21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Noventa

Cinder olhou para Levana, que estava espiando os recém-chegados por cima de um dos braços entalhados do trono. Em seguida, Levana olhou para a segunda arma, caída esquecida perto da porta.
Scarlet ofegou quando o corpo se deslocou por vontade própria.
Cinder também mergulhou para pegar a arma e deslizou pelo chão liso. Havia armas demais, ameaças demais, e ela não tinha mãos suficientes.
Em vez de pegar a arma, ela a empurrou e a viu passar deslizando por Scarlet, na direção da plataforma erguida da plateia. Um segundo depois, o peso do corpo de Scarlet caiu em cima dela. Scarlet a segurou pelo cabelo e puxou sua cabeça, quase quebrando seu pescoço. Cinder gritou de dor e rolou, empurrando Scarlet para longe. Mantendo a arma firme, ela virou o braço e bateu com a parte de trás da mão de metal na têmpora de Scarlet.
Ela fez uma careta com o impacto, mas deu certo. Scarlet a soltou, deslizou por metade da sala e ficou caída no chão.
A culpa não teve tempo de ser absorvida; quando ouviu um rugido, o medo levou sua atenção novamente para Lobo. Rosnando, furioso. Ele já estava correndo na direção dela.
A arma. A faca. Era Lobo, mas não era Lobo, e ela não tinha forças para lutar contra ele, não agora, não de novo…
Quando uma gota de suor caiu no olho, Cinder contraiu o rosto e levantou a arma.
Mas o foco de Lobo era o corpo caído de Scarlet, e, quando pulou, passou longe de Cinder. Ela se virou, perplexa, quando Lobo pegou Scarlet nos braços e a aconchegou perto de si.
Lobo, que era um monstro, que era uma das feras incontroláveis da rainha…
Ainda era Lobo, afinal.
Engolindo em seco, tossindo, engolindo de novo, Cinder se levantou. Ela perdeu o equilíbrio e caiu sobre um joelho.
— Lobo — gaguejou ela. — Por favor… ajude Cress e Thorne… Por favor…
Ele ergueu a cabeça, os olhos verdes ardendo, mas olhou para onde Cress estava, com as mãos na barriga, mortalmente pálida. Para onde Thorne estava, encolhido junto a uma cadeira caída, parecendo querer ir até Cress, mas apavorado de o próprio corpo não ser confiável se chegasse perto.
Lobo assentiu com compreensão.
Aliviada porque, mesmo que nada desse certo, ela poderia confiar em Lobo para tirar os amigos dali e começar a cuidar dos ferimentos deles, Cinder tentou se levantar de novo. Desta vez, conseguiu. Cambaleou na direção do trono, segurando a arma em uma das mãos e a faca na outra. Quando contornou a plataforma, viu Levana de joelhos, uma das mãos enfiada nas dobras do vestido enquanto se agarrava ao encosto do trono com a outra. O vestido da coroação esvoaçava ao redor do corpo, elegante e distinto, um contraste intenso com o rosto grotesco. Ela tinha desistido de tentar usar o glamour.
Cinder odiou a própria mente por rotular a rainha como grotesca. Ela já tinha sido uma vítima, assim como Cinder. E quantos rotularam seus membros de metal como grotescos, não naturais, repugnantes?
Não. Levana era um monstro, mas não por causa do rosto que manteve escondido ao longo de todos aqueles anos. As monstruosidades dela estavam escondidas bem mais fundo do que isso.
Outra gota de suor caiu nos cílios de Cinder, e ela a limpou com as costas da mão. Em seguida, levantou a arma e mirou no coração de Levana.
Ao mesmo tempo, Levana levantou a mão que estava escondida no tecido luxuoso. Estava segurando a arma que Cinder tinha empurrado na direção da plataforma. O braço tremia como se a arma fosse impossivelmente pesada, e ficou claro pela forma como segurava que ela nunca tinha segurado uma arma antes. Era rainha, afinal. Tinha asseclas para matar por ela.
A rainha trincou os dentes de concentração, e Cinder sentiu os músculos do braço direito se contraírem nos ossos. Os tendões começaram a sentir uma câimbra, os ligamentos se apertaram.
Ela fez uma careta e olhou para a arma na mão. Para o dedo no gatilho.
Ela tentou puxar o gatilho.
Mandou o dedo puxar. Implorou.
Aperte o gatilho.
Aperte.
A mão começou a tremer, a arma balançando no fim do braço. A respiração saiu em ofegos curtos e sufocados, enquanto o gatilho afundava na almofadinha do dedo.
Mas ela não conseguia puxar. Não conseguia.
O terror de Levana começou a sumir. Os lábios se contorceram no que podia ser alívio, se a testa não estivesse franzida com tanta concentração. Ela controlou com firmeza o braço de Cinder, o dedo, a arma.
A língua de Levana serpenteou para fora da boca, molhando os lábios secos.
— Ah — sussurrou ela, com o olhar brilhando de orgulho. — Você também está cansada, pelo que vejo.
Cinder rosnou. Um terremoto abalou seu corpo. Ela concentrou o olhar na mão trêmula da rainha e disparou com os pensamentos.
Levana arregalou os olhos. O cabelo estava grudado no tecido cicatricial do rosto. Ela olhou para a própria mão, tão traidora quanto a de Cinder.
Cinder forçou o braço de Levana a se dobrar. Guiou a arma para cima, cada centímetro, uma batalha. Cada momento, uma luta.
Levana ficou vermelha. Apertou os dentes em concentração renovada, e Cinder sentiu o próprio braço fazer o mesmo. Sua mão traidora ergueu a arma e apertou o cano na própria têmpora. Ela era uma imagem espelhada da tia, cada uma preparada para atirar.
— Era assim que a noite do baile deveria ter terminado — sussurrou Levana. — É como tinha que ser. — Ela sorriu como uma louca e olhou para o lugar onde a arma pressionava a pele úmida de Cinder.
Cinder se lembrava claramente da noite, como um pesadelo que jamais esqueceria. Levana controlou o braço dela, obrigando-a a pegar a arma de Jacin e apontar para a própria têmpora. Cinder teve certeza de que ia morrer, mas sua programação ciborgue a salvou.
Não a salvaria desta vez.
— Adeus, sobrinha.
Cinder não conseguia afastar o próprio braço, mas o corpo ardia de determinação. Ela impediria que o dedo apertasse o gatilho. Não deixaria que Levana o apertasse. Não deixaria.
O dedo tremeu. Latejou, dividido entre duas mestras. Um membro tão pequeno. Um dedinho pequenininho.
O resto da força de vontade dela apertou a mão de Levana. Ela sentia a bioeletricidade estalando no ar entre as duas. Ouviu o barulho de energia. Havia um fluxo e refluxo nas forças e fraquezas delas. Cinder achava que estava fazendo progresso e dobrava o dedo de Levana para dentro, mas sentia o próprio dedo tremer, fora de controle. Uma gota de suor pingou na parte interna do cotovelo. Um fio de cabelo grudou nos lábios. O cheiro de ferro atacou suas narinas. Cada sentido era uma distração. A cada momento, ela sentia que ficava mais fraca.
Mas a testa de Levana também estava franzida. Levana também estava suando, com o rosto contorcido pelo esforço. As duas estavam lutando para respirar, e então…
Um snap estalou alto dentro da cabeça de Cinder.
Ela ofegou e baixou a mão para a lateral do corpo. Seus músculos doíam pelo esforço, mas eram dela novamente. Ela engoliu ar, tonta com o esforço.
Levana soluçou de frustração. O corpo oscilou.
— Tudo bem. Tudo bem. Eu me rendo. — Ela falou tão baixo que Cinder não sabia se tinha ouvido direito. Apesar de ainda estar controlando a mão de Levana e de ainda estar com a arma apontada para a têmpora dela, a rainha parecia ter esquecido que estava ali. Seu rosto desmoronou e o corpo murchou no vestido enorme. — Eu entrego minha coroa a você, meu país, meu trono. Pegue tudo. Só… só me deixe em paz. Deixe-me ter minha beleza de novo. Por favor.
Cinder observou a tia. As cicatrizes, o cabelo sem vida e o olho com a pálpebra permanentemente fechada. O lábio trêmulo e os ombros derrotados. Ela estava exausta demais até para fazer o próprio glamour. Fraca demais para lutar.
Uma onda de pena tomou conta dela.
Aquela mulher infeliz e horrível ainda não fazia ideia do que era ser verdadeiramente bonita ou amada.
Cinder duvidava que um dia soubesse.
Ela engoliu em seco, apesar da dificuldade com a língua seca.
— Eu aceito — disse Cinder, atordoada.
Ela continuou controlando o dedo de Levana no gatilho, mas permitiu que a tia baixasse a arma. Cinder esticou a mão, e Levana ficou olhando por um momento antes de estender o braço e colocar a arma na palma de Cinder.
No mesmo movimento, ela pegou a faca esquecida e deu um salto, afundando a lâmina no coração de Cinder.
Ela ficou sem ar na mesma hora, como se os pulmões tivessem implodido. Como se um raio a tivesse atingido da cabeça aos pés. Um choque explodiu em seu peito, e ela caiu para trás. Levana caiu com ela, o rosto contorcido de fúria. Ela estava com as duas mãos no cabo da faca, e, quando a girou, cada nervo na cabeça de Cinder explodiu de dor. O mundo ficou enevoado, vago, manchado na visão dela.
Somente o instinto a fez levantar a arma e disparar.
O tiro derrubou Levana. Cinder não viu onde a bala foi parar, mas viu uma linha de sangue jorrar em arco no encosto do trono.
Sua visão ficou vidrada, toda branca com estrelas dançando. O corpo era pura dor e escuridão e calor e estava grudento de sangue. Estrelas. Não era só na cabeça dela, ela percebeu. Alguém tinha pintado estrelas no teto da sala do trono. Uma galáxia se espalhava à frente dela.
No silêncio do espaço, Cinder ouviu um milhão de ruídos ao mesmo tempo. Distantes e inconsistentes. Um grito. Um rugido, como um animal furioso. Passos altos. Uma porta batendo em uma parede.
Seu nome.
Abafado. Ecoante. Seus pulmões tremeram, ou talvez fosse o corpo todo em convulsão. Ela sentiu gosto de sangue no fundo da língua.
Uma sombra passou na frente dela. Olhos castanhos tomados de terror. Cabelo preto desgrenhado. Lábios que todas as garotas da Comunidade admiraram mil vezes.
Kai olhou para ela, para o ferimento, para o cabo da faca, a lâmina ainda enterrada. Ela viu os lábios dele formando o nome dela. Ele se virou e gritou alguma coisa por cima do ombro, mas a voz estava perdida para ela; muito alta, mas muito, muito, muito distante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!