13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Doze

A QUEDA FORA LENTA NO COMEÇO, GRADUAL, CONFORME A FORÇA da órbita do satélite era superada pela força da gravidade da Terra.
Thorne puxou a perna da calça e usou o dedão do pé para tirar a bota esquerda. A faca que guardava ali caiu no chão com um estalo e ele a pegou e tentou virar a lâmina com dificuldade para o cobertor que prendia seus pulsos.
A garota murmurou alguma coisa por baixo da mordaça e se mexeu na direção dele. As amarras dela estavam bem mais presas e de forma mais elaborada do que as dele. A taumaturga só o fizera amarrar as mãos na frente do corpo, mas a garota estava com as pernas amarradas de cima a baixo, além dos pulsos presos nas costas e a mordaça sobre a boca.
Sem posição para pressionar a faca contra suas amarras, ele assentiu para a garota.
— Você consegue se virar?
Ela se deixou cair, virou-se de lado e empurrou com os pés para se ajeitar, de forma a ficar com as mãos na direção dele. Thorne se curvou e cortou o lençol que amarrava com força os braços dela. Quando conseguiu, viu que havia marcas fundas e vermelhas na pele dela.
Ela tirou a mordaça e deixou-a pendurada no pescoço. Uma mecha de cabelo estava presa no nó do tecido.
— Meus pés!
— Você consegue desamarrar minhas mãos?
Ela não disse nada e pegou a faca da mão dele. Suas mãos tremiam quando apontou a lâmina para as amarras ao redor dos seus joelhos, e Thorne pensou que talvez fosse melhor mesmo ela treinar em si primeiro.
Enquanto cortava o lençol, ela parecia uma louca, com a testa franzida de concentração, o cabelo embaraçado, a pele úmida e corada e linhas vermelhas nas bochechas provocadas pela mordaça. Mas a adrenalina a fez trabalhar rápido, e logo ela empurrou o tecido com os pés.
— Minhas mãos — falou Thorne de novo, mas ela já estava se apoiando na pia e se levantando com pernas trêmulas.
— Me desculpe... os procedimentos de entrada! — disse ela, cambaleando para a sala principal.
Thorne pegou a faca e ficou de pé na hora em que o satélite fez uma virada repentina. Ele escorregou e deu uma topada na porta do box. Eles estavam caindo mais rápido conforme a força da gravidade os puxava.
Usando a parede para se equilibrar, Thorne cambaleou para a sala principal. A garota também tinha caído e estava se esforçando para subir na cama.
— Precisamos chegar à outra nave e nos desconectar — disse Thorne. — Você precisa me desamarrar!
Ela balançou a cabeça e se encostou na parece onde havia a menor tela de todas, a tela que a taumaturga tinha mexido antes. Havia fios de cabelo presos no rosto dela.
— Ela deve ter colocado um bloqueio de segurança na nave, e conheço o satélite melhor e... ah, não, não, não! — gritou, com os dedos voando na tela. — Ela mudou as senhas de acesso!
— O que você está fazendo?
— Os procedimentos de entrada... a cobertura ablativa deve aguentar enquanto estivermos passando pela atmosfera, mas, se eu não preparar o paraquedas, o satélite inteiro vai se desintegrar com o impacto!
O satélite balançou de novo, e os dois perderam o equilíbrio. Thorne tombou no colchão, e a faca caiu de sua mão e quicou na beirada da cama, enquanto a garota tropeçava e caía de joelho. As paredes ao redor começaram a tremer com a fricção da atmosfera da Terra. A escuridão que cobria as pequenas janelas foi substituída por uma intensa luz branca. A cobertura exterior estava sendo queimada ao mesmo tempo que protegia os dois do calor da atmosfera.
Diferentemente da Rampion, o satélite tinha sido feito para apenas uma descida na direção da Terra.
— Tudo bem. — Deixando de lado o fato de que estava preso, Thorne passou para o outro lado da cama e puxou a garota, levantando-a. — Faça esse paraquedas funcionar.
Ela ainda estava tonta quando ele girou-a na direção da tela e passou os braços ao redor de Cress, como um casulo protetor. Ela era ainda mais baixa do que ele tinha percebido; o topo da cabeça não chegava nem à sua clavícula.
Os dedos dela apertaram a tela enquanto Thorne melhorava a postura e firmava os joelhos, preparando-se da melhor forma possível enquanto o satélite sacudia e balançava em volta deles. Ele se inclinou sobre ela, tentando manter o equilíbrio e mantê-la firme enquanto códigos e comandos piscavam e rolavam pela tela. Sua atenção se desviou para a janela mais próxima, ainda branca e ardente. Assim que o satélite entrasse o bastante na atmosfera da Terra, a autogravidade seria desligada e eles estariam tão seguros como um dado no punho de um jogador.
— Entrei! — gritou ela.
Thorne encolheu os dedos do pé descalço sobre o tapete. Ouviu um estrondo atrás de si e ousou olhar. Uma das telas tinha caído da mesa. Ele engoliu em seco. Qualquer coisa que não estivesse aparafusada na parede estava prestes a virar um projétil.
— Quanto tempo vai demorar para...
— Pronto!
Thorne a virou e jogou o peso dos dois na direção do colchão.
— Debaixo da cama!
Ele cambaleou e caiu, arrastando-a junto. Os armários se abriram acima deles, e Thorne se encolheu quando uma chuva de comida enlatada e pratos caiu ao redor dos dois. Ele se manteve sobre a garota e desviou os objetos dela.
— Rápido!
Ela se arrastou, saiu da proteção dos braços dele e se puxou para as sombras. Recuou contra a parede o mais longe que conseguiu, com as mãos empurrando a cama para prender o corpo no lugar.
Thorne chutou o tapete e se segurou no apoio mais próximo a fim de dar impulso para a frente.
O sacolejar parou e foi substituído por uma descida suave e rápida. A luz que vinha das janelas assumiu um tom de azul luminoso. O estômago de Thorne deu um nó, e ele sentiu como se estivesse sendo sugado para um vácuo.
Ele a ouviu gritar. Dor e luz explodiram em sua cabeça, e o mundo ficou preto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!