20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Doze

Kai observou as mãos de Thorne, aparentemente competentes, mexerem em alguns interruptores no painel de controle da nave. Eles saíram da doca e mergulharam na direção do planeta Terra. Thorne digitou algumas coordenadas no computador, e Kai ficou surpreso com a pontada de saudade que sentiu ao ver as imagens de satélite da Comunidade das Nações Orientais surgirem na tela.
O plano era Thorne deixar Kai em um dos esconderijos reais, longe o bastante da civilização para a nave passar despercebida, se eles fossem rápidos, mas perto o bastante da cidade para Kai ser buscado em uma hora depois que alertasse sua equipe de segurança do retorno.
— Deve ser estranho para você — disse Thorne, arrastando os dedos por uma tela de radar. — Sua namorada ciborgue ser uma fora da lei procurada e sobrinha da sua noiva e tudo o mais.
Kai fez uma careta que fez seu rosto começar a doer de novo.
— Sinceramente, eu tento não pensar nos detalhes. — Ele desviou o olhar na direção da Rampion, que se afastava depressa da janela. — Ela se diz mesmo minha namorada?
— Ah, eu não teria como saber. Nós não passamos a noite fofocando e pintando unhas desde o sequestro.
Com cara feia, Kai encostou a cabeça no apoio do banco.
— Já estou desconfortável com você pilotando esta nave e estando no controle da minha vida. Tente não piorar as coisas.
— Por que todo mundo pensa que piloto tão mal?
— Cinder me contou.
— Bem, diga para Cinder que sou perfeitamente capaz de pilotar uma porcaria de nave sem matar ninguém. Minha instrutora de voo em Andrômeda, que é uma academia militar de muito prestígio na República…
— Eu sei o que é a Academia Andrômeda.
— Ah, bem, minha instrutora de voo disse que eu tinha talento nato.
— Certo — disse Kai. — Era a mesma instrutora de voo que escreveu no seu relatório oficial sobre sua falta de atenção, recusa de levar as precauções de segurança a sério e atitude tão confiante que costumava beirar a… qual foi a palavra que ela usou? “Tolice”, eu acho.
— Ah, é. A comandante Reid. Ela tinha uma quedinha por mim. — O radar piscou e captou um cruzador ao longe, e Thorne foi rápido em mudar a direção para mantê-los fora do curso. — Eu não sabia que tinha um perseguidor real. Estou lisonjeado, Vossa Majestade.
— Melhor ainda, você teve uma equipe de governo inteira designada para descobrir informações sobre você. Eles se reportaram duas vezes por dia durante uma semana. Você fugiu com uma das criminosas mais procuradas do mundo, afinal.
— E sua namorada.
Kai sufocou ao mesmo tempo um sorriso e uma expressão de irritação.
— E minha namorada — admitiu ele.
— Eles demoraram uma semana, é? Cress poderia ter desenterrado minha biografia inteira em horas.
Kai refletiu sobre isso.
— Talvez eu ofereça um emprego a ela quando isso tudo acabar.
Ele esperava e não ficou desapontado: houve um tremor de irritação embaixo dos olhos de Thorne. Mas ele escondia com facilidade, sua expressão se transformando em indiferença.
— Talvez devesse mesmo.
Kai balançou a cabeça e afastou o rosto. A Terra ocupava a vista da janela, um caleidoscópio de oceano e solo. Ele segurou o cinto, sabendo que estavam disparados pelo espaço em velocidade apavorante, mas sentindo como se estivesse suspenso no tempo por um momento silencioso.
Relaxou os ombros, impressionado com a vista. Na próxima vez que subisse aqui, se tudo corresse de acordo com os planos, ele estaria a caminho de Luna.
— Sabe o que é muito estranho de pensar? — perguntou Kai, tanto para si mesmo quanto para Thorne. — Se Levana não tivesse tentado matar Cinder quando ela era criança, eu talvez estivesse noivo dela agora. Ela já seria rainha. Nós poderíamos estar tramando uma aliança juntos.
— É, mas ela teria sido criada em Luna. E, pelo que percebo, ser criada em Luna afeta muito as pessoas. Ela não seria a ciborgue fofa que todos nós aprendemos a adorar.
— Eu sei. Eu poderia desprezá-la tanto quanto desprezo Levana, apesar de ser difícil de imaginar.
Thorne assentiu, e Kai ficou aliviado de ele não dizer nada cretino enquanto a nave adentrava algumas nuvens. A luz ao redor começou a mudar e clarear conforme foram entrando nas primeiras camadas da atmosfera terráquea. A fricção fez a nave tremer, e gotas de água deslizavam pela janela, mas não demorou para eles passarem. O oceano Pacífico cintilava logo abaixo.
— Acho que isso tudo deve ser bem estranho para você também — disse Kai. — Um criminoso procurado pilotando a nave para levar um líder político sequestrado de volta ao país de onde você escapou.
Thorne riu com deboche.
— A parte esquisita é que não vou levar nenhum dinheiro de resgate. Se bem que, se você estiver se sentindo generoso…
— Não estou.
Thorne fez cara feia.
— Ah, talvez um pouco. Você foi condenado em três países, certo? Na Comunidade, na América e na Austrália?
— Não me lembre. Era de se pensar que essa coisa de união ia significar que poderíamos ter um pouco de consistência em nossos sistemas judiciais, mas não, você comete crimes em três países diferentes e todo mundo quer uma participação na punição.
Kai beliscou os lábios e deu a si mesmo uma última chance de reconsiderar. Só tinha tido a ideia poucos dias antes, e sua palavra seria sagrada depois que ele falasse em voz alta. Ele não queria abrir um precedente injusto como líder do país, mas, ao mesmo tempo, parecia certo. E qual era o sentido de ser imperador se ele não pudesse fazer as coisas às vezes só porque pareciam certas?
— Pode ser que eu me arrependa — disse ele, respirando fundo. — Mas, Carswell Thorne, eu perdoo todos os seus crimes contra a Comunidade das Nações Orientais.
Thorne virou-se na direção de Kai. A nave deu um pulo para a frente e Kai ofegou, agarrando-se ao cinto.
— Ops, desculpe. — Thorne ajeitou o nariz da nave e voltou ao voo firme. — Isso foi um, hã, uma estagnação… de ar. Mas o que você estava dizendo mesmo?
Kai expirou.
— Estou dizendo que você pode considerar que já serviu sua sentença, ao menos na Comunidade. Se nós dois sobrevivermos a isso, quando acabar, vou torná-lo oficial. Mas não posso fazer nada quanto aos outros países além de falar em seu nome. E, para ser sincero, provavelmente vão achar que fiquei maluco. Ou que estou sofrendo de síndrome de Estocolmo.
— Ah, você está mesmo sofrendo de síndrome de Estocolmo, mas não vou usar isso contra você. Então, certo. Ótimo. Posso ter isso por escrito?
— Não — disse Kai, vendo os controles da nave enquanto Thorne estava com a atenção voltada para ele de novo. — E o acordo só é válido se nós dois sobrevivermos.
— Sobrevivência mútua. Não vai ser problema. — Sorrindo, Thorne verificou o trajeto e fez alguns ajustes nos instrumentos de voo enquanto o Japão aparecia no horizonte.
— E tenho uma condição. Você tem que devolver tudo o que roubou.
O sorriso de Thorne começou a murchar, mas ele prendeu as mãos no console e sorriu de novo.
— Bonecas de sonhos e alguns uniformes adicionais? Feito.
— E?
— E… e é basicamente isso. Caramba, parece até que sou cleptomaníaco, sei lá.
Kai limpou a garganta.
— E a nave. Você tem que devolver a nave.
Os nós dos dedos de Thorne ficaram brancos.
— Mas… é minha nave.
— Não, ela pertence à República Americana. Se você quiser uma nave sua, vai ter que trabalhar por ela e comprar uma, como todo mundo.
— Ei, senhor nascido na realeza, o que você sabe sobre as coisas? — Mas a postura defensiva de Thorne sumiu com a mesma rapidez com que surgiu, terminando em uma cara emburrada e mal-humorada. — Além do mais, eu trabalhei por ela. A ladroagem não é fácil, sabe.
— Você não vai discutir comigo por causa disso, vai?
Thorne apertou bem os olhos, e cada músculo do corpo de Kai ficou tenso, mas então Thorne suspirou e os abriu de novo.
— Você não entende. A Rampion e eu passamos por muita coisa juntos. Eu posso tê-la roubado no começo, mas agora parece que ela pertence a mim.
— Mas ela não pertence a você. E você não pode esperar que o resto da sua tripulação queira ficar em uma nave roubada.
Thorne riu com deboche.
— Minha tripulação? Vou contar o que vai acontecer com minha tripulação quando isto acabar. — Ele foi marcando com os dedos. — Cinder vai ser a monarca de uma pedra enorme no céu. Iko vai aonde Cinder for, então vamos concluir que vai se tornar a cabeleireira da rainha ou alguma outra coisa assim. Você… você é parte da tripulação agora? Não importa, nós dois sabemos onde você vai terminar. E quando pegarmos Scarlet de volta, ela e Lobo vão se recolher em alguma fazenda na França e ter uma ninhada de lobinhos. É isso que vai acontecer com minha tripulação quando isto terminar.
— Parece que você já pensou bastante nisso.
— Talvez — disse Thorne, mexendo um ombro. — Eles são a primeira tripulação que eu tenho, e a maioria até me chama de capitão. Vou sentir falta deles.
Kai apertou os olhos.
— Reparei que você deixou Cress de fora. O que está acontecendo entre vocês dois, afinal?
Thorne riu.
— O quê? Não tem nada acontecendo. Nós… quer dizer, o que você quer dizer?
— Não sei. Ela parece mais à vontade perto de você do que de qualquer outra pessoa na nave. Eu só achei…
— Ah, não, não tem nada assim… Nós ficamos no deserto sozinhos por muito tempo, mas só isso. — Ele passou os dedos distraidamente pelos controles da nave, mas não tocou em nada. — Ela gostava de mim. Na verdade... — Ele riu de novo, mas foi uma risada mais tensa desta vez. — Ela achou que estava apaixonada por mim quando nos conhecemos. Engraçado, né?
Kai o observou com o canto do olho.
— Hilário.
Os nós dos dedos de Thorne ficaram brancos nos controles, depois ele olhou para Kai e começou a balançar a cabeça.
— O que é isso, uma sessão de terapia? Não importa.
— Meio que importa. Eu gosto de Cress. — Kai mexeu no cinto. — Também gosto de você, apesar de não dever.
— Você ficaria surpreso com a frequência com que ouço isso.
— Alguma coisa me diz que Cress talvez ainda goste de você, apesar de ela não dever.
Thorne suspirou.
— É, isso meio que resume tudo.
Kai inclinou a cabeça.
— Como assim?
— É complicado.
— Ah, é complicado. Porque eu não faço ideia de como são essas coisas. — Kai riu.
Thorne fez cara feia para ele.
— Não importa, doutor. É que, quando Cress achou que estava apaixonada por mim, estava na verdade apaixonada por um outro cara que ela inventou nas fantasias, um cara corajoso e altruísta e tal. Ele era um partidão. Quem podia culpá-la? Até eu gostei daquele cara. Eu meio que queria ser aquele cara. — Ele deu de ombros.
— Você tem certeza de que não é?
Thorne riu.
Kai, não.
— Você está brincando, né?
— Não.
— Hã, oi, sou Carswell Thorne, criminoso condenado no seu país. Já nos conhecemos?
Kai revirou os olhos.
— Estou dizendo que talvez você devesse parar de dedicar tanta energia a lamentar o fato de que Cress se enganou sobre você e começasse a dedicar energia a provar que ela estava certa, por exemplo.
— Eu agradeço a confiança, Vosso Psicólogo Real, mas estamos longe disso. Cress me esqueceu, e… é melhor.
— Mas você gosta dela?
Como Thorne não reagiu, Kai olhou de relance e notou a atenção de Thorne grudada na janela do cockpit. Por fim, ele respondeu:
— Como eu falei, não importa.
Kai afastou o olhar. De alguma forma, a incapacidade de Thorne de falar sobre sua afeição por Cress falava bem mais alto do que uma confissão direta. Afinal, ele não tinha dificuldade em fazer comentários sugestivos sobre Cinder.
— Tudo bem — disse ele. — E o que Cress vai fazer quando isto tudo terminar?
— Não sei — disse Thorne. — Talvez vá trabalhar para você na sua equipe de vigilância real.
Abaixo, a mancha de terra virou praias e arranha-céus e o monte Fuji, e, mais além, um continente inteiro, vivo e verdejante e acolhedor.
— Mas acho que não é isso que ela ia querer — refletiu Thorne. — Ela quer ver o mundo depois de ter ficado presa naquele satélite a vida toda. Ela quer viajar.
— Então, acho que ela devia ficar com você, afinal. Que jeito melhor há de se viajar do que de espaçonave?
Mas Thorne balançou a cabeça, decidido.
— Não, acredite. Ela merece uma vida melhor do que isso.
Kai se inclinou para ver melhor seu lar surgindo à frente.
— É exatamente o que eu queria dizer.

Um comentário:

  1. Esse Thorne está fazendo uma tempestade em um copo d'água, afinal eles nem sabem se vão viver ele devia se confessar logo, pq a cress ama ele mesmo sendo o idiotas que ele é!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!