3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Doze

O PRÍNCIPE KAI ASSISTIU PELO VIDRO ENQUANTO O MEDIDROIDE inseria uma agulha intravenosa no braço de seu pai. Apenas cinco dias haviam se passado desde que o imperador mostrara os primeiros sinais da febre azul, mas parecia uma vida inteira. Anos de preocupação e angústia comprimidos em tão poucas horas.
O dr. Erland uma vez lhe contara sobre uma antiga crença de que coisas ruins sempre vinham em grupos de três.
Primeiro, seu androide Nainsi tinha quebrado antes que pudesse comunicar suas descobertas.
E agora seu pai estava doente, e não havia esperança de que sobrevivesse.
O que aconteceria a seguir? O que poderia ser pior do que isso?
Talvez os lunares declarassem guerra.
Ele se encolheu, querendo apagar aquele pensamento.
Konn Torin, conselheiro de seu pai e o único outro humano que tinha permissão para ver o imperador em tal estado, pousou a mão no ombro de Kai.
— Vai dar tudo certo — disse, sem emoção, naquele jeito estranho que ele tinha de ler os pensamentos dos outros.
O pai de Kai gemeu e abriu os olhos inchados. O quarto estava na quarentena, no sétimo andar da ala de pesquisa do palácio, mas providenciaram para que o imperador se sentisse o mais confortável possível. Inúmeras telas cobriam as paredes para que ele pudesse desfrutar de música e entretenimento, para que pudessem ler para ele. Suas flores favoritas tinham sido trazidas em massa dos jardins. Lírios e crisântemos cobriam a sala estéril. A cama fora feita com as melhores sedas que a Comunidade tinha para oferecer.
Mas nada disso fazia muita diferença. Ainda era uma sala feita para manter os vivos separados dos que estavam para morrer.
Uma janela transparente separava Kai do pai. Ele apertava os olhos para ver Kai agora, mas seus olhos estavam duros como o vidro.
— Vossa Majestade — disse Torin. — Como está se sentindo?
Os olhos do imperador estavam enrugados nos cantos. Ele não era um homem velho, mas a doença o envelhecera rapidamente. Sua pele estava amarelada e pálida, e manchas pretas e vermelhas pontilhavam seu pescoço.
Ele levantou os dedos do cobertor: era o mais próximo que conseguia de um olá.
— O senhor precisa de alguma coisa? — perguntou Torin. — Um copo de água? Comida?
— Uma Escort 5.3? — sugeriu Kai.
Torin lançou um olhar de desaprovação ao príncipe, mas o imperador soltou uma risadinha.
Kai sentiu seus olhos umedecerem e teve que desviar o olhar para seus dedos que apertavam o peitoril da janela.
— Quanto tempo mais? — disse ele baixinho para que seu pai não ouvisse.
Torin balançou a cabeça.
— Dias, se tanto.
Kai podia sentir o olhar de Torin sobre ele, compreensivo, mas também duro.
— Você deve se sentir agradecido pelo tempo que tem com ele. A maioria das pessoas não consegue ver seus entes queridos quando são levados.
— E quem quer ver seus entes queridos assim? — Kai olhou para cima. Seu pai lutava para se manter acordado, as pálpebras tremendo. — Med, traga água.
O androide deslizou para o lado do imperador e ergueu o encosto, levando um copo de água até sua boca e enxugando o que escorria com um pano branco. Ele não bebeu muito, mas parecia renovado quando afundou novamente no travesseiro.
— Kai…
— Eu estou aqui — disse Kai, seu hálito embaçando o vidro.
— Seja forte. Confie… — Suas palavras foram interrompidas por uma tosse. O medidroide segurava uma toalha em sua boca, e Kai conseguiu ver rapidamente o sangue no tecido. Ele fechou os olhos, controlando a respiração.
Quando os abriu de novo, o medidroide estava injetando na intravenosa um líquido transparente, algo para aliviar a dor. Kai e Torin assistiram ao imperador cair em um sono imóvel. Era como observar um estranho. Kai o amava, mas não conseguia ligar o doente diante dele ao pai vivaz que tinha havia uma semana.
Uma semana.
Um calafrio percorreu seu corpo, e Torin apertou seu ombro. Kai tinha esquecido que a mão dele estava lá.
— Vossa Alteza.
Kai não disse nada, o olhar fixo no peito do pai, que subia e descia.
Os dedos em seu ombro apertaram brevemente, depois sumiram.
— Você será o imperador, Vossa Alteza. Temos que começar a prepará-lo. Nós já adiamos isso por tempo demais.
Tempo demais. Uma semana.
Kai fingiu não ouvi-lo.
— Como disse Sua Majestade, você deve ser forte. Sabe que ajudarei de todas as formas que puder. — Torin parou. — Você será um bom líder.
— Não. Não serei. — Kai enfiou a mão nos cabelos, puxando-os para trás.
Ele seria imperador.
As palavras soavam vazias.
O verdadeiro imperador estava ali, naquela cama. Ele era um impostor.
— Estou indo falar com o dr. Erland — disse Kai, afastando-se do vidro.
— O médico está ocupado, Vossa Alteza. Você não deve distraí-lo.
— Só quero perguntar se houve qualquer avanço.
— Tenho certeza de que ele o chamará na mesma hora se algo surgir.
Kai trincou o maxilar e fixou o olhar em Torin, o homem que havia sido conselheiro de seu pai desde antes de Kai nascer. Mesmo agora, estar na presença de Torin o fazia sentir-se uma criança e lhe dava uma vontade peculiar de ser indisciplinado. Ele se perguntou se algum dia superaria isso.
— Preciso sentir que estou fazendo alguma coisa — disse ele. — Não posso ficar aqui simplesmente assistindo à morte dele.
Torin baixou o olhar.
— Eu sei, Alteza. É difícil para todos nós.
“Não é a mesma coisa”, Kai queria dizer, mas segurou a língua.
Torin virou-se, ficando de frente para a janela, e inclinou a cabeça.
— Vida longa ao imperador.
Kai repetiu as palavras, sussurrando mesmo com a garganta seca.
— Vida longa ao imperador.
Eles permaneceram em silêncio ao deixar a sala de visitas e ao caminharem pelo corredor até os elevadores.
Uma mulher os aguardava. Kai deveria saber — ela estava sempre por perto naqueles dias, quando era a última pessoa na Terra que ele queria ver.
Sybil Mira. Taumaturga-chefe da Coroa Lunar. Excepcionalmente bela, com o cabelo preto até a cintura e a pele quente e morena. Ela usava o uniforme condizente com sua posição e título: um casaco branco comprido com gola alta e mangas boca de sino, com runas e hieróglifos que não significavam nada para Kai bordados nos punhos.
A cinco passos dela estava seu guarda, sempre presente, sempre em silêncio. Ele era um jovem tão bonito quanto Sybil, com cabelos loiros puxados em um rabo de cavalo baixo e traços fortes que Kai nunca vira expressarem nada.
Os lábios de Sybil se curvaram quando Kai e Torin se aproximaram, mas seus olhos cinzentos permaneceram frios.
— Vossa Alteza Imperial — disse ela com uma graciosa inclinação da cabeça. — Como está o honroso imperador Rikan?
Quando Kai não respondeu, Torin interveio:
— Não muito bem. Obrigado por sua preocupação.
— Fico muito descontente em ouvir isso. — Ela soava tão descontente quanto um gato que acabara de encurralar um rato. — Minha senhora envia suas condolências e votos de uma rápida recuperação.
Ela fixou os olhos no príncipe, e sua imagem parecia tremer diante dele como uma miragem. Sussurros invadiram sua cabeça. Respeito e admiração, compaixão e preocupação.
Kai desviou o olhar, silenciando as vozes. Levou um momento para que seu pulso acelerado se estabilizasse.
— O que você quer? — disse ele.
Sybil gesticulou em direção aos elevadores.
— Uma palavra com o homem que em breve será imperador… caso o destino decida assim.
Kai olhou para Torin, mas a expressão que encontrou não era de compreensão. Tato. Diplomacia. Sempre. Especialmente quando se tratava dos malditos lunares.
Suspirando, ele se virou para o androide à espera.
— Terceiro andar.
O sensor piscou.
— Por favor, vá para o elevador C, Alteza.
Eles embarcaram no elevador, Sybil flutuando como uma pena na brisa. O guarda entrou por último, ficando perto da porta e de frente para os três como se a taumaturga estivesse em perigo mortal. Seu olhar gelado deixou Kai desconfortável, mas Sybil parecia até esquecer que o guarda estava lá.
— Este é um momento trágico para Sua Majestade adoecer — disse ela.
Kai segurou o anteparo e virou-se para defrontá-la, pressionando a madeira polida com todo o seu ódio.
— Será que o mês que vem teria sido mais conveniente para você?
Ela não perdeu a paciência.
— Falo, é claro, das conversas sobre uma aliança que minha senhora vinha mantendo com o imperador Rikan. Estamos muito ansiosos por um acordo que atenderá tanto a Luna quanto a Comunidade.
Olhar para ela o deixava tonto, fora de equilíbrio, então ele se forçou a desviar o olhar e observou os números acima das portas decrescerem.
— Meu pai tenta assegurar uma aliança com a rainha Levana desde que ela assumiu o trono. Ela sempre recusou.
— Ele ainda precisa atender a suas sensatas exigências.
Kai trincou os dentes.
Sybil continuou.
— Minha esperança é que, como imperador, você seja mais capaz de enxergar o motivo, Vossa Alteza.
Kai ficou em silêncio enquanto o elevador passou pelos sexto, quinto e quarto andares.
— Meu pai é um homem sábio. Neste momento, não tenho nenhuma intenção de alterar qualquer uma das suas decisões anteriores. Espero que nós sejamos capazes de chegar a um acordo, mas temo que a sua senhora precisará diminuir suas tão sensatas exigências.
O sorriso de Sybil tinha congelado em seu rosto.
— Bem — disse ela, enquanto as portas se abriram para o terceiro andar —, você é jovem.
Baixou a cabeça, fingindo que ela lhe fizera um elogio, e em seguida virou-se para Torin.
— Se tiver um minuto de sobra, talvez possa andar comigo até o consultório do dr. Erland. Você pode ter questões nas quais eu não tenha pensado.
— É claro, Vossa Alteza.
Nenhum deles acenou para a taumaturga ou para seu guarda ao deixarem o elevador, mas Kai ouviu a voz açucarada atrás deles dizer “Vida longa ao Imperador” antes de as portas se fecharem. Ele rosnou.
— Deveríamos encarcerá-la.
— Uma embaixadora lunar? Isso não é bem uma demonstração de paz.
— É um tratamento melhor do que eles nos dariam. — Ele esfregou uma das mãos pelos cabelos. — Argh… lunares.
Percebendo que Torin tinha parado de segui-lo, Kai baixou a mão e se virou.
O olhar de Torin estava pesado. Preocupado.
— O quê?
— Sei que este é um momento difícil para você.
Kai sentiu os pelos do pescoço se arrepiarem em autodefesa e tentou se forçar a relaxar.
— É um momento difícil para todos.
— Com o tempo, Vossa Alteza, teremos que discutir sobre a rainha Levana e o que você pretende fazer em relação a ela. Seria prudente ter um plano.
Kai aproximou-se de Torin, ignorando um grupo de técnicos de laboratório que foi forçado a se desviar deles.
— Eu tenho um plano. Meu plano é não casar com ela. A diplomacia que se dane. Aí está. Não se fala mais nisso.
Torin contraiu o maxilar.
— Não olhe para mim desse jeito. Ela nos destruiria. — Kai baixou a voz. — Ela nos transformaria em escravos.
— Eu sei, Alteza. — Seus olhos solidários aplacaram a raiva crescente em Kai. — Por favor, acredite em mim quando digo que não pediria isso a você. Assim como nunca pedi a seu pai.
Kai recuou e despencou contra a parede do corredor. Cientistas passavam apressados em seus jalecos brancos, esteiras de androides chiavam no linóleo, mas se alguém notou o príncipe e seu conselheiro, não o demonstrou.
— Tudo bem, estou ouvindo — disse ele. — Qual é o nosso plano?
— Vossa Alteza, este não é o lugar…
— Não, não, você tem minha atenção. Por favor, dê-me algo para pensar que não seja essa doença estúpida.
Torin respirou, ponderando a situação.
— Eu não acho que precisemos reescrever a nossa política de relações exteriores. Vamos seguir o exemplo de seu pai. Por agora, vamos esperar um acordo de paz, um tratado.
— E se ela não assinar? E se ela se cansar de esperar e decidir seguir com as ameaças? Você consegue imaginar uma guerra agora, com a peste, e a economia, e… ela nos destruiria. E ela sabe disso.
— Se quisesse começar uma guerra, ela já o teria feito.
— A menos que esteja apenas ganhando tempo, esperando que fiquemos tão fracos que não teremos escolha a não ser nos render. — Kai coçou a parte de trás do pescoço, observando a agitação do corredor. Todos tão ocupados, tão determinados em busca de um antídoto.
Como se houvesse um antídoto.
Ele suspirou.
— Eu deveria ter me casado. Se já estivesse casado, a rainha Levana nem sequer seria problema. Ela teria que assinar um tratado de paz… se quisesse paz.
Ante o silêncio de Torin, ele se forçou a olhar para o conselheiro, surpreendendo-se ao encontrar um raro entusiasmo em seu rosto.
— Talvez você conheça uma menina no festival — disse Torin. — Encontre um romance arrebatador, um final feliz, e não tenha mais preocupações para o resto de seus dias.
Kai tentou lançar um olhar exasperado para ele, mas não conseguiu mantê-lo.
Torin raramente brincava.
— Ideia brilhante. Por que não pensei nisso? — Ele se virou de lado, apoiando o ombro contra a parede, e cruzou os braços sobre o peito. — Na verdade, talvez haja uma opção em que você e meu pai não pensaram ainda. Algo que tem estado na minha cabeça ultimamente.
— Diga, Alteza.
Kai baixou a voz.
— Andei fazendo uma pequena pesquisa. — Fez uma pausa, antes de prosseguir. — Sobre… sobre a herdeira lunar.
Os olhos de Torin se arregalaram.
— Vossa Alteza…
— Apenas ouça — disse Kai, erguendo as mãos para silenciar Torin antes que fosse repreendido. Ele já sabia o que Torin diria: a princesa Selene, sobrinha da rainha Levana, estava morta. Morrera em um incêndio, treze anos atrás. Não havia nenhum herdeiro lunar.
— Há rumores todos os dias — continuou Kai. — Aparições, as pessoas afirmando que a ajudaram, teorias…
— Sim, todos já ouvimos as teorias. Você sabe tão bem quanto eu que não há nenhuma solidez nelas.
— Mas e se forem verdadeiras? — Kai cruzou os braços e abaixou a cabeça em direção a Torin, a voz chegando a um sussurro. — E se houver uma menina lá fora que pudesse depor Levana? Alguém ainda mais forte?
— Você está se ouvindo? Alguém mais forte do que Levana? Você quer dizer alguém como a irmã dela, que mandou cortar os pés de sua costureira favorita para que ela não tivesse nada melhor a fazer do que sentar-se e costurar seus vestidos?
— Não estamos falando da rainha Channary.
— Não, estamos falando de sua filha. Kai, a linhagem inteira, até o último deles, tem sido gananciosa, violenta, corrompida pelo próprio poder. Está no sangue deles. Acredite em mim quando digo que a princesa Selene, mesmo se estivesse viva, não seria melhor.
Kai percebeu que seus braços doíam por apertá-los com tanta força, a pele branca em torno dos dedos.
— Ela não pode ser muito pior — disse ele. — E quem sabe? Se os boatos estiverem certos, e ela esteve na Terra todo esse tempo, talvez seja diferente. Talvez ela seja solidária a nós.
— Você está baseando essa ilusão em boatos.
— Nunca encontraram um corpo…
Torin franziu os lábios numa linha fina.
— Encontraram o que restava de um.
— Não faria mal pesquisar, faria? — disse Kai, começando a se sentir desesperado. Seu coração tinha se fixado na ideia havia muito tempo, e sua pesquisa era muito importante para ele. Não podia suportar a ideia de que tudo tinha sido apenas um sonho, embora essa possibilidade sempre estivesse no fundo de sua mente.
— Sim, poderia fazer mal — disse Torin. — Se Levana descobrisse que você está pensando nisso, destruiria nossa chance de chegar a um tratado. Nem deveríamos estar falando sobre isso aqui, é perigoso.
— Agora, quem está ouvindo boatos?
— Vossa Alteza, é o fim desta discussão. Seu objetivo agora deve ser evitar uma guerra, não se preocupar com princesas lunares fantasmas.
— E se eu não puder impedir a guerra?
Torin abriu as palmas das mãos, parecendo cansado depois do argumento.
— Então a União lutará.
— Certo. Excelente plano. Estou tão confortado agora que tivemos essa conversa…
Ele se virou e marchou cegamente em direção aos laboratórios.
Claro, a União Terráquea lutaria. Mas, contra Luna, eles perderiam.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!