13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Nove


CINDER GEMEU, O IMPACTO DA QUEDA MAIS RECENTE AINDA reverberando pela coluna. O teto do compartimento de carga girava e tremia em sua visão.
— Isso foi necessário?
Lobo e Scarlet apareceram acima dela.
— Me desculpe — disse Lobo. — Achei que você estivesse no controle. Você está bem?
— Frustrada e dolorida, mas, sim, estou bem. — Ela se obrigou a aceitar a mão esticada de Lobo. Ele e Scarlet a ajudaram a ficar de pé. — Você está certo. Eu perdi a concentração. Senti sua energia se soltar do meu controle como um elástico. — Isso foi momentos antes de Lobo completar a manobra que ela conseguira segurar por seis segundos inteiros, agarrando o braço dela e jogando-a por cima do ombro. Ela massageou o quadril. — Preciso de um momento.
— Talvez você deva parar por hoje — disse Scarlet. — Estamos quase chegando ao satélite.
Iko se manifestou.
— O tempo estimado de chegada é de nove minutos e trinta e quatro segundos. Em minha estimativa, é tempo suficiente para Cinder ser derrotada e humilhada em mais sete lutas.
Cinder olhou com raiva para o teto.
— Tempo suficiente também para desligar seu mecanismo de áudio.
— Como temos alguns minutos — falou Scarlet —, talvez devêssemos falar sobre como lidar com essa garota. Se ela está presa em um satélite há sete anos, sem ninguém com quem conversar além de uma taumaturga lunar, ela pode ser... socialmente deslocada. Acho que deveríamos todos fazer um esforço adicional para darmos boas-vindas e apoio e... para tentarmos não apavorá-la.
Uma gargalhada soou no cockpit, e Thorne apareceu à porta, prendendo um coldre na cintura.
— Você está pedindo que a fugitiva ciborgue e o animal selvagem sejam um comitê de boas-vindas? Que adorável.
Scarlet colocou as mãos nos quadris.
— Estou dizendo que deveríamos estar cientes do que ela passou e tentar ser sensíveis a isso. Pode não ser uma transição fácil para ela.
Thorne deu de ombros.
— A Rampion vai ser como um hotel cinco estrelas depois de morar em um satélite. Ela vai se ajustar.
— Vou ser legal com ela! — disse Iko. — Posso ajudá-la a fazer compras pela rede, e ela pode me ajudar a escolher meu futuro guarda-roupa de marca. Olhem, encontrei essa loja de acompanhantes com os melhores acessórios e alguns modelos com desconto. O que vocês achariam se eu tivesse cabelo laranja?
A tela na parede se acendeu e mostrou uma lista de androides acompanhantes à venda. A imagem de um modelo girava lentamente, mostrando as proporções perfeitas da androide, a pele de pêssego e a postura aprovada pela realeza. Ela tinha íris roxas, cabelo cor de tangerina e uma tatuagem de um carrossel antiquado girando no tornozelo.
Cinder fechou um dos olhos.
— Iko, o que isso tem a ver com a garota do satélite?
— Eu ia chegar nisso. — A tela exibiu um menu e parou em acessórios de cabelo, e dezenas de ícones amontoados mostrando de tudo, desde perucas com dreadlocks até arcos com orelha de gatinho e fivelas cobertas de pedras. — Pense em quanto potencial ela tem com um cabelo daqueles!
— Está vendo? — disse Thorne, cutucando Scarlet no ombro. — Iko e a garota do satélite, prisioneira e socialmente deslocada, vão ser melhores amigas para sempre. O que me preocupa é como vamos dividir o dinheiro da recompensa quando isso tudo acabar. Porque esta nave está ficando cheia demais, e não sei se fico feliz com vocês todos se metendo nos meus lucros.
— Que dinheiro da recompensa? — perguntou Scarlet.
— A recompensa que Cinder vai nos pagar com o tesouro lunar quando for rainha.
Cinder revirou os olhos.
— Eu devia ter adivinhado.
— E isso é só o começo. No final desta aventura, o mundo vai nos ver como heróis. Imaginem a fama e a fortuna, as oportunidades de patrocínio, as propostas de marketing, os direitos de dramatização na rede. Acho que deveríamos discutir a divisão do lucro logo, porque estou considerando uma divisão de 60-10-10-10-10 agora.
— O quarto dez por cento é meu? — perguntou Iko. — Ou é para a garota do satélite? Porque, se for para a garota do satélite, vou entrar em greve.
— Podemos discutir o dinheiro imaginário depois? — disse Cinder.
— Talvez quando houver dinheiro de verdade sobre o qual discutir? — sugeriu Scarlet. — Além do mais, você não tem que preparar a nave de passeio?
Oui, mademoiselle.
Com uma reverência, Thorne pegou uma arma de uma caixa e a colocou no coldre.
Scarlet inclinou a cabeça.
— Tem certeza de que não quer que eu vá? Vai ser necessária uma manobra bastante precisa para se prender à haste de pouso, e pelo que Cinder me falou sobre suas capacidades de voo...
— O que você quer dizer? O que Cinder disse sobre minhas capacidades de voo?
Scarlet e Cinder se olharam.
— Naturalmente, ela me contou que você é um piloto fantástico — disse Scarlet, pegando o moletom vermelho que estava sobre uma caixa. Embora tivesse sido rasgado em Paris, ela o costurou da melhor forma que conseguiu. — O melhor dos melhores.
— Acho que ela estava treinando sarcasmo — comentou Iko.
Thorne fez expressão de irritação, mas Cinder deu de ombros.
— Só estou dizendo que pode não ser um atracamento fácil — prosseguiu Scarlet, enfiando os braços pelas mangas. — Você tem que parar devagar, e só pode sair da nave quando tiver certeza de que o sistema do satélite é compatível e que está bem preso.
— Pode deixar comigo — disse Thorne. Piscando, esticou a mão e deu um beliscão no nariz de Scarlet, ignorando a irritação de Lobo atrás dela. — Mas é fofo de sua parte estar tão preocupada comigo.


A HASTE DE POUSO SE PRENDEU NA SEGUNDA TENTATIVA DE THORNE, o que ele achou ótimo para alguém que nunca havia se atracado a um satélite. Ele torcia para que Scarlet estivesse vendo depois de ter duvidado tão abertamente da capacidade dele. E verificou a firmeza do atracamento antes de colocar a nave em stand-by e soltar o cinto. Pela janela, via a parte curva do satélite e uma das hélices circulares girando preguiçosamente acima, impulsionando o satélite pelo espaço. Ele via apenas a beirada da haste de pouso pela janela da nave, mas pareceu bem presa, e seus instrumentos diziam que os níveis de pressão e oxigênio tornavam a saída da nave segura.
Ele folgou o colarinho da camisa. Não era um homem paranoico por natureza, mas lidar com lunares o deixava mais hesitante do que estava acostumado, mesmo sendo lunares jovens e meio bonitinhas, que deviam estar loucas depois de anos de solidão.
Thorne destrancou a porta da nave e abriu-a, deixando à mostra dois degraus que levavam a uma rampa com corrimão e, atrás dela, um corredor estreito. Seus ouvidos estalaram com a mudança de pressão. A entrada para o satélite principal ainda estava fechada, mas, quando se aproximou, ouviu um chiado e as portas se abriram, deslizando para dentro das paredes.
Ele reconheceu a sala pela ligação do chip D-COMM: dezenas de telas planas e limpas, alguns armários superiores, uma cama bagunçada com cobertores velhos, uma luz branco-azulada vindo das luzes embutidas. Uma porta à esquerda levava ao que ele supunha ser o banheiro, e, logo em frente, havia uma porta para a segunda haste de pouso.
A garota estava sentada na beirada da cama, com as mãos no colo e o cabelo caindo sobre os ombros e terminando em um amontoado cheio de nós nos tornozelos.
Ela estava sorrindo, com os lábios apertados e uma expressão educada que contrastava com a reação nervosa que tivera durante a conversa anterior.
Mas o sorriso hesitou quando o viu.
— Ah, é você — disse ela, inclinando a cabeça para o lado. — Eu estava esperando a ciborgue.
— Não precisa ficar tão decepcionada. — Thorne colocou as mãos no bolso. — Cinder sabe consertar naves, mas é inútil na hora de pilotar. Serei seu acompanhante hoje. Capitão Carswell Thorne, a seu dispor.
Ele acenou com a cabeça para ela.
Em vez de parecer tonta ou piscar os olhinhos, como era esperado dela, a garota afastou o olhar e se concentrou em uma das telas.
Tossindo, Thorne se balançou nos calcanhares. Ele esperava que uma garota que não tinha quase nenhuma interação humana fosse bem mais fácil de impressionar.
— Está de malas prontas? Não queremos ficar no mesmo lugar por muito tempo.
Ela olhou-o com expressão leve de irritação.
— Não importa — murmurou ela para si mesma. — Jacin e eu iremos buscá-la, então.
Thorne franziu a testa, sentindo uma pontada de arrependimento pelo deboche anterior, mesmo sendo apenas em sua cabeça. E se a solidão de fato a tivesse deixado maluca?
— Jacin?
Ela ficou de pé e seu cabelo se enroscando ao redor dos tornozelos. Ele não conseguira determinar a altura dela antes, mas, ao ver que não podia passar de um metro e meio, ficou bem mais tranquilo. Louca ou não, ela era inofensiva.
Provavelmente.
— Jacin, meu guarda.
— Certo. Bem, por que você não convida seu amigo Jacin para se juntar a nós a fim de podermos ir logo?
— Ah, acho que você não vai muito longe.
Ela deu um passo na direção dele e, naquele movimento, mudou. O cabelo ficou escuro e sedoso como a asa de um corvo. Os olhos mudaram de azul céu para cinza, a pele clara ficou dourada e o corpo se esticou para cima, deixando-a mais alta e graciosa. Até as roupas mudaram, de um vestido simples e gasto para um casaco branco com mangas compridas.
Thorne não demorou para esconder a surpresa.
Uma taumaturga. Fazia sentido.
Por não ser do tipo que se permite mergulhar em negação, ele aceitou a resignação imediata com um enrijecer de ombros. Era uma armadilha, então. A garota foi a isca, ou talvez fosse parte disso o tempo todo. Engraçado, ele costumava ter instintos melhores nessas situações.
Ele lançou outro olhar pela sala, mas não havia sinal da garota.
Uma coisa estalou na segunda haste de pouso, fazendo o satélite tremer. Esperança.
Sua tripulação devia ter reparado que alguma coisa estava errada. Deviam ser eles, a bordo da segunda nave.
Ele usou seu sorriso mais treinado e mais encantador e esticou a mão até a arma. Sentiu até uma pontada de orgulho quando a tirou do coldre, antes que seu braço ficasse paralisado sozinho.
Thorne deu de ombros com o ombro livre.
— Você não pode me culpar por tentar.
A taumaturga deu um sorrisinho debochado, e os dedos de Thorne se afrouxaram. A arma caiu no chão.
Capitão Carswell Thorne, é?
— Isso mesmo.
— Infelizmente, você não vai ter direito a esse título por muito tempo. Vou enviar sua Rampion para a rainha.
— Lamento ouvir isso.
— Além do mais, suponho que esteja ciente de que ajudar uma fugitiva como Linh Cinder é crime punível com morte em Luna. Sua sentença será executada imediatamente.
— Eficiência. Respeito isso.
A segunda porta de entrada se abriu atrás dela. Thorne tentou enviar avisos mentais aos companheiros: era uma armadilha! Que se preparassem!
Mas não era Cinder nem Scarlet nem Lobo de pé na segunda entrada, mas um soldado lunar. A esperança de Thorne começou a murchar.
— Jacin, vamos entrar a bordo da Rampion usando a nave deles.
— Aah, você é Jacin — disse Thorne. — Achei que ela tivesse inventado.
Eles o ignoraram, mas o soldado estava acostumado com isso.
— Vá cuidar para que esteja pronta para partir assim que eu tiver terminado aqui.
O guarda inclinou a cabeça num gesto respeitoso e foi obedecer à ordem dela.
— Cuidado — avisou Thorne. — Não foi um atracamento fácil. Exigiu manobras muito precisas. Na verdade, você quer que eu solte a nave para você? Só para ter certeza de que vai dar tudo certo?
O guarda olhou-o com arrogância ao passar, seu olhar nada vazio, como aparentara antes. Mas não respondeu ao sair pelo corredor em direção à nave de Thorne.
A taumaturga pegou um cobertor da cama e o jogou para Thorne. Ele o teria pegado por reflexo, mas não foi necessário: suas mãos fizeram todo o trabalho sem ele. Em pouco tempo, viu-se enrolando o cobertor nos pulsos e dando nós complicados, seguido de um puxão final com os dentes para prender bem.
— Espero ansiosamente voltar à Luna a bordo de sua nave e espalhar a boa notícia de que Linh Cinder não é mais ameaça à nossa coroa.
As sobrancelhas dele tremeram.
— Qualquer coisa que eu possa fazer para ajudar a causa benevolente de Sua Majestade.
A taumaturga foi até uma tela ao lado da haste e digitou um comando, um código de segurança seguido de uma série complicada de instruções.
— Primeiro, eu considerei desligar os aparelhos vitais e deixar que você e Crescente ficassem tentando respirar enquanto o oxigênio ia acabando. Mas isso poderia demorar demais, e eu detestaria dar a vocês uma oportunidade de se libertarem e pedirem ajuda. Portanto, serei misericordiosa. — Ao terminar, ela ajeitou as mangas compridas. — Pense que tem sorte porque vai ser rápido.
— Eu sempre me considerei sortudo.
O olhar dela ficou duro como aço, e Thorne se viu andando na direção da porta aberta que levava ao banheiro. Quando se aproximou, viu a garota amarrada com um lençol ao redor das mãos, dos joelhos e dos tornozelos, e um pedaço de tecido como mordaça sobre a boca. Restos de lágrimas manchavam seu rosto inchado. Seu cabelo era um emaranhado cheio de nós no chão ao redor, muitas mechas estavam presas nas amarras.
As entranhas de Thorne deram um nó. Ele tinha certeza de que ela os havia traído, mas o corpo trêmulo e a expressão horrorizada diziam o contrário.
Os joelhos dele cederam, e ele caiu no chão com um gemido. A garota tremeu.
Inspirando intensamente, Thorne olhou com raiva para a taumaturga.
— Isso tudo é necessário? Você está assustando a pobre garota.
— Crescente não tem motivo para ficar aborrecida. Foi a traição dela que nos trouxe a este momento.
— Certo. A garota de um metro e meio, amarrada e amordaçada no banheiro, é sempre a culpada.
— Além do mais — prosseguiu a taumaturga, como se ele não tivesse falado —, estou concedendo a Cress seu maior desejo. Vou mandá-la para a Terra. — Ela ergueu um chip metálico cintilante, idêntico ao D-COMM que Cinder carregava. — Tenho certeza de que Crescente não vai se importar de eu ficar com isso. Afinal, é propriedade de Sua Majestade.
As mangas compridas balançaram enquanto ela saía. Thorne ouviu o barulho dos saltos estalando na haste de pouso, e as portas se fecharam atrás dela. O som do motor da nave estava abafado, mas ele sentiu o sacolejar quando a nave se soltou.
Foi nesse momento que sentiu a primeira pontada de impotência.
Ela levou sua nave.
Aquela bruxa levou sua nave.
Mas a Rampion tinha outra nave. Sua tripulação ainda poderia ir buscá-los. Iria buscá-los.
De repente, ele sentiu uma coisa nova, uma força leve, um movimento suave, e a garota choramingou.
A trajetória do satélite tinha sido alterada. A gravidade estava agindo sobre eles, atraindo-os para fora de órbita.
O satélite estava caindo na direção da Terra.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!