21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Noventa e sete

— Todos eles?
Cinder sorriu com a exuberância de Iko. Ela já tinha se divertido mais com a forma como Iko sorria para as fileiras e fileiras e mais fileiras de vestidos do que se divertiria com os próprios vestidos.
— Cada um deles — disse Cinder. — Nunca mais quero olhar para eles.
Ela já tinha passado mais tempo cercada por Levana do que pretendia. O perfume, os vestidos, as joias dela. Não tinha interesse no guarda-roupa da tia… mas Iko tinha, então poderia ficar com tudo.
Ela nunca tinha visto Iko tão satisfeita. Nem quando Thorne levou para ela o corpo de androide-acompanhante que encontrou no deserto. Nem quando o carregamento da Terra finalmente chegou com as partes para consertar o corpo quase destruído. Cinder tinha dito a ela que, com aquela quantidade de danos, seria mais econômico instalar o chip de personalidade em um corpo novo. Ela podia escolher o modelo que quisesse. Mas Iko recusou. Ela disse que tinha se apegado àquele, e, além do mais, o corpo de nenhum dos amigos era descartável, então por que o dela deveria ser?
Cinder não tinha um contra-argumento.
A única melhoria que Iko tinha pedido foi um par de olhos novos que mudavam de cor conforme o humor dela. Hoje, os olhos estavam amarelo-solar. Ela estava feliz, feliz, feliz.
— Você não vai se importar de vê-los em mim, vai? — perguntou Iko, puxando um laranja justo do cabide e o segurando junto ao peito.
— Não se eles deixarem você feliz assim.
— Onde vou usá-los? — Antes que Cinder respondesse, ela balançou a mão. — Deixe pra lá. Onde eu não os usaria? — Iko pendurou o vestido de volta e olhou para o armário de novo. Seus olhos escureceram, ficando mais alaranjados com um toque verde-limão nas beiradas. — Acho que me sinto culpada.
— Culpada?
Bufando, Iko apoiou as mãos nos quadris. Sua preocupação durou alguns momentos, mas logo ela sorriu de novo.
— Já sei. Vou escolher meus dez favoritos e vou vender o resto nas redes de roupas para androides. Podemos usar o lucro para construir escolas nos setores externos, ou em alguma outra coisa beneficente assim. — Passando o dedo por uma manga de renda, ela olhou para Cinder. — O que você acha?
Se os olhos de Cinder refletissem seus humores, estariam azul-safira de orgulho.
— Acho uma ótima ideia.
Iko sorriu e começou a mexer nas araras de novo, selecionando os favoritos, enquanto Cinder se virava para olhar o reflexo no espelho que tinha sido emprestado de uma das naves terráqueas. Ela ainda estava se acostumando a se ver tão… rainha.
Seu vestido era novinho. Apesar de ter pretendido usar uma das roupas de Winter novamente, algumas costureiras de Artemísia pediram permissão para criar o vestido de sua coroação, dizendo que seria uma honra. Cinder nem sabia que tinha expectativas até o vestido superá-las.
Feito com as cores oficiais de Luna, branco, vermelho e preto, o vestido continha mais tecido do que ela já tinha visto na vida. A saia branca pesada a envolvia como um sino, com uma cauda enorme que a seguiria pelo longo corredor. Havia pedras vermelhas e pretas por toda a barra da saia e no corpete. Um decote modesto, com manguinhas de meia cava, caía com perfeição nela.
Ela esperava que as costureiras também fizessem luvas para cobrir a mão ciborgue, mas não fizeram.
— Nada de luvas — disse uma delas quando Cinder perguntou. — E nada de véu.
Uma batida chamou a atenção dela para a porta, e o guarda, Kinney, entrou.
— Vossa Majestade — cumprimentou. A expressão respeitosa se tornou azeda quando ele se dirigiu a Iko. — Madame conselheira.
Os olhos de Iko ficaram acobreados de orgulho pelo título novo, apesar de ela retribuir a expressão do guarda.
— Sim, Kinney? — disse Cinder.
— O capitão e a tripulação dele estão pedindo uma audiência.
— Rá! — A voz de Thorne foi ouvida vinda do corredor. — Eu falei que conseguia fazer com que ele me chamasse de capitão.
Cinder revirou os olhos.
— Deixe que entrem.
Eles entraram antes que Kinney pudesse admiti-los, todos sorrindo e vestidos formalmente para a ocasião. Até Lobo estava de terno, embora Cinder não imaginasse que tivesse sido fácil encontrar um que coubesse no corpo alterado com tanta rapidez. A camisa vermelha combinava com o vestido deslumbrante de Scarlet, o tecido contrastando espetacularmente com o cabelo. Thorne estava de smoking e gravata-borboleta. Ele entrou empurrando Cress no aparelho flutuador; Cinder tinha sido informada de que os ferimentos dela estavam cicatrizando bem, e esperava-se que ela já estivesse fazendo pequenas caminhadas até o final da semana. Cress estava usando um vestido amarelo leve de Winter, ajustado a ela. Jacin estava de uniforme de guarda, mas tinha substituído a armadura tradicional dos ombros por dragonas impressionantes, deixando-o parecido com um príncipe ao lado de Winter, que estava ainda mais estonteante do que o habitual com um vestido branco que pareceria comum em qualquer outra pessoa. Kai acompanhava o grupo, com uma camisa preta social de gola chinesa.
Ele estava carregando uma bandeja de prata com um bolo redondo coberto com espirais de glacê amarelo. Cinder soube na mesma hora que não era de um dos chefs reais, cujas criações eram quase imaculadas demais para serem tocadas. Esse bolo, com o glacê desajeitado e pouca decoração, era incrivelmente despretensioso.
Com uma reverência, o guarda saiu pela porta. Iko mostrou a língua para as costas dele.
— O que está acontecendo? — perguntou Cinder. — A coroação começa em vinte minutos. Vocês todos já deviam estar em seus lugares.
— Foi ideia minha — disse Iko, se balançando nas pontas dos pés. — Eu sabia que você ficaria nervosa e pensei em fazer uma comemoração primeiro.
— E você fez um bolo?
— Foi Scarlet — disse Thorne.
Scarlet tirou o cabelo do ombro.
— É bolo de limão. É a receita especial da minha avó. Mas… — O olhar dela percorreu o vestido de Cinder. — … talvez você queira esperar até depois da coroação, para não se sujar de glacê.
Winter riu e pegou a bandeja da mão de Kai.
— Não vamos ser cruéis. Nunca se deve guardar bolo para depois se pode ser comido agora. — Ela colocou o bolo em um divã de seda de valor inestimável.
— Eu nunca comi bolo — disse Cress, atraindo muitos olhares surpresos. Ela estava segurando a mão de Thorne, mas pela primeira vez não se encolheu para mais perto dele, mesmo sendo o centro das atenções.
Iko cruzou os braços.
— Podemos fazer o favor de não começar a listar todas as comidas maravilhosas e sensacionais que nunca comemos?
— Isso resolve a questão — respondeu Thorne. — Quem trouxe talheres?
Ninguém tinha levado, então Jacin ofereceu sua faca. Eles se revezaram cortando pedaços pequenos de bolo e cobertura, comendo com os dedos até o bolo parecer a superfície cheia de crateras da Lua.
Naturalmente, Cinder sujou um pouco o vestido, deixando uma mancha de glacê amarelo na saia ampla. Ela ficou envergonhada, mas Iko ajeitou o caimento da saia para que as dobras a escondessem.
— Foi inevitável — disse Iko, com uma piscadela. — É parte do seu charme.
Cinder começou a rir, mas ficou em silêncio de repente por causa de um soluço no peito.
Ela olhou ao redor, para os sorrisos e braços passados por ombros, e para Winter lambendo glacê dos dedos. Para o bolo caseiro. Para a reunião de amigos. Uma comemoração para ela. Eram coisas bobas demais para deixarem uma pessoa impressionada, mas ela não conseguiu evitar. Nunca tivera esse tipo de coisa.
Um sentimento de gratidão inflou seu peito, e, apesar de ainda estar nervosa, ainda apavorada, ela percebeu que estava mais leve do que se sentia em dias.
— Vossa Majestade?
Ela levantou o rosto. Kinney tinha voltado.
— Está na hora.
Cinder engoliu em seco e se levantou, o coração disparado. O clima festivo ficou sério.
Lobo, que estava segurando a faca, comeu alguns pedaços de bolo antes de devolvê-la para Jacin. Jacin lançou um olhar para a lâmina coberta de glacê e farelos e enfiou no bolo, para que ficasse guardada.
— Estou pronta — disse Cinder. Sua respiração ficou difícil e o vestido apertava sua barriga. — Eu estou pronta, não estou?
— Espere. — Iko virou Cinder para si. — Sorria.
Cinder deu um sorriso nervoso, e Iko assentiu com orgulho.
— Não tem nada nos seus dentes. Eu diria que você está pronta.
Os amigos se reuniram em torno dela e deram um abraço atrás do outro.
Até que chegou em Kai, que passou os braços pela cintura dela e a beijou. Ele estava com gosto de glacê de limão.
Thorne assobiou. Iko ficou extasiada. O beijou terminou rápido demais.
— Qual foi o objetivo disso? — sussurrou Cinder para ele.
Kai passou o braço ao redor do ombro dela e a guiou para fora dos aposentos da rainha.
— Eu só estava pensando no futuro bom — disse ele. — Aquele que vai incluir você.


A coroação oficial da rainha Selene Channary Jannali Blackburn foi, em alguns aspectos, um evento íntimo e, em outros, uma sensação intergaláctica. Cinder fez um sorteio de ingressos para que todos os setores de Luna fossem representados, e todos os convidados juntos formavam uma plateia de algumas centenas de pessoas, que não ocupavam nem metade das cadeiras que foram colocadas para a cerimônia de Levana e Kai algumas semanas antes.
A filmagem foi transmitida, não só para todos os setores de Luna como também para todas as atualizações de notícias da Terra que se mostraram interessadas. Foi a transmissão mais vista da terceira era.
Enquanto Cinder andava pelo corredor infinito com o tapete preto, tentou não pensar em todas as pessoas do universo que lhe assistiam. Tentou não se perguntar se a estavam julgando e admirando, com medo ou admiração. Ela tentou não adivinhar quantos a viam como uma princesa perdida ou como uma ciborgue patética, uma justiceira ou uma criminosa, uma revolucionária ou uma mecânica inferior que tinha tido sorte.
Ela tentou não pensar na mancha de glacê amarelo no vestido de valor inestimável.
Kai e Winter estavam no altar, iluminados pelo brilho de esferas cintilantes, Winter segurando a coroa de rainha e Kai, um cetro cerimonial. Juntos, eles representavam Terra e Luna aceitando o direito dela de governar. Os outros amigos estavam nos assentos reservados na fileira da frente. Thorne, no corredor, esticou a mão quando Cinder passou. Ela riu e deu um “toca aqui” antes de subir a escada.
Winter piscou para ela.
— Muito bem, amiga Cinder. Você não tropeçou. A parte difícil já passou.
Kai deu um sorriso que era só para Cinder, apesar de o universo todo estar olhando.
— Ela está certa, essa é mesmo a parte difícil.
— Graças às estrelas — sussurrou Cinder. — Agora vamos acabar logo com isso.
Respirando fundo, trêmula, ela se virou para encarar seu reino.


O sangue tinha sido limpado do piso da sala do trono, mas o local ainda estava um desastre. Havia cadeiras caídas e corrimões quebrados, pisos e painéis rachados onde balas os tinham atingido. Até a pedra do trono estava danificada, de quando Cinder tentou atirar em Levana. A sala tinha cheiro de produtos químicos e de água sanitária da limpeza.
Os horrores da rebelião estavam começando a sumir. Talvez não para os que perderam amigos e familiares, e Cinder sabia que ainda havia muito a ser feito para que Luna juntasse as peças do governo de Levana. Mas eles estavam ansiosos para começar a recolhê-los o mais rápido possível.
Ela tinha começado a compilar conselhos formados de membros da corte de Artemísia e de cidadãos indicados dos setores externos, para cobrir o vão entre as classes, e a pensar na melhor forma de realocar fundos e trabalho. As “famílias” e os taumaturgos estavam começando a apresentar resistência, mas tudo bem. Levaria um tempo, mas eles se ajustariam.
Ela estava sentada no trono, no ar silencioso e tomado de produtos químicos, pelo que podiam ser horas, vendo a cidade de Artemísia cintilar à frente e a Terra girar acima do horizonte.
As portas se abriram. Kai apareceu, e Cinder ficou tensa e culpada por ser pega no trono, mesmo sendo o trono dela, sozinha na escuridão.
— Aí está você — disse ele.
— Desculpe — falou ela. — Estou meio escondida. Você acreditaria que, quando se é rainha, é muito difícil conseguir um momento de privacidade?
Com um sorrisinho, Kai fechou a porta. Manteve uma das mãos nas costas ao se aproximar dela.
— Posso sugerir que você compre um moletom com capuz? É um disfarce surpreendentemente adequado. — Ele fez uma pausa quando viu a Terra acima da varanda, toda linda e enorme no céu escuro. — É uma visão e tanto.
Cinder assentiu.
— Não querendo justificar o que Levana fez, mas eu até entendo por que ela queria tanto a Terra.
Como ele não disse nada, ela o encarou, e logo soube o que Kai tinha ido até ali para dizer. Seu coração doeu.
— Você vai embora, não vai?
Ele se virou de costas para a vista.
— Em dois dias. Dois dias terráqueos. — Ele franziu a testa em um pedido de desculpas. — Já passei tempo demais longe.
Ela tentou sufocar o desespero que tomou conta de si. Kai iria embora. Thorne, Cress, Lobo e Scarlet já tinham ido, Winter e Jacin partiriam na primeira viagem diplomática nos próximos dias, e ela ficaria sozinha.
Bem, ela e Iko ficariam sozinhas.
Ela estava esperando. Sabia que ele não poderia ficar para sempre. Ele tinha o próprio país para governar.
— Certo — disse ela, fingindo confiança. — Eu entendo. Você foi de grande ajuda, você e Konn-dàren. Ele… ele também vai?
Kai fez uma careta.
— Vai. Desculpe.
— Não. Vocês… vocês têm que voltar para casa. Claro que têm.
— Você deveria ir nos visitar — disse ele, falando rápido. — Em breve. Seria simbólico, eu acho, para a nova aliança… — Ele parou de falar e coçou a nuca, com uma das mãos ainda escondida. — Ou eu poderia criar um dilema político que precisássemos resolver, se ajudar.
Cinder forçou um sorriso.
— Eu gostaria de ir visitar. Eu… Iko e eu vamos sentir sua falta.
— Acho que você vai descobrir que ser rainha não deixa muito tempo sobrando para a solidão.
— Vamos ver.
De repente, pareceu estranho estar sentada no trono enquanto Kai estava logo abaixo.
Ela se levantou e cruzou os braços, chegando perto da varanda. A ansiedade já estava crescendo dentro dela. Dois dias. Mais dois dias e ele vai embora.
Havia tanta coisa que queria dizer a ele, e dois dias não seriam suficientes para expressar tudo… principalmente com todas as palavras ainda presas na garganta.
— É estranho — disse Kai, juntando-se a ela na sacada de vidro, com o olhar grudado na Terra de novo. — Eu passei todo esse tempo tentando evitar uma aliança de casamento com Luna. E agora que o tratado está assinado e a guerra acabou… de alguma forma, uma aliança de casamento não parece tão ruim.
O coração dela pulou. O olhar de Kai dançou até ela, e ele sorria de um jeito que parecia ao mesmo tempo tímido e confiante. Era o mesmo sorriso que deu no dia em que se conheceram na feira. Depois de um momento longo e constrangido, ele riu.
— Você não é capaz mesmo de ficar vermelha, não é?
Uma mistura de alívio e decepção tomou conta dela, que enfiou as mãos debaixo dos braços para esconder o tremor.
— Isso não foi legal.
— Só se você achar que eu não estava falando com sinceridade.
A testa dela se franziu.
— Aqui, tenho uma coisa para você.
— É melhor não ser uma aliança de noivado.
Kai fez uma pausa acompanhada de um beicinho, como se o pensamento não tivesse lhe ocorrido e, por isso, ele lamentasse.
— Nem luvas — acrescentou Cinder. — Não funcionou muito bem da última vez.
Sorrindo, Kai deu um passo à frente e se apoiou em um dos joelhos.
Ela arregalou os olhos.
— Cinder…
O coração dela disparou.
— Espere.
— Estou esperando há muito tempo para dar isso a você.
— Kai…
Com expressão tão séria quanto política, ele tirou a mão das costas. Nela havia um pequeno pé de metal, com fios saindo da cavidade e juntas cheias de graxa.
Cinder soltou o ar e começou a rir.
— Você… ugh.
— Você está terrivelmente decepcionada? Tenho certeza de que Luna tem ótimas joalherias, se você queria que…
— Cale a boca — disse ela, pegando o pé. Ela o virou nas mãos e balançou a cabeça. — Eu fico tentando me livrar dessa coisa, mas ela vive arrumando um jeito de voltar para mim. O que fez você guardar?
— Percebi que, se eu encontrasse a ciborgue em quem esse pé cabe, devia ser um sinal de que fomos feitos para ficar juntos. — Ele repuxou os lábios para o lado. — Mas então me ocorreu que provavelmente caberia em uma criança de oito anos.
— De onze, na verdade.
— Quase a mesma coisa. — Ele hesitou. — Para ser sincero, acho que era a única coisa que eu tinha para me conectar a você quando achei que nunca mais a veria.
Ela desviou o olhar do pé.
— Por que você ainda está de joelhos?
Kai alcançou a mão prostética dela e roçou os lábios nos dedos recém-polidos.
— Vai ter que se acostumar com as pessoas se ajoelhando diante de você. Faz parte do pacote.
— Vou criar uma lei que corrige o jeito de se dirigir a um soberano como sendo com um tapinha na mão.
O sorriso de Kai aumentou.
— Isso é genial. Eu também.
Cinder puxou a mão de volta e se sentou, deixando as pernas penduradas na beirada.
Os pensamentos ficaram sérios de novo enquanto ela olhava para o pé de metal.
— Na verdade, tem uma coisa sobre a qual eu queria sua opinião.
Kai se sentou ao lado dela. Sua expressão tornou-se de curiosidade, e ela afastou o rosto e se preparou.
— Eu acho… — Ela parou. Engoliu em seco. Recomeçou. — Eu decidi dissolver a monarquia lunar.
Ela apertou os lábios e esperou. O silêncio ficou sólido no espaço entre os dois. Mas Kai não perguntou “Por quê?” nem “Como?” nem disse: “Você está maluca?”
O que disse foi:
— Quando?
— Não sei. Quando as coisas tiverem se acalmado. Quando eu achar que eles vão aceitar. — Ela respirou fundo. — Vai acontecer de novo. Algum rei ou rainha vai fazer lavagem cerebral nas pessoas, vai usar seu poder para escravizá-las… Tem que haver alguma divisão de poder, algum equilíbrio… então, decidi fazer de Luna uma república, com representantes eleitos e tudo. — Ela mordeu o lábio. Sentia-se tola falando de política como se entendesse das coisas, e só quando Kai assentiu, pensativo, foi que se deu conta do quanto a aprovação dele era importante para ela. Cinder engoliu em seco. — Você acha uma boa ideia?
— Eu acho que vai ser difícil. As pessoas não gostam de mudanças, e mesmo os cidadãos que eram oprimidos por Levana aceitaram você imediatamente como nova rainha. Além do mais, eles têm toda aquela superstição sobre a linhagem real. Mas… eu acho que você está certa. Acho que é disso que Luna precisa.
Ela sentiu como se uma lua inteira tivesse sido tirada dos ombros.
— O que você vai fazer, então? Depois que abdicar?
— Não sei. Ouvi falar que Thorne está procurando um mecânico em tempo integral. — Ela deu de ombros, mas Kai continuou com expressão pensativa. — O quê?
— Acho que você deveria voltar para a Comunidade. Você poderia ficar no palácio como embaixadora lunar. Seria uma demonstração de boa-fé. Prova de que a Terra e Luna podem trabalhar juntas, em concordância.
Cinder mordeu o lábio.
— Achei que o povo da Comunidade me odiasse — disse ela. — Por causa do sequestro. E de todas as outras coisas que aconteceram.
— Por favor. Você é a princesa perdida que os salvou do reinado da imperatriz Levana. Eu soube que tem um fabricante de brinquedos que quer fazer bonequinhas suas. E querem botar uma estátua onde ficava sua barraquinha na feira.
Ela fez uma careta.
Rindo, Kai segurou a mão dela.
— Sempre que você voltar, vai ser recebida de braços abertos. E, depois de tudo o que aconteceu, provavelmente vai ter duzentos mil caras querendo levar você ao Baile Anual da Paz no ano que vem. Minha expectativa é que as propostas comecem a chegar a qualquer momento.
— Duvido muito.
— Espere só para ver. — Ele inclinou a cabeça, com mechas de cabelo caindo nos olhos. — Achei que não faria mal botar meu nome na lista antes que outra pessoa roube você. Se começarmos agora e planejarmos visitas frequentes entre a Terra e Luna, pode ser até que eu tenha tempo de ensinar você a dançar.
Cinder mordeu o lábio para disfarçar um sorriso.
— Por favor, diga sim — disse Kai.
Mexendo nos fios soltos do pé antigo, ela perguntou:
— Eu vou ter que usar vestido?
— Eu não ligo se você usar coturnos e calça cargo.
— É bem capaz de eu usar isso mesmo.
— Que bom.
— Iko me mataria. — Ela fingiu estar pensando, e ergueu o olhar para o céu. — Posso levar meus amigos?
— Vou convidar pessoalmente toda a tripulação da Rampion. Vamos transformar o evento em um reencontro.
— Até Iko?
— Vou arrumar um par para ela.
— Porque tem uma regra que proíbe androides de irem ao baile, sabe.
— Acho que conheço uma pessoa que pode mudar essa regra.
Sorrindo, ela chegou um pouco mais perto. A ideia de voltar ao baile e encarar todas aquelas pessoas que a observaram com tanto horror e desprezo a encheu de quantidades absurdas de tudo, de ansiedade e medo a alegria indescritível.
— Eu ficaria honrada — disse ela.
Os olhos dele se aqueceram.
— E aquelas aulas de dança?
— Não force a barra.
Kai puxou o queixo dela e a beijou. Ela não sabia qual era o número desse; tinha enfim descoberto como desligar a função de contagem automática do cérebro e não ligava para quantas vezes ele a tinha beijado. Mas gostava do fato de cada beijo não dar mais a sensação de ser o último.
Só que, quando Kai se afastou, um toque de tristeza tinha surgido na expressão dele.
— Cinder, eu acho que você seria uma ótima governante. Acredito que essa decisão é uma grande prova disso. — Ele hesitou. — Mas também sei que você nunca quis ser rainha. Não de verdade.
Cinder nunca tinha lhe dito isso e se perguntou se ficou tão óbvio durante todo aquele tempo.
— Mas eu tenho que perguntar… — Kai hesitou. — Você acha que, um dia, pode considerar ser imperatriz?
Cinder se obrigou a sustentar o olhar dele e a engolir a piada que surgiu na ponta da língua. Ele não a estava provocando com anéis de noivado e aulas de dança. Era uma pergunta de verdade, de um imperador de verdade, que tinha o futuro verdadeiro do país a levar em consideração.
Se ela quisesse ser parte do futuro dele, teria que fazer parte de tudo.
— Eu consideraria — disse ela, e respirou fundo pela primeira vez em dias. — Um dia.
O sorriso dele voltou, com força e alívio.
Ele passou o braço ao redor dela, e Cinder não escondeu o sorriso quando se encostou nele, olhando o lago Artemísia e a cidade branca e o planeta Terra cercado de estrelas.
Ela girou o pé incômodo e odioso nos dedos. Desde que conseguia se lembrar, aquele pé fora um peso. Um lembrete constante de que ela era inútil, de que não era importante, de que não passava de uma ciborgue.
Ela segurou o pé acima da água e o soltou.



E todos viveram felizes até o fim de seus dias.

5 comentários:

  1. Não sei o q dzr.
    Eu amei esse livro mas de um modo diferente , sla.
    Me chame de ingênua mas amo finais felizes.

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  2. Aaaaaaaaaaaaahhh! <3 caramba como eu amei esses personagens,Iko e Thorne melhores pessoa e androide. Ai meu coração apertou por saber que acabou. Queria que tivesse um enterro ou mostrasse o corpo de Levana no final...

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    1. Thorne é a melhor pessoa!!
      Só ele mesmo p me fazer rir a série inteira ❤

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  3. poxa queria a Iko com o guarda, não acredito preciso de mais...

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  4. Estou sem palavras! Essa série me impactou de uma forma que nem sei explicar
    É engraçada, mas ao mesmo tempo aborda assuntos muito sérios, tem os melhores personagens (principalmente Thorne, ainda estou em negação pelo fato dele não ser de verdade, ele me cativou demais), é emocionante e totalmente única ❤
    Incrível como a autora conseguiu transformar elementos dos contos de fadas em algo tão complexo e viciante!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!