21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Noventa e cinco

A enfermeira não parava de pedir desculpas enquanto levava Cress da clínica para o palácio. Longe de estar curada, Cress teve que ser transportada em uma cadeira de levitação magnética, que era o aparato flutuante mais estranho que já tinha visto. Não era bem uma maca, mas também não era bem uma cadeira de rodas. Durante o momento em que se deixou levar pela imaginação, sentiu-se uma princesa exótica da primeira era sendo levada em um trono luxuoso nos ombros de homens bem fortes.
Mas então a enfermeira recomeçou a pedir desculpas e destruiu a fantasia. A clínica estava tão lotada, explicou ela, e os médicos eram tão poucos, e já que Cress tinha saído do estado crítico…
Cress não se importou com a mudança. Estava feliz por estar fora da clínica estéril. Apesar de ter sido tirada da animação suspensa quatro horas antes, ela já tinha visto Iko, Scarlet, Lobo e até Jacin, exausto, que lhe contou sobre a vitória deles e que Cinder tinha assinado o Tratado de Bremen, e que os cascudos haviam sido despertados, e que os pesquisadores estavam tentando descobrir a melhor forma de ajustá-los à vida em Luna enquanto também cumpriam as necessidades de antídoto da Terra. A cabeça de Cress ficou girando.
Mas, no topo dos pensamentos dela, sempre, sempre, estava Thorne.
Ele não estava lá.
Ninguém mencionou o nome dele, e Cress sentiu que todos estavam prendendo a respiração. Querendo dizer alguma coisa, mas esperando, inseguros.
Ela tinha destruído dois dedos dele com um tiro. Podia ser um ferimento pequeno em comparação ao que ela e Cinder sofreram, mas, mesmo assim… foi ela que o provocou.
Por vontade própria.
A enfermeira a levou para a familiar ala de convidados. Foi ali que ela deu de cara com Kai.
— Chegamos — disse a enfermeira, abrindo uma porta. — Se você precisar de qualquer coisa…
— Eu estou bem. — Cress usou os controles no braço da cadeira para entrar no quarto. Uma cama com dosséis estava coberta de sedas cintilantes, o piso de pedra estava encerado, brilhando. A janela dava vista para um jardim de flores do palácio, cheio de gazebos e estátuas. — Obrigada.
— Nós cuidamos para que você fique perto dos seus amigos — disse a mulher. — O sr. Kesley e a srta. Benoit estão a duas portas à esquerda, e o imperador Kaito está logo depois da esquina. O sr. Thorne está em frente.
Cress virou a cadeira. Sua porta ainda estava aberta, e de onde estava ela via a porta fechada de Thorne.
— Está?
— Quer que eu veja se ele está no quarto?
Cress ficou vermelha.
— Ah. Não, tudo bem. Obrigada.
— Então preciso voltar para a clínica. Quer ajuda para se deitar na cama antes de eu ir?
— Não, acho que vou ficar sentada apreciando a vista um pouco. Obrigada.
A enfermeira saiu e fechou a porta.
Cress respirou fundo. Os melhores aposentos de hóspedes tinham cheiro de produto de limpeza de limão e de um buquê de lilases em cima da mesa. Mas já estavam murchando, e Cress se perguntou quanto tempo fazia que estavam ali. Talvez aquele quarto tivesse sido preparado para outra pessoa, quem sabe um dos diplomatas terráqueos que já tinham ido embora.
O sr. Thorne está em frente.
Ela ficou olhando para a porta, desejando que ele aparecesse.
Seu estômago estava latejando onde Thorne a tinha esfaqueado quando estava sob o controle de Levana. Ela apertou os dedos nas ataduras sobre os pontos, tentando aliviar a dor. Perguntou-se se poderia ter pedido à enfermeira para deixar algum remédio para a dor.
Ela respirou fundo, sentindo a dor nas costelas quando os pulmões as pressionaram. Seria corajosa. Seria heroica. Faria seu próprio destino.
Levou a cadeira flutuante até a porta e a puxou.
Thorne estava no corredor.
Ele deu um pulo e juntou as mãos nas costas, uma postura rigidamente formal. Estava barbeado, com o cabelo bem penteado, e usava roupas novinhas: uma camisa de gola azul dobrada até os cotovelos, e uma calça cáqui enfiada em botas marrons.
Cress se espremeu contra o encosto da cadeira e se sentiu deslocada. Apesar de ter tomado banho para tirar a gosma do tanque de suspensão, ela ainda estava com a camisola fina da clínica e não teve oportunidade nem de pentear o cabelo.
— Capitão — sussurrou ela.
— Desculpe — disse ele, batendo os calcanhares. — Você estava saindo?
— Não. Eu… pensei em ir ver você.
Thorne pareceu desprevenido, mas um sinal de alívio surgiu na lateral da boca. Ele se inclinou e colocou as mãos nos apoios de braços dela. A mão direita estava envolta em gesso.
— Você deveria estar descansando — disse ele, empurrando-a para trás e fechando a porta com o pé. Ele a levou até a janela e olhou ao redor. — O que posso trazer para você? Um tablet? Um massagista? Uísque com gelo?
Ela não tirava os olhos dele. Mesmo sabendo que ele estava vivo, não tinha acreditado até aquele momento.
— Você parece… — Ela não conseguiu terminar. Seus olhos começaram a lacrimejar.
Um sorriso pela expectativa de um elogio logo virou pânico.
— Ah, ei, por que você está assim? — Ele se agachou na frente dela. — Acho que chorar não vai ser muito bom na sua condição.
Ela mordeu o lábio com força. Ele estava certo. A respiração entrecortada já estava fazendo seu abdome latejar. Sufocou as lágrimas.
Thorne segurou as mãos de Cress e colocou o gesso entre elas. Sua pele parecia bronzeada e áspera perto da dela.
— Desculpe — disse ele. — Eu queria estar lá quando tiraram você do tanque, mas estava em uma reunião quando Scarlet mandou uma mensagem para me dizer, e eu não podia sair, e eu achei… Eu não sabia… — Ele expirou, a boca exibindo frustração.
— Reunião? — disse Cress, sem saber se essa explicação fazia com que se sentisse melhor ou pior.
A expressão dele se iluminou.
— Você não vai acreditar nisso. O próprio presidente Vargas queria me conhecer. O verdadeiro presidente da República Americana. Adivinhe o que ele disse.
Ela pensou.
— Ele vai dar a você uma medalha de honra pela sua coragem?
— Quase isso. — Os olhos azuis de Thorne brilharam. — Ele vai me dar a Rampion.
Ela arregalou os olhos.
Thorne se levantou e começou a andar de um lado para outro.
— Bem, quer dizer, ele vai me emprestar a Rampion, mas posso começar a fazer pagamentos para comprá-la dos militares. Cinder pediu que ele me perdoasse se eu prometesse não roubar mais, blá-blá-blá, ela recomendou a mim e à minha tripulação para chefiar a força de distribuição do antídoto de letumose. Mas preciso de uma nave para isso, e foi por essa razão que o presidente Vargas fez o acordo. Você devia ter visto como ele parecia infeliz. Acho que ele não é um grande fã meu, mas… ele aceitou mesmo assim.
Cress bateu palmas.
— Estou tão feliz por você.
— Você me imagina em um emprego legítimo?
— E um emprego que vai ajudar pessoas. — Ela sorriu. — Imagino com facilidade.
— Tenho certeza de que você é a única. — Ele parou de andar por tempo suficiente para sorrir para ela.
Um calor inundou o rosto de Cress, e ela olhou para baixo e reparou novamente no gesso. Ele teria que se treinar para pilotar com os ferimentos.
— D… Desculpe pela sua mão — gaguejou ela.
— Não diga isso — retrucou ele de pronto, como se estivesse esperando um pedido de desculpas. — Scarlet e eu vamos abrir um clube de gente sem dedo. Talvez a gente deixe Cinder ser membro honorário. — Sentando-se na beirada da cama, ele olhou para o gesso e o girou na luz. — Além do mais, estou pensando em arrumar uns substitutos ciborgues. Sabe esse jeito de Cinder fazer todo tipo de truque? Eu achei que poderia ser legal ter sempre um palito de dentes à mão. Ou talvez um pente. — Ele parecia distraído, como se as palavras e pensamentos não estivessem em sintonia. Quando ousou levantar o rosto de novo, havia ansiedade no olhar. — Eu também peço desculpas, Cress. Eu… eu quase matei você e…
— Levana quase me matou.
Ele contraiu o maxilar.
— Era eu quem estava segurando a faca. Eu senti. Senti acontecer, e não houve nada que eu pudesse fazer…
— Não houve nada que você pudesse fazer — concordou ela.
Apoiando os cotovelos nos joelhos, ele se inclinou para a frente, a cabeça pesada entre os ombros.
— Não. Eu sei. — Ele passou a mão boa pelo cabelo. — Sei que pela lógica foi ela, não eu. Mas… Cress. — Ele suspirou. — Vou ter pesadelos com aquele momento pelo resto da minha vida.
— Não foi culpa sua.
— Cress, isso não é… — Massageando a nuca, ele olhou para ela, mas o olhar foi tão intenso que ela teve dificuldade de sustentá-lo. Ficou ainda mais vermelha. — Eu… — Ele colocou as mãos nos joelhos e se preparou. — Você quer ficar na minha tripulação?
Os pensamentos dela se perderam.
— Na sua… tripulação?
— Eu sei. — Ele limpou a garganta. — Você passou a vida toda no espaço, longe da civilização. Entendo se disser não. Se você quiser ficar aqui em Luna ou até… até se quiser que eu a leve para a Terra. Tenho certeza de que você poderia ficar um tempo com Kai, que, você sabe, mora em um palácio. — A expressão de Thorne ficou sombria. — Que deve ser bem tentador em comparação à nave de carga que eu estou oferecendo.
Ele começou a andar de novo.
— Mas Lobo e Scarlet vão ficar aqui… só temporariamente, até a doença estar sob controle. E eu tive uma ideia. Essa tarefa vai nos levar por toda a República. Não que fôssemos passear muito, mas vai ter… hã. Florestas. E montanhas. E todo tipo de coisas. E quando terminarmos, se houver qualquer lugar para onde você queira voltar, podemos fazer isso. E ficar um tempo. Ou eu posso levar você… para qualquer lugar. Para qualquer lugar que você queira ver.
A agitação dele andando de um lado para outro a estava deixando tonta.
— Você está me oferecendo um… emprego.
— S… não. — Ele hesitou. — Quer dizer, mais ou menos. Isso tudo foi bem mais suave quando ensaiei ontem à noite.
Ela apertou um olho para ele.
— Capitão, eu ainda estou tomando muitos medicamentos, e não sei se estou acompanhando.
Ele observou a camisola do hospital e a cadeira flutuante como se tivesse esquecido.
— Pelas estrelas, eu sou ruim nisso, não sou? Quer se deitar? Você deveria se deitar.
Sem esperar resposta, ele passou um braço por baixo dos joelhos dela e a levantou da cadeira, com delicadeza, como se estivesse pegando uma boneca de valor inestimável.
Ela segurou um sibilar de dor na garganta enquanto ele a carregava até a cama.
— Melhor? — perguntou ele, colocando-a em cima das cobertas.
— Melhor — admitiu ela.
Mas ele não a soltou, e estava muito perto quando ela fitou seus olhos.
— Cress, olhe só. Obviamente, eu não sou bom nisso. Pelo menos, não quando é… quando é com você. — Ele pareceu frustrado. Seus dedos se dobraram e seguraram o tecido fino da camisola do hospital. — Mas eu sou bom nisso.
Ele se inclinou para mais perto, e seus lábios encontraram os dela, pressionando-a nos travesseiros macios. Ela ofegou e afundou os dedos na camisa dele, com medo de que ele se afastasse antes que ela memorizasse o momento. Mas ele não se afastou, e Cress aos poucos ousou retribuir o beijo. O colchão se moveu, Thorne levantando um joelho para não a esmagar. O gesso esbarrou no quadril dela, desajeitado, mas um pouco menos quando ele o levou até a lateral do rosto para passar o polegar pelo maxilar dela. E os lábios acompanharam. Até o queixo dela. Até o pescoço. Até a clavícula.
O corpo dela ficou líquido, e ela pensou que, se pudessem engarrafá-lo, Thorne seria o melhor remédio para dor.
Ele parou de beijá-la, mas ela ainda sentia o cabelo dele tocando em seu maxilar, o calor do hálito no ombro.
— Vinte e três — disse ele.
— Hã? — Ela abriu os olhos atordoados. Thorne se afastou com expressão culpada e preocupada, o que fez parte da euforia dela passar.
— Você me perguntou uma vez quantas vezes eu disse para uma garota que a amava. Estou tentando me lembrar de todas e tenho quase certeza de que a resposta é vinte e três.
Ela piscou, o olhar lento e oscilante. Os lábios se repuxaram em uma pergunta que demorou um tempo para se formar.
— Incluindo a garota lunar que beijou você?
Ele franziu a testa.
— Ela conta?
— Você disse, não disse?
Ele olhou para o lado.
— Vinte e quatro.
Cress ficou boquiaberta. Vinte e quatro garotas. Ela nem conhecia vinte e quatro pessoas.
— Por que você está me contando isso?
— Porque preciso que você saiba que nunca falei de coração. Falei porque achava que era o que eu tinha que dizer, mas não significou nada. E é diferente com você. Agora é a primeira vez que sinto medo. Medo de você mudar de ideia. Medo de fazer besteira. Pelas estrelas, Cress, estou morrendo de medo de você!
O estômago dela tremeu. Ele não parecia morrendo de medo.
— A questão é a seguinte. — Thorne passou por cima das pernas dela e se deitou ao lado, com botas e tudo. — Você merece coisa melhor do que um ladrão que vai acabar na cadeia de novo. Todo mundo sabe. Até eu sei. Mas você parece determinada a acreditar que sou um cara decente que merece você. Então, o que mais me dá medo… — Ele girou uma mecha de cabelo dela entre os dedos. — … é que um dia até você perceba que consegue coisa melhor.
— Thorne…
— Não se preocupe. — Ele beijou a mecha de cabelo. — Sou uma mente criminosa genial e tenho um plano. — Limpando a garganta, ele começou a enumerar as coisas no ar. — Primeiro, conseguir um emprego legítimo: ok. Comprar minha nave legalmente: em desenvolvimento. Provar que sou herói ajudando Cinder a salvar o mundo: ah, isso eu já fiz. — Ele piscou. — Ah, e tenho que parar de roubar coisas, mas isso é meio óbvio. Então acho que, quando você se der conta do quanto eu não mereço você… posso meio que ter passado a merecer. — O sorriso dele ficou arrogante. — Era assim que o discurso deveria ter sido.
— Foi um bom discurso — disse ela.
— Eu sei. — Chegando mais perto, ele beijou o ombro dela.
O braço de Cress explodiu em arrepios.
— Capitão?
— Cress.
Ela não poderia deixar de dizer, apesar de saber que ele estava certo. Era meio assustador. Bem mais assustador do que na primeira vez que ela falou no deserto. Era diferente agora. Era real.
— Eu amo você.
Ele riu.
— Eu esperava que sim depois de tudo isso. — Ele se debruçou e deu um beijo na têmpora dela. — E eu também te amo.

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