu Cinder. — A rainha, Cress. Atire na rainha!
Apesar de choramingar, ela desviou a mira e apontou a arma para Levana.
Cinder correu para a arma que havia sido tirada da mão de Thorne com um tiro. Thorne correu também, chamando a atenção de Cress de volta para ele. Em um só movimento, derrubou o braço da garota com o ombro, enquanto, ao mesmo tempo, com a mão ilesa, enfiou a faca na barriga dela até o cabo.
Cinder pegou a arma no chão. Cress largou a dela. Sangue se espalhou pelo vestido. Ela olhou para Thorne, e foi impossível saber qual dos dois estava mais tomado de horror. A mão de Thorne ainda estava ao redor do cabo da arma.
Cinder se virou para o trono e disparou, mas Levana se jogou no chão, e a bala ricocheteou no encosto entalhado do trono. Enquanto Cinder recarregava a arma, Levana se levantou e escorregou na saia imensa ao correr para trás do trono. Cinder disparou de novo, a bala passando de raspão na perna da rainha conforme ela desaparecia.
— Não — ofegou Cress.
Uma dor perfurante surgiu na lateral de Cinder. Ela caiu de quatro. Deitando-se de costas, ela se afastou, uma das mãos pressionando o ferimento. Thorne estava em cima dela, segurando a faca. Cress pendurava-se no braço dele em uma tentativa de puxá-lo, mas ele era forte demais, e ela estava tentando deixar uma das mãos sobre o ferimento na barriga. A frente da roupa já estava coberta de sangue.
— Desculpe — disse Thorne, chorando. Todos os sinais da confiança habitual tinham sumido. — Desculpe, desculpe…
Cress o mordeu nessa hora, afundando os dentes na carne da mão na tentativa de fazê-lo soltar a faca. Ele sufocou um grito por entre os dentes trincados, mas não soltou.
Pegando a arma de novo, Cinder se levantou do chão, tentando tirar a faca da mão de Thorne. Com um grunhido, ela apoiou o pé no peito dele e o chutou, arrancando a faca.
Ele caiu para trás e bateu os ombros em uma das cadeiras da plateia. O rosto mal registrou a dor. As ações dele estavam ficando menos graciosas, mais rígidas. Talvez por causa dos ferimentos, mas mais provavelmente porque Levana estava ficando cansada demais para continuar o controlando.
Cress caiu de joelhos com as mãos na barriga. As bochechas estavam manchadas de lágrimas.
— Cinder…
Cinder parou na frente deles, a arma na mão esquerda e a faca ensanguentada na direita, com todos os músculos tremendo.
— Estrelas…
Ela virou a cabeça para a porta. Scarlet e Lobo tinham chegado.
— Não. Corram! Saiam daqui!
Scarlet olhou nos olhos dela e começou a balançar a cabeça.
— O qu…?
Mais armas. Mais inimigos em potencial. Mais pessoas que ela amava e que Levana poderia tirar dela. Trincando os dentes, Cinder tentou agarrar a bioeletricidade deles.
Tarde demais. Lobo não podia mais ser controlado, e Scarlet já tinha sido tomada.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!