7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Doze

SCARLET FEZ UM SINAL COM A ARMA PARA QUE LOBO ENTRASSE e abriu uma expressão de raiva conforme ele seguia até a escada. Ele pareceu se preparar observando as paredes de estuque e a escada manchada antes de entrar no corredor. Precisou baixar a cabeça para não bater no batente da porta.
Scarlet fechou a porta com um chute, se recusando a afastar o olhar de Lobo, parado com o corpo encolhido, tentando parecer menor. A atenção dele foi desviada para as fotografias digitais na parede que mostravam Scarlet quando criança comendo ervilhas cruas do jardim, campos dourados de outono, a avó quarenta anos mais nova, com o primeiro uniforme militar.
— Por aqui.
Lobo seguiu o gesto dela em direção à cozinha. Scarlet olhou para a foto na hora em que a avó desapareceu e seguiu atrás dele.
Ao ver o tablet na bancada, ainda exibindo a foto de um macho alfa com sua companheira, enfiou-o no bolso.
Sem dar as costas para o lutador de rua, ela apoiou a arma em um canto dos armários e pegou o moletom vermelho das costas de uma das cadeiras. Sentiu-se menos vulnerável ao vestir os braços nas mangas. Menos ainda quando pegou uma faca no cepo da bancada.
Os olhos de Lobo se dirigiram para a faca antes de observar o resto da cozinha. Eles pousaram na cesta de arame ao lado da pia, as pupilas dilatando de fome.
Seis tomates brilhosos enchiam a cesta.
Scarlet franziu a testa quando Lobo baixou o olhar.
— Você deve estar com fome — murmurou ela. — Depois de correr tanto.
— Estou bem.
— Sente-se — disse ela, indicando a mesa com a faca.
Lobo hesitou só por um momento antes de sentar em uma cadeira. E não a puxou para perto da mesa quando se sentou, como se quisesse ter espaço para pular e sair correndo caso precisasse.
— Mãos onde eu consiga ver.
Ele pareceu quase achar graça ao se inclinar para a frente e colocar as mãos abertas em cima da mesa.
— Não consigo imaginar o que você deve pensar de mim depois de ontem à noite.
Ela riu, debochando.
— É mesmo, não consegue imaginar? — Ela segurou a tábua de corte e a jogou na mesa, na frente de Lobo. — Quer que eu dê uma dica?
Ele baixou o olhar e passou o dedo por um corte antigo na madeira.
— Fazia muito tempo que não perdia o controle daquele jeito. Não sei o que aconteceu.
— Espero que não tenha vindo aqui em busca de compreensão. — Recusando-se a colocar a faca na mesa ou virar as costas para ele, ela teve que ir mais de duas vezes da bancada até a mesa, primeiro para pegar um pedaço de pão, depois para pegar dois tomates.
— Não. Já falei por que estou aqui. Mas passei a noite inteira tentando entender o que deu errado.
— Talvez você precise repensar no momento em que decidiu que lutas de rua seriam uma profissão promissora.
Um longo silêncio permaneceu intacto até que Scarlet, ainda de pé, cortou um pedaço de pão e jogou para Lobo, que pegou com facilidade.
— Você está certa — disse ele, arrancando pedaços da casca. — Deve ser onde começou. — Ele enfiou os dentes no pão, quase sem mastigar antes de engolir.
Perplexa por ele não ter argumento nem desculpa, Scarlet pegou um dos tomates e colocou na tábua, sentindo necessidade de manter as mãos ocupadas. Enfiou brutalmente a faca no tomate, ignorando as sementes que escorreram para a tábua.
Depois de cortar o tomate em fatias, ela entregou-as para ele, sem se dar o trabalho de pegar um prato. Várias migalhas de pão em cima da mesa rapidamente ganharam a companhia de um líquido vermelho aguado.
O olhar dele estava distante quando pegou as fatias.
— Obrigado.
Scarlet jogou o cabo do tomate na pia e limpou as mãos na calça jeans. Do lado de fora, o sol estava nascendo rápido e as galinhas estavam ficando agitadas e cacarejando, querendo saber por que Scarlet não tinha dado o café da manhã delas quando saiu.
— É tão tranquilo aqui — disse Lobo.
— Não vou contratar você. — Pegando a caneca esquecida de café frio, Scarlet finalmente se sentou em frente a Lobo. A faca permaneceu na tábua de corte, perto dos dedos dela. Esperou até ele lamber os últimos restos de tomate dos dedos.
— E aí, qual é a história da tatuagem?
Lobo olhou para o antebraço. A luz da cozinha fazia com que seus olhos brilhassem como pedras preciosas, mas dessa vez Scarlet não ficou vermelha. No momento ela só se importava com as respostas que aqueles olhos escondiam.
Ele esticou o braço em cima da mesa para a tatuagem ficar sob a luz e esticou a pele, como se a estivesse vendo pela primeira vez. SLOM962.
— Soldado Leal da Ordem da Matilha — disse ele. — Membro 962. — Ele soltou a pele e encolheu os ombros, afundando na cadeira. — O maior erro que já cometi.
A pele de Scarlet formigou.
— E o que exatamente é a Ordem da Matilha?
— Uma gangue, mais comumente chamada de Os Lobos. Eles gostam de se intitular paramilitares, rebeldes e arautos da mudança, mas... não são muito melhores do que criminosos, na verdade. Se algum dia eu tiver dinheiro, vou mandar remover essa coisa horrível.
Uma rajada de vento balançou o carvalho em frente à porta, e várias folhas bateram na janela.
— Então você não faz mais parte disso?
Ele fez que não com a cabeça.
Scarlet olhou para o outro lado, incapaz de decifrá-lo. Incapaz de decidir se estava falando a verdade.
— Os Lobos — murmurou ela, deixando o nome afundar em seu cérebro. — E eles costumam fazer coisas assim? Sequestrar pessoas inocentes por nenhum motivo?
— Eles têm um motivo.
Scarlet esticou o cordão do capuz até quase se estrangular, depois puxou de volta para afrouxar.
— Por quê? O que poderiam querer com a minha avó?
— Não sei.
— Não me diga isso. É dinheiro de resgate? O quê?
Os dedos dele se flexionaram em cima da mesa.
— Ela era militar — respondeu ele, apontando para o corredor. — Naquelas fotos, ela estava de uniforme.
— Ela foi piloto da Federação Europeia, mas isso foi anos atrás. Antes de eu nascer.
— Talvez ela saiba de alguma coisa. Ou talvez eles pensam que ela saiba.
— Saiba o quê?
— Segredos militares? Armas secretas?
Scarlet se inclinou para a frente até ficar com a barriga apertada na beirada da mesa.
— Pensei que você tivesse dito que eram criminosos comuns. Por que se importam com isso?
Lobo suspirou.
— Criminosos que se veem como...
— Arautos da mudança. — Scarlet mordeu o lábio. — Certo. Então, o quê? Estão tentando derrubar o governo ou algo do tipo? Iniciar uma guerra?
Lobo olhou pela janela quando as luzes de uma pequena nave de passageiros percorreu o campo ao longe — os primeiros trabalhadores chegando.
— Não sei.
— Não, você sabe. Você é um deles!
Lobo deu um sorriso triste.
— Eu não era nada para eles, não passava de um garoto de recados. Não tinha permissão para ouvir os planos executivos.
Scarlet cruzou os braços.
— Então dê o seu melhor palpite.
— Sei que eles guardam muitas armas. Querem que as pessoas tenham medo deles. — Ele balançou a cabeça. — Talvez queiram colocar as mãos em armas militares.
— Minha avó não saberia nada sobre isso. E mesmo se soubesse antes, quando era piloto, não saberia agora.
Lobo abriu as mãos e mostrou as palmas para ela.
— Sinto muito. Não sei o que mais pode ser. A não ser que você consiga pensar em alguma coisa com a qual sua avó estivesse envolvida.
— Não, não paro de pensar nisso desde que ela desapareceu, mas não sei de nada. Ela só era... É minha avó. — Ela apontou para os campos lá fora. — É dona de uma fazenda. Fala o que pensa e não gosta que lhe digam o que pensar, mas não tem inimigos, não que eu saiba. Claro, as pessoas na cidade a acham meio excêntrica, mas não tem ninguém que não goste dela. E ela é só uma velhinha. — Ela juntou as mãos ao redor da caneca de café e suspirou. — Você deve saber ao menos como encontrá-los, não?
— Encontrá-los? Não... Seria suicídio.
Ela ficou tensa.
— Não é você quem decide.
Lobo coçou a nuca.
— Há quanto tempo eles a levaram?
— Dezoito dias. — A histeria subiu pela garganta dela. — Estão com ela há dezoito dias.
A atenção dele estava voltada para a mesa, com rugas de preocupação na testa.
— É perigoso demais.
A cadeira caiu com força no chão quando Scarlet levantou bruscamente.
— Pedi informação, não um sermão. Não ligo para o quanto eles são perigosos. É mais um motivo por que eu preciso encontrá-los! Sabe o que poderiam estar fazendo com ela agora, enquanto você desperdiça meu tempo? O que fizeram com meu pai?
Um baque soou em algum lugar na casa, e Scarlet levou um susto, quase perdendo o equilíbrio ao tropeçar na cadeira caída. Olhou para trás de Lobo, mas o corredor estava vazio. Seu coração ficou apertado.
— Pai? — Ela correu até o saguão e abriu a porta da frente. — Pai!
Mas, do lado de fora, o caminho já estava vazio.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!