21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Noventa e um

— Já falei que estou bem — insistiu Scarlet, embora seu tom estivesse cansado. — É que foram meses bem longos.
— “Bem”? — gritou Émilie.
Pela forma como os olhos ficaram borrados e os cachos louros ocuparam a tela toda, Scarlet percebeu que a garçonete, a única amiga que tinha em Rieux, estava segurando o tablet perto demais do rosto.
— Você estava desaparecida há meses! Sumiu no meio dos ataques, e aí a guerra começou, e descobri aqueles criminosos na sua casa, e então… nada! Eu tinha certeza de que você estava morta! E agora você acha que pode me mandar uma mensagem, e me pedir para continuar fertilizando o jardim como se tudo estivesse… bem?
— Tudo está bem. Olhe… eu não estou morta.
— Estou vendo que você não está morta! Mas, Scar, você está em todos os noticiários daqui! Todo mundo só fala disso. Essa… essa revolução lunar, e nossa pequena Scarling no centro de tudo. Estão chamando você de heroína na cidade, sabe. Gilles fica falando que vai botar uma placa na taverna, dizendo que a heroína de Rieux, Scarlet Benoit, ficou de pé naquele balcão e gritou com todos nós, e estamos morrendo de orgulho dela! — Émilie inclinou a cabeça, como se isso fosse permitir que ela visse melhor o que tinha atrás de Scarlet. — Onde você está, afinal?
— Eu… — Scarlet olhou a luxuosa suíte do palácio de Artemísia. O aposento era mil vezes mais extravagante do que a fazendinha dela, e ela o odiava com todas as forças. — Ainda estou em Luna, na verdade.
— Luna! Posso ver? É seguro aí?
— Ém, pare de gritar, por favor. — Scarlet massageou a têmpora.
— Não me mande parar de gritar, Mademoiselle Ocupada Demais para Mandar uma Mensagem para Avisar que Não Está Morta.
— Eu era prisioneira! — gritou Scarlet.
Émilie ofegou.
— Prisioneira! Machucaram você? Você está com o olho roxo ou é meu tablet? Minha tela anda estranha ultimamente… — Émilie passou a manga na tela.
— Escute, prometo que vou contar a história toda quando chegar em casa. Só me diga que ainda está cuidando da fazenda. Diga que tenho para onde voltar.
Émilie fez cara feia. Apesar da histeria, ela foi uma visão bem-vinda. Bonita e alegre e tão distante de tudo pelo que Scarlet passou. Ouvir a voz dela lembrava a Scarlet seu lar.
— É claro que ainda estou cuidando da fazenda — disse Émilie, em um tom que sugeria que estava magoada por Scarlet ter duvidado. — Você me pediu para fazer isso, afinal, e eu não queria pensar que você estava morta, apesar… apesar de todo mundo acreditar, e eu também, por um tempo. Estou tão feliz por você não estar morta, Scar.
— Eu também.
— Os animais estão bem e seus androides alugados ainda estão vindo… Você deve ter pagado muito adiantado.
Scarlet deu um sorriso apertado, relembrando qualquer coisa sobre Cress ter planejado pagamentos adiantados na ausência dela.
— Scar?
Ela levantou as sobrancelhas.
— Você encontrou sua grand-mère?
Seu coração tinha construído uma muralha forte o bastante para a pergunta não tirar seu ar, mas Scarlet ainda sentiu a dor da lembrança. Era impossível afastar as lembranças das prisões embaixo da ópera. O corpo machucado da avó. O assassinato dela, com Scarlet olhando sem poder fazer nada.
Era isso, e só isso, que ela temia em seu retorno. A casa não seria a mesma sem o pão da avó crescendo na cozinha e sem as botas lamacentas deixadas na porta.
— Ela está morta — contou Scarlet. — Morreu nos primeiros ataques a Paris.
O rosto de Émilie se contraiu.
— Sinto muito.
Um silêncio se espalhou, aquele momento em que nada é adequado de se dizer.
Scarlet empertigou a coluna, precisando mudar de assunto.
— Você se lembra daquele lutador de rua que foi à taverna durante um tempo?
A expressão de Émilie se iluminou.
— Aquele dos olhos? — perguntou ela. — Como uma garota poderia esquecer?
Scarlet riu.
— Ah, pois é. Acontece que ele é lunar.
Émilie conteve um gritinho.
— Não!
— E nós estamos meio que namorando.
A visão na tela tremeu quando Émilie colocou a mão sobre a boca.
— Scarlet Benoit! — Ela gaguejou por um momento e disse: — Vai levar semanas para que você explique isso tudo para mim, não é?
— Provavelmente. — Scarlet jogou o cabelo por cima do ombro. — Mas eu vou contar. Prometo. Olhe, tenho que ir. Só queria que você soubesse que estou bem e queria saber da fazenda…
— Vou dizer para todo mundo que você está bem. Mas quando você vem para casa?
— Não sei. Em pouco tempo, eu espero. E, Ém? Não deixe Gilles pendurar uma placa falando de mim.
A garçonete deu de ombros.
— Não prometo nada, Scarling. Você é nossa pequena heroína.
Scarlet desligou o tablet e jogou-o na cama. Suspirando, ela olhou pela janela. Abaixo, via a destruição do pátio e centenas de pessoas tentando ajeitar tudo.
Artemísia tinha uma beleza própria, mas Scarlet estava pronta para ar fresco e comida caseira. Estava pronta para ir para casa.
Houve uma batida antes que a porta se abrisse, só uma fresta primeiro, com Lobo hesitante do outro lado. Scarlet sorriu e ele ousou entrar, fechando a porta ao passar. Estava segurando um buquê de margaridas azuis e parecia profundamente culpado.
— Eu estava xeretando — confessou ele, encolhendo os ombros até quase as orelhas.
Ela deu um sorriso provocador.
— Qual é o sentido de ter audição sobre-humana se você não puder xeretar de vez em quando? Entre. Eu não esperava que você voltasse tão rápido.
Lobo deu outro passo e parou. Estava mancando de leve da bala que acertou a lateral do corpo, mas a cicatrização estava sendo rápida. Era uma das coisas boas das alterações: Lobo foi feito para ser resistente.
Por fora, pelo menos.
Ele franziu a testa para as flores, enquanto afundava os dentes ferozes no lábio inferior.
Ele tinha voltado até a casa naquela manhã, seu lar de infância. Apesar de o corpo da mãe já ter sido levado para um dos grandes cemitérios na aridez de Luna, era importante para ele ver a casa uma última vez. Ver se havia alguma coisa lá que valesse ser salva, qualquer coisa que fosse uma lembrança dos pais ou até do irmão.
Scarlet se ofereceu para ir com ele, mas ele queria fazer isso sozinho.
Ela entendia. Algumas coisas tinham que ser feitas sozinho.
— Você… encontrou alguma coisa?
— Não — disse ele. — Não tinha nada que eu quisesse. Tudo da minha infância tinha sumido, e… ela não tinha muita coisa, sabe. Fora isso.
Ele se aproximou dela, sem manter contato visual, e entregou o buquê de flores. Metade dos caules delicados tinha sido esmagada ou quebrada nas mãos indelicadas de Lobo.
— Quando eu era criança, colhia flores do campo para minha grand-mère. Ela deixava em um vaso até começarem a murchar, depois esmagava com papel-pergaminho para que durassem para sempre. Aposto que ela tem uma caixa inteira de flores secas em algum lugar. — Ela passou o dedo por algumas das pétalas macias. — É o que vamos fazer com estas. Em homenagem a Maha. — Ela colocou as flores em um copo de água pela metade que haviam lhe entregado junto com o café da manhã.
Quando ela se virou, Lobo tinha posto de lado o tablet e se sentado na beirada da cama enorme. Scarlet tinha quase certeza de que os lençóis tinham sido feitos por trabalho escravo, e o pensamento a deixava inquieta sempre que ela se deitava neles.
Assim que se sentou, Lobo começou a balançar a perna com energia ansiosa. Scarlet apertou o olhar. Isso não era luto.
Ele estava nervoso.
— O que foi? — perguntou ela, se sentando ao lado dele. Pousou a mão no joelho de Lobo e a deixou lá.
Os olhos brilhantes se concentraram nela.
— Você disse para sua amiga que estamos namorando.
Scarlet piscou, e uma gargalhada repentina fez cócegas, mas, ao ver a expressão abalada de Lobo, ela segurou a risada.
— Pareceu mais fácil do que tentar explicar todo o sistema de pareamento alfa.
Ele olhou para as mãos agitadas.
— E… você disse para ela que vai voltar para a fazenda.
— É claro que vou voltar para a fazenda. — Ela inclinou a cabeça, e começou a ficar nervosa. — Quer dizer, não amanhã, mas quando as coisas estiverem mais calmas.
O outro joelho de Lobo começou a balançar.
— Lobo?
— Você ainda… — Ele coçou atrás da orelha. — Você ainda quer que eu vá com você? Agora que eu… que eu… — Ele inspirou fundo. — Você ainda me quer?
Lobo pareceu estar com dor. Dor de verdade. Seu coração se suavizou.
— Lob… — Ela fez uma pausa e engoliu. — Ze’ev.
Ele voltou o olhar para ela com surpresa. O tablet apitou, mas Scarlet ignorou a mensagem. Ela se mexeu na cama para encará-lo, e encaixou o pé embaixo da coxa dele.
Disse com firmeza:
— Eu ainda quero você.
A perna agitada parou devagar.
— É que… eu sei que não sou o que você tinha em mente.
— É mesmo? Porque eu estava visualizando um sujeito grande e robusto que fosse capaz de cortar lenha e manejar a perfuratriz de solo, e você se encaixa direitinho na descrição. Claro que eu e minha avó nos virávamos muito bem, mas, sinceramente… estou ansiosa para ter ajuda.
— Scarlet…
— Ze’ev.
Ela inclinou a cabeça na direção de Lobo. Nem hesitou quando olhou para ele. Nem para os dentes enormes e para as mãos monstruosas. Nem para a inclinação inumana dos ombros e nem para a forma como o maxilar se projetava das maçãs. Era tudo superficial. Não tinham modificado quem ele era.
— Você é o único, Ze’ev Kesley. Sempre vai ser o único.
As sobrancelhas dele se ergueram com o reconhecimento das palavras que uma vez disse a ela.
— Não vou dizer que não vai ser preciso me acostumar. E pode demorar um tempo até convencermos as crianças vizinhas a não morrerem de medo de você. — Ela ajeitou uma mecha do cabelo dele. A mecha voltou para o lugar na mesma hora. — Mas vamos dar um jeito.
O corpo dele tremeu.
— Eu amo você — sussurrou ele.
Scarlet passou as mãos pelo cabelo desgrenhado.
— É mesmo? Nem deu para perceber.
O tablet apitou de novo. Fazendo cara feia, ela esticou a mão e o silenciou, depois se inclinou e cutucou o nariz de Lobo com o dela. Lobo hesitou só um momento e a beijou.
Scarlet se afundou nele. Foi um beijo tão carinhoso quanto um mutante metade humano e metade lobo podia dar.
Mas, quando se afastou, ele estava com a testa franzida.
— Você acha mesmo que as crianças da vizinhança vão ficar com medo de mim?
— Sem dúvida — disse ela. — Mas tenho a sensação de que você vai conquistá-las no final.
Ele enrugou os olhos.
— Vou me esforçar.
Em seguida, o sorriso ficou malicioso. Ele agarrou o tecido na altura da lombar de Scarlet e caiu na cama, puxando-a junto.
— Scarlet! Scar… ah.
Os dois pararam. Grunhindo, Scarlet se apoiou nos cotovelos. Iko estava com metade do corpo dentro da suíte, segurando a maçaneta. O corpo de androide estava coberto de curativos, que eram puramente estéticos, mas não havia lojas de suprimentos androide em Luna, e ela dissera para Scarlet que estava cansada de todo mundo a encarando.
— Desculpe! Eu deveria ter batido. Mas você não respondeu as mensagens e… — Iko sorriu, com mais felicidade do que uma pessoa que funcionava à base de fios e baterias deveria demonstrar. — Cinder acordou!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!