21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Noventa e dois

VERIFICAÇÃO DIAGNÓSTICA COMPLETA. TODOS OS SISTEMAS ESTABILIZADOS.
REINICIANDO EM 3… 2… 1…

Cinder abriu os olhos de repente e deu de cara com um teto branco e com luzes cegantes. Ela deu um pulo e sibilou pelo choque de dor que sentiu no peito.
A mulher que estava curvada sobre a mão de Cinder deu um grito e caiu do banco com força no chão. Um saca-fusíveis de metal se estatelou ao lado.
Kai pulou de uma cadeira no canto do quarto e correu para perto de Cinder, tirando o cabelo desgrenhado dos olhos.
— Está tudo bem — disse ele, apoiando Cinder enquanto ela apertava a mão no peito. Sentiu um volume de atadura ali, logo acima da dor.
Ela desviou a atenção assustada para a mulher, uma estranha, e se virou para Kai.
Cinder piscou. Reparou primeiro no quanto ele estava lindo, e depois, no quanto parecia exausto.
Uma série de dados começou a surgir na visão dela em letras verdes estéreis.

IMPERADOR KAITO DA COMUNIDADE DAS NAÇÕES ORIENTAIS
IDENTIDADE: #0082719057
NASCIDO EM 7 DE ABRIL DO ANO 108 DA TERCEIRA ERA
FF 107.448 APARIÇÕES NA MÍDIA, ORDEM CRONOLÓGICA REVERSA
POSTADO EM 13 DE NOVEMBRO DA TERCEIRA ERA: EM UM PRONUNCIAMENTO FEITO ESTA MANHÃ, O IMPERADOR KAITO INFORMOU À IMPRENSA QUE ADIOU O RETORNO À TERRA POR TEMPO INDETERMINADO, DECLARANDO QUE SUA PRESENÇA É NECESSÁRIA PARA SUPERVISIONAR A RECONSTRUÇÃO DA CAPITAL LUNAR…

Cinder apertou os olhos e ordenou que o texto sumisse de sua visão. Esperou os batimentos se acalmarem e abriu os olhos novamente.
Seu colo estava coberto por um cobertor de linho branco tão fino que dava para ver um afundamento no tecido onde a pele da coxa esquerda encontrava o alto da prótese na perna. A mão esquerda estava aberta sobre o cobertor, virada para cima. A câmara da palma estava exposta, revelando um monte de fios desconectados.
— O que você está fazendo com minha mão? — grunhiu ela.
A mulher ficou de pé e ajeitou o jaleco branco.
— Consertando.
— Aqui, beba isto. — Kai esticou um copo de água na direção dela. Cinder ficou olhando por mais tempo do que deveria, o cérebro trabalhando na confusão, depois pegou da mão dele. — Esta é a dra. Nandez — disse Kai, vendo-a beber. — Ela é uma das melhores cirurgiãs cibernéticas da Terra. Pedi que viesse para Luna ontem a fim de… dar uma olhada em você. — Ele apertou os lábios, como se não tivesse certeza se tinha ultrapassado um limite entre os dois.
Depois de devolver o copo para Kai, Cinder observou a médica, que estava de braços cruzados, batendo com o saca-fusíveis no antebraço. Cinder levou a mão até a parte de trás da cabeça, onde o painel estava bem fechado.
— Eu não estou morta?
— Você quase morreu — respondeu Kai. — A faca penetrou em uma das câmaras de seu coração prostético, o que levou seu corpo ao modo sobrevivência. Essa câmara se apagou enquanto o resto do seu coração continuou funcionando… mais ou menos. — Kai olhou para a médica. — Eu expliquei direito?
— Foi bem perto — disse a dra. Nandez com um sorriso fraco.
O coração de Cinder latejava a cada respiração.
— O display na minha retina está funcionando de novo.
A médica assentiu.
— Você precisava de uma nova unidade de processamento; a que estava instalada não foi feita para total submersão em água. Você teve sorte de ter entrado em modo de preservação, senão não teria conseguido função nenhuma na mão ou na perna.
— Eu fiquei sem por um tempo. — Cinder tentou mover os dedos cibernéticos, mas eles ficaram imóveis sobre o tecido. — Desculpe por ter assustado você.
— Sua reação era esperada. — A dra. Nandez indicou a mão de Cinder. — Posso?
Um constrangimento subiu pela coluna de Cinder: a palma da mão aberta e vulnerável, bem na frente de Kai.
Mas ela se sentiu boba e vaidosa, e assentiu.
A dra. Nandez se aproximou novamente de Cinder e colocou um tablet na cama. Um holograma surgiu no ar acima da tela: uma réplica exata da mão e da fiação interna de Cinder.
— Você deveria se deitar — aconselhou Kai. — Você foi esfaqueada, sabe.
— Eu me lembro. — Fazendo uma careta, ela apertou mais a mão no ferimento. A pressão aliviava um pouco o latejamento.
— Foram quarenta e dois pontos, e alguma coisa me diz que você pode ter arrancado alguns. Vamos lá, deite-se.
Ela deixou que Kai a guiasse novamente até o travesseiro. Afundou na cama macia com um suspiro, embora a luz cirúrgica da médica estivesse novamente a cegando, e Kai tivesse assumido um brilho sobrenatural.
— Levana está morta? — murmurou ela.
— Levana está morta.
Com a confirmação e a lembrança clara de um tiro e um jorro de sangue fundida na mente, ela abriu o cérebro para todas as outras perguntas. Elas despencaram como uma cachoeira em seus pensamentos. Cress, Thorne, Scarlet, Lobo, Winter, Jacin, Iko…
— Todos estão vivos — disse Kai, como se os pensamentos estivessem escritos em texto verde nas íris dela. — Mas Cress está… os sinais vitais estão estáveis, e há esperança de recuperação, mas ela ainda não saiu da suspensão. Scarlet teve uma leve concussão, mas está bem. Thorne perdeu dois dedos, mas é um candidato excelente a receber próteses se quiser. Lobo está… bem, não dá para desfazer a bioengenharia sem arriscar danos sérios, mas ele está vivo e parece, sabe, o Lobo de sempre. Jacin sofreu alguns ferimentos, mas nada que ameace sua vida, e a princesa Winter…
Ele baixou o olhar.
Cinder sentiu um puxão no pulso, e o polegar tremeu descontroladamente por um momento antes de haver outro puxão e o movimento parar.
— Ela está inconsolável desde a revolta. Tiveram que mantê-la contida. E muitas pessoas morreram, dos dois lados, mas… deu certo. Os setores externos responderam com multidões, gente demais para os taumaturgos controlarem ao mesmo tempo. Ainda tinha gente vindo dos setores externos horas depois que a luta acabou.
Outro puxão de eletricidade, depois, o estalo de um trinco de metal.
— Experimente — disse a dra. Nandez, desligando o holograma.
Cinder levantou a mão. Tinha sido polida até estar brilhando, e ela via o contorno de seu cabelo escuro na superfície. Dobrou os dedos um de cada vez, depois rolou o pulso de um lado para outro. Abriu os dedos e testou o funcionamento das ferramentas; todas, exceto a arma, que ela torcia para nunca mais disparar.
Depois de fechar as pontas dos dedos, olhou para a médica.
— Obrigada.
— Foi um prazer — disse a dra. Nandez, se levantando. — Volto para dar uma olhada em você daqui a algumas horas.
Assim que ela saiu, Cinder sentiu o ar mudar. Uma tensão repentina, uma imobilidade.
Ela lambeu os lábios secos.
— Você é rei de Luna agora?
Kai pareceu surpreso com a pergunta.
— Não. Como Levana nunca foi a verdadeira rainha, ela não tinha poder legal para indicar alguém como rei consorte. Sou tecnicamente viúvo, mas acho que consigo anular o pequeno incidente.
— Pequeno incidente?
Considerando que era uma coisa que ela arriscara a vida para impedir várias vezes, Cinder não sabia se podia considerar o casamento de Kai um “pequeno incidente”.
— Um erro temporário — disse ele, afastando a luz da cirurgiã, para que não cegasse mais Cinder. — Com tudo o que estava acontecendo, nós nem tivemos tempo de consumar.
Cinder tossiu.
— Informação desnecessária.
— É mesmo? Você não ficou curiosa?
— Eu estava tentando não pensar nisso.
— Bem… não pense mais. Ainda estou agradecendo às estrelas, uma a uma.
Cinder teria rido se não doesse tanto.
Kai andou ao redor da cama e se sentou no banquinho da médica. As rodas estalaram no chão quando ele chegou tão perto que os joelhos encostaram na armação da cama.
— O que mais você precisa saber antes que eu a deixe descansar?
Ela passou a língua pelo céu da boca, desejando ter bebido mais água.
— Eu… eles acham que eu…?
— Rainha?
Ela assentiu.
— Sim, Cinder. Você é a rainha de Luna. — As palavras eram implacáveis. Tão impiedosas. — Examinaram seu DNA quando você estava inconsciente, e você é mesmo Selene. De acordo com a lei lunar, isso quer dizer que você era princesa regente até seu décimo terceiro aniversário, quando se tornou rainha de Luna. Levana era a impostora. Estão chamando você de “rainha perdida”. Estão comemorando sua volta desde a noite da batalha. É claro que vão querer fazer uma cerimônia em algum momento, mais por tradição do que por qualquer outra coisa.
Cinder mordeu o lábio, pensando nos anos que passou sob os cuidados de Adri. Como mecânica, criada, um bem. O tempo todo ela era da realeza, e não tinha ideia.
— Até os taumaturgos, os que ainda estão vivos, dizem que a lealdade deles é ao trono lunar e a quem se senta nele. Pelo menos, é o que estão dizendo. Vamos ver como vão se sentir quando as coisas começarem a mudar por aqui. — Kai coçou atrás da orelha. — O exército está sendo problemático. Estamos chamando de volta todos os que foram enviados à Terra, mas alguns soldados… bem, não estão convencidos de que a guerra acabou. Alguns desertaram na Terra, e os militares terráqueos estão fazendo o melhor que podem para rastreá-los, mas estamos torcendo para que…
Ela segurou as mãos dele, silenciando-o.
Ainda estava se acostumando com o fato de que era rainha.
Ela era a rainha de Luna.
Cinder lembrou a si mesma que era isso que queria. Essa responsabilidade, esse dever, esse direito era seu objetivo o tempo todo. A chance de livrar o mundo de Levana e mudar o país onde nasceu. Mudar para melhor.
Os dedos de Kai cobriram os dela. Só nessa hora ela percebeu que o tinha segurado com a mão ciborgue.
— Desculpe — disse Kai. — Você não precisa se preocupar com isso agora. Torin e eu estamos cuidando de tudo. Providenciando para que os feridos sejam cuidados, para que a cidade seja limpa… ah, e o antídoto. Estamos preparando grandes carregamentos para a Terra, e os técnicos estão trabalhando para produzir mais. Já enviamos mais de mil doses com os diplomatas, e dizem que vamos ter o triplo disso pronto para ser levado amanhã à noite, se bem que… — Ele hesitou, e uma sombra cruzou seu rosto. — O antídoto é produzido usando sangue cascudo, e tem um monte de leis complicadas sobre os cascudos, e não me senti à vontade de fazer nada sem você. É uma coisa que vamos ter que resolver quando você estiver pronta.
Ele parou de falar, embora Cinder percebesse os dilemas em seus olhos. O alívio de ter o antídoto ao dispor dele, junto com as coisas horríveis que Levana estava fazendo para obtê-lo.
Ela tentou sorrir, mas sabia o quanto devia parecer exausta.
— Obrigada, Kai.
Ele moveu a cabeça e mechas de cabelo caíram na testa.
— Desculpe. Eu devia ter deixado você dormir. É que… é muito bom vê-la acordada. Falar com você sobre isso.
— Por quanto tempo fiquei inconsciente?
— Quase três dias.
Ela virou o olhar para o teto.
— Três dias. Que luxo.
— E bem merecido. — Kai levantou a mão dela e apertou os lábios contra os nós dos dedos. — Leve o tempo que precisar para se recuperar. A parte difícil passou.
— Passou?
Ele hesitou.
— Bem. A parte perigosa passou.
— Você pode fazer uma coisa por mim?
Kai franziu a testa, como se não quisesse encorajar ideias malucas, mas o momento foi curto.
— O que você quiser.
— Todos os líderes terráqueos voltaram para a Terra?
— Não. Nós conseguimos tirar todos os terráqueos de Artemísia durante a luta quando abrimos o porto, mas a maioria voltou depois de saber que você teve sucesso. Acho que estão todos esperando para conhecê-la.
— Você pode convocar uma reunião? Eu, você, os líderes terráqueos… e… Luna… eu tenho um gabinete, um primeiro-ministro, alguma coisa?
Os lábios dele tremeram, como se quisesse fazer uma provocação, mas segurou a vontade.
— Normalmente, o taumaturgo-chefe agiria como segunda pessoa na linha de comando, mas o taumaturgo Aimery está morto. Sua corte está em triste desordem, infelizmente.
— Bem, qualquer pessoa que você ache que deva ser convidada, então, para uma reunião oficial. Uma reunião importante.
— Cinder…
— E minha madrasta? Ela ainda está aqui?
Ele franziu a testa.
— Na verdade, sim. Ela e a filha receberam um lugar a bordo da nave de um dos nossos representantes, mas a nave só parte amanhã.
— Leve-a também. E talvez aquela médica que estava aqui.
— Cinder, você precisa descansar.
— Eu estou bem. Tenho que fazer isso… o mais rápido possível, antes que outra pessoa tente me matar.
Ele sorriu, mas a expressão foi de carinho.
— Tem que fazer o que exatamente?
— Assinar o Tratado de Bremen. — Dizer as palavras levou um sorriso de verdade aos lábios dela. — Quero tornar nossa aliança oficial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!