21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Noventa e quatro

Ainda com as pernas fracas, Cinder se segurou no braço de Kai enquanto ele a guiava pelo palácio de Artemísia pela primeira vez desde a insurreição. Ao redor, as janelas enormes e as paredes de azulejos cintilavam na luz do sol. Era tão lindo. Ela tinha dificuldade de acreditar que era dela.
Seu palácio, seu reino, seu lar.
Ela se perguntou quanto tempo demoraria para se tornar real.
Iko escolheu seu vestido, bem simples, tirado do armário de Winter, e prendeu o cabelo dela em um penteado arrumado. Cinder estava com medo de mover a cabeça e tudo despencar. Ela sabia que deveria se sentir majestosa e poderosa, mas se sentia uma garota fraca brincando de faz de conta.
Ela tirou forças da presença de Kai de um lado e de Iko do outro, apesar de Iko não parar de levantar a mão e ajeitar seu cabelo. Cinder bateu na mão dela.
Pelo menos o braço de Iko estava funcionando de novo. A dra. Nandez tinha conseguido recuperar boa parte da funcionalidade do corpo, mas ainda havia muitos danos a serem consertados.
Quando eles dobraram uma esquina, ela viu seu novo guarda pessoal, Liam Kinney, junto com o conselheiro de Kai, Konn Torin. Ao lado deles estavam Adri e Pearl.
Cinder hesitou, com a pulsação acelerando.
— Cinder.
Ela olhou nos olhos de Kai, para o sorriso encorajador, e sentiu o coração dar um nó por um motivo completamente diferente.
— Sei que isso é estranho — disse ele —, mas estou aqui se você precisar de mim. Só que você não vai precisar de mim. Vai se sair muito bem.
— Obrigada — murmurou ela, resistindo a uma vontade enorme de abraçá-lo, de se aninhar nos braços dele e se esconder do resto da galáxia. Talvez para sempre.
— Além disso… — Ele baixou a voz. — … você está linda.
Foi Iko quem respondeu:
— Obrigada por reparar.
Kai riu, enquanto Cinder, com os pensamentos flutuando em todas as direções, baixou a cabeça.
Cinder seguiu mancando, fazendo questão de não olhar para a família adotiva. Quando estava perto o bastante, Konn Torin fez uma reverência para ela. Respeito diplomático, pensou Cinder, lembrando-se dos muitos olhares severos que recebeu daquele homem desde que o viu pela primeira vez no baile anual. Mas, quando ele levantou a cabeça, estava sorrindo. Na verdade, parecia bem simpático.
— Vossa Majestade — disse ele. — Em nome do povo da Comunidade das Nações Orientais, quero agradecer por tudo o que você fez e tudo o que vai fazer.
— Ah, hã. É. Disponha.
Engolindo em seco com dificuldade, ela ousou olhar para Adri.
O rosto da madrasta estava meio cadavérico. O número de cabelos brancos tinha triplicado nas últimas semanas. Houve um momento em que Cinder pensou em mil coisas que poderia dizer para aquela mulher, mas nenhuma delas parecia mais importante.
Adri baixou o olhar para o chão. Ela e Pearl fizeram reverências constrangidas.
— Vossa Majestade — disse Adri, parecendo estar mastigando um limão amargo.
Ao lado dela, Pearl também resmungou, de maneira quase imperceptível:
— Vossa Majestade.
Iko fez um ruído debochado, um som de desprezo que Cinder não achava que acompanhantes eram capazes de fazer.
Olhando para o alto da cabeça de Pearl e Adri, ela tentou dar uma resposta graciosa, alguma coisa que Kai diria. Coisas que uma boa rainha teria feito para aliviar a tensão.
Para oferecer perdão.
Mas ela só se virou.
Kinney levou o punho ao peito, e Cinder deu o que esperava que fosse um aceno real, e Kai a levou por um par de portas. Ela pediu a ele para encontrar um lugar neutro para a reunião; nem a sala do trono, que tinha visto tanto sangue, nem o solar da rainha, nem o local onde Levana conduziria esse tipo de coisa. Ela entrou em uma sala de reuniões com uma mesa de mármore enorme e dois nódulos holográficos desligados.
A sala já estava cheia. Ela engoliu em seco, o silêncio sepulcral quase a fazendo voltar para o corredor. Reconheceu a maioria das pessoas, mas a interface do cérebro não perdeu tempo nenhum em levantar os perfis da base de dados na rede.
Presidente Vargas, da República Americana.
Primeira-ministra Kamin, da União Africana.
Rainha Camilla, do Reino Unido.
Governador-geral Williams, da Austrália.
Primeiro-ministro Bromstad, da Federação Europeia.
A dra. Nandez, aclamada cirurgiã cibernética, e Nainsi, a androide que Cinder consertou para Kai tanto tempo antes. Ela foi levada para Luna para gravar essa ocasião para os registros oficiais da Terra.
Adri e Pearl foram levadas ao redor da mesa.
Só sobravam Iko, Kai, Konn Torin e a própria Cinder… ou Sua Majestade Real, rainha Selene Channary Jannali Blackburn de Luna. Ela se perguntou se não seria um problema pedir que todo mundo a chamasse de Cinder.
Antes que pudesse falar, os líderes mundiais se levantaram e começaram a aplaudir.
Cinder se encolheu.
Um a um, contornaram a sala e fizeram reverências.
Sentindo um pânico repentino, Cinder olhou para Kai. Ele mexeu um ombro só, dando a ideia de que, sim, é esquisito, mas você se acostuma.
Quando o círculo chegou a ele, Kai também levou o punho ao peito e inclinou a cabeça, a melhor reverência que podia fazer ainda a apoiando com um braço.
— O-Obrigada — gaguejou ela, perguntando-se se deveria fazer uma reverência, mas não seria capaz de fazer uma reverência graciosa nem em seus melhores dias, e seria desastroso com todos os seus ferimentos. Então esticou a mão ciborgue para eles. — Hã, sentem-se por favor.
Os aplausos morreram, mas ninguém se sentou.
Kai levou Cinder até a cabeceira da mesa e a ajudou a se sentar. Só então os outros se sentaram, Kai na cadeira à direita de Cinder. Adri e Pearl ficaram entre Konn Torin e o presidente Vargas. Elas pareciam extremamente constrangidas.
— Hum. Obrigada a todos por virem tão subitamente — começou Cinder. Ela tentou cruzar as mãos em cima da mesa, mas pareceu estranho, então as apoiou no colo. — Tenho certeza de que todos vocês estão ansiosos para voltar para casa.
— Peço desculpas por interromper — disse a rainha Camilla, sem parecer lamentar nada. — Mas eu gostaria de aproveitar esse momento para dar meus parabéns pela recuperação do trono.
Outra salva de palmas começou seguindo as palavras da rainha, e Cinder teve a impressão de que não a estavam parabenizando por se tornar rainha, mas, sim, a si mesmos por não terem mais que lidar com Levana.
— Obrigada. Obrigada. Espero que vocês compreendam que eu… hã. Espero que vocês tenham paciência comigo. Isso tudo é novo para mim, e eu não…
Eu não sou rainha de verdade.
Ela olhou ao redor, para os rostos ansiosos e esperançosos a observando como se ela fosse alguma espécie de heroína. Como se ela tivesse feito uma coisa incrível. Seu olhar percorreu a mesa, e ela foi ficando mais nervosa e se sentindo mais inadequada a cada pessoa que via, mais velha, mais sábia, mais experiente… até Kai.
Assim que teve a atenção dela, ele piscou.
O estômago dela deu um nó.
Ela se virou e empertigou os ombros.
— Eu pedi que vocês viessem aqui hoje porque o relacionamento entre a Terra e Luna anda tenso há muito tempo, e meu primeiro ato como… — Ela hesitou e passou as mãos por cima da mesa de novo, entrelaçando os dedos. Alguns olhares se desviaram para o membro ciborgue, mas todos tentaram fingir que não tinham reparado. — Como meu primeiro ato como rainha de Luna, quero criar uma aliança de paz com a União Terráquea. Mesmo que seja apenas simbólica no começo, espero que seja o começo de um proveitoso e mutuamente benéfico… hã… — Ela olhou para Kai.
— Relacionamento? — sugeriu ele.
— Relacionamento. Relacionamento político. — Ela ajeitou a coluna, torcendo para não parecer tão idiota quanto se sentia. Mas, ao redor, os diplomatas estavam assentindo, cheios de respeito e concordância. — Estou ciente de que uma aliança pacífica vai começar com todas as unidades militares lunares sendo removidas de solo terrestre, e vou tentar garantir que a transição seja efetuada o mais rápido possível.
Um suspiro de alívio se espalhou entre os reunidos.
— Na verdade — prosseguiu Cinder —, o que eu sei é que, por instrução de Kai… do imperador Kai… Kaito? — Ela levantou as sobrancelhas para ele, percebendo que era a primeira vez que tinha que ser formal em sua presença.
Em resposta, Kai pareceu querer rir. Ela o encarou com irritação.
— Por instrução do imperador Kaito — continuou ela —, algumas dessas unidades militares já estão voltando para Luna.
Uma série de movimentos de cabeça. Eles já sabiam.
Ela engoliu em seco. Os ferimentos estavam começando a coçar junto com o latejar constante, sufocado por remédios. Ela esperava que seu primeiro ato como rainha não fosse um desmaio.
— Luna também vai continuar a produzir e distribuir o antídoto da letumose conforme for necessário e nossos recursos permitirem. Como vocês sabem, o antídoto estava sendo obtido a partir de lunares sem o dom, obrigados a ficar em estado de coma constante para que seu sangue fosse extraído, uma violação de direitos. Eu soube que pode ser possível fabricar plaquetas desenvolvidas em laboratório que imitem as de um cascudo… hã, de lunares sem dom, e espero orientar os esforços de pesquisa de Luna nessa direção, para encontrar uma solução que seja justa para todos. É claro que todas as amostras do antídoto que já temos em estoque serão enviadas para a Terra imediatamente.
Sinais de concordância. Sorrisos. Alívio e gratidão.
Cinder se preparou.
— Dito isso, eu tenho alguns… pedidos a fazer para vocês.
Quando o ar de vitória ao redor da mesa deu lugar a uma paciência fingida e a um toque de tensão, Cinder prendeu uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Quero deixar claro que esses pedidos são só… pedidos. Suas respostas não vão mudar nenhuma das promessas que fiz. Isso não é uma negociação.
Ela chegou mais perto da mesa.
— Primeiro. — Ela tentou manter contato visual com as pessoas, mas achou impossível e baixou o olhar para as mãos enquanto falava. — Durante anos, os ciborgues foram tratados como cidadãos secundários… — Ela limpou a garganta, sentindo a presença ardente de Kai ao lado. — Eu tive a experiência de crescer na Comunidade das Nações Orientais. Ciborgues menores de idade são vistos mais como um bem do que como uma pessoa, com direitos similares aos dos androides. Existe um preconceito contra nós, uma ideia de que, porque ganhamos habilidades não naturais, habilidades feitas pelo homem, nós somos um perigo para a sociedade. Mas não é verdade. Nós só queremos aceitação, como qualquer pessoa. Portanto, meu pedido é que todas as leis relacionadas a ciborgues sejam reexaminadas e que recebamos igualdade e os mesmos direitos básicos de todo mundo.
Ousando levantar o olhar, viu mais de um rosto vermelho, e ninguém arriscava fazer contato visual com ela. A nova rainha ciborgue de Luna.
Exceto Kai, que parecia com vergonha de estar no mesmo grupo dos outros. Mas, apesar da decisão dele de acabar com o recrutamento de ciborgues para os testes de letumose, a Comunidade continuava perpetuando muitas das mesmas injustiças do resto do planeta.
Kai foi o primeiro a assentir.
— A Comunidade concorda com seu pedido. Essas leis são injustas e antiquadas.
Depois de um longo silêncio, a rainha Camilla limpou a garganta.
— O Reino Unido também concorda. Vamos começar a reexaminar as leis assim que eu voltar.
O primeiro-ministro Bromstad admitiu timidamente que teria que convocar uma votação parlamentar antes de qualquer mudança poder ser feita na lei, assim como nas outras repúblicas, mas houve concordância geral na mesa. Não era um acordo genuíno, Cinder percebeu, e ela tentou disfarçar o quanto isso a repugnava. Ela sabia que não era porque uma ciborgue tinha salvado o mundo que eles estariam dispostos a abrir mão de gerações de preconceitos, mas esperava que fosse um começo.
— Segundo. Peço que todas as restrições sobre a imigração lunar sejam removidas. Os lunares devem ser livres para ir e vir entre Luna e a Terra como queiram; não quero que Luna pareça mais uma prisão para seus cidadãos. Da mesma forma, assim que estivermos preparados, vou abrir os portos de Luna para qualquer viagem e imigração terrestre. Como era quando Luna se tornou um país, e os negócios e as viagens eram encorajados. Sinto que é a única forma de nossas duas sociedades começarem a confiar uma na outra.
Enquanto falava, ela reparou em muitos olhares trocados entre os outros líderes.
Foi o governador-geral da Austrália quem ousou falar:
— Apesar de entender seus motivos, como vamos confiar que os lunares que vão para nossos países não vão… — Ele hesitou.
— Manipular vocês? — disse Cinder. — Fazer lavagem cerebral no seu povo? Cometer crimes indescritíveis contra a humanidade, sabendo o quanto seria fácil saírem impunes?
Ele deu um sorriso constrangido.
— Exatamente.
— Acredito que terráqueos e lunares podem coexistir pacificamente — disse Cinder. — Já vimos em Farafrah e em outras cidades do norte da África na última década, onde perto de quinze por cento da população é formada de imigrantes lunares. Eles trabalham juntos. Confiam uns nos outros.
— Quinze por cento? — repetiu a primeira-ministra Kamin. — Eu nunca ouvi essa estatística.
— Eles não divulgam, mas não pareceu ser segredo, nem mesmo para os terráqueos locais. Eles tinham formado um relacionamento mutuamente benéfico.
— Por mais romântico que esse pensamento seja — disse Kamin —, com todo o respeito, você é muito jovem, Vossa Majestade. Pode não estar ciente de que houve uma época em que se encorajava viajar entre a Terra e Luna, e que, naquela época, vivenciamos episódios de lavagem cerebral em massa do nosso povo, forçando suicídios, estupros… Além de ser difícil provar quando um lunar manipulou um terráqueo, em metade das vezes não conseguimos nem saber que um crime foi cometido. — Ela parou quando sua voz começou a se elevar. — Claro que não falo com desrespeito à senhora, Vossa Majestade.
— Não houve desrespeito — falou Cinder. — Na verdade, estou bem familiarizada com o Massacre de New Haven do ano 41 da Terceira Era, com as Marchas Irracionais do ano 18 da Terceira Era, com o caso altamente divulgado de Roget contra Caprice na Segunda Era e, ah, uns mil outros exemplos notáveis de lunares usando o dom no povo da Terra.
Kamin pareceu surpresa. Na verdade, a mesa toda pareceu bastante surpresa.
Inclinando-se para a frente, Cinder falou com clareza.
— Eu tenho um computador no cérebro — afirmou ela. — Então, embora eu não vá dizer para você que sou a pessoa mais inteligente nem a mais experiente desta sala, eu sugeriria que ninguém use minha juventude para acreditar que também sou ignorante.
— Claro — respondeu Kamin, tensa. — Me perdoe. Eu não quis ofender.
— Suas preocupações são legítimas — comentou Cinder. — Se eu pudesse oferecer uma solução, uma promessa de que nenhum terráqueo seria manipulado novamente, ou que pelo menos teria a oportunidade de se proteger contra a manipulação, vocês concordariam com meu pedido?
— Poderia ser analisado — disse o presidente Vargas. — E posso dizer que eu estou morrendo de vontade de saber que solução é essa.
— Certo. — Cinder indicou a madrasta com a mão. — Esta é Linh Adri, cidadã da Comunidade das Nações Orientais.
Adri levou um susto e percorreu a mesa de pessoas muito importantes com o olhar.
— O marido de Adri, um homem chamado Linh Garan, foi um inventor que se especializou em sistemas de androides e cibernética. Ele faleceu, mas, quando estava vivo, inventou um… dispositivo. É acoplado ao sistema nervoso de uma pessoa e pode protegê-la de ser manipulada pelo dom lunar. Levana soube recentemente sobre esse dispositivo e fez o que pôde para destruir todas as patentes e esquemas do dispositivo, chegando ao ponto de prender Adri, a dona da tecnologia por direito, aqui em Luna.
Adri tinha ficado pálida.
— Desculpem-me, mas não sei nada sobre isso. Esse dispositivo, se é que existiu, já não existe há muito…
— Bem, mais ou menos não existe — interrompeu Cinder. — Até onde eu sei, só houve dois protótipos em funcionamento. Um estava em uma mulher terráquea chamada Michelle Benoit, que foi morta durante os ataques a Paris. O outro está dentro de mim. — Ela se virou para a dra. Nandez, cujo interesse parecia ter aumentado desde que a reunião começou.
Inclinando-se para a frente, a médica apoiou o queixo na mão.
— No seu áxis? — disse ela. — Eu vi no seu holograma, mas não sabia o que era.
Cinder assentiu.
— Estou com esperanças de que você me diga que o dispositivo pode ser removido com segurança e que o hardware pode ser reproduzido. Se conseguirmos copiá-lo, pode chegar um momento em que todo mundo que quiser evitar a manipulação bioelétrica vai ter o poder para isso.
Uma agitação descrente.
— Isso é possível? — perguntou o presidente Vargas.
— Sem dúvida — respondeu Cinder. — Funcionou em mim e funcionou em Michelle Benoit.
— Odeio ser pessimista — disse a dra. Nandez —, mas seu dispositivo instalado pareceu estar com danos sérios. Apesar de ser possível usá-lo para criar um projeto de hardware, é preciso considerar que qualquer programação pode ter sido permanentemente danificada. Se a rainha Levana de fato mandou destruir os dados, não sei com que facilidade pode ser reproduzido.
— Você está certa. O meu foi destruído. — Cinder lançou um olhar para Adri e Pearl, que estavam franzindo a testa enquanto tentavam acompanhar a conversa. — Por sorte, Linh Garan criou um backup do software do dispositivo. Ele foi inteligente o bastante para esconder em um lugar onde ninguém pensaria em procurar. Você sabe, Linh-jie?
Surpresa com o termo formal, Adri balançou a cabeça.
— Ele escondeu dentro do chip de personalidade de um Serv9.2 inferior.
Iko deu um gritinho.
Um rubor subiu para as bochechas de Adri. Uma compreensão foi surgindo, junto com horror.
— Ah… mas eu… mas o androide… eu não sabia que ela era…
— Valiosa? — Cinder deu um sorriso irônico. — Eu sei. Adri mandou desmontar a androide em questão e vender as peças como sobressalentes.
Houve um burburinho de horror ao redor da mesa, e muitos olhares furiosos lançados a Adri e Pearl.
— Tudo — acrescentou Cinder — menos o chip de personalidade defeituoso que ninguém queria. Ninguém, exceto Linh Garan… e eu. — Ela indicou Iko. — O chip está dentro da minha amiga androide-acompanhante aqui, e não tenho dúvida de que é possível extrair as informações registradas nele.
— Hã — disse Iko, levando os dedos às têmporas. — Eu me lembro de quando ele fez upload desses arquivos. Achei que eram proteção contra malware.
— Claro que Linh Adri é a dona da patente e da tecnologia, então é justo que seja compensada — continuou Cinder. — Espero que vocês consigam pensar em algum tipo de royalty pela fabricação do dispositivo.
Ruídos de concordância soaram por toda a mesa, exceto por parte de Adri.
— Royalty? — Ela olhou para Pearl e novamente para Cinder. — Quanto… quanto de royalty?
Iko baixou a mão e resmungou:
— Uma quantidade que vai ser alta demais.
Cinder sufocou um sorriso.
— Isso é entre você e as entidades do governo para as quais você vai vender. — Inclinando-se por cima da mesa, ela grudou um olhar na madrasta. — Sugiro que você não fique gananciosa.
Após a advertência, Adri afundou na cadeira. Mas uma luz surgiu nos olhos dela quando alguém do outro lado da mesa mencionou o mercado potencial de um dispositivo assim. Milhões, possivelmente bilhões poderiam ser reproduzidos ao longo da próxima década…
Adri esticou a mão para segurar a da filha. Pearl olhou para a mãe e também pareceu finalmente entender.
O dispositivo de Linh Garan tinha o potencial de fazê-las ficarem bem ricas.
Cinder percebeu com uma certa surpresa que não sentia tanta amargura quanto achava que sentiria. Que Adri ficasse com suas riquezas e seus royalties, sua filha e sua vida. Depois daquele dia, Cinder pretendia nunca mais pensar em nenhuma das duas.
Seu único lamento era Peony não estar presente. Ela nunca brincaria de se vestir com Iko nos armários reais. Os olhos dela não brilhariam quando Cinder colocasse a coroa pela primeira vez. Ela não conheceria Kai, que tinha se tornado bem mais para Cinder do que seu príncipe ou seu imperador ou um sonho impossível.
— Isso me leva ao meu pedido final — disse Cinder, determinada a acabar com a reunião antes que qualquer emoção, boa ou ruim, tomasse conta dela. — E tem a ver só com dois de vocês. Presidente Vargas e governador-geral Williams. — Cinder se ajeitou na cadeira. — Envolve um homem chamado Carswell Thorne.

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