3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Nove


— TRANSMISSÃO DOS HOSPEDEIROS BEM-SUCEDIDA — DISSE LI. — Todas as reações parecem normais. Pressão sanguínea estabilizando. Espera-se que os sinais do estágio dois apareçam cerca de 01:00 da madrugada. — Ele bateu palmas e girou a cadeira a fim de olhar para o dr. Erland e Fateen. — Isso significa que podemos todos ir para casa e cochilar, não é?
O dr. Erland fungou. Passou o dedo na tela diante dele, virando lentamente a holografia da paciente. Vinte pequenas luzes verdes piscavam ao longo da corrente sanguínea, espalhando-se lentamente por suas veias. Mas ele já tinha visto aquilo antes, dezenas de vezes. Era o restante dela que despertava seu interesse agora.
— Você já viu algo parecido com ela? — disse Fateen, postando-se ao lado dele. — Só a venda de seu painel de controle cobrirá toda a indenização à família.
O dr. Erland tentou lançar um olhar indiferente para ela, mas não funcionou porque ele teve que inclinar a cabeça para trás e olhar para cima. Rosnando, ele se afastou e se virou para a holografia. Deu um tapinha no topo da espinha dorsal que brilhava, onde duas vértebras de metal se conectavam, e ampliou a imagem.
O que antes era apenas uma pequena sombra, agora parecia enorme, bem definido.
Fateen cruzou os braços e se inclinou.
— O que é isso?
— Não sei ao certo — respondeu Erland, girando a imagem para obter um ângulo de visão melhor.
— Parece um chip — disse Li, levantando-se para se aproximar deles.
— Na coluna? — perguntou Fateen. — Em que isso a beneficiaria?
— Estou só dizendo que é o que parece. Ou talvez eles tenham cometido algum erro na vértebra e precisaram remendá-la ou algo assim.
Fateen apontou.
— Isso é mais do que um remendo. Dá para ver as reentrâncias aqui, como se estivessem conectadas a… — Hesitou.
Ambos encararam o dr. Erland, cujos olhos seguiam um pequeno ponto verde que acabara de entrar no campo de visão da holografia.
— Como um vagalume selvagem — murmurou ele para si mesmo.
— Doutor — disse Fateen, atraindo a atenção dele novamente —, por que ela teria um chip ligado ao sistema nervoso?
Ele limpou a garganta.
— Talvez — respondeu ele, tirando os óculos do bolso e encaixando-os no nariz — o sistema nervoso dela tenha passado por algum dano traumático.
— De um acidente de aerodeslizador? — perguntou Li.
— Lesões na espinha costumavam ser comuns antes que a navegação coordenada por computador se consagrasse. — O dr. Erland arranhou a tela com a unha, virando a holografia para exibir todo o torso de Cinder. Ele semicerrou os olhos por trás das lentes, os dedos tremulando sobre a imagem.
— O que você está procurando? — perguntou Fateen.
O dr. Erland pousou a mão e olhou para a garota imóvel do outro lado da janela.
— Está faltando alguma coisa.
O tecido cicatrizado em volta do pulso dela. O brilho fraco do pé sintético. A graxa sob as pontas dos dedos.
— O quê? — perguntou Li. — O que está faltando?
O dr. Erland se aproximou da janela e pressionou a palma suada na bancada.
— Um pequeno vagalume verde.
Atrás dele, Li e Fateen trocaram olhares, antes de se virarem novamente para a holografia. Cada um começou sua contagem, ele silenciosamente, ela em voz alta, mas Fateen parou no número doze com um engasgo.
— Um simplesmente desapareceu — disse ela, apontando para um lugar vazio na coxa direita da menina. — Um micróbio, estava bem aqui, eu estava olhando bem para ele, e agora desapareceu.
Enquanto observavam, dois outros pontos brilharam e desapareceram, como lâmpadas queimadas.
Li pegou seu tablet em uma mesa e bateu os dedos nele.
— O sistema imunológico dela está frenético.
O dr. Erland se inclinou na direção do microfone.
— Med, por favor, colha outra amostra de sangue. Rápido.
A garota despertou ao som da voz dele.
Fateen aproximou-se dele na janela.
— Ainda não lhe demos nenhum antídoto.
— Não.
— Então como…
O dr. Erland roeu a unha do polegar para diminuir a onda de vertigem.
— Preciso pegar aquela primeira amostra de sangue — disse ele, se afastando, temendo tirar os olhos da garota ciborgue. — Quando todos os micróbios desaparecerem, levem-na ao laboratório quatro.
— O laboratório quatro não está preparado para a quarentena — disse Li.
— De fato. Ela não será mais contagiosa. — O dr. Erland estalou os dedos, a meio caminho da porta. — E talvez possamos pedir ao medidroide que a desamarre.
— Desamarrar. — O rosto de Fateen se contorceu sem acreditar. — Você tem certeza de que é uma boa ideia? Ela foi agressiva com os medidroides, lembra?
Li cruzou os braços.
— Ela está certa. Eu não gostaria de estar do outro lado daquele pulso se ela ficasse com raiva.
— Nesse caso, você não tem nada a temer — disse o dr. Erland. — Vou me encontrar com ela a sós.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!