21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Oitenta e cinco

— Estamos quase lá — disse Iko, quando ela e Cinder seguiram pelo corredor principal do palácio.
Elas ainda ouviam os sons da batalha ao longe, mas o palácio estava em silêncio em comparação. Não havia sinal de Levana desde que elas entraram, e Iko quase esperava que a rainha maluca pulasse de um esconderijo e tentasse perfurá-las com os sapatos de saltos finos.
Ver Levana nos degraus do palácio foi a primeira vez que Iko colocou os olhos na rainha lunar, e o rosto deformado fez a androide desejar não ser imune a glamour. Depois de anos ouvindo sobre a famosa beleza da rainha, a verdade foi uma grande decepção.
Mas a verdade foi revelada. Graças ao vídeo de Cinder, todo mundo sabia o que se escondia embaixo da ilusão. Com sorte, elas encontrariam a rainha enquanto ainda estivesse abalada com a revelação.
Cinder apertou a faca suja de sangue.
— Dois guardas à frente.
Elas dobraram a esquina, e ela estava certa: havia dois guardas na frente de um par de portas decoradas, com armas enormes já apontando para elas.
Iko parou e levantou a mão boa em uma demonstração de inocência. Tentou dar um sorriso doce, mas, com a orelha cortada e um músculo na bochecha em espasmos, não estava se saindo da melhor maneira.
De repente, o reconhecimento soltou fagulhas no processador dela.
— Você! — gritou ela. — Ele… ele é o cara que salvou Winter.
Embora o guarda estivesse imóvel, provavelmente graças a Cinder, o rosto estava livre para se contorcer de repulsa quando seu olhar percorreu o corpo maltratado de Iko, com fios mortos, partes soltas e tudo.
— E você é aquela robô horrível.
Iko se irritou.
— O termo correto é androide-acompanhante, seu ignorante, mal-educado…
— Iko.
Ela fechou a boca, embora as sinapses ainda estivessem pegando fogo.
Cinder inclinou a cabeça para o lado.
— Então foi você quem matou o capitão da guarda de Levana?
— Matei — disse ele.
O segundo guarda rosnou, olhando alternadamente para o companheiro e para Cinder.
— Traidor.
Uma gargalhada baixa e sem humor ecoou pela garganta do primeiro guarda; Kinney, Iko lembrou.
— Você está desperdiçando energia ao me controlar. Não tenho intenção de atirar em você.
— Tudo bem — disse Cinder, mas Iko percebeu que ela não confiava nele. — Enquanto você não tentar nos machucar, não vou ter motivo para manipular você.
Não era bem uma concessão. Se ele tentasse qualquer coisa, Iko sabia que Cinder poderia detê-lo.
Os músculos nos braços de Kinney relaxaram.
— Então você é a ciborgue que está causando tanta confusão.
— Uau — refletiu Iko. — Ele é bonito inteligente.
O nariz franzido dele a fez se perguntar se ela estava começando a exagerar no sarcasmo, mas seu ego ferido a deixou furiosa. Tinha se acostumado às pessoas olhando para ela como se fosse humana. Não só humana, mas bonita. Mas agora estava limitada, com um braço inerte e tecido de pele destroçado e sem a orelha, e tudo o que aquele guarda via era uma máquina quebrada.
Não que a opinião dele importasse. Ele era um cretino.
Exceto por aquela história de salvar a vida de Winter, o que deveria ter sido um golpe de sorte.
— Levana está aí dentro? — perguntou Cinder, indicando as portas fechadas.
— Não, só os convidados da coroação. Nossas ordens foram de detê-los até a rainha ou um taumaturgo os soltar… Desconfio que ela esteja se preparando para massacrar todos os terráqueos se vocês não se renderem.
— É a cara dela — disse Cinder. — Mas duvido que ela tenha forças para fazer glamour em tantas pessoas ao mesmo tempo agora. Se tivesse, acho que teria vindo direto para cá.
Kinney franziu a testa, especulativo. Talvez ele não tenha visto o vídeo. Não sabia que a verdade por baixo do glamour de Levana tinha sido revelada.
— Para que outro lugar ela iria? — perguntou Cinder. — Se ela quisesse me atrair para algum lugar, um lugar em que se sentisse segura e poderosa.
Ele deu de ombros.
— Para a sala do trono, eu acho.
Cinder contraiu o maxilar.
— Foi onde aconteceu o banquete da outra noite? Com a varanda acima do lago?
Kinney tinha começado a assentir, quando o segundo guarda virou a cabeça para trás e cuspiu. Cuspiu mesmo naquele piso lindo.
— Ah! — gritou Iko. — Seu bárbaro!
— Quando ela pegar você — rosnou o guarda —, minha rainha vai comer seu coração com sal e pimenta.
— Bem — disse Cinder, despreocupada —, meu coração é parcialmente sintético, então é provável que ela tenha indigestão.
Kinney pareceu quase achar graça.
— Nós, guardas, costumamos ser bem tratados aqui. Você vai ver que muitos de nós vão permanecer leais a Sua Ma… a Levana. — O nome de batismo da rainha saiu com constrangimento, e Iko se perguntou se ele já o tinha dito antes.
— E por que você não? — perguntou Cinder.
— Alguma coisa me diz que vou gostar mais da sua proposta. — O olhar dele se desviou para Iko. — Mesmo você andando com umas companhias estranhas.
Ela bufou.
Dando um passo à frente, Cinder desarmou o segundo guarda e ficou com a arma dele para si.
— Talvez quando isso acabar eu os convença de que também pretendo tratar vocês bem.
Cinder se virou, e Iko viu o conflito nos músculos do rosto dela.
— Fique com Kai. Caso ela envie um taumaturgo atrás deles, quero alguém aqui que não possa ser controlado. E tente tirá-lo daqui, junto com qualquer terráqueo. — Ela inspirou fundo. — Eu vou atrás de Levana.
— Não, espere — disse Iko. — Eu deveria ir com você.
Ignorando-a, Cinder apontou o dedo para Kinney.
— Se você é leal a mim, então vai ser leal ao imperador terráqueo. Proteja-o com sua vida.
O guarda hesitou, mas levou um punho ao coração.
Com a nova arma em uma das mãos e a faca na outra, Cinder se virou e começou a correr na direção de onde elas tinham vindo.
— Cinder, espere! — gritou Iko.
— Fique com Kai!
— Mas… tome cuidado!
Assim que Cinder dobrou a esquina, Iko se virou para os dois guardas, na hora em que o segundo guarda se deu conta de que tinha controle do próprio corpo de novo. Com o olhar sombrio, ele levantou uma arma e mirou em Iko.
Kinney bateu na cabeça dele com a coronha do fuzil. Iko deu um pulo para trás quando o guarda caiu de cara no chão.
— Acho que eu devia ir com ela — disse Kinney.
Rosnando, Iko passou por cima do guarda caído e apontou um dedo para o peito dele.
— Eu a conheço há bem mais tempo que você, moço, e, se tem um de nós que deveria ir com ela, esse alguém sou eu. Agora, abra as portas.
Uma sobrancelha escura e grossa foi erguida. Ela percebeu que ele lutava para dizer alguma coisa ou não dizer nada. Ele desistiu e se virou, empurrando a barra que atravessava a porta. Ele abriu a passagem.
Iko deu dois passos para dentro do salão e parou.
O recinto não estava cheio de centenas de aristocratas lunares e líderes terráqueos e seu lindo imperador. Na verdade, só uns dez lunares vestidos com cores vibrantes ocupavam um canto do ambiente. O chão estava cheio de cadeiras, muitas viradas, e mal havia espaço para andar, dificultando a travessia.
— Ele nos obrigou! — gritou uma mulher lunar, chamando a atenção de Iko. — Nós não queríamos ajudar os terráqueos, mas ele ameaçou bombardear a cidade. Ah, por favor, não contem para a rainha.
Iko olhou para trás, mas, a julgar pela forma como a boca de Kinney estava aberta, ele estava tão surpreso quanto ela. Ela começou a abrir caminho por entre as cadeiras, e ocorreu-lhe que a pessoa que as espalhou fez de forma intencional, para desacelerar qualquer um que tentasse persegui-los.
Quando se aproximaram, Iko viu uma porta aberta atrás de um altar enorme; uma cortina fechada a manteria escondida normalmente.
— Aquela porta leva ao corredor dos criados — disse Kinney. — Mas também devia estar vigiada.
— Ah, você está com aparência terrível! — berrou a primeira mulher, cobrindo a boca ao observar os ferimentos de Iko. — Por que alguém faria um glamour para ficar assim?
Antes que Iko elaborasse uma resposta indignada, Kinney disse:
— O imperador Kaito está levando os outros terráqueos para os portos?
Os lunares assentiram e alguns apontaram para a porta.
— Por ali — disse a mulher desagradável. — Você vai conseguir pegá-los se correr. E não se esqueça de dizer para Sua Majestade que nós ficamos aqui!
Eles a ignoraram e correram para a porta.
Iko começou a procurar o caminho mais direto para o porto, mas ficou óbvio que Kinney sabia que caminho seguir, então ela permitiu que ele fosse à frente. Eles não estavam correndo havia muito tempo, quando o sensor de áudio dela captou vozes ecoando no corredor.
Eles dobraram uma esquina, e Iko viu a fonte do barulho à frente: havia centenas de aristocratas lunares organizados em uma fila confusa, esperando para passar por uma porta até uma escada que os levaria para baixo, para os subníveis embaixo do palácio. Em meio à falação, a entrada de áudio dela reconheceu uma voz.
Kai.
Ela acelerou. Os lunares, que só repararam nela quando chegou logo atrás deles, gritaram de surpresa, e muitos se jogaram contra a parede para deixar que ela passasse.
— Kai!
A multidão se moveu. Kai e seu conselheiro, Konn Torin, estavam ao lado da porta que levava à escada, pedindo às pessoas que fossem mais rápido, que mantivessem o ritmo.
O olhar dele se encontrou com o dela. Alívio. Felicidade.
— Iko?
Ela se jogou nos braços de Kai, pela primeira vez sem se importar com os painéis queimados na lateral do rosto nem com os buracos no tronco. Ele retribuiu o abraço.
— Iko. Graças às estrelas.
Com a mesma rapidez com que a abraçou, ele a afastou e olhou para trás dela, mas sua alegria sumiu quando só viu Kinney ao lado.
— Onde está Cinder?
Iko também olhou para trás. Kinney estava olhando com desprezo para a mão de Kai no braço quebrado de Iko. Ela apertou os lábios e também fez expressão de desprezo.
— Ela está procurando Levana. Achamos que foi para a sala do trono.
— Sozinha?
Iko assentiu.
— Ela queria que eu viesse ver se você estava bem.
Dando um suspiro frustrado, Kai empurrou Iko e Kinney para a parede, abrindo caminho para os lunares que ainda esperavam para descer.
— Estamos levando todo mundo para os portos de naves espaciais. Vai ser o lugar mais seguro enquanto a luta continuar, e vai afastar qualquer possível marionete das mãos de Levana. — Ele apertou a mão de Iko, e os fios dela zumbiram de prazer. — Acha que consegue abrir os portais para deixar as naves saírem se eu levar você lá para baixo?
Kinney respondeu antes dela.
— Eu sei o código de acesso.
Iko se virou para ele.
— Eu fiz treinamento de piloto — disse ele, dando de ombros com indiferença.
Kai fez um gesto de apreciação com a mão, e, se estava impressionado ao receber a ajuda de um guarda real, não demonstrou.
— Então vamos terminar isso e vamos procurar Cinder.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!