21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Noventa e três

Jacin afundou na cadeira de visitante e observou o médico verificar os sinais vitais de Winter com uma inveja que não era pouca. Ele queria ser a pessoa a cuidar das necessidades dela, saber pela leitura das estatísticas como ela estava e o que se podia fazer para deixá-la melhor. Mas ele tinha que ficar ali, fingindo ser paciente, e esperar que o médico o informasse mais uma vez que não havia nada a ser feito. Tinham que esperar para ver se ela se recuperaria.
Recuperaria.
Jacin odiava essa palavra. Cada vez que era dita, ele ouvia a voz de Winter, assustada e com medo. Não sei nem se uma pessoa sã se recuperaria. Então, como eu posso me recuperar?
— Os batimentos dela estão acelerados — disse o médico, guardando o tablet. — Mas, pelo menos, ela está dormindo. Vamos dar outra olhada quando ela acordar.
Jacin assentiu, segurando todas as respostas que tinha. Quando ela acordar chutando e gritando. Quando ela acordar chorando. Quando ela acordar uivando de novo como um lobo triste e solitário. Quando ela acordar e nada tiver mudado.
— Não entendo — resmungou Jacin, pousando o olhar na testa de Winter. Pelo menos ela estava dormindo calmamente. — Usar o dom devia tê-la feito melhorar. Não piorar. Ela não deveria estar assim depois de tantos anos lutando contra.
— Todos esses anos são precisamente o que provocou isso. — O médico suspirou e também olhou com tristeza para a princesa. Com tristeza demais. Jacin se irritou. — Talvez ajude a entender se pensar no cérebro e no nosso dom como um músculo. Se você não usa esse músculo por muitos anos, aí um dia decide usá-lo em todo o seu potencial, é mais capaz de estirá-lo do que de fortalecê-lo. Ela fez muita coisa rápido demais e… danificou a mente de maneira extensiva.
Eu estou destruída, ela dissera. Não danificada. Destruída.
E isso foi antes até de Aimery aparecer.
Assim que o médico saiu, Jacin puxou a cadeira para perto da cama de Winter. Verificou as amarras acolchoadas nos membros dela; estavam firmes, mas não apertadas demais. Ela acordou várias vezes se debatendo e arranhando, e um assistente médico quase perdeu um olho, e então decidiram que era melhor prendê-la. Jacin odiava vê-los fazendo aquilo, mas até ele concordava que era melhor. Ela tinha se tornado um perigo para si mesma e para os outros. Os dentes haviam até feito um corte impressionante no ombro dele, mas ele ainda não aceitava que foi Winter que o atacou. A doce e gentil Winter.
A danificada e destruída Winter.
Jacin apoiou os dedos no pulso dela por mais tempo do que era necessário, mas não havia ninguém para repreendê-lo além dele mesmo.
As marcas da doença iam ficando mais imperceptíveis a cada dia. Ele duvidava que fossem deixar muitas cicatrizes, e o que ficasse não seria nítido na pele escura. Não seriam como as cicatrizes na bochecha, que ficavam mais claras com o tempo.
Ele odiava e admirava aquelas cicatrizes. Por um lado, lembravam-no de uma época em que ela sofria. De uma época em que ele não pôde protegê-la.
Por outro lado, também o lembravam da bravura e da coragem que tão poucas pessoas viam nela. Com seu jeito sutilmente desafiador, ela ousou ir contra os desejos de Levana e as expectativas da sociedade várias vezes. Ela foi obrigada a escolher suas batalhas, mas as escolheu, e tanto as perdas quanto as vitórias lhe custaram muito.
Os médicos não sabiam o que fazer com ela. Tinham pouca experiência com doença lunar. Poucas pessoas escolhiam deixar a sanidade se deteriorar como ela fez, e só dava para supor quais seriam os efeitos a longo prazo.
E tudo porque ela se recusava a ser como Levana e Aimery e todos os lunares que abusavam e manipulavam e usavam os outros para realizar seus desejos egoístas.
Mesmo em seu último ato desesperado, quando ela usou a mão de Scarlet para matar Aimery, Jacin sabia que ela fez para salvá-lo, não a si mesma. Nunca a si mesma.
Assim como ele faria qualquer coisa para salvá-la.
Ele passou a mão pelo rosto, tomado de exaustão. Tinha passado todas as noites desde a batalha ao lado dela e estava sobrevivendo com pouca alimentação e menos sono ainda.
Seus pais, ele ficou chocado de saber, não estavam mortos. Ele tinha certeza de que desafiar a ordem de Levana e ajudar Winter a fugir acabariam na execução pública deles, como Levana tinha ameaçado, mas um toque de ironia poupou as vidas de ambos. O pai tinha sido transferido para um setor madeireiro anos antes. Quando a chamada de Cinder para a revolução foi transmitida, os civis se rebelaram e aprisionaram todos os guardas e suas famílias. Quando a ordem de Levana de que eles fossem mortos foi emitida, os pais de Jacin não estavam mais sob o domínio dela. No fim das contas, o setor madeireiro era o mesmo onde Winter foi envenenada.
Ele ainda não os tinha visto, pois todos os guardas estavam esperando julgamento no novo regime. A maioria receberia a oportunidade de jurar lealdade à rainha Selene e se juntar à nova guarda real que ela estava construindo. Ele sabia que seu pai, um bom homem que sofreu muito sob o comando de Levana, ficaria feliz com a mudança.
O próprio Jacin estava nervoso de se reencontrar com a família. Depois de anos afastando todo mundo que amava, era difícil imaginar uma vida na qual ele era livre para cuidar das pessoas, sem medo de elas se tornarem peões usados contra si.
Ele sabia que eles adorariam ver Winter de novo também, pois era como se ela fizesse parte da família deles na infância. Mas… não assim. Vê-la assim partiria os corações deles. Vê-la assim…
Winter choramingou, um som patético como o de um animal morrendo. Jacin ficou de pé e colocou a mão no ombro dela, no que esperava que fosse um gesto reconfortante. Ela virou a cabeça de um lado para outro algumas vezes, os olhos se deslocando embaixo das pálpebras fechadas, mas não acordou. Quando se acalmou novamente, Jacin deu um suspiro pesado.
Ele queria que ela ficasse melhor. Que tudo aquilo acabasse. Queria que ela abrisse os olhos e não se debatesse nem mordesse nem uivasse. Queria que olhasse para ele com reconhecimento e felicidade e aquele toque de malícia que capturou seu coração bem antes de ela ser a garota mais bonita de Luna.
Ele puxou um cacho de cabelo de cima dos lábios, do rosto dela.
— Eu amo você, princesa — sussurrou ele, pairando acima dela por muito tempo, passando o dedo em seu rosto e na curva dos lábios, e se lembrando de quando ela o beijou no jardim. Ela lhe disse naquela ocasião que o amava, mas ele não teve coragem suficiente de dizer o mesmo.
Mas agora…
Ele colocou a mão do outro lado do corpo dela e se apoiou. O coração estava disparado, e ele se sentiu um idiota. Se alguém o visse, acharia que era um dos admiradores sinistros de Winter.
Não mudaria nada. Toda a lógica do mundo dizia isso. Um beijo idiota e idealista não poderia consertar a cabeça dela.
Mas ele não tinha nada a perder.
Winter continuou dormindo, o peito subindo. Descendo.
Subindo e descendo e subindo.
Jacin percebeu que estava enrolando. Aumentando as esperanças, mas também erigindo um muro ao redor de si para quando nada acontecesse. Porque nada aconteceria.
Ele se inclinou sobre ela, deixou um leve espaço entre os dois e curvou os dedos no lençol fino do hospital.
— Eu amo você, Winter. Sempre amei.
Ele a beijou. Sendo unilateral, tinha pouco da paixão que houve no jardim, mas muito mais esperança. E um monte de tolice.
Ao se afastar, ele engoliu em seco e ousou abrir os olhos.
Winter estava olhando para ele.
Jacin deu um pulo para trás.
— Caramba, Winter. Você… quanto tempo… — Ele massageou a nuca. — Você estava fingindo dormir?
Winter ficou olhando para ele, com um meio sorriso sonhador nos lábios.
A pulsação de Jacin tremeu com aquele olhar, sua atenção voltando aos lábios dela. Era possível…?
— Win… Princesa?
— Oi — disse ela, com voz rouca, mas não menos doce do que o habitual. — Você está vendo a neve?
A testa dele se franziu.
— Neve?
Winter olhou para o teto. Apesar de os pulsos estarem bem presos, ela abriu a palma da mão, tentando pegar alguma coisa.
— É mais bonita do que eu imaginava — sussurrou ela. — Sou a garota de gelo e neve, e acho que estou muito feliz em conhecer você.
A decepção tentou se infiltrar no peito de Jacin, mas o muro que ele erigiu fez seu trabalho, e o sentimento foi repelido tão rápido quanto apareceu.
Pelo menos, ela não estava tentando mordê-lo.
— Oi, garota da neve — disse ele, dobrando os dedos dela ao redor de um floco de neve imaginário. — Também estou feliz em conhecer você.

2 comentários:

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!