20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Nove


— Leite evaporado… feijão vermelho… atum… mais atum… ah! — Cress quase caiu de cabeça na caixa quando esticou o braço para alcançar o fundo. Ela agarrou um vidro e se levantou, vitoriosa. — Aspargos em conserva!
Iko parou de revirar a caixa ao lado por tempo suficiente para olhar de relance.
— Você e suas papilas gustativas podem parar de se gabar agora.
— Ah, desculpe. — Apertando os lábios, Cress colocou o vidro no chão. — Que bom que abrimos esta. A cozinha estava começando a ficar vazia.
— Mais armas aqui — disse Lobo, com os ombros contraídos enquanto se inclinava em mais uma caixa. — Para um planeta que viveu um século de paz mundial, vocês fabricam muitas armas.
— Sempre vai haver criminosos e violência — disse Kai. — Nós ainda precisamos de polícia.
Lobo fez um som estrangulado, chamando a atenção de todo mundo na direção dele enquanto erguia uma arma da caixa.
— É igual à que Scarlet tinha. — Ele virou a arma na mão e passou o polegar pelo cano. — Ela atirou no meu braço uma vez.
Essa confissão foi feita com tanto carinho quanto se Scarlet tivesse dado a ele um buquê de flores selvagens em vez de um ferimento à bala.
Cress e os outros trocaram expressões tristes.
Kai, que estava de pé mais perto de Lobo, colocou a mão no ombro dele.
— Se ela estiver em Artemísia — disse ele —, eu vou encontrá-la. Prometo.
Um leve baixar de cabeça foi a única indicação de que Lobo o ouviu. Virando-se, ele entregou a arma pela coronha para Cinder, que estava sentada de pernas cruzadas no meio do compartimento de carga, organizando as armas que tinham encontrado. Era um carregamento impressionante. Era uma pena que, quando se tratava de lutar com lunares, armas nas mãos dos aliados deles poderiam ser tão perigosas quanto armas nas mãos dos inimigos.
— Esta aqui é toda de suprimentos médicos e remédios comuns — disse Iko. — Se encontrássemos uma com vértebras substitutas de androide-acompanhante e painéis de tecido sintético, estaríamos chegando a algum lugar.
Cress deu um sorriso solidário. Iko estava usando o top de seda amarrado que vestiu para incorporar uma integrante da equipe do palácio durante o sequestro do imperador, e a gola alta quase cobria o dano feito ao pescoço biônico e à clavícula durante a luta no telhado. Ela usou a criatividade com retalhos de tecidos variados para esconder o resto do ferimento, que era o máximo que podiam fazer até Cinder conseguir as partes e terminar o conserto.
— Isso é o que eu penso que é? — Depois de se voltar para a caixa onde estava mexendo antes, Kai levantou uma boneca de madeira entalhada, adornada com penas e quatro olhos a mais.
Cinder terminou de descarregar a arma e colocou ao lado das outras.
— Não me diga que você já viu uma dessas coisas feias antes.
— Bonecas venezuelanas de sonhos? Temos algumas em exibição no palácio. São incrivelmente raras. — Ele examinou as costas. — O que isso está fazendo aqui?
— Tenho quase certeza de que Thorne roubou.
A expressão de Kai se encheu de clareza.
— Ah. Claro. — Ele colocou a boneca de volta na embalagem. — É melhor ele planejar devolver todas essas coisas.
— Claro que ele vai devolver, Vossa Majestividade. Por uma recompensa adequada.
Cress se virou e viu Thorne encostado na parede do compartimento de carga.
Ela piscou. Tinha alguma coisa diferente nele. A venda que ele vinha usando desde que a visão começara a voltar, semanas antes, estava ao redor do pescoço, e ele estava excepcionalmente arrumado, como se tivesse se barbeado melhor do que o habitual, e estava…
Um impulso elétrico desceu pela coluna de Cress.
Ele estava olhando para ela.
Não. Não só olhando. Havia uma inspeção intensa por trás do olhar, junto com uma perplexidade curiosa. Ele estava surpreso. Quase… cativado.
Um calor subiu pelo pescoço dela. Engoliu em seco, segura de que estava imaginando coisas.
Um homem do mundo, o confiante capitão Thorne nunca ficaria cativado pela simples e constrangida garota que ela era, e ela já tinha se decepcionado com esse tipo de distorção da realidade antes.
Um canto da boca de Thorne se levantou.
— O cabelo curto — disse ele, com um aceno parcial. — Ficou bom.
Cress levantou a mão e segurou as pontas irregulares que Iko aparou até virarem algo que se parecia com um corte de cabelo.
— Ah! — disse Iko, ficando de pé. — Capitão! Você está enxergando!
A atenção de Thorne se voltou para a androide segundos antes de ela se jogar na frente de Cress, nos braços dele. Thorne cambaleou contra a parede e riu.
— Iko? — perguntou Thorne, segurando-a com os braços esticados e observando-a com atenção. A pele escura e impecável, as longas pernas, as tranças pintadas de vários tons de azul. Aceitando o escrutínio, Iko deu uma rodopiada. Thorne estalou a língua. — Caramba. Eu sei mesmo escolher, não sei?
— Visão não vista — disse Iko, jogando as tranças por cima do ombro.
Murchando, Cress começou a encher os braços de enlatados. Definitivamente, distorção da realidade.
— Excelente — disse Cinder, levantando-se e limpando as mãos. — Eu estava começando a ficar com medo de não termos piloto para quando chegar a hora de levar Kai de volta para a Terra. Agora, só preciso me preocupar em ter um piloto competente.
Thorne se encostou na caixa que Cress estava organizando. Ela parou, mas, quando ousou espiar por entre os cílios, a atenção dele estava do outro lado do compartimento de carga.
— Ah, Cinder, senti falta de ver seu rosto quando você faz comentários sarcásticos na tentativa de esconder seus verdadeiros sentimentos por mim.
— Por favor. — Revirando os olhos, Cinder começou a organizar as armas na parede.
— Estão vendo esse revirar de olhos? Quer dizer: “Como estou conseguindo ficar longe de você, capitão?”
— É, para não estrangular você.
Kai cruzou os braços e sorriu.
— Por que ninguém me contou que eu tinha uma concorrência tão forte?
Cinder fez cara feia.
— Não o encoraje.
Com bochechas vermelhas, dentes trincados e três pilhas de latas aninhadas nos braços, Cress se virou para o corredor principal… e fez a lata de pêssegos do alto sair voando da pilha.
Thorne a pegou no ar antes que Cress ofegasse.
Ela parou, e por um momento estava ali de novo: o jeito como ele a olhava, fazendo o mundo ficar manchado e o estômago dela dar um nó. Foi um reflexo rápido, claro, e ela não conseguiu deixar de se questionar se ele estava prestando mais atenção nela do que ela pensava.
Thorne sorriu para os pêssegos.
— Reflexos de relâmpago. Ainda tenho. — Ele tirou algumas latas de milho da pilha. — Quer ajuda?
Ela fixou o olhar nas latas.
— Nãoobrigadapodedeixar. — As palavras saíram apressadas e cheias de nervosismo enquanto o rosto enrubescia de novo. Ocorreu-lhe que estava corando desde o momento em que ele entrou, com o sorriso arrogante e olhos que viam através dela.
Ela queria entrar em uma das caixas e puxar a tampa. Ele só estava com a visão recuperada havia cinco minutos e ela já tinha voltado a ser a garota ansiosa, eufórica e afobada que era quando se conheceram.
— Tudo bem — disse Thorne devagar, colocando as latas de volta nos braços dela. — Se você insiste.
Cress passou por ele e seguiu para a cozinha. Foi um alívio colocar a comida na bancada e tirar um momento para se estabilizar.
Então ele estava enxergando de novo. Não mudava nada. Ele não a achou irresistível quando a viu naquele link D-COMM séculos antes e não ia achar que ela era irresistível agora. Principalmente não com Iko ali. Androide ou não, era ela quem tinha dentes de pérola e olhos acobreados…
Cress suspirou e conteve toda a inveja antes que crescesse. Não era culpa de Iko se Thorne não estava interessado em uma garota pequena e arisca. Na verdade, ela ficava feliz por Iko, que tinha mais satisfação com o corpo novo do que a maioria dos humanos.
Cress só queria poder ter a confiança dela. Se tivesse coragem de se jogar nos braços de Thorne, piscar, fazer comentários paqueradores e fingir que nada importava…
Só que importava, ou teria importado se ela ousasse.
Só amigos, lembrou a si mesma. Eles eram só amigos e seriam só amigos dali em diante. Era uma amizade a ser celebrada, assim como ela celebrava todas as amizades que fez na nave. Não a estragaria desejando que as coisas pudessem ser mais do que eram. Ficaria grata pela afeição que tivesse.
Cress soltou o ar devagar e se empertigou. Não seria tão difícil fingir que isso era tudo o que ela queria. Imaginar que estava satisfeita com a companhia dele e com o carinho platônico. Uma vez que ele estava enxergando de novo, ela ficaria mais alerta para que seus sentimentos mais profundos não ficassem evidentes.
Thorne era seu amigo e capitão, mais nada.
Quando voltou para o compartimento de carga, a alegria tinha desaparecido. Ao ouvi-la, Thorne olhou para trás, mas ela fixou o olhar em Kai com determinação.
— Eu entendo que é mais cedo do que esperávamos — disse Kai. — Mas agora que Thorne está enxergando de novo, o que estamos esperando? Podemos partir amanhã. Podemos partir agora.
Cinder balançou a cabeça.
— Temos tanta coisa a fazer. Ainda temos o vídeo para editar e nem confirmamos que rota vamos tomar para os setores externos, e…
— Vocês não precisam da minha ajuda para isso — interrompeu Kai. — São coisas nas quais vocês podem trabalhar enquanto eu estiver fazendo minha parte. Tem gente morrendo todos os dias. Meu povo está sendo atacando neste momento e não posso fazer nada por eles daqui de cima.
— Eu sei. Sei que é difícil…
— Não, é tortura. — Kai baixou a voz. — Mas quando você me levar de volta posso conversar com Levana. Negociar um cessar-fogo e começar a botar nosso plano em ação…
— Chegar a Scarlet mais cedo — disse Lobo.
Cinder gemeu.
— Olhe, eu entendo. O mês está sendo muito longo e estamos todos ansiosos para seguir em frente, mas é que… nossa estratégia…
— Estratégia? Olhe para nós, estamos passando o tempo desembalando aspargos em conserva. — Kai passou a mão no cabelo. — Como isso pode ser um bom uso do nosso tempo?
— A cada dia que esperamos, nossas chances de sucesso melhoram. A cada dia, mais do exército dela está indo para a Terra, deixando Levana e a capital desprotegidas. Quanto mais fraca ela estiver, melhor chance teremos de ter sucesso na revolução. — Ela apontou para o netscreen, apesar de estar desligado. — Além do mais, a União está se defendendo. Ela já perdeu muitos soldados e talvez esteja começando a ficar meio preocupada, não?
— Ela não está preocupada — disse Lobo.
Cinder franziu a testa.
— Bem, pelo menos ela pode ter percebido que essa guerra não vai ser vencida tão facilmente quanto ela desejava, o que quer dizer que vai ficar bem mais animada em saber que Kai voltou e que o casamento vai acontecer. Vai ficar ansiosa para remarcar logo. — Ela passou os dedos ao redor do pulso esquerdo, onde a pele encostava no metal.
Cress mordeu o lábio e viu o medo e o nervosismo surgirem no rosto de Cinder. Apesar de ela sempre se esforçar para esconder, Cress sabia que Cinder nem sempre era tão corajosa quanto fingia ser. Era meio reconfortante achar que elas podiam ter isso em comum.
Kai murchou os ombros e sua voz perdeu o desespero quando ele deu um passo para mais perto dela:
— Entendo que você queira sentir que está pronta, que estamos todos prontos. Mas, Cinder… nós nunca vamos nos sentir assim. Em algum momento, vamos ter que parar de planejar e começar a fazer. Acho que esse momento é agora.
Ela demorou um pouco, mas finalmente correspondeu ao olhar dele e depois se virou para observar cada um. Apesar de Thorne ser o capitão, todos sabiam que era Cinder quem os unia.
— Estamos todos arriscando nossas vidas — disse ela. — Só não quero arriscá-las desnecessariamente. Quero ter certeza de que vamos estar preparados para…
Ela parou e seu olhar perdeu o foco. Cress reconheceu a expressão de quando Cinder estava vendo alguma coisa no display da retina.
Piscando depressa, Cinder se virou para Kai, atordoada.
— Nave, ligue o netscreen do compartimento de carga, no noticiário da Comunidade das Nações Orientais.
Kai franziu a testa.
— O que está acontecendo?
O netscreen ganhou vida. Mostrava o conselheiro de Kai, Konn Torin, de pé em um púlpito. Mas, antes que o sinal de áudio chegasse, Cinder disse:
— Sinto muito, Kai. Seu palácio está sendo atacado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!