21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Noventa e seis

Winter pegou uma vareta no chão e a jogou na direção da cerca ao redor da jaula, mas o fantasma Ryu só inclinou a cabeça para o lado.
Suspirando, ela colocou as mãos no colo.
As crises ainda iam e vinham, mas os médicos a consideraram lúcida o bastante para tomar a decisão: ela preferia ficar na clínica, onde podia ser amarrada quando tinha as crises explosivas, ou preferia usar braceletes de choque que podiam incapacitá-la quando necessário? Ela escolheu essa liberdade imaginária, pensando em Ryu e na coleira que jamais o deixava sair da jaula, mesmo que tenha parecido fácil de escapar no começo.
Jacin odiou a ideia. Ele argumentou que a mente dela já era bem frágil sem o medo dos choques aleatórios. Mas Winter precisava sair da clínica. Precisava fugir dos pesadelos que a assombravam.
Ela ia com frequência ao jardim desde que foi liberada, pois o achava um dos poucos lugares serenos em uma cidade tomada de conversas sobre reconstrução e mudança política. Tudo isso era muito importante, claro. Ela sempre quis que seu país fosse um local onde as pessoas pudessem falar abertamente o que pensavam e serem tratadas com justiça, onde as pessoas tivessem escolhas sobre a vida que queriam viver. Mas a falação fazia a cabeça dela doer. Quando o mundo começava a girar e sair do controle, ela preferia se recolher a um lugar pacífico e solitário, onde não podia machucar ninguém além de si mesma.
Os delírios não eram mais constantes como nos dias seguintes à batalha, apesar de sua mente ainda a enganar e fazê-la ver a sombra da madrasta no palácio, esperando com uma faca afiada e palavras cruelmente gentis. Ou o brilho dos olhos de Aimery a seguindo pelos corredores. Era comum que ela sentisse cheiro de sangue escorrendo pelas paredes.
Na primeira vez em que foi ao jardim, o fantasma de Ryu a estava esperando.
Na incerteza da revolução, os guarda-caças fugiram e ainda não tinham sido encontrados. Os animais estavam famintos e inquietos, e Winter passou o dia indo até os depósitos onde ficava a comida, limpando as jaulas e transformando o jardim no santuário que sempre tinha sido para ela. Quando Jacin foi procurá-la, convocou criados para ajudarem também.
Ocupar-se foi bom para ela. Não era uma cura, mas ajudou. Até onde os outros sabiam, ela era a guarda-caça, apesar de todo mundo ainda a chamar de princesa e fingir que ela não estava com cheiro de bosta.
Ryu pousou a cabeça no colo de Winter, e ela o acariciou entre as orelhas, esse fantasma triste que não brincaria mais de pegar.
— Princesa.
Ryu evaporou. Jacin estava encostado no muro, não muito longe de onde tinha fingido seu assassinato. Onde ela o beijou e ele a beijou de volta.
Com essa lembrança, Winter ficou submersa. Em água e gelo, em quente e frio. Ela tremeu.
A testa de Jacin se contraiu de preocupação, mas ela sufocou a lembrança. Não era uma alucinação. Só uma fantasia normal, que uma garota normal podia ter quando tinha uma quedinha normal pelo melhor amigo.
— Você não precisa me chamar assim, sabe — disse ela, tirando o cabelo dos ombros. — Houve uma época em que você me chamava de Winter.
Ele apoiou os cotovelos no muro.
— Também houve uma época em que eu podia visitar você sem a sensação de que precisava jogar pedaços de pão para chamar sua atenção.
— Pedaços de pão? Eu pareço um ganso?
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Você também não parece um lobo do ártico, mas é isso que a placa me diz que estou vendo.
Winter se apoiou nas mãos.
— Eu não vou brincar de pegar — disse ela. — Mas posso uivar se você pedir direito.
Ele sorriu.
— Eu já ouvi seu uivo. Também não é muito lupino.
— Andei treinando.
— Você não vai me morder se eu entrar aí, vai?
— Não garanto nada.
Jacin pulou a grade e se sentou ao lado dela. Ela ergueu uma das sobrancelhas.
— Você também não parece um lobo do ártico.
— Eu também não uivo. — Ele pensou. — Mas posso brincar de pegar, dependendo do prêmio.
— O prêmio é outra brincadeira de pegar.
— Sua negociação é implacável.
Ela curvou os lábios para cima, mas, quando pareceu que Jacin ia retribuir o sorriso, ele afastou o olhar.
— Você e eu temos um pedido de Cin… Selene. Agora que o tratado está assinado, ela quer começar a discutir o acordo de comércio entre Luna e a Terra. Além de comunicação aberta, viagens, acesso à mídia terrestre, coisas assim.
Ryu bateu com a cabeça entre as omoplatas de Winter. Ela esticou o braço para trás e tentou coçar embaixo da orelha dele, mas assim que o tocou ele sumiu.
Jacin a estava observando.
— O lobo de novo?
— Não se preocupe. Ele perdoou você.
Ele franziu a testa.
— O que podemos fazer para ajudar Selene com a política dela?
— Ah, considerando que você é tão terrivelmente encantadora e que fez um trabalho tão bom ao convocar os soldados lobos a se juntarem a nós, e que todo mundo gosta tanto de você…
— Tantos elogios seguidos? Sinto que estou indo para uma armadilha.
— Exatamente. Cinder acha que você seria uma boa embaixadora. A primeira embaixadora dela.
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— O que eu teria que fazer?
— Não sei direito. Ir à Terra. Jantar com gente chique. Mostrar que os lunares não são todos monstros.
Ela sorriu, sentindo-se lupina.
— Eu falei para ela que perguntaria — acrescentou Jacin. — Mas você não é obrigada a aceitar. Precisa se cuidar primeiro.
— Você iria comigo?
— Claro. — Ele cruzou os tornozelos. — Mas você pode dizer não, e eu também vou estar com você nesse caso. Não vou mais servir ninguém. — Ele se apoiou nos cotovelos novamente. — Quem sabe. Talvez um dia eu comece a estudar para ser médico de novo. Mas, até lá, sou seu guarda, para fazer o que você quiser.
— Então vai ser uma brincadeira de a Princesa e o Guarda — disse ela, lembrando-se da brincadeira que eles faziam quando pequenos. Fingia ser uma versão bem mais mandona de como era, enquanto Jacin imitava os pais dos dois, estoico, sério e se esforçando para obedecê-la. Quando Winter ficava sem ordens para dar, eles fingiam que havia assassinos e sequestradores indo pegar a princesa, e ele a protegia deles.
Jacin sorriu.
— Espero que seja com menos sequestros.
Ela encostou a bochecha no ombro dele.
— Se é o que Cinder deseja, eu ficaria honrada em encantar o povo da Terra.
— Eu achava que você iria dizer isso. — Ele se encostou e passou a mão na testa.
Ryu uivou, abrindo a alma para o teto de vidro coberto de trepadeiras. Ele não costumava ficar tão agitado. Talvez fosse a presença de Jacin. Talvez Ryu estivesse tentando falar com ela.
Talvez fosse a insanidade dela, e não significasse nada.
Winter começou a falar, mas parou. Ela olhou para Jacin, mas ele estava cobrindo os olhos com a mão. Ela se perguntou se ele andava dormindo direito ultimamente.
— A dra. Nandez disse que talvez consiga finalizar um protótipo do dispositivo de Cinder em uma semana.
Jacin levantou a mão.
— Já?
— Ela ainda não sabe se vai funcionar. Precisa de uma cobaia primeiro.
— Princesa…
— Eu já me voluntariei. Você pode tentar me convencer a não fazer isso, mas estou preparada para ignorar você.
Com o maxilar contraído, Jacin se empertigou de novo.
— Cobaia? Não sabemos quais vão ser os efeitos colaterais. Não sabemos nem se vai funcionar. Deixe que outra pessoa experimente primeiro.
— Eu quero fazer isso. Sou um dos casos mais severos de doença lunar até o momento. — Ela afundou os dedos no pelo do lobo. — Mas já me ocorreu que, se funcionar, eu não vou voltar a ver Ryu. — Ela deu um sorriso triste. — E se… e se as pessoas não gostarem mais de mim?
Jacin balançou a cabeça.
— Elas gostam de você não por você ser maluca. Gostam porque…
Ela esperou.
— Porque você foi boa com elas quando ninguém mais foi. Porque você se importa. Esse dispositivo não vai mudar quem você é.
— Você quer que eu seja consertada, não quer?
Jacin recuou, como se ela tivesse jogado alguma coisa nele.
— Você não está com defeito.
A visão dela começou a ficar borrada.
— Sim, Jacin. Estou.
— Não, você… — Ele rosnou, um som grave e frustrado que a deixou tonta. — Olhe, eu adoraria não precisar me preocupar mais com você. Não ter medo de você se machucar ou de alguém tirar vantagem de você. Mas você não… você…
— Eu sou delirante e maluca e estou danificada. Já sei há muito tempo, nós dois sabemos. Scarlet me diz o tempo todo.
— Você é perfeita — disse ele, terminando o pensamento como se ela não o tivesse interrompido. — Não ligo se você vê lobos mortos e vira uma escultura viva de gelo quando está tendo um dia ruim. Não ligo se tenho uma marca dos seus dentes no meu ombro. Não ligo se você for… consertada. — Ele cuspiu a palavra como se tivesse gosto ruim. — Quero que você fique bem e feliz. Só isso.
Winter bateu os cílios para ele, e Jacin se virou.
— Não me olhe assim.
— Eu quero ser a cobaia. — Ela esticou a mão para a dele. — Vou ficar bem e feliz quando não tiver mais medo da minha própria mente.
Jacin apertou bem os lábios e assentiu. Devagar.
— Só não gosto da ideia de você ser a primeira — resmungou ele.
— Jacin?
Ele fitou os olhos dela de novo.
Winter chegou mais perto, e encaixou o braço no dele.
— Você me acha perfeita?
Ele não afastou o olhar. Não pareceu tímido nem nervoso. Só a observou, como se ela tivesse perguntado se Luna girava ao redor da Terra.
Então, ele se inclinou e deu um beijo na testa dela.
— Mais ou menos — disse Jacin. — Você sabe. Em um dia bom.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!