21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e dois

O exército de Cinder avançou. Os civis passaram pelos portões abertos enquanto os soldados corriam para a cerca, escalavam até o alto e pulavam no jardim do outro lado.
A rainha nem tremeu. Os taumaturgos nem se mexeram.
Eles tinham chegado na base da escada de mármore quando Levana levantou a mão.
Os taumaturgos fecharam os olhos.
Foi um momento de contrastes.
Os soldados mutantes, a primeira linha de ataque, caíram juntos. Os corpos enormes foram jogados no chão como brinquedos esquecidos, e cem homens uivaram por uma dor que Cinder só imaginava. Ela só tinha ouvido ruídos inumanos assim uma vez, quando torturou a taumaturga Sybil Mira, levando-a à insanidade.
Os civis cujas mentes estavam protegidas por Cinder e os com dom mais forte seguiram em frente, pulando os soldados lobos da melhor forma possível. Mas os outros começaram a cambalear e parar quando a rainha os tomava. Muitos caíram, e as armas despencaram no chão. Os que estavam sob o controle de Cinder os contornaram e passaram por cima, tropeçaram em corpos caídos e seguiram em frente com armas erguidas.
Os taumaturgos, pensou Cinder, encorajando-os mentalmente na direção dos casacos vermelhos e pretos. Cada taumaturgo morto era o mesmo que dezenas de soldados e cidadãos voltando para o lado deles.
Mas a onda de civis obteve resistência quando os guardas do palácio formaram um muro, separando a rainha e seu grupo dos atacantes que seguiam na direção deles.
Eles se chocaram como um rio em uma represa. Aço estalou. Lanças de madeira bateram e se partiram. Gritos de guerra e dor reverberaram pelas ruas.
Cinder tremeu e se adiantou, para se juntar à luta e abrir caminho até a rainha. Mas seu corpo não se moveu. Os membros pareciam presos em lama.
Sua pulsação saltou.
Não.
Ela não esperava… não pensava…
Trincando os dentes, tentou afastar a manipulação que estava sendo forçada em seus pensamentos. Imaginou as fagulhas de eletricidade no cérebro, os estalos de energia, enquanto Levana virava sua própria mente contra si. Ela sempre afastou o controle antes. Sempre conseguiu escapar, ser mais forte. Seu cérebro ciborgue conseguia superar os efeitos do…
Um tremor percorreu o cérebro dela.
Seu cérebro ciborgue estava quebrado.
Não. Não. Como ela poderia defender as mentes dos outros se não poderia proteger seus próprios pensamentos da rainha?
Ela trincou os dentes. Se conseguisse libertar um membro, provar para o corpo que podia ser feito…
Ela grunhiu e caiu sobre um joelho. O corpo pulsava com energia acumulada, e ela sentiu o estalo repentino. Seu controle tênue sobre os cidadãos sumiu. Os uivos de dor ao redor penetraram nos ouvidos de Cinder.
Em segundos, esses aliados também foram tirados dela.
A batalha terminou antes mesmo de começar de verdade.
Cinder ficou ofegante pela exaustão de tentar se libertar do controle da mente de Levana, e seus membros ainda pareciam pesados e descoordenados. Os gritos dos soldados viraram choramingos e grunhidos dos que morriam. Mesmo nesse breve choque, o cheiro férreo de sangue manchava o ar.
Levana começou a rir. Satisfeito e estridente, o som foi tão doloroso de ouvir quanto os gritos de cem guerreiros.
— O que é isso? — disse a rainha, batendo palmas. — Eu estava ansiosa por uma batalha de habilidade, jovem princesa. Mas parece que você não vai oferecer a luta que eu esperava.
Ela riu de novo. Levantando a mão, passou as unhas pelo cabelo de Lobo, um gesto ao mesmo tempo carinhoso e possessivo.
— Tem um petisco fácil para você, meu bichinho. Já preso na armadilha.
Ele rosnou e, quando desceu a escada, os dentes grandes brilharam. Os guardas abriram caminho, e ele passou por cima dos cidadãos caídos como se nem os visse.
Cinder tremeu. Tinha perdido a conta de quantas vezes encarou aqueles olhos verdes vibrantes, como inimigo e como amigo. Mas nunca antes esteve indefesa.
Ela tentou balançar a cabeça. Implorar para Lobo, ou para a parte de Lobo que ainda estivesse dentro da criatura.
— Ei, vossa rainhecência! Aqui!
Cinder arregalou os olhos. Iko.
Um tiro ricocheteou pela multidão. Levana cambaleou. Cinder viu o sangue borrifar as portas douradas enormes, e houve um momento, um momento pequenininho, no qual sentiu euforia. Ela levou um tiro. A rainha levou um tiro!
Mas foi Lobo quem gritou. Levana tinha se escondido atrás dele. A bala acertou-o perto do quadril, e o belo uniforme já estava ficando escuro com o sangue.
Iko deu um grito, horrorizada.
Levana rosnou, e a raiva se apertou ao redor de Cinder e das pessoas todas como uma forca. O controle dela era estrangulador. Sufocante.
Lobo atacou, não na direção de Cinder, mas de Iko. Ela viu o instinto animal nos olhos dele. Atacar quem o atacou.
O estômago de Cinder deu um nó. Ela não conseguia se mexer. Não podia fazer nada. Mal conseguia respirar. Os pulmões ardiam, mas ela estava presa.
Lobo chegou a Iko enquanto ela continuava parada, segurando a arma, sem saber o que fazer. As garras a atacaram, rasgando mais fibras de pele do abdome já destroçado. Ela gritou e cambaleou para trás, sem querer atirar nele de novo. Ele a segurou no chão. Os dentes afundaram no braço sintético, e a arma caiu ao lado dela. Um fio soltou uma fagulha na boca de Lobo, e ele a largou.
Cinder suplicou para que seu painel de controle acordasse, lutasse, fosse mais forte que ela, vencesse
— Eu sou a princesa Selene.
A voz soou acima da multidão. Determinada. Familiar, mas ao mesmo tempo, não.
O domo acima escureceu. Como uma tempestade chegando, o vidro turvou até ficar quase preto. Na superfície, uma série de quadrados se iluminou. Uma luz azul primeiro, antes de o vídeo começar a cristalizar.
A voz de Levana soou estridente ao redor de todos eles:
— Você é uma impostora!
Levana ergueu o olhar. Os guardas e taumaturgos ficaram tensos.
— E estou pronta para retomar o que é meu. Povo de Artemísia, essa é sua chance. Renunciem a Levana como rainha e jurem lealdade a mim, ou juro que, quando eu colocar essa coroa, todas as pessoas neste salão serão punidas por sua traição.
A sala do trono entrou em foco, vista da perspectiva de Cinder. Os criados e taumaturgos não tinham mudado de posição. Nem Kai, na fila da frente, apavorado e desesperado.
— Basta! Matem-na.
E ali estava Levana, mas não era Levana. Ela só era reconhecível pelo vestido de noiva vermelho.
Embaixo do glamour, o rosto era desfigurado, com sulcos e cicatrizes que fechavam seu olho esquerdo. A pele destruída descia pelo maxilar e pelo pescoço, desaparecendo embaixo da gola do vestido. O cabelo era mais fino e de um tom mais claro de castanho, e faltavam várias partes, onde as cicatrizes chegavam à nuca. Viam-se mais cicatrizes no braço esquerdo, onde a manga de seda não as escondia.
Queimaduras.
Eram cicatrizes criadas por queimaduras.
Cinder sabia com certeza absoluta.
Um grito horrendo jogou um choque de água fria no corpo de Cinder.
— Desliguem! Desliguem! — berrou Levana. Ela se virou para longe do vídeo no céu e segurou braços e rostos dos taumaturgos perto dela, forçando-os a não olhar. — Não olhem! Parem de olhar! Vou mandar arrancar seus olhos, de todos vocês!
Cinder percebeu que não estava mais paralisada pelo controle mental de Levana; era seu próprio choque que a mantinha grudada no chão.
Estava funcionando. A rainha estava perdendo o controle. Estava sendo obrigada a ver a verdade por baixo de seu próprio glamour e não podia fazer nada para impedir.
O vídeo se dissolveu em um caos de balas e gritos, sangue e corpos.
Levana ficou olhando para as pessoas que não estavam mais sob seu controle. Seu glamour tinha sumido. Ela estava horrenda e desfigurada e, naquele momento, com medo.
Uma arma disparou, mas errou. A bala entrou nas portas do palácio. Alguém atrás de Cinder falou um palavrão. Arregalando os olhos, ela virou a cabeça para olhar. Era Scarlet, o cabelo ruivo como um holofote na multidão. Ela recarregou a arma e mirou.
Levana cambaleou para trás dois, três passos, depois se virou e voltou correndo para o palácio, abandonando seu grupo de taumaturgos chocados. Deixando Lobo também, ainda em cima do corpo de Iko, embora ela não estivesse mais se mexendo. Ele estava olhando para Scarlet, o rosto deformado retorcido em reconhecimento e horror.
Por um momento, Cinder se viu imobilizada pelos próprios pensamentos dispersos. Não sabia o que fazer. Iko não estava se mexendo. Ela não sabia se podia confiar em Lobo. A rainha tinha fugido, mas o caminho até o palácio ainda estava bloqueado, e ainda havia taumaturgos suficientes para controlar a maioria dos soldados e dos civis, mas todos estavam chocados, imóveis, tontos com o vídeo…
Um uivo silenciou os pensamentos disparados dela.
Cinder ofegou, sem conseguir dizer de onde veio o som. Não sabia se foi de um dos soldados que se juntou ao lado dela ou se foi de uma das outras matilhas, que Strom mencionou que logo os cercariam.
O uivo foi seguido de outro e de outro. Então, tudo se dissolveu em caos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!